A desafiadora Travessia Bairro Alto x Marco 22: 1º Dia

Fazia um bom tempo que queria fazer uma travessia na Serra do Ibitiraquire. Sugeri ao Tiago Korb de programar um trajeto saindo da Fazenda do Bolinha, que compreenderia 10 cumes. Mas ele nem deu muita atenção. Disse que seria complicado pela logística de transporte, clima e outros fatores.

Não desisti, pois queria realizar esse sonho e de preferência no mesmo ano ainda! Então recorri ao nosso amigo Fábio Carminati, que também tinha interesse em fazer alguma travessia nessa Serra. Combinamos de os dois ficar pilhando o Tiago em montar o trajeto e fazer a travessia.

Passamos semanas juntando informações e lendo relatos, os mais interessantes mandávamos para o Tiago tanto via Facebook quanto por e-mail. Isso sem contar das vezes em que eu tocava nas palavras “travessia” e “Serra do Ibitiraquire”.

Mas a insistência valeu a pena! O relato dos perrengues despertou o interesse no Tiago. Próximo passo seria conseguir os dados de GPS da região com amigos montanhistas dele para montar o roteiro, uma vez que ninguém conhecia a Serra do Ibitiraquire muito bem. Eu tinha ido uma única vez fazer a trilha até o Pico Tucum. Já o Tiago havia ido ao Pico do Paraná anos atrás em um dia de chuva, ou seja, não conseguiu ver nada.

Com ajuda de vários amigos montanhistas (entre eles Elcio Douglas e Mildo Junior), o Tiago foi conseguindo os trajetos para GPS que passavam por diversos cumes. Na minha ideia, o Pico do Paraná e o Ciririca não poderiam ficar de fora do planejamento. O primeiro por ser o cume mais alto da região Sul do país. O segundo por levar a fama de “K2 paranaense”, o que despertava minha curiosidade.

Mas onde começar e terminar a travessia? Os ajustes foram sendo feitos com o passar dos dias. De repente vem à tona o conhecimento da existência da Travessia Bolinha x Marco 22. A ideia original da travessia era fazer 10 cumes da Serra do Ibitiraquire e se desse tempo ou se não chovesse, poderíamos fazer esse trecho da Serra da Graciosa até o Marco 22 da Estrada da Graciosa.

Surgiu então o Getulio Vogetta com outra opção de roteiro via trilha da Face Leste do Ferraria. Conseguimos o trajeto de GPS dela e desta forma se consolidou como opção de início da nossa travessia, acrescentados ainda, mais alguns cumes. E por fim, o trajeto final seria até a Estrada da Graciosa, terminando no Marco 22.

Diante do desafio, da elevada altimetria, da promessa de encontrar mato bem fechado, o Tiago propôs de adotar o sistema de travessia ultralight. Ou seja, usar as mochilas de 30L em vez das cargueiras. Para isso, levamos o mínimo necessário e itens bem técnicos que ocupam pouquíssimo espaço. Deixamos o dormitório da barraca, levando apenas o sobre teto e o foot print por exemplo. E assim foi: total desapego do conforto para levar somente o que era absolutamente necessário.

A equipe foi formada com base em outras travessias pesadas que fizemos (Fábio Carminati, Luciana Moro, Marcelo Nava e Tiago Korb). Apenas faltava conseguir uma janela de pelo menos 5 dias de tempo bom. O que naquela região já é difícil, pois chove em mais de 270 dias no ano. Em ano de El Niño é ainda mais difícil! Mas o São Pedro colaborou. A previsão do tempo estendida marcava 10 dias de sol na segunda quinzena de agosto.

Íamos nos preparando, deixando equipamento e comida em separado na medida em que a previsão do tempo se confirmava.

Viajar da região central do Rio Grande do Sul para Curitiba não é nada agradável. São pelo menos 14 horas sentada dentro de um ônibus. Mas o sacrifício vale a pena se o tempo ajudar. E assim eu e o Tiago partimos de Santa Maria RS na tarde do dia 18 de agosto rumo à capital paranaense, onde a amiga Sandra Elize nos receberia para fazer a logística até Antonina.

1º DIA: Terça-feira 19/08/2014.

Nosso ônibus chegou na rodoviária com mais de uma hora de atraso. O Marcelo e Fábio já nos esperavam na rodoviária. Assim que chegamos, encontramos eles no local marcado e partimos para a casa de minha mãe, onde deixaríamos nossas roupas de “civis” de viagem para trocar pelas roupas de trekking.

Em seguida, fomos ao encontro de Sandra, quase vizinha, para partir para Antonina. Durante o trajeto fomos conversando sobre nosso planejamento de travessia e demais assuntos sobre montanhismo.

A Sandra, em um determinado momento, me alcançou um pacote e pediu para que escolhesse uma bandana de presente. Escolhi uma de temática florida com verde, que poderia usar o lado estampado ou o de cor única para combinar com minha calça da travessia. Assim, já coloquei o presente na cabeça para usá-lo durante a travessia para dar sorte (sim, eu acredito nessas coisas).

Descemos pela Estrada da Graciosa com tempo bom. Essa foi a terceira vez que passei pela estrada e a primeira com tempo bom! A medida que descíamos, ia se revelando a belíssima mata Atlântica que cobria as imponentes montanhas. Ah, as montanhas! Várias delas eram visíveis durante o percurso, e uma boa parte delas não faziam parte da nossa travessia.

Tentamos avistar o Marco 22, o ponto final da travessia, mas não enxergamos. Então combinamos o resgate de volta no primeiro Recanto da Graciosa. Depois de 1:40 de estrada, chegamos a Antonina e, em seguida, no Bairro Alto e finalmente na Fazenda Lírio do Vale de onde começaríamos nossa longa pernada. Descemos do carro e nos despedimos de nossa amiga Sandra.

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Iniciamos a Travessia em torno das 11:40, começando pela trilha da Conceição. O dia estava bastante ensolarado com algumas nuvens encobrindo os cumes das montanhas.

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Logo se revelou o primeiro cume em meio as nuvens, o Ibitirati.

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Nós estávamos a 190 metros de altitude e teríamos que atingir o cume que tinha 1745 metros de altitude até o final da tarde. Parecia ser uma missão quase impossível!

Passamos pela ponte Indiana Jones por volta das 12:40 e descemos até o Rio Cotia para almoçar. Fizemos um lanche rápido e retomamos a caminhada.

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A trilha da Conceição é muito bonita. Durante o seu trajeto íamos admirando a beleza de sua vegetação e brincando que em seguida a “barbada” iria terminar, afinal, tínhamos que subir mais de 1700 metros até o primeiro acampamento.

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 15182315025_22b167d3e4_oA trilha de subida era sinalizada com um pneu. Em um determinado ponto ficamos procurando o tal pneu à esquerda da trilha. Achamos meio escondido pelo mato.
Subimos o degrau e a parte divertida começou. Muito mato fechado durante a subida.

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Em seguida começaram as cordas, opa, a primeira não era corda, era mangueira de bombeiros.

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Mais adiante o mato fechado diminuiu e a trilha começou a ficar mais íngreme e mais bonita, e começando a ter vista dos demais cumes.

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Ao lado esquerdo se via o paredão do Ibitirati, mas o cume ainda estava coberto por nuvens. Mas depois o céu ficou mais limpo e podíamos ver também o Pico Paraná.

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Chegou o primeiro trecho de corda. O pessoal subiu sem maiores dificuldades. Eu me agarrei na corda e me puxei para cima.

Mas não via a hora de chegar no “degrau” da face leste do Ferraria. Quando estávamos montando o roteiro da travessia, fomos informados desse trecho de maior dificuldade. Então eu e os demais ficamos imaginando como seria.

Enfim, chegou o degrau. E realmente era merecedor da fama de ser um “bicho papão”. Um trecho da subida com inclinação média de 80 graus e em alguns pontos de 90 graus.

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Entre a pedra e o abismo havia um trecho de chão um pouco maior que meu pé. A pedra do degrau era quase da minha altura (1,60 m). Haviam dois lances de corda: o da primeira subida, que descia até a metade do degrau; o segundo ficava preso nas duas pontas. O Tiago e o Marcelo foram os primeiros a subir. Nesse momento eu fiquei observando o modo de como eles subiam e pensava como eu com minhas pernas curtas ia alcançar aquela pedra. O Marcelo escorregou o pé na primeira tentativa, depois se agarrou na corda e usou bastante força para subir. Se os homens penaram para subir pela corda, imagina o que seria para mim!

Chegou a minha vez. Envolvi bem a mão direita em um dos nós da corda e a esquerda no corpo da corda.

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Apoiei o pé na pedra, embalei para puxar na subida, mas deslizei o pé, voltando à base. O Tiago falava:
– Apoia os pés na pedra e firma bem com as mãos. Tenha no mínimo 3 pontos de apoio sempre.

Mas não adiantava muito, além da pedra lisa o meu ombro esquerdo também não estava ajudando, visto que o havia lesionado ele umas semanas antes em Santa Maria. Além de ele estar fraco, machucá-lo de novo e logo no início da travessia seria algo péssimo, ainda mais sabendo que teríamos diversas escalaminhadas, cordas e trechos de via ferrata pela frente. E para completar, havia um abismo logo atrás de mim. Um erro poderia ser fatal!

Fiquei um olhando a pedra procurando onde apoiar melhor o pé. Mas para todo o problema tem uma solução. Chamei o Fábio e pedi para ele firmar a perna bem na frente do degrau e pedi para o Marcelo ficar supervisionando a minha subida. Firmei bem as mãos na corda, peguei impulso na perna do meu amigo e subi. No fim do primeiro lance de corda, o Marcelo me deu a mão e assim e alcancei o segundo lance de corda, superando o famoso degrau do Ferraria.

O próximo trecho de corda foi tranquilo de passar. Mas teve corda porque o Tiago levou a dele. A corda da trilha estava cheia de limo e para completar sem a capa.

A tarde avançava e a alteração da posição do sol projetava a sombra das montanhas ao longo do vale. Ou a luz solar passava entre as frestas entre os imponentes paredões, formando um efeito incrível.

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Estávamos determinados em chegar ao local do acampamento planejado, mesmo que seguíssemos a trilha durante a noite. A subida final até o local do acampamento, no ante cume do Ferraria, foi bastante íngreme, com uma escalaminhada interminável. Era um barranco bem liso, e subimos ele quando já escuro, agarrando a vegetação.

Eu estava com a cabeça latejando da enxaqueca provocada, possivelmente, pela noite mal dormida durante a viagem. Na verdade, enxaqueca é uma certeza toda vez que viajo de ônibus até Curitiba. Dessa vez teve o plus da noite mal dormida. Isso fez com que eu fizesse o último trecho da subida com mais vontade.

Chegamos ao local do acampamento em torno das 18:40. Ali tinha um espaço justinho para três barracas. Começamos a ajeitar o camping. Deixei minha mochila com o Tiago e avisei que ia para um canto mais escuro do cume fechar um pouco os olhos, pois a dor de cabeça estava muito forte. Achei uma moita e deitei ali e fiquei observando as luzes de Paranaguá e Morretes por trás do Pico Paraná e de Curitiba mais para o sudoeste.

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Fechei os olhos que estavam doendo e acabei cochilando um pouco. Acordei com as vozes dos guris e encontrei o acampamento pronto. Meus olhos doíam muito e anunciei que ficaria com os olhos fechados um pouco. Não quis tomar remédio, sou meio teimosa para essas coisas. Descansando naquela noite estaria 100% no próximo dia.

O Tiago aprontou uma ótima polenta com calabresa e queijo provolone para a janta. Assim que jantei, me ajeitei para dormir pelas 20:30.

No meio da madrugada acordamos com roncos bem altos. Eu e o Tiago ficamos rindo e sem jeito de acordar o nosso amigo. De repente o Fábio pergunta da barraca:
– Vocês estão acordados? Eu não consigo dormir com esse ronco.

O jeito foi acordar o Marcelo. Depois de muita insistência, chamar pelo nome e sacudidas na barraca, ele acordou.

Fora a sinfonia de ronco, a noite foi maravilhosa!

Devido à dificuldade da trilha da face leste do Ferraria, apelidei carinhosamente a montanha de “Ferraria com tua vida”.

Dados do 1º dia da travessia:
Distância: 10,11 Km a pé.
Altimetria: 1742 metros de aclive acumulado e 186 metros de declive acumulado.

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Trilha da Face Leste do Ferraria:

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Google Earth:

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 Trajeto do primeiro dia (Face Leste do Ferraria), para download:

Download da trilha

Texto: Luciana Gomes Moro
Fotos e dados: Tiago de Pellegrini Korb
Site: www.clubetrekking.com.br

Relato do segundo dia:

– A desafiadora Travessia Bairro Alto x Marco 22 PR, segundo dia.

Relato fotográfico: Travessia Morro da Igreja SC x Serra da Rocinha RS

Esta travessia faz parte do projeto pessoal de Tiago de Pellegrini Korb: Travessia Trans Aparados da Serra RS/SC. Será uma travessia com cerca de 320 Km entre a rodovia Rota do Sol (trevo para Cambará do Sul RS), até Alfredo Vagner SC. Atualmente o projeto desta grande travessia brasileira esta em andamento com 3/5 já realizados.

Fotos: Tiago de Pellegrini Korb

Nas fotos abaixo apresento duas partes já realizadas no ano de 2014. Começamos no Morro da Igreja em Urubici SC e caminhamos até a Serra da Rocinha, mais precisamente no Vale das Trutas em São José dos Ausentes RS.

1° DIA: Morro da Igreja até os Campos de Santa Barbará – SC.

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2° DIA: Campos de Santa Barbará ao Cânion das Laranjeiras – SC.

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3° DIA: Cânion das Laranjeiras ao Cânion do Funil – SC.

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4° DIA: Cânion do Funil até a Serra do Rio do Rastro – SC.

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5° DIA: Serra do Rio do Rastro até a Serra da Veneza – SC.

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6° DIA: Serra da Veneza até o Cânion da Cruzinha – SC/RS.

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7° DIA: Cânion da Cruzinha até o Cânion Amola Faca – RS.

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8° DIA: Cânion Amola Faca até o Vale das Trutas na Serra da Rocinha – RS.

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Dados da travessia:
Distância: 155,319 Km a pé (aferido por GPS).
Altimetria: aclive acumulado de 4519 metros e declive acumulado de 4924 metros.

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Visualização da travessia no Google Earth:

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Tiago de Pellegrini Korb
55 3317 3400
55 8407 1646 (Oi)
www.clubetrekking.com.br
Skype: tiagokorb

Do Sítio à Monte Claro – Uma Nova Travessia

“…Foi o 20 de setembro, o precursor da liberdade.”

Segunda-feira, feriado de Independência do Estado do Rio Grande do Sul. Há quatro dias do feriadão, estava tentando programar algum trekking, porém em cada destino pensado, um empecilho comum: apenas três dias para tal façanha. Aqui onde moro é assim, a distância atrapalha um pouco o planejamento e dependendo do local planejado, existe a necessidade de incluir um ou dois dias de viagem e alguma eventual hospedagem, então pensei: “Porque não criar uma travessia por estas bandas?”

Situado em Veranópolis, Monte Claro é um dos pontos mais altos da Serra Gaúcha. Do seu topo observam-se todas as cidades que fazem fronteira com a fantástica Terra da Longevidade. A travessia tem aproximadamente 24km e um perfil altimétrico variado. Nela predominam pequenos campos de criação de gado, lavouras, plantações de laranja e pêssego, vastas parreiras e muita mata.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

A Travessia– Do Sítio à Monte Claro

A travessia oficial tem seu início a poucos metros do Rio Jaboticaba, afluente do Rio das Antas que por sua vez tem um enorme potencial em geração de energia. Um grande atrativo do Rio das Antas é a Ponte Ernesto Dornelles que divide Veranópolis de Bento Gonçalves e é considerada a maior do mundo em arcos paralelos.

A programação inicial era partir ainda no sábado 18.09, porém em virtude de um compromisso, obriguei-me a transferi-la para o domingo. Como dispunha de tempo, iniciei a caminhada do meu sítio, distante 5km do Jaboticaba. Mochila leve e apenas 3l de água. No trajeto, várias lembranças vinham à tona. Recordações de minha infância por aquela região, quando visitava meus avós e comia aquela deliciosa massa caseira com carne de panela; quando o celeiro virava QG do exército nas brincadeiras de guerrinha no mato. Que época saudável e gostosa!

Do sítio até o Jaboticaba a descida acumulada é grande e a presença de um descanso ou algum platô mais achatado é rara. Ao chegar no Jaboticaba, percebe-se a trilha bem aparente ao longo do leito do rio. Em épocas de cheia é impossível atravessa-lo a pé, por isso a recomendação de fazer a travessia em períodos de baixa afluência. Os meses mais indicados são abril a junho, setembro e dezembro.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Atravessei o rio e deparei-me com a íngreme subida da trilha. Em alguns trechos, ao invés de subir a encosta transversalmente, o caminho é reto morro acima o que dificulta muito a subida com a mochila nas costas. A fadiga é inevitável e os goles de água e as paradas mais freqüentes. O dia estava demais, o sol brilhava imponente por sobre toda aquela paisagem. As paradas eram estratégicas, sob os pés carregados de tangerina, pingados no meio da mata. Após percorrer uns 8km, encontrei um abrigo construído com lona plástica preta todo camuflado, pronto para receber seus caçadores. Esse tipo de abrigo é muito comum por aqui já que a região tem várias espécimes de aves de caça. Por um momento pensei em destruí-lo, mas se alguém estivesse por ali escondido? Estava ferrado!

Quando venci a subida da encosta, convergi numa trilha de chão batido; creio que seja utilizada pelo gado. De lá percebi o quanto já havia descido desde que iniciei a caminhada e o quanto ainda precisava subir para chegar ao topo de Monte Claro. Quando saí do chão batido, entrei numa estrada mais aberta, utilizada pelos agricultores e seus carros de boi. Até então estava sempre na mesma direção desde o início, N-S. Este é o sentido predominante da travessia, mas como o topo de Monte Claro é visível em boa parte da trilha, acaba sendo um ponto de orientação principal.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

“Tudo que é bom, dura pouco” e mal tive tempo de pegar o gostinho pela caminhada na estrada aberta, quando dei de cara com a trilha que dá acesso à base do Monte Claro. Fechada, muito fechada. A mata cobria boa parte dela e no caminho, vários cipós, árvores caídas, carrapichos, enormes teias de aranhas e suas donas com patas e abdomes imponentes, prontas para o ataque. Em aproximadamente 2km, fui obrigado a andar agachado por quase todo trajeto. Quanto mais subia, mais limpa a trilha ia ficando, eis que ao parar numa clareira, vi o calmo Rio das Antas com suas águas douradas banhadas pelo astro rei.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Confesso que foi animadora tal visão. Ali, saboreei meu lanche e um delicioso gole d’água. Fiquei sentado observando aquela exuberância com a paciência que o lugar merecia. Subi um pouco mais, saí da trilha da base e peguei um pouco de estrada de chão que dá acesso à uma comunidade que vive à beira do Rio das Antas. Após 20min de caminhada pela estrada, entrei na trilha que leva ao topo do Monte Claro.

A subida, no sentido S-NW, desta vez muito mais íngreme que as anteriores, castigou meu joelho. Faz algum tempo que estou praticando exercícios e fisioterapia para correção de uma síndrome fêmuro-patelar, mas por esquecimento, deixei a faixa compressora em casa. Dei uma parada, relaxei na paisagem deslumbrante, repus os 3l de água numa pequena cachoeirinha que descia do topo e continuei a pegada morro acima. Quanto mais subia, mais a paisagem ia descortinando-se. O sol ia abençoando cada passo e cada canto daquele pedaço de mundo. Com muito esforço cheguei onde queria, me desfiz do peso da mochila e fiquei deitado observando toda aquela beleza, digna da criação divina.

Quando o sol se pôs, armei a tenda e organizei toda a tralha. O vento soprava de todas as direções, mas alinhei a barraca com o predominante. O frio seria forte naquela noite. Preparei um delicioso chá de maçã e saboreei um gostoso chocolate. Estreei meu kit de cozinha todo de titânio, fogareiro Gnat, pesando apenas 48g, panela e spork da Rei, pesando apenas 180g. Gostei do equipamento, muito leve, prático e de excelente qualidade.

Foto: Edver Carraro
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Foto: Edver Carraro
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Foto: Edver Carraro

Mais tarde, ouvi uma buzina muito forte ecoando pelos vales. Era o trem rasgando os montes e cruzando os rios. O Tronco Principal Sul acompanha o Rio das Antas em boa parte de sua extensão. Vi um trecho da desativada Ferrovia do Vinho, que há meses atrás eu, Cacius e Felipe percorremos e a pequena comunidade de São Luiz, onde paramos para lanchar e consertar a mochila do Felipe. O sol deu lugar à lua, que surgia dos montes, cheia e majestosa. Lanterna não era necessária. Utilizei somente para cozinhar um saboroso jantar que apreciei sentado na borda do Monte Claro, voltado para a Terra da Longevidade, sob a luz do luar. Nessas horas percebemos o quão importante a vida é. Percebemos o quanto privilegiados somos por vivermos onde vivemos e a grande responsabilidade que temos em manter vivo esse pedaço de chão.

Ao longe, o pisca-pisca frenético das cidades cheias de vida, pareciam decorações de árvore natalina. Junto com a lua, o frio chegou e o vento aumentava mais. Foi difícil ancorar a tenda naquele solo. As pedras não deixam você enfiar o espeque mais do que 5cm no solo e a escassez de pedras soltas, não permite afirma-los corretamente. O jeito foi deitar e confiar na montagem que havia feito. Durante a noite, o vento soprou forte e mudou de direção. Acordei várias vezes, pois o chacoalhar era insuportável. Levantei apenas uma vez para conferir se tudo estava normal e a lua dava espaço à nuvens que pareciam ser de chuva. O vento acalmou sua fúria por uns instantes, nessa hora adormeci e só acordaria pela manhã com a buzina de outro trem.

De Monte Claro à Pompéia

Ao acordar, vi que as nuvens cobriam todo o céu, mas a chuva estava longe (ela começou na terça-feira 21.09 e foi parar só no domingo 26.09). Dormi muito bem. Preparei um delicioso café e levantei acampamento. A barraca resistiu bem, apesar de não estar bem ancorada e devidamente esticada e montada. Ainda me surpreendo com a qualidade da marca. O destino nesse dia era a comunidade da Pompéia, onde seria resgatado. Era necessário descer o Monte Claro, pegar novamente as trilhas por onde havia passado e numa bifurcação da trilha da base, acessar outra estrada para os 6km até Pompéia.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Tudo pronto na mochila, mais leve agora, dei início à volta (parte ruim de um trekking!) e ao chegar próximo à bifurcação da estrada, ouvi um barulho que parecia ser de um trator. Corri para tentar a carona e consegui. Ao me ver, o Sr. do trator parou e pediu para onde eu ia com aquele peso todo nas costas e àquela hora da manhã em pleno feriado. Por coincidência, ele estava voltando para sua fazenda que fica pertinho da Pompéia. Aceitei a carona e fui batendo um papo bem interessante com Seu Eduardo. Fizera outro amigo.

A carreta estava carregada de tangerinas, fui saboreando ao longo da carona. Eduardo parecia ser uma pessoa bem informada e bem desenvolvida, apesar da idade que aparentava ter e da aparência castigada pelo trabalho da roça. Minha desconfiança estava certa, contou-me que havia se formado há pouco tempo em Administração de Empresas por um curso que fez na Internet. Em poucos minutos estava na frente da Igreja da capela de Nsa. Sra. da Pompéia. Ao descer da carreta perguntei: “Quanto é Seu Eduardo?”. Ele me respondeu: “Só me queira bem que não custa nada”. Agradeci sua carona e ganhei mais tangerinas para lanchar, enquanto esperava o resgate. Povo da roça é assim, humilde e de coração grande.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Poder estar inserido e desfrutar de cada segundo em meio à natureza é um troço pra lá de especial. Cheguei em casa feliz por ter conquistado o objetivo e com a certeza da volta garantida, mas para desbravar a outra face de Monte Claro. Fica aí mais uma dica de um trekking fácil, pelos vales e belas paisagens da Serra Gaúcha.

Bons ventos!

Edver Carraro para Trekking RS

Edição: Marcio Basso

Indiada Buena – Aventuras

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Relatos da Travessia Serra Fina:

Sol de Indiada – Eu curto uma aventura

 

A Sol de Indiada é uma empresa de aventuras dirigida por Evandro Luis Clunc, com sede em Caxias do Sul, no RS.

As aventuras da Sol de Indiada são caminhadas, rapéis, travessias e raftings, que são realizadas principalmente na região da Serra Gaúcha e Catarinense, mas há também viagens para outras regiões do Brasil e América do Sul.

Experiência:
– Curso Técnico de Guia de Turismo Regional – CCM
– Curso de Primeiros Socorros em Áreas Remotas – WFA
– Curso de Técnicas Verticais – SAMSEG
– Curso de Canoagem em águas Brancas – Mad Dogs Adventure Ecoturismo
– Curso de Resgate e Autoresgate – Mad Dogs Adventure Ecoturismo

– 11 anos participando de Corridas de Aventuras
– 4 anos conduzindo caminhadas pelo Brasil
– Organizador do Desafio Hard Cross

Dados da Empresa
Sol de Indiada Turismo
CNPJ: 20.026.379/0001-16
contato@soldeindiada.com.br

Site: www.soldeindiada.com.br

Proprietário: Evandro Luis Clunc
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Relatos escritos:

– Saiba como organizar a mochila cargueira