“…Foi o 20 de setembro, o precursor da liberdade.”

Segunda-feira, feriado de Independência do Estado do Rio Grande do Sul. Há quatro dias do feriadão, estava tentando programar algum trekking, porém em cada destino pensado, um empecilho comum: apenas três dias para tal façanha. Aqui onde moro é assim, a distância atrapalha um pouco o planejamento e dependendo do local planejado, existe a necessidade de incluir um ou dois dias de viagem e alguma eventual hospedagem, então pensei: “Porque não criar uma travessia por estas bandas?”

Situado em Veranópolis, Monte Claro é um dos pontos mais altos da Serra Gaúcha. Do seu topo observam-se todas as cidades que fazem fronteira com a fantástica Terra da Longevidade. A travessia tem aproximadamente 24km e um perfil altimétrico variado. Nela predominam pequenos campos de criação de gado, lavouras, plantações de laranja e pêssego, vastas parreiras e muita mata.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

A Travessia– Do Sítio à Monte Claro

A travessia oficial tem seu início a poucos metros do Rio Jaboticaba, afluente do Rio das Antas que por sua vez tem um enorme potencial em geração de energia. Um grande atrativo do Rio das Antas é a Ponte Ernesto Dornelles que divide Veranópolis de Bento Gonçalves e é considerada a maior do mundo em arcos paralelos.

A programação inicial era partir ainda no sábado 18.09, porém em virtude de um compromisso, obriguei-me a transferi-la para o domingo. Como dispunha de tempo, iniciei a caminhada do meu sítio, distante 5km do Jaboticaba. Mochila leve e apenas 3l de água. No trajeto, várias lembranças vinham à tona. Recordações de minha infância por aquela região, quando visitava meus avós e comia aquela deliciosa massa caseira com carne de panela; quando o celeiro virava QG do exército nas brincadeiras de guerrinha no mato. Que época saudável e gostosa!

Do sítio até o Jaboticaba a descida acumulada é grande e a presença de um descanso ou algum platô mais achatado é rara. Ao chegar no Jaboticaba, percebe-se a trilha bem aparente ao longo do leito do rio. Em épocas de cheia é impossível atravessa-lo a pé, por isso a recomendação de fazer a travessia em períodos de baixa afluência. Os meses mais indicados são abril a junho, setembro e dezembro.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Atravessei o rio e deparei-me com a íngreme subida da trilha. Em alguns trechos, ao invés de subir a encosta transversalmente, o caminho é reto morro acima o que dificulta muito a subida com a mochila nas costas. A fadiga é inevitável e os goles de água e as paradas mais freqüentes. O dia estava demais, o sol brilhava imponente por sobre toda aquela paisagem. As paradas eram estratégicas, sob os pés carregados de tangerina, pingados no meio da mata. Após percorrer uns 8km, encontrei um abrigo construído com lona plástica preta todo camuflado, pronto para receber seus caçadores. Esse tipo de abrigo é muito comum por aqui já que a região tem várias espécimes de aves de caça. Por um momento pensei em destruí-lo, mas se alguém estivesse por ali escondido? Estava ferrado!

Quando venci a subida da encosta, convergi numa trilha de chão batido; creio que seja utilizada pelo gado. De lá percebi o quanto já havia descido desde que iniciei a caminhada e o quanto ainda precisava subir para chegar ao topo de Monte Claro. Quando saí do chão batido, entrei numa estrada mais aberta, utilizada pelos agricultores e seus carros de boi. Até então estava sempre na mesma direção desde o início, N-S. Este é o sentido predominante da travessia, mas como o topo de Monte Claro é visível em boa parte da trilha, acaba sendo um ponto de orientação principal.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

“Tudo que é bom, dura pouco” e mal tive tempo de pegar o gostinho pela caminhada na estrada aberta, quando dei de cara com a trilha que dá acesso à base do Monte Claro. Fechada, muito fechada. A mata cobria boa parte dela e no caminho, vários cipós, árvores caídas, carrapichos, enormes teias de aranhas e suas donas com patas e abdomes imponentes, prontas para o ataque. Em aproximadamente 2km, fui obrigado a andar agachado por quase todo trajeto. Quanto mais subia, mais limpa a trilha ia ficando, eis que ao parar numa clareira, vi o calmo Rio das Antas com suas águas douradas banhadas pelo astro rei.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Confesso que foi animadora tal visão. Ali, saboreei meu lanche e um delicioso gole d’água. Fiquei sentado observando aquela exuberância com a paciência que o lugar merecia. Subi um pouco mais, saí da trilha da base e peguei um pouco de estrada de chão que dá acesso à uma comunidade que vive à beira do Rio das Antas. Após 20min de caminhada pela estrada, entrei na trilha que leva ao topo do Monte Claro.

A subida, no sentido S-NW, desta vez muito mais íngreme que as anteriores, castigou meu joelho. Faz algum tempo que estou praticando exercícios e fisioterapia para correção de uma síndrome fêmuro-patelar, mas por esquecimento, deixei a faixa compressora em casa. Dei uma parada, relaxei na paisagem deslumbrante, repus os 3l de água numa pequena cachoeirinha que descia do topo e continuei a pegada morro acima. Quanto mais subia, mais a paisagem ia descortinando-se. O sol ia abençoando cada passo e cada canto daquele pedaço de mundo. Com muito esforço cheguei onde queria, me desfiz do peso da mochila e fiquei deitado observando toda aquela beleza, digna da criação divina.

Quando o sol se pôs, armei a tenda e organizei toda a tralha. O vento soprava de todas as direções, mas alinhei a barraca com o predominante. O frio seria forte naquela noite. Preparei um delicioso chá de maçã e saboreei um gostoso chocolate. Estreei meu kit de cozinha todo de titânio, fogareiro Gnat, pesando apenas 48g, panela e spork da Rei, pesando apenas 180g. Gostei do equipamento, muito leve, prático e de excelente qualidade.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
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Foto: Edver Carraro
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Foto: Edver Carraro

Mais tarde, ouvi uma buzina muito forte ecoando pelos vales. Era o trem rasgando os montes e cruzando os rios. O Tronco Principal Sul acompanha o Rio das Antas em boa parte de sua extensão. Vi um trecho da desativada Ferrovia do Vinho, que há meses atrás eu, Cacius e Felipe percorremos e a pequena comunidade de São Luiz, onde paramos para lanchar e consertar a mochila do Felipe. O sol deu lugar à lua, que surgia dos montes, cheia e majestosa. Lanterna não era necessária. Utilizei somente para cozinhar um saboroso jantar que apreciei sentado na borda do Monte Claro, voltado para a Terra da Longevidade, sob a luz do luar. Nessas horas percebemos o quão importante a vida é. Percebemos o quanto privilegiados somos por vivermos onde vivemos e a grande responsabilidade que temos em manter vivo esse pedaço de chão.

Ao longe, o pisca-pisca frenético das cidades cheias de vida, pareciam decorações de árvore natalina. Junto com a lua, o frio chegou e o vento aumentava mais. Foi difícil ancorar a tenda naquele solo. As pedras não deixam você enfiar o espeque mais do que 5cm no solo e a escassez de pedras soltas, não permite afirma-los corretamente. O jeito foi deitar e confiar na montagem que havia feito. Durante a noite, o vento soprou forte e mudou de direção. Acordei várias vezes, pois o chacoalhar era insuportável. Levantei apenas uma vez para conferir se tudo estava normal e a lua dava espaço à nuvens que pareciam ser de chuva. O vento acalmou sua fúria por uns instantes, nessa hora adormeci e só acordaria pela manhã com a buzina de outro trem.

De Monte Claro à Pompéia

Ao acordar, vi que as nuvens cobriam todo o céu, mas a chuva estava longe (ela começou na terça-feira 21.09 e foi parar só no domingo 26.09). Dormi muito bem. Preparei um delicioso café e levantei acampamento. A barraca resistiu bem, apesar de não estar bem ancorada e devidamente esticada e montada. Ainda me surpreendo com a qualidade da marca. O destino nesse dia era a comunidade da Pompéia, onde seria resgatado. Era necessário descer o Monte Claro, pegar novamente as trilhas por onde havia passado e numa bifurcação da trilha da base, acessar outra estrada para os 6km até Pompéia.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Tudo pronto na mochila, mais leve agora, dei início à volta (parte ruim de um trekking!) e ao chegar próximo à bifurcação da estrada, ouvi um barulho que parecia ser de um trator. Corri para tentar a carona e consegui. Ao me ver, o Sr. do trator parou e pediu para onde eu ia com aquele peso todo nas costas e àquela hora da manhã em pleno feriado. Por coincidência, ele estava voltando para sua fazenda que fica pertinho da Pompéia. Aceitei a carona e fui batendo um papo bem interessante com Seu Eduardo. Fizera outro amigo.

A carreta estava carregada de tangerinas, fui saboreando ao longo da carona. Eduardo parecia ser uma pessoa bem informada e bem desenvolvida, apesar da idade que aparentava ter e da aparência castigada pelo trabalho da roça. Minha desconfiança estava certa, contou-me que havia se formado há pouco tempo em Administração de Empresas por um curso que fez na Internet. Em poucos minutos estava na frente da Igreja da capela de Nsa. Sra. da Pompéia. Ao descer da carreta perguntei: “Quanto é Seu Eduardo?”. Ele me respondeu: “Só me queira bem que não custa nada”. Agradeci sua carona e ganhei mais tangerinas para lanchar, enquanto esperava o resgate. Povo da roça é assim, humilde e de coração grande.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Poder estar inserido e desfrutar de cada segundo em meio à natureza é um troço pra lá de especial. Cheguei em casa feliz por ter conquistado o objetivo e com a certeza da volta garantida, mas para desbravar a outra face de Monte Claro. Fica aí mais uma dica de um trekking fácil, pelos vales e belas paisagens da Serra Gaúcha.

Bons ventos!

Edver Carraro para Trekking RS

Edição: Marcio Basso

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