Monte Roraima

O Monte Roraima atrai aventureiros, antropólogos, cientistas, biólogos, místicos e viajantes do mundo inteiro.

É um dos tepuis que formam o grande escudo das Guianas, ou Planalto das Guianas, localizado na tríplice fronteira entre Venezuela, Guiana e Brasil, com idade estimada em mais de 2 bilhões de anos.

Tepui é o nome dado às formações de topo plano e escarpas verticais e profundas que abundam nessa região.

Acredita-se que os tepuis tenham sido unidos a bilhões de anos atrás e a cisão deles tenha dado origem à bacia amazônica.

A expedição

Posso dizer que estive em outra dimensão nessa virada de ano… foram 10 dias de muita vivência, aprendizado, gratidão, reflexão, contemplação, conexão, emoção, energia, transformação… compartilhando e vivendo cada experiência!

Monte Roraima

1.º dia Monte Roraima – Brasil-Venezuela

A subida do Monte Roraima se dá pela Venezuela. Assim, antes de começar a caminhada, nos deslocamos de carro de Boa Vista até à Comunidade Pataitepuy.

Nosso grupo era formado por seis aventureiros: Kalhi, de Manaus, Juliana e Graci, de Boa Vista, Alex e Henry, de Curitiba, e eu, de Blumenau. Foi ótimo nosso entrosamento, tanto entre nós, quanto com nosso guia, Leo Tarolla, da Tarolla Tours e Brasil Norte Expedições e a equipe dele. Sensacional dividir esses dias com pessoas com as quais multiplicamos energia e conhecimento!

Depois de atravessar a fronteira, em Pacaraima, a primeira parada é em Santa Elena de Uairén, onde compramos moeda local – bolívar – e demos uma voltinha rápida pela cidade.

Monte Roraima

De lá, seguimos para nosso destino. A estrada até lá não deixa escolha para “sem emoção”… de terra, com muitos buracos e perais… a aventura é garantida! Como estava chovendo muito, a terra virou lama e nosso carro não conseguiu vencer a última subida antes de chegarmos. Tivemos que descer e seguir a pé até o local do nosso último pouso antes dos acampamentos.

Monte Roraima

A pousada estava sem energia e, assim, as lanternas e o banho gelado já entraram em cena um dia antes do previsto.

2.º dia Monte Roraima – Início da caminhada

Monte Roraima

Depois de um café da manhã com essa vista sensacional para os tepuis, fizemos o registro na entrada do Parque Nacional Canaima e começamos nossa caminhada. Seguimos por 15 quilômetros até o Rio Tek, onde fizemos a primeira travessia e seguimos por mais uns 2 quilômetros até o Rio Kukenan.

Quando avistei o Rio Kukenan com o Monte Roraima ao fundo fiquei de boca aberta, literalmente! Lindo demais!!!

Monte Roraima

Monte Roraima

Atravessamos e deixamos nossas coisas no acampamento pra tomar um banho no rio. Foi maravilhoso!!! O Leo (nosso guia) e eu descemos o rio um pouco nadando e um pouco como se fosse um bóia cross, mas sem bóia, claro… kkķkkk… piscinas fantásticas com vista para o Matawi e para o Roraima! Alguns ralados e machucados depois (hehe), voltamos para o acampamento para almoçar. Já eram umas 16h mais ou menos.

Mais tarde, o Alex, a Kalhi e eu saímos para um ataque na trilha em direção ao Monte Roraima. Ainda estava claro, mas a lua já estava linda! Curtimos o entardecer e voltamos para o acampamento. Acabei não resistindo a um banho noturno no rio Kukenan… maravilhoso! Depois nos reunimos todos, ficamos conversando e jantamos uma sopa de abóbora com orégano silvestre que colhemos na trilha.

3.º dia Monte Roraima – Rio Kukenan ao Acampamento Base

Arrumamos nossas coisas e saímos em direção ao pé do Monte Roraima. Foram 9 km com algumas subidas, mas ainda de trilha bem aberta.

11h da manhã já estávamos no acampamento base. Ficamos conversando um pouco e aí fui tomar banho de rio… água geladíssima da montanha: delícia!!! Depois almoçamos e estiquei um pouco as pernas na rede (obrigada pelo empréstimo @leotarolla hehe).

Monte Roraima

O tempo estava bem limpo anunciando que veríamos um pôr-do-sol arrasador… saímos caminhando procurando um bom lugar para contemplá-lo. Subimos um pequeno monte com pedras mais altas e decidimos que seria o melhor lugar. Mas, eis que no horizonte se formaram nuvens enormes e só vimos a chuva caindo mais ao longe, o que foi tão lindo quanto o pôr-do-sol que imaginamos… senão mais! De volta ao acampamento nosso guia nos esperava com um chocolate quente! Foi um dia bem tranquilo para nos prepararmos para o dia seguinte: dia de finalmente subir ao topo.

Monte Roraima

4.° dia Monte Roraima –  A subida

5h da manhã e o acampamento já estava movimentado… grupos fazendo café, desmontando acampamento, arrumando equipamentos. Chegou o tão esperado dia da subida ao topo!!! Logo de cara a subida é quase vertical, mas os degraus formados naturalmente tornam a subida menos árdua.

Monte Roraima

A trilha é lindíssima e cheia de energia! Quando chegamos no ponto tão próximo do paredão que é possível toca-lo, a emoção é inevitável!

Seguindo por mais algumas subidas chegamos ao mirante de onde se avista o “passo de lágrimas”, uma trilha estreita colada nos paredões do tepui, onde a água que cai do topo nos molha suavemente conforme o vento a faz dançar… A conexão nessa passagem foi absurda! O sentimento foi: “só de ter vindo até aqui já valeu tudo!”

Monte Roraima

Mas, ainda tínhamos mais subida pela frente. Mais um pouco de escalaminhada e chegamos ao topo! Nos abraçamos emocionados pela conquista… a impressão é de que entramos em outra dimensão… é diferente de tudo!!! Não tenho palavras pra descrever…

Monte Roraima

Paramos um pouco, mas logo a chuva e o frio nos fez voltar a caminhar até nosso refúgio, chamado “Filhos do Sol”, lugar deslumbrante e mágico!!! A chuva não parou mais. Ficamos no refúgio cuidando das bolhas, unhas, dores e machucados uns dos outros…hehe… No meu caso foi de um tombo na subida quando tentei subir numa pedra mais alta e acabei escorregando. Machuquei um pouco os braços, a perna direita e o rosto, mas só a mão direita que doía demais (ainda dói, aliás, hehe). Passei uma pomada anti-inflamatória, outra pra dor e por fim uma pomada pra cavalo… mas continuava doendo… Não me importei muito com a dor, mas com o fato de não ter força na mão… até pra abrir o zíper da barraca estava difícil. Só pensei: que seja só dor e que eu acorde bem amanhã!!!

5.° dia Monte Roraima – Começando a desbravar o Monte

Já saímos com as cargueiras porque depois seguiríamos para outro refúgio. Passamos por lugares lindíssimos… paisagens de tirar o fôlego!!!

Depois de mais algum tempo caminhando, chegamos ao nosso refúgio para a noite da virada. Incrustado num dos paredões do Roraima e próximo ao Vale dos Cristais e a um poço de água cristalina e gelada… simplesmente magnífico! Deixamos as cargueiras e saímos para conhecer o Vale dos Cristais e o Ponto da Tríplice Fronteira entre Venezuela, Guiana e Brasil.

Monte Roraima
Vale dos Cristais

Monte Roraima

Na volta, já tomei aquele banho no poço próximo ao acampamento e colocamos as espumantes lá pra gelar (sim, eu levei uma espumante na mochila desde Blumenau ;P).

Mais tarde saímos para ver um mirante com vista para o Roraiminha e para a floresta da parte baixa. Sensacional!!!

Monte Roraima

Voltando para o refúgio, quase na chegada, começou a chover. Já cheguei ensopada e corri pra colocar uma roupa seca. Pra minha alegria, o Leo nos serviu chá quente!!! Infelizmente a chuva não parou. Meu plano de ver estrelas cadentes na noite de réveillon foi adiado. Mas nada tirou a alegria da nossa noite … jantamos, brindamos e celebramos a virada com muita energia compartilhada!!! GRATIDÃO!!!

Monte Roraima

Monte Roraima

6.° dia Monte Roraima – A tão sonhada Proa?

Estava ansiosa por hoje… dia de ir para o Lago Gladys e para a Proa!!! Enfrentamos muita chuva e frio até chegar ao Lago Gladys, mas as paisagens, rios, plantas, pântanos, pedras e tudo mais que vimos no caminho valeu cada passo.

Monte Roraima

Monte Roraima

Chegamos ao lago, que estava totalmente encoberto. Mas, em menos de um minuto, o nevoeiro se dissipou e pudemos contemplar sua beleza. Mas ele é tímido… logo se cobriu novamente… foi o tempo de contemplar e tirar algumas fotos!

Monte Roraima
Lago Gladys

O frio era intenso naquela manhã. Seguimos em direção à Proa com muito vento e tempo bem fechado. Chegamos na descida do Vale. Montadas as cordas, o @leotarolla e o @alexandro.kenordasilva desceram. Ficamos na expectativa (tremendo de frio… Hehe). Voltaram com a triste notícia de que não conseguiríamos ir até à Proa… além de estar faltando uma chapeleta do outro lado do Vale, as condições climáticas eram péssimas. Infelizmente só nos restava pegar o caminho de volta para o refúgio. Paramos pra ver os destroços de um helicóptero da globo que caiu no Monte faz alguns anos. Na volta um bom banho bem gelado e uma surpresa deliciosa no acampamento: pipoca!

Monte Roraima

7.° dia Monte Roraima – Explorando o desconhecido

Mais um amanhecer com chuva no Monte Roraima… Nosso café da manhã teve a famosa arepa, uma espécie de pão de farinha de milho feito no fogareiro. Adorei!

Arrumamos nossas coisas e partimos de volta em direção ao refúgio “Filhos do Sol”. No caminho passamos novamente pelo Vale dos Cristais e pelo ponto tríplice. Depois avançamos para conhecer “el fosso”, um poço lindíssimo com uma cachoeira magnífica!

Monte Roraima
El Fosso

Pegamos chuva por todo o caminho. Chegamos ensopados e eu tremendo de frio… hehe. De repente, eis que apareceu o sol. Ainda molhada, arrumei minhas coisas e fui pro rio mais próximo tomar banho e lavar minha calça, meias e bota. Voltei para o refúgio e coloquei tudo no sol, inclusive eu, hehe…

Com o céu finalmente aberto, eu estava querendo muito ir pra alguma borda. Falei com o Enzo e ele disse que estávamos muito longe. Então, ele me levou para subir na formação que era o “teto” do nosso refúgio… a vista lá de cima é sensacional! Até passou a tristeza de não ir para as bordas.

Monte Roraima

Depois descemos para ir até um lago próximo e no caminho tivemos o privilégio de ver algumas flores raras e o sapinho negro endêmico do Monte Roraima (Oreophrynella quelchii).

Monte Roraima

De lá subimos em outra formação bem mais alta ainda não explorada, com direito à uma escalada sensacional !!! Como fomos os primeiros a conquistar aquele lugar incrível, fizemos um totem no topo e o batizamos. Dava até pra ver o Maverick (ponto mais alto do Monte Roraima) de lá, e também o nosso acampamento.

Monte Roraima

Descemos para ver o pôr-do-sol lá do refúgio, mas as nuvens voltaram a fechar o céu. Desci até o rio para buscar água pra mim e para as meninas. já estava bem frio nessa hora. Entrei na barraca pra escrever um pouco. Depois nos reunimos para jantar e conversar. E a chuva voltou!

8.° dia Monte Roraima – Energia Vital

Mais um amanhecer com chuva…

Saímos um pouco mais tarde na esperança de que a chuva parasse, mas, chovia e parava, chovia e parava o tempo todo… e o frio estava mais intenso! Passamos por outra área do Roraima com cristais espalhados por toda parte… conhecemos um grupo que estava acampado num refúgio próximo, conversamos um pouco e seguimos para um local de especial energia… quando estávamos bem próximos, as lágrimas brotaram… a energia transbordava… de dentro pra fora e de fora pra dentro. Que maravilhamento compartilhar dessa energia! Segundo nosso guia, estávamos num dos pontos de intersecção de energia do Universo.

Monte Roraima

Não queria mais sair dali, mas tínhamos que seguir…

Nosso objetivo: as jacuzzis e as ventanas! Fomos primeiro até às Ventanas. Queria muito ver as bordas, mas estava tudo encoberto… podíamos ver o vento trazendo a umidade pra cima. Estava muito frio!

Monte Roraima

Saímos em direção às jacuzzis e tivemos a graça do sol por alguns instantes. Eram as piscinas mais lindas que já vi… o banho foi irresistível! Por mais frio que esteja, não perca esse banho por nada!

Monte Roraima

Monte Roraima

Monte Roraima

De lá seguimos para o Maverick, o ponto mais alto do Monte Roraima (2.875m). A parte baixa estava encoberta, mas o topo estava aberto e pudemos ver quase todo o Roraima lá de cima… belíssimo!

Monte Roraima

Descemos em direção a uma das cavernas do Monte Roraima… é uma gruta incrível com muitos líquens de várias cores! Avançamos até uma galeria imensa onde apagamos as lanternas e ficamos alguns minutos na escuridão e no silêncio do lugar!

Monte Roraima

Monte Roraima

Quando saímos da gruta já estava bem mais frio. Seguimos até o acampamento contemplando o entardecer…

Monte Roraima

Coloquei uma roupa seca e sai pra ver as estrelas. Finalmente uma noite de céu limpo! Mas, como sempre, no Roraima o tempo muda o tempo todo e logo o céu se fechou novamente. Energizada pelo dia magnífico, nem senti fome e acabei não jantando aquela noite… antes de dormir dei mais uma espiadinha no céu, mas ele continuava escondido.

9.° dia Monte Roraima – Início da descida

Acordei umas 5h e pude sentir uma claridade vindo de fora da barraca. Abri rapidamente para espiar e lá estava ela… a lua… plena! Tirei algumas fotos da barraca mesmo, mas logo me troquei para sair e contemplar a lua e o nascer do sol. Foi espetacular!

Monte Roraima

Monte Roraima

Pena que era o dia de começar a descida. Tomamos café e saímos do nosso refúgio. Paramos em um mirante lindo onde pudemos contemplar um pouco das bordas antes das nuvens cobrirem tudo novamente. Começamos a descida. Fomos até o acampamento base onde paramos pra almoçar. O calor estava absurdo! Hora de seguir… Quando chegamos na travessia do Rio Kukenan, escorreguei numa das pedras e caí no rio, o que naquele calor foi ótimo, mas seguir toda molhada nem tanto… hehe… Depois de mais alguns quilômetros, chegamos no acampamento do Rio Tek para nossa última noite antes da caminhada final. Já estava anoitecendo, mas ainda fui pro rio tomar aquele banho! Até nadei um pouco. Voltei para o acampamento no escuro já. A noite estava linda demais! Nada de nuvens… só estrelas!

Pude finalmente ver uma estrela cadente! Ficamos admirando o céu por um tempo sem fim… até que começaram a diminuir seu brilho para dar lugar à luz da lua que se pré-anunciava por detrás do Monte Roraima. E ali ficamos esperando por ela. Nasceu linda, cheia, enorme e brilhante! Foi espetacular!

Jantamos e até tomamos cerveja que vendiam ali no acampamento. Cerveja quente, claro, mas lá isso não importa muito. A noite estava tão linda que não dava vontade de dormir, mas, no dia seguinte ainda teríamos um bom trecho pela frente.

10.º dia Monte Roraima – Hora de voltar

Estava muito difícil pra mim escrever sobre o 10.º dia. E agora sei o porquê. É como se escrever sobre o último dia fizesse encerrar o que eu não queria que acabasse… que foi a mesma sensação que tive durante todo o último dia da caminhada.

Amanheceu um dia lindo e bem quente desde cedo. Arrumamos nossas coisas, tomamos o café da manhã e partimos.

O Monte Roraima estava totalmente limpo… nada de nuvens, nem nevoeiro… juro que deu vontade de subi-lo novamente.

Monte Roraima

Com o calor intenso, pude ver vários calangos pelo caminho.

A cada passo o Monte Roraima ficava um pouco mais distante.

Chegamos na Comunidade Paraitepuy e logo nos reunimos com outros grupos… alguns chegando, outros indo embora como nós. Tanto a compartilhar!

Bebemos algumas merecidas cervejas venezuelanas (dessa vez geladas :D) enquanto esperávamos a Graci e a Kalhi chegarem.

Monte Roraima

Muita conversa depois, hora da despedida. De lá fomos para outra comunidade para almoçar e comprar artesanato local antes de regressarmos à Boa Vista.

180.000 bolívars = salada, arroz, frango e banana frita.

+ 3.000 bolívars = 1 cerveja venezuelana.

Monte Roraima

Monte Roraima

Mas, se você não tiver bolívars, não se preocupe. Todos os lugares aceitavam reais também.

De lá fomos até Santa Helena, onde nos despedimos do Henry e do Alex, que ficaram na Venezuela para uma trip até Salto Ángel.

Nós, as meninas, fomos com o Leo até Pacaraima, atravessamos a fronteira para o Brasil e ali pegamos um táxi até Boa Vista.

O pôr-do-sol estava espetacular!

Monte Roraima

Chegamos em Boa Vista por volta de 19h30. Tomei um banho quente tão feliz (depois de 10 dias de banho gelado) na casa da Graci (MUITO OBRIGADA, Graci!). Arrumei o mochilão para a viagem e logo a Ju e a Kalhi chegaram para darmos uma última volta na cidade e comer alguma coisa num barzinho de karaokê famoso da cidade, o Pit Stop. Lugar muito gostoso com mesas ao ar livre e comida muito boa! Obrigada por tudo, meninas! 

De lá, as meninas me deixaram no aeroporto, onde esperei meu vôo com saída 1h da manhã para Brasília. No caso, já estava no 11.º dia (rsrs…) Depois Brasília – São Paulo. E, por fim, São Paulo – Joinville, onde minha mãe e meu irmão me buscaram para retornar a Blumenau.

Foi uma experiência única! Como já disse, desejo que cada um possa realizar algum dia!

Check-list Monte Roraima

Vou deixar aqui algumas sugestões de itens que considerei indispensáveis nessa trip.

Na hora de preparar seu mochilão, lembre de levar:

  • alguns pares de meia extra porque elas vão molhar! E pé molhado por muito tempo dá bolha e pode fazer cair suas unhas se for um dia de caminhada intensa em descidas, por exemplo;
  • uma corda para fazer varal e alguns grampos de roupa;
  • protetor solar;
  • repelente;
  • desodorante;
  • embalagem pequena de shampoo e condicionador e sabonete (você consegue comprar todos sem nenhum aditivo químico em farmácias – lembre que você está indo para um lugar de preservação);
  • declive;
  • lenços umedecidos;
  • papel higiênico (a equipe do guia fornecia, mas é bom ter alguma reserva);
  • boné ou viseira;
  • gorro para frio;
  • óculos de sol;
  • anorak (ou anoraque) – jaqueta com capuz impermeável para os momentos de chuva e frio;
  • roupa quente para dormir;
  • um par de luvas;
  • toalha de secagem rápida;
  • isolante térmico e colchonete (ou, melhor ainda, se você tiver o isolante térmico de ar fininho inflável, que já serve de isolante e colchonete e ocupa pouco espaço);
  • saco de dormir;
  • roupas leves para as caminhadas;
  • roupas íntimas;
  • roupas de banho;
  • um casaco tipo fleece (é bem quentinho e não pesa);
  • bandana (é um ótimo coringa que você pode usar no pescoço se estiver muito frio ou na cabeça pra proteger do sol. Ou ainda para prender o cabelo);
  • amarradores de cabelo, se você tiver cabelo comprido, claro;
  • sobre calçados, é algo pessoal, mas o ideal é ir só com a sua bota ou tênis de caminhada já no pé e levar só um chinelo para usar no acampamento. E isso é fundamental, não esqueça: sempre que puder, deixe os pés ao ar livre;
  • garrafa de água (2L é o ideal);
  • clorin (purificador de água);
  • kit com algodão, esparadrapo, curativos, agulha, cortador de unha;
  • eventuais remédios se você está acostumado a tomar (para dor, vômito, febre, algum anti-alérgico) – eu sempre levo própolis em spray pra eventual dor de garganta e a pomada de própolis para eventual corte ou ferimento (é um cicatrizante natural);
  • vaselina sólida ou creme para assaduras para passar nos pés ou em alguma outra região do corpo se você tiver problema com assaduras;
  • lanterna de cabeça e lanterna de mão pequena (leve pilhas extras);
  • carregador portátil para as baterias do celular, máquina fotográfica e outros eletrônicos se você levar;
  • lanches de trilha (as refeições principais são fornecidas pela equipe contratada);
  • se você gosta como eu, indico levar vitamina C efervescente. Além de fazer bem pra saúde, é uma delícia. Pode tomar uma por dia;
  • sacolas para roupa suja;
  • se você estiver vindo de longe como eu, lembre de deixar uma muda de roupa limpa para a volta.

Lembre de levar suas roupas e o saco de dormir dentro de sacos impermeáveis. Isso além da capa que protege a mochila. É mais seguro se cair alguma chuva mais intensa.

Lembre também que o comprovante da vacina da febre amarela deve ser internacionalizado em qualquer posto da ANVISA antes de entrar na Venezuela.

Acho que é isso! Lembrando que qualquer dúvida ou sugestão estou sempre a disposição. Podem me chamar no Instagram ou no Facebook.

Aproveite cada passo dessa viagem!

Monte Roraima

Decidi escrever como tudo começou, antes de dar início ao diário do trekking em si, para contar um pouco das aventuras e desventuras que antecederam esses 10 mágicos dias no Monte Roraima e para agradecer algumas pessoas muito especiais.

Antes de decidir onde estaria nessa virada de ano, muitas dúvidas surgiram.

A ideia inicial, fazer o trekking no Monte Roraima, parecia que não daria certo… O grupo formado aqui na cidade onde moro com a coordenação de um profissional que admiro e tive a oportunidade de conhecer em 2017, Juliano Santana, da Target Aventura, iria numa data que eu não conseguiria férias.

Tentei outro grupo, por uma empresa do Rio de Janeiro, mas, para os dias que eu tinha disponibilidade, não tinham mais vagas.

Comecei a pensar em mudar de rota. Surgiu a possibilidade maravilhosa de fazer o curso de canionismo na serra da Canastra com meu amigo e profissional extraordinário do rapel Kadu, da Eco Xperience. Queria ir, mas meu coração ainda balançava pelo Monte Roraima (mas ainda vou fazer).

Outra viagem que comecei a planejar seria para o Caparaó, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo, onde poderia unir a paixão pelas cachoeiras com o amor pelas montanhas, pois queria muito subir o Pico da Bandeira. Conversei com meus amigos Breno e João, de Minas Gerais e estaria tudo certo pra ir, mas seriam poucos dias (Obrigada, meninos, pelas dicas e ajuda com o contato do parque. Esse ano ainda estarei por aí!).

E foi num final de semana de acampamento no Vale da Utopia, na Guarda do Embaú, com amigos incríveis que o trekking me deu de presente, que, comentando sobre a minha vontade de fazer o Monte Roraima, uma das minhas amigas, a Tere me falou do guia com quem ela e outros amigos fizeram: Leo Tarolla. (Tere, obrigada pelas dicas e pelo empréstimo do saco estanque pro meu saco de dormir ficar sequinho!).

Ela não tinha mais o contato dele e comecei a busca. Deixei mensagem no face e nada. Até que achei a página da empresa, chamada Brasil Norte Expedições e o e-mail. Logo recebi resposta de que havia um grupo montado para as datas que eu queria, com o tempo que eu queria ficar, com o melhor preço de todos que pesquisei e que eu ainda poderia entrar no grupo. Perfeito! Decisão tomada, passo para a etapa das passagens. Quem já foi pra Boa Vista – Roraima, sabe que não é lá muito barato… Ainda mais em cima da hora. Tinha que ver se conseguiria um valor possível.

Comecei as pesquisas! A melhor opção de logística de voos e menos tempo de espera seria pela AZUL. Mas, eu buscava melhor preço e não comodidade. Encontrei pela LATAM um preço um pouco melhor, mas ainda muito caro pra mim. A GOL estava quase o mesmo preço da AZUL. Consultava as saídas por Navegantes ou Florianópolis, já que moro em Blumenau. Foi quando lembrei de Joinville e consegui uma ótima diferença de preço, mas teria várias horas de aeroporto entre um voo e outro. Isso não era problema, tudo certo! Comprei! Joinville – São Paulo – Brasília – Boa Vista para 25-12-2017; e Boa Vista – Brasília – São Paulo – Joinville para 06-01-2018.

Procurei também um hostel em Boa Vista. O Leo, nosso guia, me passou indicação, mas estava lotado para as duas noites que estaria por lá. Achei então um hotel mais simples, com preço bom e relativamente próximo do aeroporto e do centro de Boa Vista, Hotel Mecejana. Foi ótimo custo-benefício! Mas, se você não gosta de água fria, recomendo que procure outro (rsrs…). Não existe água aquecida ou chuveiro elétrico. Mas a cama é boa e tem ar-condicionado.

Outra coisa importante pra quem vai fazer essa viagem ao Monte Roraima é o comprovante de vacinação pra febre amarela. E tem que ser internacionalizado. É muito fácil de fazer e não tem custo. É só levar sua carteirinha de vacinação ou comprovante da vacina da febre amarela no posto da ANVISA do seu município. Não chegaram a nos pedir, mas para entrar na Venezuela podem exigir!

Depois de alguns dias separando e organizando tudo, vi que não caberia na minha mochila. Minha amiga Iara que viajaria, excepcionalmente, de mala de rodinhas nesse fim de ano, me emprestou a mochila (Muito obrigada, amiga!).

Chegado o dia da véspera da viagem, 24-12-2017. Feliz porque pude passar o dia com meu pai e a família e a noite de Natal com a minha mãe e meu irmão.

Enfim tudo arrumado para pegar o voo no dia seguinte!

Nossa viagem começaria dia 27-12 e eu chegaria em Boa Vista na madrugada do dia 26-12. Então, teria um dia para conhecer Boa Vista.

25-12-2017 – Dia de embarcar! Minha mãe e meu irmão me levaram até o aeroporto de Joinville (obrigada, meus amores).

E começava a aventura ao Monte Roraima

Chegando em São Paulo, essa era a única conexão que eu não esperaria. Foi só correr para pegar o próximo voo pra Brasília, onde então esperei por algumas horas para pegar o voo para Boa Vista. Enquanto esperava, recebi algumas mensagens carinhosas de “boa aventura”, “boa sorte” e uma de um grande amigo que fiz nos trekkings do Rio Grande do Sul, o Alfredo, grande parceiro de trekking da melhor qualidade, que já morou em Boa Vista e me passou o contato de um amigo dele, também gaúcho, que já mora em Boa Vista com a família a muitos anos, o George. Entrei em contato e combinamos de nos falarmos no dia seguinte para fazermos alguma coisa.

26-12-2017 – Chegada em Boa Vista 1 h 00 da manhã. Esperando a bagagem, já conheci um casal que também faria o Monte Roraima, a Dani e o Paolo de São Paulo. Já dividimos o UBER para chegar cada um no seu hotel com mais um morador de Boa Vista que estava voltando pra casa. Cheguei no hotel passava um pouco da 1 h e 30 minutos e eis que não localizaram a minha reserva. Frio na barriga. Entrei no meu e-mail pelo celular e mostrei a confirmação da reserva. Ainda bem que tinha vaga. Pude ficar! Não sei o que houve no sistema deles, mas no dia seguinte estava tudo solucionado. Ufa!

O Leo, nosso guia, entrou em contato comigo logo cedo que passaria lá no hotel pra me dar um oi, mas que teria compromisso o dia todo. Eu já querendo sair por aí pra aproveitar o dia, mas esperei. Logo que chegou, pude sentir o ser humano iluminado que ele é, daqueles que podemos conversar por horas… Combinamos a saída do dia seguinte e ele me deu uma carona até à orla, onde eu queria ir pra andar de caiaque.

Cheguei no Porto do Babazinho, um lugar que oferece passeios de barco, aluguel de pranchas de stand up e caiaques. Nesse meio tempo, troquei mensagens com o George e combinamos que eles me buscariam ali lá pelas 10 horas. Aluguei um caiaque e atravessei o Rio Branco até chegar na Praia Grande, na outra margem. Natureza linda! E só tinha eu naquela faixa de areia enorme.

Foi delicioso ficar por ali um pouco. Voltando pra devolver o caiaque, um senhor, o Ralph, veio me ajudar a tirá-lo da água. Perguntei alguma coisa e ele respondeu em inglês que não entendia. Conversamos um pouco até descobrir que ele era alemão, apaixonado por remar e velejar nos rios do Brasil e que vem todo ano até Boa Vista e dali sai para suas expedições de barco pelos rios afluentes do Amazonas.

Monte Roraima
Remando no Rio Branco – Boa Vista – Roraima

Logo em seguida o George e a esposa dele, a Janaína, chegaram. Nem nos conhecíamos e eles foram uns amores comigo. Me levaram para conhecer outras praias lindas nas proximidades e depois em deixaram bem perto de vários pontos turísticos da cidade, onde pude conhecer tudo a pé. Combinamos de nos reencontrarmos mais tarde. Conheci o centro antigo, as feiras de artesanato, a Igreja Matriz e o Monumento aos pioneiros. Dali segui a pé até o centro cívico, conheci o Monumento aos garimpeiros, o Monumento do Milênio, a Praça das Águas e de lá segui até o hotel.

Monte Roraima
Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo – Boa Vista – Roraima

Tomei um banho e logo depois o George e a Janaína chegaram para me buscar. Fomos comer um açaí e dar mais umas voltas pela cidade. Depois fomos buscar a filha deles, a Bianca, e a mãe da Janaína, dona Denize, duas queridas, para vermos a decoração de natal. Voltei à Praça das Águas, agora com eles, e à noite. Toda iluminada e decorada, estava linda demais! A praça tem várias fontes de águas dançantes com música tocando o tempo todo. Muito legal!

Monte Roraima
Praça das Águas – Boa Vista – Roraima

Acabaram ainda me levando pra jantar porque me falaram que eu não poderia sair de Boa Vista sem provar o “peixe-delícia”. E digo o mesmo pra vocês! O nome já diz tudo! Além dessa iguaria de Boa Vista, pedimos ainda um tucunaré grelhado e iscas de dourado. Sensacional! Preço bom e pratos bem servidos. O nome do restaurante é Recanto da Peixada. Conversamos mais um pouco e depois me deixaram no hotel. Que família amorosa e abençoada. Obrigada por tudo!

Tomei mais um banho (gelado, rsrs…), organizei a mochila e deixei tudo preparado. Celular para despertar 4h30. Horário combinado para me buscarem 5h da manhã. Ansiosa pelo início da grande aventura no Monte Roraima.

Escalando a maior cachoeira do mundo

Aproximação:

Saímos do aeroporto em Curitiba com 13 volumes entre bolsas, mochilas e haulbags (tipo de mochila cilíndrica de rebocar peso na parede) num total de 325 Kg. Chegamos em Caracas com apenas 12. Começávamos bem. O pior foi de Caracas para Ciudad Bolívar, aonde chegamos com 2 caixas de comida a menos. Tivemos de tomar a decisão de seguir sem toda a carga, pois não queríamos perder mais tempo e nem suportávamos a idéia de postergar ainda mais o início da aventura. No Aeroporto de Ciudad Bolívar precisamos de 3 avionetas (Cesnas) para transportar os 7 membros da expedição e toda a bagagem dali até Kamarata, uma aldeia indígena, no coração da Gran Sabana, dentro do Parque Nacional Canaima. A Gran Sabana é o grande planalto onde estão localizados os tepuis. Em Kamarata transferimos todo o conteúdo das 3 avionetas para apenas uma canoa.


A Escalada:

Claro que era uma canoa enorme, conhecida pelo nome de Kuriara, que na verdade é o nome da árvore da qual ela é feita. A “nossa” kuriara tinha12 metros de comprimento e uma tripulação de 4 índios pemons (os nativos daquela região). De tal maneira que ela levava 11 pessoas mais 400 Kg de equipamentos, comida, combustível, entre outros. No primeiro dia, descendo o Rio Akanan, o motor pifou. Foi até sorte, pois acampamos num lugar incrível denominado Campo Carrao, onde há uma pista de pouso e um avião abandonado, além de algumas casas ocupadas por indígenas. Isto tudo resquício da época da mineração de ouro e diamantes, extinta há muitos anos, desde que aquilo tudo virou parque. No outro dia, com um novo motor, alcançamos o rio Carrao e antes do pôr-do-sol começamos a subir o rio Churun, este muito menor, porém, muito mais interessante, pois tínhamos sempre os tepuis como pano de fundo e mais emoção na viagem, pois permanecíamos mais fora da canoa empurrando que sentados. Acampamos numa prainha torcendo para não chover, apesar que até agradeceríamos, pois empurrar a kuriara durante um dia inteiro com o rio seco foi devastador. Chegamos no fim da tarde do terceiro dia de navegação em Isla Raton, que é o último ponto onde chegam as canoas repletas de turistas animados para caminhar uns 40 minutos até o “mirador” e ver a impressionante queda de 979 metros de altura do Salto Angel. É de se pensar que no outro dia descansaríamos, mas a ansiedade de começar logo a escalada nos fez levantar cedo e começar a portear todo o peso para nosso acampamento avançado. Foram dois dias de caminhadas, carregando de 20 a 30 Kg até a “Cueva de los Españoles”, distância que percorríamos em uma hora e meia carregados. A Cova, que nada mais é que um buraco sob uma rocha, é um local insuportável, pois é infestado de pernilongos. Isso foi avisado pelo nosso integrante venezuelano: “Ali hay uma plaga increible!” Por sorte fez uns dias mais frios e aquietou a “plaga”.

Escalando

Para não sermos comidos pelos pernilongos, preferimos iniciar a escalada imediatamente, sem descanso. Saindo da cova já adentramos a Gran Bóveda, que é como um grande sulco no tepui, um buraco gigante, com o salto no seu lado direito. Até a base da via percorremos meia hora de caminhada em terreno cheio de pedras, buracos escondidos na Chiquinho teve a honra de escalar os primeiros metros, subindo por um trecho aonde havia bastante vegetação numa horizontal gigantesca, desviando a parte mais molhada. Ele e o Sérgio montaram uma parada (ponto onde ancoramos a corda fixa e onde iniciamos o próximo trecho de escalada) numa fenda esquisita. Aí tivemos a primeira lição: as paradas iriam ser complicadas de montar e muitas vezes precárias. E o aprendizado não pára por aí. Subo pela corda e os meus dois companheiros me olham e dizem que o próximo trecho é sinistro. Eu, muito ingênuo, ofereço-me para guiá-lo, ao que respondem afirmativamente, é óbvio. Esta foi a segunda lição: não confie nos mais velhos. Subi pelas fendas relativamente secas e me dei conta de que tudo estava solto, os blocos nos quais me pendurava estavam apoiados uns nos outros e as fendas onde colocava as proteções móveis eram entre estes blocos. Passei um teto e achei que ficaria um pouco mais fácil, mas estava molhado. Aí aprendi a terceira lição: todas as cordadas seriam muito expostas, ou seja, com risco de quedas enormes, cheias de pedras soltas ou se não, molhadas. A quarta lição do dia foi a mais profunda: a pedra é muito afiada. Após uma queda de uns10 metros, a corda passou em uma aresta e rompeu a sua capa. A partir daquele dia só escalamos com corda dupla e quando fixávamos cordas, colocávamos protetores nos cantos afiados. Apesar dos contratempos, pudemos progredir bem na primeira investida. Deixamos as cordas fixas no final do dia e voltamos para a nossa cova, onde, obviamente, os pernilongos nos destruíram. No outro dia o mesmo ritual: acordar às 5 da madrugada, tomar um belo café da manhã e partir para a escalada. Como ainda estávamos no acampamento avançado, caminhávamos meia hora para acessar a base da Gran Bóveda, aproveitando a viagem para levar algum peso até a base. A partir daí subíamos (jumareávamos) pelas cordas que havíamos fixado no dia anterior. Nos dois dias seguintes avançamos bem e conseguimos montar uma boa linha de reboque que nos levava até o Campo 2, um pequeno platô no final do oitavo esticão de corda, de um total de 31! vegetação e muita umidade. Isso sem contar o fato de que nos primeiros dias a cachoeira estava “agitada” e arremetia contra nós, seres invasores, sem piedade. Era simplesmente assustador, a grande cortina d’água, um pouco aumentada pelas chuvas, vinha varrendo a base da via para nos atingir e ensopar até a alma. Saíramos do Brasil a 24 de janeiro e dia 1º de fevereiro iniciamos a escalada, sem ter tido nem um dia de descanso.

Cinco de fevereiro amanheceu molhado, como os anteriores, devido à cachoeira estar com um grande volume de água. Nosso plano era entrar de uma vez por todas na parede. No acampamento base avançado só ficaria o Orlei para fazer imagens do chão. Os outros seis componentes da equipe (Edemilson Padilha, Valdesir Machado, José Luiz Hartmann, Sérgio Tartari, Waldemar Niclevicz e Alfredo Rangel) iriam viver as próximas duas semanas no mundo vertical. Nesse dia dividimos a equipe em escaladores e rebocadores. O Valdesir (Val) e o Sérgio deveriam guiar 3 cordadas até o Campo 3, enquanto nós rebocaríamos tudo o que fosse possível até onde pudéssemos. Aí tivemos mais uma lição: estávamos muito pesados! Levávamos 220 litros de água, comida para 20 dias (entre normal e liofilizada), muita corda e muito equipamento. Para terminar a história do ataque à parede faço um resumo: o Val levou uma queda das boas e machucou o pé e a cabeça, por sorte não foi grave, mas conseguiram guiar até o Campo 3. Eu e o Yupi (Alfredo), a parte venezuelana da expedição, tivemos de dormir no Campo 2, pois havia alguns haulbags e um monte de água para rebocar do Campo 1 para o 2, e, posteriormente para o 3. Só no outro dia à noite conseguimos nos juntar ao restante do pessoal, já bem instalados no Campo 3, que sem dúvida, era o melhor acampamento de altura que iríamos encontrar no Salto Angel. Ali havia lugar para 4 pessoas dormirem confortáveis no platô e bons pontos de ancoragem para pendurarmos nossos porta-ledges (as macas que usamos para dormir), e o melhor, era protegido da chuva pela negatividade da parede e a água da cachoeira não nos alcançava – apenas uns respingos à noite.

Escalando

Oito de Fevereiro ao nascer do sol, enquanto me tratava de minha crise de abstinência de cafeína, me inteirei das novidades: o Chiquinho (José Luiz) já tinha guiado mais um trecho que tinha um aspecto um pouco melhor, pois a pedra era mais ou menos compacta. Eu havia ficado dois dias de molho devido a um problema no braço, coisa da idade. Mas meus companheiros resolveram grandes problemas para cima do Campo 3, passando por mais sistemas de fendas cheios de pedras soltas onde a progressão se punha bem delicada. Estávamos funcionando muito bem como equipe. Enquanto 2 ou 3 guiavam, os outros organizavam o acampamento, preparavam comida, rebocavam peso parede acima e, algumas vezes, descansavam. E o Waldemar sempre subindo e descendo pelas cordas, empenhando-se ao máximo para registrar as melhores imagens da expedição.

Estávamos quase na metade da via e teríamos algumas cordadas importantes naquele dia; subíamos eu, o Chiquinho e o Yupi. Chegamos sem fôlego à base do enorme negativo, chamado pelos conquistadores de Derribos Arias (Área de Demolição), depois de jumarear (subir pelas cordas com aparelhos ascensores) uns 100 metros. E perdemos de vez o fôlego ao avaliar o que teríamos pela frente- uma seqüência enorme de tetos sobrepostos, cortados por fissuras quebradiças e muitas pedras soltas, para variar um pouco. Já estávamos nos acostumando a negociar com dezenas de blocos soltos, agarras que quebravam e proteções precárias. Depois de um trecho de uns 25 metros que tomou várias horas, meu companheiro montou uma parada, ou seja, achou um lugar onde poderia armar uma ancoragem para que eu fosse até ele limpando a cordada, o que significa subir retirando as proteções que ele havia colocado nas fissuras. Era uma parada tenebrosa, 8 friends (tipo de equipamento móvel que se instala em rachaduras na pedra) numa fissura quebradiça e nós dois pendurados no ar. Pedimos ao Yupi que permanecesse na ancoragem anterior. Naquele dia guiamos duas cordadas super trabalhosas, mas sem maiores problemas além dos habituais e conseguimos vencer metade do negativão. Todavia, ao rapelar para o Campo 3 recebemos uma notícia preocupante: o Orlei, nosso amigo que estava no Acampamento Base Avançado, e era encarregado de tirar fotos da nossa progressão na parede, havia sido levado pelos guarda parques para Canaima, sede do Parque, para prestar esclarecimentos. Pela conversa que tivemos com o Diretor do Parque Nacional Canaima pelo rádio, informaram-nos que deveríamos ter pedido uma autorização para escalar aquela parede. Solicitaram que terminássemos o quanto antes a escalada e nos dirigíssemos a Canaima. Era tudo o que não necessitávamos naquele momento, pois já tínhamos pressão demais sobre os ombros. O problema é que não sabíamos o que iria ocorrer; se levaríamos apenas uma “juntada” pelo equívoco de não ter pedido permissão ou se havia conseqüências mais drásticas. Éramos estrangeiros num país muito parecido com o nosso em relação ao tratamento do turista, que é muitas vezes visto como um invasor e não como alguém que traz riqueza para o país. A partir desse dia nossa escalada foi muito mais tensa, se é que isso fosse possível.

Escalando

No outro dia o Sérgio e o Val terminaram o serviço de cruzar a parte mais negativa da parede e quase desembarcaram no Campo 4, o próximo acampamento de altura. Dormimos ansiosos, pois no outro dia nos mudaríamos, ou melhor, levaríamos nossa casa mais para cima.

Dez de fevereiro. Amanheceu um dia magnífico, trazendo bons presságios para nossa empreitada de mudança de platô. Eu e o Chiquinho seguimos adiante com a missão de aportar no Campo 4 e iniciar o reboque da carga. Acho que eram uns 9 haulbags com peso variável entre 30 e 50 Kg cada! A subida pelas cordas passando pelo Derribos Arias só não foi pior porque naquele momento o tempo fechou e não podíamos ver o buraco para baixo, mesmo assim era sinistro! Chegando ao final das cordas fixas meu parceiro pegou “a punta caliente de la cuerda” e guiou até o Campo 4, que, por sua vez, era minúsculo. Uma plataforma que caberia apenas a cozinha. Mas nossa preocupação naquele momento era a de içar os haulbags que estavam 130 metros abaixo. Para isso usávamos uma corda de 160 metros de que dispúnhamos, a passávamos por uma roldana com um sistema de travamento; com o peso do corpo e mais uma pessoa puxando de baixo para cima conseguíamos mover o “malote” uns 50 centímetros por vez. Quando colocamos o primeiro haulbag no platô foi uma alegria e uma tristeza ao mesmo tempo por saber que ainda faltavam oito. No final do dia, com a ajuda de todos, conseguimos trazer toda a carga e montar nossas camas (porta ledges) e cozinhar uma boa janta. Não lembro muito bem, mas acho que era lentilha, arroz e um molho especial para celebrar o grande avanço. A partir daquele ponto (já havíamos escalado 19 cordadas, aproximadamente 670 metros) não havia mais retorno, pois o trecho que tínhamos acabado de ultrapassar era muito negativo para conseguir rapelar. Agora era só pelo cume que sairíamos dali.

Escalando

Onze de fevereiro, décimo primeiro dia de escalada. Mais um amanhecer deslumbrante! Engulo o café da manhã e antes de comer a minha arepa (delicioso pão assado na panela que o Yupi sempre preparava) já estou me ajeitando para guiar a próxima cordada. Estou tenso porque olho para cima e o que vejo é de arrepiar: uma fissura toda descomposta, ruim de proteger e negativa. Além disso, pelo croqui (mapa da via) era descrita com graduação 9b exposto e delicado. Traduzindo: levaria muitas horas, faria muita força e passaria muito medo. Dito e feito. Depois o Val subiu e também teve a sua dose de desespero para guiar a cordada de número 21. Neste momento o clima começou a virar, parecia que cairia o mundo, descemos, choveu um pouco, mas já limpou. Porém estávamos preocupados porque a cachoeira começou a aumentar com a chuva dos últimos dias e ainda tínhamos o agravante de que no próximo acampamento era desprotegido, coisa que ainda não havia ocorrido pela negatividade da parede. Outra preocupação a partir do Campo 4 era com o suprimento de comida e de água, pois a via não dava tréguas, nunca conseguíamos progredir mais de 50 metros por dia. E nosso consumo diário era de 2,5 litros de água por pessoa. Isso significava que usávamos 15 litros de água por dia. Então nossas reservas davam para mais uma semana aproximadamente.

Doze de fevereiro. Após uma batalha que tomou boa parte do dia, o Chiquinho botou os pés no Campo 5, que, em meus sonhos era uma mega plataforma, plana, confortável, mas isso só nos meus sonhos. Na realidade o platô era até grande, porém todo irregular, sendo difícil de encontrar um lugar plano para dormir. Outro problema era que não era abrigado da chuva. E naquele dia não foi diferente, mal cheguei já senti os primeiros pingos e comecei imediatamente a enrolar as dezenas de metros de cordas que trazia comigo. Eu havia jumareado por último “limpando” as cordas fixas, ou seja, retirando as cordas que havíamos fixado nos dias anteriores deixando o caminho limpo para trás, de maneira que quando tocássemos o cume não houvesse vestígios de nossa passagem.

Outro fato importante é que no Campo 5 a rota divide-se em duas e teríamos de decidir entre a inexplorada linha dos Espanhóis e a exposta Rainbow Jambaia, a dos Ingleses. Escolhemos a espanhola e fazendo uma horizontal gigante para a esquerda tentamos alcançá-la. Todavia, nosso esforço foi por água abaixo quando nos deparamos com um trecho em que as fendas estavam entupidas de mato. Retornamos tudo e perdemos o dia de trabalho o que deixou o grupo apreensivo, pois nossos suprimentos de água e comida estavam se esgotando. O dia só não foi totalmente perdido porque no final dele, após deliberarmos, decidimos pela conquista de uma variante, ou seja, um trecho aberto pela nossa expedição, à direita do acampamento 5.

Escalando

Quatorze de fevereiro. Amanheceu um tempo fechado, chuva e neblina, o Salto Angel incrivelmente grande e uma pequena queda d’água caindo diretamente sobre o acampamento. Acordamos, eu e o meu saco de dormir, completamente encharcados. Teria de me mudar para o chão, pois o porta ledge onde dormia perdera a impermeabilidade. Sob uma lona improvisada, tomando o café da manhã, as perspectivas eram sinistras: continuar a conquista da variante brasileira por um terreno novo e depois entrar nos trechos mais difíceis da via inglesa. O problema maior era que já estávamos com nossos cérebros “cozidos”, pois à medida que se sucederam as cordadas fomos nos desgastando física e também psicologicamente. E no décimo quarto dia de expedição funcionávamos no automático, de maneira que engoli o último trago de café de minha caneca de plástico, olhei para o Val e este me entendeu integralmente. O olhar era de determinação, recheado de anseios de pisar no topo daquele tepui e de admirar o caminho deixado para trás. Em alguns minutos não existia mais lugar para dúvidas; estava na ponta da corda negociando com um diedro magnífico protegido da chuva. E este diedro, que é formação que consiste em dois planos da rocha que formam um ângulo, levou-nos, após 55 metros de uma escalada muito bonita, a uma plataforma onde pude armar uma boa ancoragem. Logo dei segurança para que o Val se juntasse a mim. Estávamos cada vez mais próximos do Salto e o volume da cachoeira era assustador, por sorte a água não nos atingia. O Val pegou a dianteira e seguiu por uma placa de rocha extremamente delicada aonde era muito difícil de encontrar pontos de ancoragem que sustentassem mais que o peso do corpo de uma pessoa. Em alguns momentos teve de lançar mão do uso de cliffs, que são como ganchos que se apoiam em pequenas saliências da pedra. Terminou a cordada com os últimos minutos de luz e demorou um bom tempo para terminar de montar a parada. Quando a ancoragem estava pronta, gritou-me para que eu começasse a escalar, e não sei fiquei feliz ou assustado, pois tudo que não queria era limpar aquele trecho transversal à noite, depois de um longo dia de escalada. Em uma cordada transversal muitas vezes temos de pendular para conseguir progredir e isto significa retirar uma peça de uma fissura e “cair” na próxima. Posso afirmar que não foi nada divertido. Nesses momentos que surge a velha dúvida: “que que eu to fazendo aqui?”. A única alegria daquele dia foi poder jantar bem e saber que no seguinte eu e o Val descansaríamos.

Quinze de fevereiro. Décimo quinto dia de expedição. A chuva persistia, e do Campo 5 não conseguíamos divisar a paisagem exuberante do outro lado do Rio Churun, que no início da expedição nos alentava nos momentos mais tensos da escalada. O Chiquinho e o Sérgio pegaram o “jumar das 7 da manhã” e partiram para mais um dia de trabalho. Lá pelo meio do dia observamos o Sérgio poucos metros acima do ponto em que havíamos parado no dia anterior. Ficamos preocupados com a progressão extremamente lenta, pois sabíamos que o Sérgio é um dos mais competentes e experientes escaladores brasileiros. No final do dia, voltou destruído ao Campo 5 e contou-nos que foi uma das cordadas mais difíceis de sua vida, graduada em A4 e certamente a mais difícil até aquele momento; quase todas proteções que colocara nas ranhuras da rocha não suportariam o peso de uma queda. O Chiquinho, por sua vez, ficara o dia todo sob uma goteira dando segurança e não pensava em subir no dia seguinte.

Escalando

Dezesseis de fevereiro. Não existe coisa pior que dormir sabendo que no outro dia será o primeiro a “arriscar o couro” na ponta da corda. Obviamente minha noite não foi das melhores, pois eu e o Val tínhamos o objetivo de chegar ao cume no décimo sexto dia de escalada. Levantar, fazer as necessidades fisiológicas, tomar café, jumarear mais de 100 metros no vazio, escolher as “armas” que vai carregar e partir pra “briga”, esta é a rotina das grandes paredes. E lá fui eu tentando encontrar a linha da via inglesa e depois a linha da variante francesa. Não encontrando nenhuma das duas decidi abrir uma variante brasileira. Já havíamos feito uma variante que saíra à direita da 24ª, 25ª e 26ª cordadas e agora abríamos uma nova à esquerda do 29º esticão. Subi primeiramente por uma fissura perfeita, depois contornei um teto e escalei cuidadosamente por uma laca solta de mais de 5 metros de extensão. Pedi para o meu parceiro enviar mais algumas peças pela corda auxiliar, pois via uma fissura horizontal onde poderia armar uma parada. Quando cheguei a ela constatei que era podre. Teria de encontrar uma ancoragem sólida imediatamente, pois a corda estava acabando. Subi por uma placa até um ponto onde poderia haver alguma possibilidade de proteção. Fizera um esforço tremendo para alcançar aquele pequeno platô devido ao peso da corda causado pelo atrito do roce da mesma no teto que estava abaixo. O problema é que não havia como proteger e tive de bater uma chapeleta (proteção fixa) para dar segurança para meu parceiro. Olhei para cima e vi o cume muito próximo, mas percebi também que o pedaço que faltava era sinistro. Pensei comigo: será que não vamos ter um “refresco” nem no final, será que vamos chegar hoje ao cume? Meu cérebro era uma tormenta. Mas concentrei-me primeiramente na rotina do presente: puxar a corda para fixar para a próxima cordada, rebocar o haulbag de equipamentos, puxar a corda auxiliar e dar segurança para o Val limpar a cordada, engolir algo de comida e água. Estas manobras sempre demandam muito tempo e já passava da metade do dia quando meu companheiro de escalada iniciou aquela que seria última cordada da via. Valdesir Machado, 1,68 metro de altura, muito mais magro, barbudo, quase 20 dias sem tomar banho, era uma figura medonha. Além disso, naquele dia, estava com um mau humor incrível. Nunca havia visto Val tão nervoso. Com um saca-nut, espécie de ferramenta que usamos para retirar peças da fendas, golpeava furiosamente uma fissura para retirar o barro e ajeitar um espaço para colocar uma proteção móvel. A cada golpe gritava um palavrão. Isto me fez perceber que, na verdade, o prazo de validade do time todo já estava vencendo. E seguiu assim, maldizendo o Jesus Galvez, o John Arran e o Arnaud Petit e a mim também por ter um dia ligado e o convidado para aquele sofrimento. Claro que depois que parava para tomar fôlego ríamos muito, então progredia mais uns metros e recomeçava a ladainha. De repente sumiu no meio da vegetação e me chamou pelo rádio. Na mensagem dizia estar em um lugar onde não tinha como continuar a progressão e nem voltar e que se caísse seria um longo vôo. Sua voz denunciava imensa apreensão e eu fiquei meio sem ter o que lhe aconselhar. Depois de alguns segundos disse-lhe que estava muito nervoso, que respirasse, se acalmasse e aí conseguiria encontrar uma alternativa. O rádio ficou mudo por alguns tenebrosos minutos; foi quando a corda começou lentamente a correr pelas proteções e soube que o Val encontrara alguma solução para o impasse. Quando restavam apenas alguns metros de corda, chamou-me pelo rádio muito emocionado para avisar que estava no cume! Não creio que senti alegria. A palavra que descreveria melhor o que senti é alívio. No final, quando o Val fixou a corda no topo do Auyantepui, ficamos todos aliviados por não ter mais de guiar aquelas cordadas arriscadas, por não ter mais de estar sempre amarrados em algum lugar, por poder andar num lugar plano e amplo depois de duas semanas sem colocar o pé no chão.

Dezessete de fevereiro. Apesar de eu e o Val termos atingido o cume no dia anterior não dormimos lá, para nossa tristeza; tivemos de rapelar até o Campo 5 com o haulbag de equipamentos. Este procedimento se fez necessário porque no décimo sétimo dia da expedição tínhamos uma missão surreal: baixar toda a carga e deixar cair os aproximadamente 800 metros de corda até o chão. Isso para não precisarmos rebocar tudo até o cume e depois ter de rapelar com toda a bagagem. O Chiquinho armou toda a traquitana que funcionou perfeitamente. Baixamos uns 5 haulbags, porta ledges e todas as cordas sobressalentes. Só ficamos com os 300 metros de corda que nos ligavam ao cume da montanha, uns pacotes de comida liofilizada e material de acampamento. E com os últimos raios de sol nos unimos todos no topo úmido do tepui. O céu ainda estava limpo e aproveitei para tirar muitas fotos enquanto meus amigos jumareavam. Foi sorte porque nos dias seguintes o tempo permaneceu fechado, com uma garoa constante.

Dormimos numa bela cova de pedra, protegida da chuva. No outro dia fomos até o rio Kerepakupai, o rio do Salto Angel, para tomar um esperado banho. Fazia frio e tão logo nos banhamos começou a ventar e garoar, mas foi o melhor banho que já tomei em minha vida. Acredito que foi porque fazia quase vinte dias que meu corpo não via água. Voltamos pelo caminho em meio ao labirinto de pedras que parecem as guardiãs do Auyantepui.

O Retorno:

Recuperamos um pouco as energias para no dia seguinte rapelar a montanha por uma via de rapel que está bem à esquerda da Gran Bóveda. O que levamos dezessete dias para subir nos custou apenas um dia para descer. Ainda tivemos fôlego neste mesmo dia para ir até a base da via buscar um pouco da carga; claro que a cachoeira aproveitou para nos dar um banho gelado. Desenrolamos os 800 metros de corda sob constante bombardeio, como se ela estivesse nos expulsando dali, ou apenas nos cumprimentando pela façanha.

Descemos até Isla Raton, onde nos deliciamos com um prato composto de arroz com um tipo de maionese de batatas e frango assado, feito pelos índios Pemons. Nem me lembrei que era vegetariano, foi um fiasco. Durante todo o trajeto, a partir do momento que atingimos o topo do tepui, pensamos que os guarda parques poderiam estar nos esperando, no cume, no final dos rapéis, na cova ouem Isla Raton. Masnão estavam. E no outro dia seguimos para Canaima, em apenas meio dia de barco, porque os rios estavam transbordando devido às fortes chuvas do dias anteriores. Lá chegando também ninguém estava à nossa espera. Assim fomos relaxando um pouco. Já na sede do parque nos informaram que deveríamos ter pedido uma permissão para escalar o Salto Angel. Que todas as atividades de aventura no local requerem esta permissão. Nós não havíamos pedido autorização para escalar porque pensávamos que não era necessário este procedimento, pois pelos vídeos que assistimos e pelo que havíamos pesquisado, nunca foi relatado este fato. O pessoal do parque nos informou que teríamos de ser entrevistados e imediatamente seríamos liberados. Foi curioso, porque um dos guarda parques que nos entrevistaram era o mesmo índio que nos levou de kuriara até a base da via. De qualquer forma, foram simpáticos e fizeram de tudo para que nos sentíssemos bem ali nas suas terras. Apenas cumpriram o que o procedimento burocrático. Coisas de América do Sul.

Escalando

Conclusão:

Escalei o Cerro Torre em 2005, o Fitz Roy em 2006, ambas montanhas míticas da Patagônia Argentina, mas o esforço demandado para escalar o Salto Angel foi incomparável. Desde o início a parede me impressionou psicologicamente e à medida que progredimos absorveu todas as minhas energias. Nunca havia ficado tanto tempo em uma parede, nunca havia escalado algo tão difícil tecnicamente, nem tão exposto. O sucesso da expedição só foi possível devido a um fator: trabalho em equipe. Quando alguém não estava bem, outro imediatamente o substituía nas guiadas. Sempre num clima de solidariedade e amizade. Então, parabéns para todos nós que estivemos juntos nessa mega jornada pelo Mundo Perdido.

Agradecimentos: À Conquista, Território e Snake que são as empresas que me apóiam. À  Edelweiss que forneceu todas as cordas usadas pela expedição. Ao Waldemar Niclevicz por ter tido a idéia, organizado e patrocinado a Expedição ao Salto Angel.  E por último, mas não menos importante, agradeço à minha família que sempre está sofrendo à espera de notícias.

Primeira parte: Escalando a cachoeira Salto Angel – Venezuela

Autorizado a duplicação do post por: Conquista Montanhismo

Texto: Edemilson Padilha

Escalando a cachoeira Salto Angel – Venezuela

Escalando a cachoeira Salto Angel – Venezuela

História da Região:

O Salto Angel, situado no Parque Nacional de Canaima, na Venezuela, é a maior queda de água do mundo, com 979 metros de altura. Seu nome, na língua dos Pemons, os indígenas da região, é Kerepakupai-meru (queda de água até o lugar mais profundo). O salto cai do Auyantepui, que é umas das dezenas de montanhas em formato de mesa chamadas tepuis. Estas são consideradas as mais antigas do planeta.

O povo Pemon tem uma ligação muito forte de respeito e medo com relação aos tepuis. Segundo as suas lendas, os tepuis eram as árvores gigantes que continham os frutos da vida, os quais forneciam super-poderes aos semideuses Makunaimas, seus antepassados. Todavia, numa disputa entre dois Makunaimas, um deles cortou um tepui e a partir daquele momento os Pemons perderam os seus poderes. Para eles os tepuis são como troncos de árvores, e, realmente têm esta semelhança.

Os índios Pemons atualmente fazem o papel de guias na região, papel este que executam com maestria, pois são profundos conhecedores do enorme planalto denominado Gran Sabana. Pudemos notar durante a viagem que a vegetação de savana e de floresta se mesclam pelo caminho, ao ponto de, em alguns momentos, termos savana em uma margem do rio e floresta do lado oposto. Outro item que nos chamou bastante a atenção foi o meio de transporte dos índios. Pela Gran Sabana não há estradas e os Pemons se locomovem pelos rios. Usam todos os tamanhos de canoas e entre elas a maior é a Kuriara, um tipo de canoa gigante. A nossa media 12 metros de comprimento e era feita de uma só árvore.

Segundo o pessoal da região os mestres que fabricam as kuriaras se retiram para a floresta, cortam a árvore e constroem a enorme canoa ali mesmo, realizando o trabalho ritualisticamente, num processo que pode durar mais de um ano. E é proibido assisti-los construindo a embarcação. O contato que tivemos com os pemons nos deixou boas impressões; apesar da timidez, foram muito hospitaleiros e prestativos.

Os nativos da região já conheciam o Salto Angel, mas quem o divulgou para o ocidente foi o aviador americano Jimmy Angel. Em 1937 o avistou pela primeira vez e no final daquele ano fez uma tentativa de pouso no cume do tepui que acabou por atolar seu pequeno avião. Ele e sua equipe de apoio levaram 11 dias para poder descer do Auyantepui caminhando. Atualmente existe uma trilha que sobe o tepui até o Salto Angel partindo da aldeia de Uruyen, porém são raras as expedições que realizam este longo trajeto, pois são 7 dias de caminhada só para chegar ao salto pelo topo do tepui.

Sempre há a necessidade de se contratar um guia, pois lá em cima há um labirinto gigantesco de pedras, fendas escondidas, charcos, rios e florestas. Só para se ter uma idéia, o topo do Auyantepui tem área de700 quilômetros quadrados. Muito maior, por exemplo, que a cidade de Curitiba/PR – Brasil, com 446 Km². Tendo em vista todas essas dificuldades, a maioria dos turistas se aventura pela parte baixa do Salto Angel. Com os rios cheios, em um dia de barco desde Canaima, chega-se a Isla Raton. Deste ponto em 40 minutos de caminhada é possível atingir o Mirante do Salto Angel de onde se tem uma visão privilegiada da maior cachoeira do mundo. Consulte: www.exploratreks.com. Quem quiser conhecer um pouco mais sobre os tepuis pode assistir a animação da Disney Pixar Up Altas Aventuras. Nos extras aparece a equipe de produção explorando a região.

Salto Angel

Histórico da Escalada:

A parede da Gran Bóveda, espécie de anfiteatro que abriga o Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, com 979 metros, na Venezuela, consistiu de um dos maiores desafios de todos os tempos para a comunidade escaladora mundial. Rechaçou muitos times durante vários anos, provavelmente porque seja a maior “parede negativa do mundo” (site Planet Fear). Até que em 1990, dois dos maiores bigwaleros (escaladores de grandes paredes) do mundo, os espanhóis Jesus Galvez e Adolfo Medinabeitia, após uma investida de 26 dias, abriram a via Directa, que é a linha natural daquela parede. A linha percorre formações de fissuras e blocos empilhados, por rocha descomposta e muitas vezes extremamente afiada. Foram 31 cordadas e até A4 (numa escala que vai até A5) de dificuldade de escalada artificial. Em 2005, o inglês visionário John Arran, após duas tentativas anteriores, conseguiu, com uma equipe de 7 pessoas, não só repetir a via, mas escalar todas as cordadas em livre em 19 dias. O que significa que a equipe de Arran encadenou todas as cordadas, ou seja, as repetiu cada uma das 31 cordadas sem quedas e sem se apoiar nas proteções que colocava na rocha, o que era um enorme feito, devido à alta dificuldade da escalada e precária proteção da via. Além disso, conquistaram uma variante temerosa no final parede, ainda mais exposta que o que haviam encontrado até ali e rebatizaram a via de Rainbow Jambaia, em homenagem aos magníficos arco-íris que se formam diariamente nas águas da cachoeira. A segunda palavra do nome refere-se às iniciais dos nomes de todos os integrantes da equipe. Em 2006, um time liderado pelo famoso escalador francês Arnaud Petit faria a segunda repetição, também em livre e confirmando a fama de extrema da rota.

Em suas palavras, retiradas do site: Planet Fear:

In French grading it means that 7b (8b brasileiro) sections are compulsory and dangerous and the hardest pitches would be graded like this: 4 pitches 7c/7c+ (9a/9b BR), 4 pitches 7b+ (8c BR), 5 pitches 7b (8b BR), 5 pitches 7a/7a+ (7c/8a BR), 5 pitches 6c/7a (7b/7c BR). The easier pitches are either on loose or wet rock; actually there are no “easy” pitches.

Well. We got shattered. At the bottom of the wall it’s way scary! It’s gloomy, you get the waterfall right in your face, the overhang is weighing upon you, and you can see the rock is shitty… In fact some pitches are really scary! In one of them it’s simple: you fall you die! And it’s no cushy climb, rather 7b+ (8c BR). We classified every pitch in three categories: either exposed, very exposed or super exposed!

Tradução:

Em graduação francesa significa que as seções de 7b (8b brasileiro) são obrigatórias e perigosas e as cordadas mais difíceis podem ser graduadas assim (em graduação brasileira): 4 cordadas 9a/9b, 4 cordadas de 8c, 5 cordadas de 8b, 5 cordadas de 7c/8a, 5 cordadas de 7b/7c. Os esticões mais fáceis são ou em pedras soltas ou molhadas; na verdade não existem cordadas fáceis.

Salto Angel

Bem. Sentimo-nos destruídos. Na base da parede é muito assustador! É aterrador, a cachoeira direto na cara, a negatividade pesando sobre você, e dá para ver que a rocha é muito ruim. De fato, algumas cordadas são realmente assustadoras! Em algumas delas é simples: se cair, morre! E não há escalada cômoda num 7b+ (8c BR). Classificamos cada cordada em 3 categorias: expostas, muito expostas ou super expostas!

Lendo as impressões acima, descritas por um cara que já foi campeão mundial de escalada esportiva e que agora se dedica à escalada tradicional, muitas equipes desistem antes mesmo de começar a organizar a expedição! Claro que quando li este relato pensei comigo que o Arnaud Petit estivesse exagerando, afinal ele era um escalador esportivo francês, acostumado com chapeletas de 2 em2 metros… O problema é que não estava, na verdade ele não exagerara em nada!

Continuação do relato, clique aqui.

Autorizado a duplicação do post por: Conquista Montanhismo
Texto: Edemilson Padilha