Laranjeiras x Funil

Travessia Laranjeiras x Funil

A travessia Laranjeiras x Funil é uma aventura pela bordas dos cânions do estado de Santa Catarina, mais precisamente na cidade de Bom jardim da Serra.

A travessia de trekking foi realizada pela empresa Sol de Indiada, uma grande parceira a anos do Trekking RS, nessa edição fomos convidados a fotografar e relatar a experiencia.

A Sol de indiada tem como objetivo proporcionar a aventura para todos, pensando nisso cria travessia de trekking para todos os níveis, desde iniciantes nas aventuras como atletas de alto rendimento.

A travessia era composta por três pacotes diferentes:

  • Opção 1 – Estava incluso nesse pacote: apoio 4×4, alimentação (almoço/jantar), traslado, 2 guias, fotos do evento e a opção de você poder levar a sua mochila cargueira se quiser. (Ideal para iniciantes).
  • Opção 2 – Estava incluso no pacote: 2 guias, almoço e jantar, fotos do evento e traslado.
  • Opção 3 – Estava incluso no pacote: 2 guias e fotos do evento.
Laranjeiras x Funil

Já realizamos inúmeras travessia pelas bordas dos cânions entre os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, quem acompanha o nosso site sabe, mas essa travessia posso dizer que é uma das mais belas que já percorri pelos campos de altitude.

Primeiro dia

O primeiro dia da travessia Laranjeiras x Funil começou com o dia ensolarado, não havia uma nuvem se quer no céu, caminhar em dias ensolarados nos permite tirar fotos belas, mas o calor nos castigava durante o caminho.

A primeira impressão que temos sobre os campos de altitude é que ao olhar de longe, parece muito com um “campo de golfe”kkk. A vegetação presente nos dá uma falsa sensação que será fácil trilhar esses caminhos.

Na prática não é bem isso que acontece, pois em grande parte desses campos existe uma espécie de musgo conhecida como Turfas (a turfa é um material de origem vegetal, parcialmente decomposto, encontrado em camadas, geralmente em regiões pantanosas e também sob montanhas (turfa de altitude). É formada principalmente por Sphagnum (esfagno, grupo de musgos) e Hypnum, mas também de juncos, árvores etc).

Nesses casos vale muito a pena ter calçados impermeáveis e respiráveis e pré amaciados para que seus pés não sofram tanto ao passar por estes obstáculos. Veja os modelos que recomendamos!

Laranjeiras x Funil
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Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil

Esse primeiro dia de travessia Laranjeiras x Funil tinha aproximadamente 15 km, não foi algo tão complicado de se fazer, pois as vistas que tínhamos recompensava a cada passo dado.

O grupo formado para a travessia Laranjeiras x Funil era uma mistura de atletas, apreciadores da natureza e iniciantes, todos formavam uma grande família aventureira, pessoas com muitas histórias interessantes, trocávamos experiencias incríveis, como se já nos conhecêssemos a anos, nem parecia que estávamos no primeiro dia de trekking apenas.

Depois de muito caminhar e contemplar belezas incríveis, chegamos no nosso primeiro acampamento, uma fazenda no meio do nada, mas que tinha o necessário para que pudéssemos acampar com segurança.

A Parte da Organização responsável pelo Apoio na Cozinha e no Traslado de equipamentos que precisa seguir em veículos 4×4… já estava com a base montada e já preparando a comida para quem preferiu ter isso incluso. O local de acampamento, tinha opção de chuveiro quente, água potável e um galpão para apoio.

Para os aventureiros que não tinham contratado a opção mais completa, chegaram no acampamento, armaram as barracas e já começaram a fazer o jantar. Eu estava em meio à esse grupo, assim eu aproveitei em testar algumas receitas novas de comida, equipamentos no acampamento!

Depois de todos jantados era hora de curtir uma fogueira com a galera, estar em uma roda de amigos, junto ao local tão especial assim, faz a gente pensar o que realmente é uma “rede social”. Ficamos alí conversando e rindo, entre piadas e histórias, parávamos para observar o céu estrelado, de onde estávamos conseguíamos ver boa parte da Via Láctea. Aos poucos cada um foi se recolhendo para sua barracas e assim fomos todos dormir.

Segundo dia

O segundo dia da travessia Laranjeiras x Funil amanheceu tímido, a neblina ia desaparecendo conforme o sol ia subindo pelo horizonte, as barracas estavam tão molhadas que parecia que tinha chovido durante a noite. A manhãzinha estava um tanto fria por ainda estarmos no verão.

A galera levantou cheio de energias, era hora do café da manhã, desmontar acampamento e voltar a andar mais alguns quilômetros.

Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil

O trekking desse segundo dia iria nos levar para o Cânion do Funil, um lugar de uma beleza natural intocada, o percurso não era difícil, mas tinha muitas “turfas pelo caminho, cruzadas de córregos e caminhadas por dentro de matas nebulares. O céu continuava azul, mas dessa vez com umas nuvens, eu prefiro particularmente prefiro dias assim, pois dão mais profundidade para as fotografias.

Lembro-me de caminhar pelas bordas e ver constantemente o nosso próximo acampamento, a cada passo dado as montanhas pareciam que ficavam maiores e mais verticais.

Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil

Próximo do meio dia paramos para almoçar junto a um pequeno córrego de água, onde continha um pequeno poço para banho. Para os mais destemidos, arriscaram um banho naquela água gelada, enquanto outros faziam seus lanches de trilha, enquanto conversavam entre si.

Nessa hora já estávamos bem perto no vértice do Cânion do Funil, aproximadamente trinta minutos de caminhada até chegar no local do acampamento.

O Cânion do Funil possui uma formação incrivelmente linda e diferente do que estamos acostumados. Com protuberantes picos em formato de funil invertido, que rompem o chão e atingem imponentes alturas, cobertos pela floresta densa. Lembra as montanhas de Tianzi, da China, cenário do filme Avatar.

Chegamos ao acampamento por volta de 15:00 da tarde, o dia estava belo, as nuvens começavam a se aglomerar, já mostrando que teríamos chuva no fim de tarde ou a noite.

Logo que cheguei já comecei a montar a barraca, e como de costume sempre procuro o lugar mais incrível para acomodar a minha casa de montanha (barraca), o local escolhido por mim era nada mais, nada menos do que uns 5 metros da borda.

Dois motivos me levaram a escolher esse local para montar a barraca, o primeiro deles era pela vista incrível que iria ter na manhã do dia seguinte, pois o sol iria nascer e dar de frente na porta da barraca, poder abrir a porta e ver aquela imensidão de montanhas. O segundo motivo era que eu precisa testar a nova barraca Naturehike Mongar 2 Ultralight.

Não recomendo que pessoas sem experiencia e sem uma barraca técnica apropriada monte a barraca na beirada de cânions, pois a noite o vento geralmente muda de direção e se você não estiver bem preparado, a sua noite pode ser catastrófica.

Depois de ter montado a casa de montanha era hora de se sentar naquele novo quintal e apenas apreciar à vista, aproveitei para fazer aquele café especial para assim curtir o visual com um pouco mais de conforto.

Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil

Aos poucos a neblina ia chegando de mansinho, ia impedindo aquela visão deslumbrante, era hora então de começar a cozinhar o jantar. A refeição escolhida era: Arroz, feijão e salame, logo que comecei a cozinhar já começou a pingar, logo percebi que a chuva iria ser longa e demorada, continuei cozinhando.

Como a barraca Mongar não tem muito espaço para cozinhar em seu avanço usei a barraca do guia da aventura, uma MSR Hubba Hubba NX com avanço que estava ao lado da minha, ali pude cozinhar de maneira tranquila, sem correr riscos de queimar a barraca e ainda abrigado da chuva.

Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil

Depois de jantar, recolhi todos objetos, guardei dentro do avanço da minha barraca e fui até onde estavam a galera toda reunida. A chuva não dava trégua, foi uma ótima oportunidade também para testar a nova Jaqueta Columbia Ex Eco Down Outdry Extreme, confeccionada em penas /plumas de pato e membrana impermeável. A jaqueta foi incrivelmente eficiente naquela situação, não passou uma gota de água para o interior e o suor gerado foi dissipado, deixando apenas uma sensação de conforto e calor.

Choveu por cerca de 4 à 5 horas interruptamente, a organização do evento montou um grande toldo perto dos carros 4×4, onde alí estavam todos os participantes, conversando, rindo e compartilhando experiencias.

Nessas horas vale muito ter equipamentos de qualidade, alumas pessoas do grupo com equipamentos mais simples, tiveram que se adaptar para conseguir dormir, mas com a ajuda da organização, não tiveram problemas maiores !

Lá por volta de 22:30 minutos a galera começou a se dissipar, cada um foi indo para a sua barraca e eu e o guia também começamos a ir para nossas barracas, pois estavam lá na borda do cânion.

Cheguei na barraca, verifiquei para ver se estava tudo tranquilo, e estava tudo em ordem! Nada de água no interior da barraca. Era hora de descansar para o dia seguinte.

Terceiro dia

Na manhã do terceiro dia da travessia Laranjeiras x Funil , acordei por volta de 5:45 da manhã, abri a porta da barraca e olhei para fora, havia uma grande camada de neblina e não enxergava nada. Voltei a dormir! Aproximadamente uns 40 min depois, abri a porta da barraca novamente e lá estava o sol subindo no horizonte e mandando embora aquela neblina espessa. Logo me aprontei, saí da barraca e comecei a fotografar, momento muito belo, o sol refletia nas rochas do cânion do Funil, quanto mais o sol brilhava, mais mudava as cores no horizonte, as montanhas começaram a ganhar um tom alaranjado, nem parecia que na noite passada havia chovido tanto.

Laranjeiras x Funil

Mas tem um ditado que diz “depois da tempestade, sempre virá um sol maravilhoso”. Estar ali e poder contemplar aquela beleza é algo que vale cada passo dado para se chegar até ali, sempre digo que precisamos enfrentar o frio, para desfrutar do calor, precisamos também ficar cerca de 5 horas na chuva, para assim poder olhar o amanhecer, o sol e aquela beleza toda com um olhar de “gratidão”. Sempre agradeço ao universo por me dar a oportunidade de ver e viver momento como aquele. Pois são estes momentos que vamos lembrar lá no final da nossa vida e não os dias que passamos atrás de uma mesa trabalhando no escritório.

Depois de capturar imagens de tudo que foi ângulo possível, tava na hora de fazer o café da manhã, desmontar a barraca, colocar tudo dentro da mochila e seguir em frente.

Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil

Nesse último dia da travessia Laranjeiras x Funil, estávamos todos muito animados para concluir a travessia, o dia estava belo, ventava um pouco, nossa caminhada seria de aproximadamente 3 horas até chegar ao ponto final que seria a Serra do Rio do Rastro, uma das estradas mais belas e desafiadoras do mundo.

A paisagem continuava linda, a cada passo dado fortalecíamos ainda mais nossos laços de amizades, afinal estávamos no terceiro dia juntos e todos tinham muita experiencia para compartilhar.

Assim são os amigos trilheiros, sempre com muitas histórias engraçadas, lições de vida que nos ensina a sermos pessoas melhores a cada dia que passa.

O terceiro dia, foi muito parecido com um passeio no parque, o terreno era fácil de caminhar, sem grandes subidas ou descidas.

Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil
Laranjeiras x Funil

Ao chegarmos na rodovia SC- 390 a sensação era de dever cumprido, todos estavam muito motivados, teve gente que de tão motivado que estava, começou a correr sem parar, com as mochilas cargueiras nas costas até chegar no restaurante Mensageiro da Montanha, localizado junto ao Mirante da Serra do Rio do Rastro.

Esse restaurante é maravilhoso, conta com uma infinidade de alimentos, para todos os tipos de gostos e paladares, recomendo ir nesse local, pois é possível se servir quantas vezes quiser e o valor é atrativo!

Depois de todos terem almoçado era hora de entrar na van e retornar para Caxias do Sul/RS. Durante o trajeto de retorno, conversamos muito sobre os pontos altos da travessia, o que cada um colheu de novas experiencias e os novos aprendizados obtidos.

Uma travessia de trekking sempre irá nos proporcionar muitas amizades legais, alguns eu já conhecia, mas outros se tornaram grandes amigos. Nada como uma boa viagem para conhecer as pessoas que estão com a gente. Estou aguardando a próxima para que todos possamos nos reencontrar!

Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

Minha história com os cânions de Santa Catarina começou em 2014, quando na companhia dos amigos Gean Cenci e Marcelo Casarin, tentei realizar a travessia do Parque Nacional de São Joaquim, de Urubici à Bom Jardim da Serra. O parque é uma unidade de conservação brasileira de proteção integral da natureza, localizado nas regiões serrana e sul do estado de Santa Catarina, com território distribuído pelos municípios de Bom Jardim da Serra, Grão Pará, Lauro Müller, Orleans e Urubici.

Foi criado em 6 de julho de 1961 com o intuito de proteger os remanescentes de matas de araucárias, somando-se à relevância das terras, flora, fauna e belezas naturais, encontradas nos seus 49.300 hectares. De relevo bastante irregular, com altitude variando entre 300m e 1.822m, o parque encampa desde paisagens campestres a grandes furnas e encostas recobertas de mata nativa, com grandes desfiladeiros. As maiores altitudes ficam na região nordeste do parque, sendo que o ápice está no Morro da Igreja, em Urubici, com 1.822m. Atualmente está sob administração do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – e fechado para quaisquer atividades de ecoturismo, exceto visitação ao Morro da Igreja, mediante autorização.

Naquele ano, o clima instável combinado com um dos invernos mais quentes e chuvosos da história da região, fez com que abortássemos a atividade. Tentamos até uma pernoite no Cânion Laranjeiras – ponto de fácil acesso a partir da cidade de Bom Jardim da Serra, próximo da conhecida Fazenda Santa Cândida – porém a viração, fenômeno muito comum por lá em que o encontro das massas de ar fria e quente se transforma numa espessa neblina, atrapalhou. Daquele ano para cá tentei esta travessia outras duas vezes, sem sucesso. Era necessário ficar de olho no clima! Dias frios, com temperaturas negativas e pouca previsão de chuvas / neve são os ideais.

Como as atividades no parque estão proibidas, fechamos o grupo para a travessia do Cânion Laranjeiras ao Mirante da Serra do Rio do Rastro: Eu, Gean, Tiago e Julian. Nos dias 16 e 17 de abril, realizamos uma caminhada de entrosamento do grupo – a subida de Monte Claro, em Veranópolis – para nos conhecermos e acertar os detalhes da travessia. Gean não pode comparecer; subi na companhia dos novos e bons amigos, Julian fez belas fotos e aproveitamos demais a beleza da região.

Definimos o feriadão de 21 de abril para uma primeira tentativa, porém ao acompanharmos diariamente a previsão do tempo, vimos que a atividade não seria proveitosa. A segunda tentativa foi marcada para o feriadão de 26 de maio, novamente sem sucesso. Aquele clima abaladiço parecia não querer dar trégua! Tiago – iniciante em travessias maiores e no trekking – impaciente, queria ir a todo custo; ainda não havia saboreado a frustração de tentativas falhas. Combinou a travessia com um grupo de amigos de Carazinho, cidade onde mora, mas acabaram desistindo de última hora.

Já não víamos mais a possibilidade de realizar a travessia com o grupo. Além do clima impiedoso, Julian precisava conciliar sua saída com o trabalho, já estava devendo horas à empresa. A quem sabe esperar ensejo, tudo vem a seu tempo e desejo. Santo Antônio é padroeiro da cidade de Bento Gonçalves, onde Julian reside, venerado pela comunidade nos dias 13 de junho, neste ano, uma segunda-feira. Esta era a oportunidade! Julian poderia ir e nós também! Surpresa boa ao consultar a previsão do tempo: temperaturas negativas, vento predominante oeste, zero chance de chuva!

Ronaldo Coutinho, meteorologista da agência Climaterra da cidade de São Joaquim em Santa Catarina, confirmou a previsão que tanto aspirávamos. Tratamos de organizar as tralhas, acertamos a carona com Julian e partimos com destino à Bom Jardim da Serra no sábado, dia 11 de junho, às 4h depois de um reforçado café da madrugada. Pegamos Tiago em Vacaria, cidade convergente às nossas saídas. Pelo caminho, um misto das brumas matinais e da geada transformava a paisagem pitoresca das planuras dos campos de cima da serra.

Chegamos no mirante da Serra do Rio do Rastro às 11 h da manhã e, enquanto esperávamos a carona de Seu Miguel para a Fazenda Santa Cândida, contemplamos a beleza da serra e organizamos as mochilas. O vento estava implacável, de cortar os ossos! Uma pequena amostra do que teríamos pela frente nos próximos dias. Miguel demorou à chegar. A ida à fazenda foi lenta e cheia de sacolejo em virtude da estrada esburacada e abundante em pedras. A fazenda estava em total solidão, batemos na casa e chamamos, ninguém atendeu. O traslado saiu por R$40,00 cada. Coletamos água, fizemos algumas fotos e demos início à caminhada. Andamos uns 300 m e encontramos Seu Assis à cavalo, caseiro da fazenda, voltando para casa. Trocamos uma ideia e continuamos a empreitada.

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

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A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

Terreno úmido e escorregadio, vegetação cobrindo a bota e o vento frio castigando a cada passo. Coletamos água de um pequeno riacho e em poucos minutos adentramos na borda do Cânion Laranjeiras. A paisagem descortinava-se e exibia as elevadas escarpas rochosas formadoras do cânion. Sentamos à borda de uma pedra quase que em suspensão e fizemos algumas fotos.

Bordejamos pela trilha até o mirante principal de onde tivemos vistas espetaculares da cadeia montanhosa da Serra das Laranjeiras. No mirante notamos a presença de lixo e sinais de fogueira. Sério isso? Em pleno século 21 ainda existem pessoas sem a mínima noção sobre aventura consciente e práticas de mínimo impacto ambiental?

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

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A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

Do Laranjeiras seguimos rumo leste, por uma longa baixada encharcada. Tiago devia estar com medo de sujar ou estragar as botas novas, parou para calçar uma bota de borracha que cobre boa parte da canela. Não queria molhar os pés, mas a má transpiração das outras botas também os encharcava. Gean também usou botas de borracha, ele sim não queria estragar sua Timberland. Vai entender!

Da baixada era necessário transpor uma elevação no sentido sul para alcançar as áreas mais elevadas do circuito. Esta elevação era composta por um emaranhado de mata nebular de difícil passeio, nas partes baixa e média, e uma densa plantação de pinus elliottii, na parte mais alta. Conforme subíamos, vistas de tirar o fôlego! Observamos as longínquas montanhas da Serra do Maruim e do Morro da Igreja, em Urubici (nossa visão cobria as torres do Cindacta 2).

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

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O vento nos repreendia impiedosamente! Mal conseguíamos equilibrar os passos. O sol já nos alertava sobre seu repouso, era hora de procurar um local abrigado para pernoite. Atravessamos o pior charco da travessia, atolávamos até o joelho açoitados pela ventania insana que soprava de oeste com sensação térmica registrada em -18.3ºC. Num capão elevado eu e Gean miramos ao longe uma direção sensata à seguir e um possível local abrigado daquele turbilhão. Rasgamos outro penoso trecho de mata nebular, aclive abaixo, e chegamos em outro pequeno charco tomando o sentido oeste para pouso na base das encostas montanhosas, abrigados do vento.

Descemos para o fundo de um pequeno vale irrigado por um modesto riacho de águas límpidas e montamos as barracas num singelo espaço plano. A noite caiu rapidamente e com ela o frio avassalador. Dividi a barraca com Gean, Julian emprestou a sua, pois minha tenda para duas pessoas estava emprestada e não chegaria em tempo; ele dividiu com Tiago. Coletamos água para a janta e café da manhã, organizamos a bagunça, vesti os agasalhos em pluma de ganso, enchi o isolante térmico e entrei no saco de dormir, também de pluma. Acalentamos aquela noite fria com muita sopa, chá, chocolates e boas risadas. A parceria estava boa demais! Os amigos não se abateram frente àquela situação. Noite bem dormida.

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

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O dia raiou sereno e frio, a temperatura mínima registrada durante a noite foi de -6.2 º C e até então, este era o dia mais frio do ano. As barracas amanheceram com uma fina camada de gelo no sobre-teto. Saboreamos um delicioso e quentinho café a base de sopas, chás, grãos e cereais. Meu cappuccino estava no ponto! O trabalho mais difícil daquela manhã foi lavar a louça com as gélidas águas do regato. Incrível foi ver a água dos cantis congelando! Arrumei a mochila e seguimos a peregrinação.

O vento sussurrava calmo, frio porém. Usei balaclava e agasalho de pluma boa parte da manhã. Numa coxilha mais elevada avistamos a direção a ser seguida, predominantemente sul. Igual ao dia anterior cortamos outro penoso trecho de mata nebular e um longo campo encharcado. Nos deparamos com vários córregos congelados e em poucos minutos estávamos trilhando por uma das mais belas paisagens de toda a travessia! Vistas para as cidades de Orleans, Guatá, Lauro Müller, Tubarão e partes do litoral, incluindo a faixa de areia de algumas praias. O clima estava esplendoroso!

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

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A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

Julian entrou em transe ao fotografar uma cascata congelada num cânion próximo enquanto eu e Tiago, bem acomodados sobre um seixo, apreciávamos aquele panorama. Uma profusão de verdes enchia a vista somada àquele firmamento desanuviado: estava no paraíso! Depois de algumas fotos, continuamos por uma trilha de gado muito boa de se andar, batida, seca e longa, finalizando no capão onde paramos para almoçar, situado à base de um cânion que antecede o conhecido Funil. Protegidos do vento, saboreamos um longo e merecido lanche com um magnífico visual. Pensei comigo mesmo: você é um cara sortudo e privilegiado!

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

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Comi bastante, precisava repor as energias para a árdua subida que nos aguardava. Nada de muita conversa, concentração e fôlego eram os companheiros do momento. Ao alçarmos o topo avistei um bando de quatis procurando comida. Julian foi ao encontro do grupo para fotos e, mesmo sorrateiro, afugentou todos que corriam em desespero para longe dos estranhos invasores. Era possível avistar boa parte do trajeto que havíamos percorrido no dia incluindo o Cânion do Funil. Uma trilha batida percorria a extensão do cânion e passava em meio à outros fios de água, ainda congelados em plena tarde ensolarada. Julian avistou a formação de um arco-íris numa cachoeira que descia do Funil e que ainda estava congelada.

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

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A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

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Naquela elevação o sinal de celular era forte, percebi que Gean mudou de expressão e atitude ao ler algumas mensagens. De início não quis comentar o assunto mas antes de descermos para o Funil pedi que me contasse o que estava acontecendo, mencionou que as fortes geadas ameaçavam toda a produção de hortaliças de sua empresa. O frio mostrou as caras em Veranópolis que, por coincidência, também registrou as temperaturas mais baixas do ano até então.

Gean trabalha sozinho, toca o recente negócio próprio por conta, tem ajuda da família mas é o detentor de todo conhecimento de suas culturas hidropônicas. Estava em completo dilema! Continuar a travessia? Retornar para tentar salvar a produção do mês e atender seus clientes? A notícia já havia minado sua animação pelo restante da jornada e mesmo decidindo por continuar, seus pensamentos estariam no negócio e em seus fiéis clientes.

Como ainda havia esperança em salvar a produção, optamos por andar até o curral que fica próximo ao Funil e entramos em contato com Miguel para que viesse nos recolher. A decisão foi triste mas apoiada por todos. Restavam aproximadamente 12km para finalizar a travessia porém seria necessária mais uma pernoite. Com a definição abraçada pelo grupo chegaríamos em casa na noite daquele dia e, com isso, Gean teria tempo de trabalhar em prol de sua carta de clientes, naquele momento muito mais importante do que a caminhada.

Em pouco tempo Miguel chegou, ajeitamos as mochilas e fomos de carona até o Funil. Outro lugar fantástico repleto de formações rochosas indecifráveis. Miguel nos contou muito sobre o cânion, sobre as tentativas de escalada ao Funil e sobre os causos da região. Fizemos algumas fotos e logo estávamos na estrada que leva ao mirante da Serra do Rio do Rastro, empacados e inertes naquele trânsito apinhado de turistas das mais diversas localidades.

A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

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A Congelante Travessia do Cânion Laranjeiras ao Cânion do Funil

Ali mesmo, no meio da rodovia, liberamos seu Miguel, pegamos as mochilas e Julian seguiu na companhia de Gean até o mirante onde havíamos deixado o carro. Eu e Tiago ficamos ali no acostamento trocando de roupa e descansando. Minutos depois carregamos as mochilas e demos início ao retorno todos quietos, sem muita conversa, num mistifório de tristeza, pelo abandono da travessia, e de cansaço.

Em boa parte do caminho parecia que minha cabeça iria explodir de tanta dor, fui descobrir mais tarde que era fome! Paramos para jantar em Vacaria no único restaurante que encontramos aberto no domingo à noite em pleno dia dos namorados. Era simples e desajeitado mas com um atendimento pra lá de especial e uma comida saborosa! Tiago pegou seu carro e seguiu para Carazinho, a despedida foi animada.

Chegamos em Veranópolis às 23h; eu e Julian seguimos para o conforto de nossas casas, Gean virou a noite trabalhando e o resultado foi melhor do que o esperado: apenas 25% de perda na produção! A decisão foi sensata visto que a segunda-feira do dia 13 de junho foi o dia mais frio até então. O retorno antecipado garantiu todo mês de luta e compromisso de Gean. Embora fora dos planos iniciais tudo valeu a pena e superou as expectativas. Gratificante demais estar inserido e ligado àquela natureza exuberante na companhia do grande amigo Gean e na presença marcante dos queridos parceiros de aventura Julian e Tiago. Envolvimento foi a palavra-chave dessa jornada!

Bons ventos!

Texto: Edver Carraro