Ferrovia Tronco Principal Sul e a Travessia Feitor Faé – Jaboticaba

Já era tarde quando recebi, pelo skype, o convite de meu amigo Geancarlos para uma pequena travessia. Ele havia comprado uma mochila nova e queria testá-la. Como havia apenas o final de semana para tal, decidimos por caminhar entre três estações ferroviárias de um pequeno trecho do Tronco Principal Sul (TPS). O TPS, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, foi entregue em partes, entre os anos de 1963 e 1965. Uniu as cidades de Mafra e Lages em Santa Catarina – daí o nome da linha Mafra-Lages – e foi construída pelo 2º Batalhão Ferroviário do Exército Brasileiro. Esse trecho transportou passageiros até 1978. Por volta de 1970, foi entregue o trecho ligando Lages / SC a Roca Salles / RS, mas este sem o transporte de passageiros. Hoje pela linha, trafegam os cargueiros da ALL, que assumiu como concessionária as linhas do Rio Grande do Sul em 1996. Unido às linhas que vinham de Itapeva, em São Paulo, via Pinhalzinho e Ponta Grossa no Paraná (entregues na primeira metade dos anos 1970), essa linha toda ficou conhecida como Tronco Principal Sul e com isso praticamente toda a antiga ferrovia Itararé-Uruguai da RVPSC (Rede de Viação Paraná – Santa Catarina) acabou por ser desativada.

Feitor Faé – Coronel Salgado

O sol raiou cedo na manhã de sábado. Enquanto terminava de arrumar a mochila, percebi que o dia seria promissor para o trekking. Sai de casa às 6h45 na carona de minha noiva, pegamos o Gean e por volta de 7h30 já estávamos na Estação Feitor Faé. Localizada no município de Vila Flores, vizinho de Veranópolis, a estação foi supostamente inaugurada em 1969. Recentemente, a ALL abriu um alojamento para maquinistas em seu pátio, com a finalidade de reduzir custos, enquanto fechou o de Roca Salles, próximo a Porto Alegre. Apesar de antigo, o prédio está muito bem conservado e situa-se próximo ao encontro da foz dos rios da Prata e do Turvo. Lugar muito bonito! Combinei com minha noiva a carona de volta para o dia seguinte e após algumas fotos, demos início à jornada.

Caminhar em linha férrea é assim: o seu passo não acompanha a distância entre os dormentes. Ora você faz o passo curto, ora você estica a perna e isso torna o progresso um tanto quanto difícil. Alternávamos entre o meio do trilho e a lateral cheia de cascalho. O sol batia forte no juízo quando surgia por entre as nuvens e a cada passo dado, Gean reclamava da regulagem da mochila. Sofreu, mas conseguiu enfim, um ajuste, digamos que perfeito. Ele ainda ficou louco de raiva quando dei minha opinião sobre a marca. E fui sincero em dizer que não gostava e que era uma porcaria! Mas como primeira mochila para iniciante, tá mais do que bom!

Nosso ritmo era lento e pelas marcações de distância ao longo da ferrovia, chegamos a uma média aproximada de três quilômetros por hora. Quando construíram a ferrovia, por padrão distanciaram as estações à aproximadamente 18km umas das outras. Com já havíamos percorrido uns 5km, concluímos que estaríamos na Estação Coronel Salgado, ponto de acampamento, por volta de 16h, afinal ainda teríamos o almoço e a parada na piscina abandonada da 4ª Secção. Conforme íamos progredindo, Gean elogiava a mochila, mas arrependeu-se por comprar um modelo de grande capacidade. O Rio da Prata nos acompanhava com suas águas lamacentas e tumultuadas. O clima abafado e a parca circulação de ar nos fizeram parar para abastecer os cantis. Água no trajeto não era problema, havia chovido bem uns dias atrás e as cascatinhas eram comuns à beira da ferrovia.

Enquanto descansávamos na entrada úmida e arejada de um túnel, demos início à gostosa comilança. Gean estreava seu novo fogareiro também. Combinamos que o fogareiro ficaria por minha conta para aquecer o jantar, mas ele não agüentou e trouxe o seu. Particularmente, não gosto de cozinhar no almoço, prefiro comer um lanche mais simples e rápido. Ele não, se entupiu de miojo! Para a inveja do Cacius e demais, logo após o lanche uma gostosa barra de chocolate foi saboreada; e põe gostosa nisso! Tralhas na mochila, pés no trilho e simbora para a piscina da 4ª Secção. Adentramos no escuro pintado de preto do túnel em U de 790m, eis que não demora muito para ouvirmos, ao longe, o som que parecia ser de um trem. Pensamos: “Justo agora?!”. Não podíamos mais voltar, pois já não avistávamos a entrada do túnel, então procuramos um guarda-vidas e lá ficamos até o trem passar. Foram incríveis 88 vagões e 02 máquinas em longos dez minutos!

Passada a experiência, saímos do túnel e pegamos uma estrada que nos levaria à vila abandonada, mais conhecida como 4ª Secção. Essa vila servia de moradia para os trabalhadores da linha e para o Batalhão do Exército que era a 1ª Cia. de Construção Ferroviária, localizada na 4ª Secção do Rio da Prata. Segundo informações ela foi abandonada no ano de 1971. Nela existiam oito casas, uma escola, um rancho com refeitório e um posto de saúde de emergência. Residiam umas 300 famílias de funcionários e mais uma companhia de soldados, com todos os militares oficiais. A vila possuía tudo que era necessário além das residências, armazém de secos e molhados, farmácia, posto de saúde, posto de combustíveis, cinema, açougue, padaria, almoxarifados para armamento e materiais, garagens, sistema de energia elétrica própria da Cia. gerada por dois robustos motores a diesel e linha de ônibus ligando a 4ª Secção do Rio da Prata até a cidade de Veranópolis diariamente. Infelizmente hoje está totalmente destruída e depredada.

Passar por entre as taperas velhas, tomadas por vegetação dá uma sensação de isolamento, de medo. Parece que você sente que algo está entre elas, o silêncio ganha vida. Entramos no que parecia o posto de saúde, porém mesmo estando abandonado há anos, observamos a marginalidade que tomava conta das paredes. Pixações que conotavam pornografia, religião e racismo nas mais diversas formas e cores. Fiquei impressionado com o raio de destruição que o ser humano pode alcançar. Deixamos a vila de lado e partimos em busca da piscina abandonada. Na época, para aliviar o calor impiedoso dos dias de verão, aproveitou-se a cascata de um rio e os moradores represaram a água que corria pedra abaixo.

 

Quando a vi, saí na corrida tirando mochila das costas e me despindo para um delicioso mergulho, afinal o calor estava insuportável. A piscina estava cheia, porém com o passar do tempo, a força do rio trouxe pedras que se acumularam no fundo em algumas partes. O meio estava limpo e ao testar sua profundidade, toquei os pés no chão, porém tive que descer muito. Após Gean também mergulhar, concluímos que havia aproximadamente uns 4 metros!

Aquele banho foi delicioso, ficamos um bom tempo curtindo o som da cachoeira, a água e recuperamos a energia gasta até então. Enchi meu cantil reserva que ia dobrado na mochila – que invenção! – pois onde acamparíamos não havia fonte alguma. Por um momento pensamos em ficar na vila próxima à piscina, mas não havia local para barracas e a distância a ser percorrida no dia seguinte, seria maior. Simplesmente, não queríamos sair de lá. A preguiça já dominava o corpo e a vontade de prosseguir era mínima. Ainda mais estando onde estávamos! Precisávamos continuar e renovados, percorremos mais alguns poucos quilômetros até avistarmos a Estação Coronel Salgado que foi aberta, possivelmente em 1969.

 

Encontramos um bom ponto para montar as barracas. Gean queria dormir sobre o pátio da estação, mais elevado em relação à ferrovia, porém como minha tenda é túnel, tivemos que dormir ao lado da rampa de acesso ao pátio. Jogamos uma boa conversa fora, preparamos um delicioso jantar, com direito a chocolate na sobremesa e improvisamos uma mesa para o jogo de cartas. Havia muitos mosquitos e todos eram atraídos pela luz das lanternas. Uma solução boa foi acendermos uma fogueira sobre a rampa de concreto do pátio. A fumaça logo os espantou. Durante o jogo de cartas, ouvimos novamente o som de um trem, dessa vez muito mais forte. Ao longe, podíamos observar o farol iluminando a copa das árvores e às 21h30 ele estava ancorando na estação. O maquinista muito gente boa, parou para trocar de pista, pois outro trem estava vindo em sentido contrário. Ficou conosco por alguns minutos, dividimos o chocolate enquanto nos mostrava o interior da locomotiva.

Quando o trem secundário alcançou a estação e sumiu por entre os vales, nos despedimos de Seu Antônio que seguiu seu caminho até Roca Salles. Era hora de deitar, ambos estávamos cansados, mas a caminhada tinha sido excelente!

Coronel Salgado – Jaboticaba

Acordamos cedo e o café foi servido por volta de 6h30. Durante a noite, outros trens passaram pelo acampamento, num total de três. Nenhum parou, mas fizeram muito barulho. Tive uma excelente noite de sono e graças à indicação do amigo Peter Tofte, as noites sobre um isolante em EVA de 1cm já ficavam para trás, afinal estreava meu inflável NeoAir da Therm-a-Rest. Me surpreendi com a qualidade do produto, muito confortável, muito prático, ocupa pouquíssimo volume quando guardado e é fácil de inflar. Após organizar a mochila, Gean percebeu que havia montado a barraca ao lado de um formigueiro gigante. Não sei como ele não percebeu antes de montar a tenda, mas a sorte foi que as habitantes não se rebelaram e não o atacaram. Imagine só a barraca cheia de formigas no meio da noite!

O dia amanheceu meio nublado, a presença do sol era rara e já cogitávamos a possibilidade de uma chuva leve. Tínhamos 18km a percorrer até a Estação Jaboticaba e era preciso manter uma média mínima de 4 km por hora, para chegarmos no ponto de resgate às 13h como combinado, pois Gean tinha um compromisso inadiável.

A manhã foi praticamente sem conversas, o ritmo era pesado e procurávamos manter a concentração para caminhar com segurança sobre as imperfeições da ferrovia. Paramos as 10h30 para um breve descanso e lanche, novamente na entrada de um túnel e ao prosseguirmos, fomos pegos de surpresa por uma vagoneta que vinha a milhão com os faróis apagados. Percebemos sua presença quando ela já estava muito próxima e a reação imediata foi a de pular para a lateral e adivinhem: distendi o músculo da panturrilha.

Passa gelol que passa, coloca uma faixa de compressão improvisada e segue o teu caminho com cuidado. Foi assim que agüentei os quilômetros restantes até a chegada em áreas particulares da Usina Hidrelétrica de Monte Claro. O trilho acompanha uma vasta extensão do reservatório formado pelo represamento das águas. Sabia que logo após a usina, havia o túnel em Y. Fiquei maravilhado em poder chegar lá, afinal faltava muito pouco até a estação, porém já eram 11h30 e ainda tínhamos de percorrer o trecho de 2km até a estação e mais 6km até o ponto de encontro, por estrada de chão. Deveria ter dito a Dai que viesse nos pegar na estação, mas esse detalhe passou batido e o sinal de celular não existia por lá.

Quando saímos do túnel em Y, a animação tomou conta. Vimos que ao lado dos trens estacionados na estação, havia um carro. Gean disse: “Corre que a gente consegue carona”. Ofegante e com dor na perna, fiquei um pouco para trás e deixei que ele se virasse com a carona, afinal me devia o chocolate. Para nossa surpresa, nosso amigo Arthur estava lá. Ele ia em direção à Bento Gonçalves e no caminho resolvera se dirigir à estação para algumas fotos das locomotivas. Sentamos no pátio da estação e lá ficamos, descansando, mandando água garganta abaixo, enquanto Arthur tirava mais fotos.

A Estação Jaboticaba foi inaugurada em 1967 e passou a ser o entroncamento entre a linha Mafra-Lages (Tronco Principal Sul) e o ramal de Bento Gonçalves, bem mais antigo e aberto em 1919, ligando Bento Gonçalves a Carlos Barbosa, na linha Porto Alegre – Caxias do Sul. Um trecho desta ferrovia abandonada, percorri em companhia dos amigos Cacius e Felipe. O trecho de Bento Gonçalves ao Rio das Antas estava pronto desde 1951, mas sem importância estratégica, seguindo para o nada, onde não havia ainda o projetado TPS. Em 1978, havia um trem turístico chamado de Trem da Uva, que fazia o percurso Jaboticaba – Bento Gonçalves, ida e volta. Quando o TPS começou a ser construído, este ramal serviu de apoio.

Combinamos a carona até a Ponte do Rio das Antas (Ponte Ernesto Dornelles), considerada a maior ponte pênsil de arcos paralelos do mundo e assim, poupamos os 6km restantes de estrada de chão. No caminho Arthur pediu que o convidássemos para um próximo trekking, ele também gostava muito do esporte e de se aventurar na natureza, porém não conseguia conciliar a atividade com os amigos. Atualizamos os números nas agendas e Arthur seguiu para seu compromisso, enquanto eu e Gean aguardávamos a chegada da carona tomando uma geladíssima Budweiser.

Fazia tempo que não trilhava com Gean, foi muito gratificante poder dividir o final de semana, um gole d’água, as risadas, a excelente companhia e até o chocolate. Voltamos para casa com o sentimento de dever cumprido, de espírito renovado e a certeza da continuação deste belo trekking. De Jaboticaba até a Estação Santa Tereza, mas aí é outro relato!

As fotos não estão muito boas, pois tirei do meu celular (ambos esqueceram as câmeras) e passei num programa para correção. Algumas não são do dia, pois tirei poucas imagens então resolvi complementar com as que tinha no meu arquivo, para mostrar mais a região.

INFORMAÇÕES TÉCNICAS

O acesso à região é fácil e em caso de emergência, várias famílias de agricultores estão dispersas pelas redondezas da ferrovia;

A travessia não é exigente em termos de terreno e preparo físico. Ela acaba se tornando cansativa em virtude de não haver variação no perfil altimétrico, do grosso cascalho e do espaçamento nos dormentes;

A melhor época para fazê-la é no inverno, que coincide com o período de chuvas, porém há maior circulação de trens. No verão a água é escassa e se for fazê-la é bom deixar para uns dias depois de eventuais chuvas e a passagem dos trens reduz consideravelmente (eles circulam mais à noite);

Aqui vale o equipamento básico do básico. Para acampar, pode-se utilizar bivaque. A região é bem propícia para tal, inclusive pertinho da piscina. Lanterna é indispensável para cruzar os túneis. Neles há riscos de lascas soltas dos trilhos e se você não se ligar, pode se machucar gravemente, com direito à infecção, tétano e por aí vai. Sem falar que se você encontrar um trem dentro do túnel, não saberá para que lado procurar um guarda-vidas.

Bons ventos!

Edver Carraro para Trekking RS

Edição: Marcio Basso

Relato fotográfico: Travessia Morro da Igreja SC x Serra da Rocinha RS

Esta travessia faz parte do projeto pessoal de Tiago de Pellegrini Korb: Travessia Trans Aparados da Serra RS/SC. Será uma travessia com cerca de 320 Km entre a rodovia Rota do Sol (trevo para Cambará do Sul RS), até Alfredo Vagner SC. Atualmente o projeto desta grande travessia brasileira esta em andamento com 3/5 já realizados.

Fotos: Tiago de Pellegrini Korb

Nas fotos abaixo apresento duas partes já realizadas no ano de 2014. Começamos no Morro da Igreja em Urubici SC e caminhamos até a Serra da Rocinha, mais precisamente no Vale das Trutas em São José dos Ausentes RS.

1° DIA: Morro da Igreja até os Campos de Santa Barbará – SC.

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2° DIA: Campos de Santa Barbará ao Cânion das Laranjeiras – SC.

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3° DIA: Cânion das Laranjeiras ao Cânion do Funil – SC.

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4° DIA: Cânion do Funil até a Serra do Rio do Rastro – SC.

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5° DIA: Serra do Rio do Rastro até a Serra da Veneza – SC.

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6° DIA: Serra da Veneza até o Cânion da Cruzinha – SC/RS.

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7° DIA: Cânion da Cruzinha até o Cânion Amola Faca – RS.

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8° DIA: Cânion Amola Faca até o Vale das Trutas na Serra da Rocinha – RS.

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Dados da travessia:
Distância: 155,319 Km a pé (aferido por GPS).
Altimetria: aclive acumulado de 4519 metros e declive acumulado de 4924 metros.

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Visualização da travessia no Google Earth:

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Tiago de Pellegrini Korb
55 3317 3400
55 8407 1646 (Oi)
www.clubetrekking.com.br
Skype: tiagokorb

Do Sítio à Monte Claro – Uma Nova Travessia

“…Foi o 20 de setembro, o precursor da liberdade.”

Segunda-feira, feriado de Independência do Estado do Rio Grande do Sul. Há quatro dias do feriadão, estava tentando programar algum trekking, porém em cada destino pensado, um empecilho comum: apenas três dias para tal façanha. Aqui onde moro é assim, a distância atrapalha um pouco o planejamento e dependendo do local planejado, existe a necessidade de incluir um ou dois dias de viagem e alguma eventual hospedagem, então pensei: “Porque não criar uma travessia por estas bandas?”

Situado em Veranópolis, Monte Claro é um dos pontos mais altos da Serra Gaúcha. Do seu topo observam-se todas as cidades que fazem fronteira com a fantástica Terra da Longevidade. A travessia tem aproximadamente 24km e um perfil altimétrico variado. Nela predominam pequenos campos de criação de gado, lavouras, plantações de laranja e pêssego, vastas parreiras e muita mata.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

A Travessia– Do Sítio à Monte Claro

A travessia oficial tem seu início a poucos metros do Rio Jaboticaba, afluente do Rio das Antas que por sua vez tem um enorme potencial em geração de energia. Um grande atrativo do Rio das Antas é a Ponte Ernesto Dornelles que divide Veranópolis de Bento Gonçalves e é considerada a maior do mundo em arcos paralelos.

A programação inicial era partir ainda no sábado 18.09, porém em virtude de um compromisso, obriguei-me a transferi-la para o domingo. Como dispunha de tempo, iniciei a caminhada do meu sítio, distante 5km do Jaboticaba. Mochila leve e apenas 3l de água. No trajeto, várias lembranças vinham à tona. Recordações de minha infância por aquela região, quando visitava meus avós e comia aquela deliciosa massa caseira com carne de panela; quando o celeiro virava QG do exército nas brincadeiras de guerrinha no mato. Que época saudável e gostosa!

Do sítio até o Jaboticaba a descida acumulada é grande e a presença de um descanso ou algum platô mais achatado é rara. Ao chegar no Jaboticaba, percebe-se a trilha bem aparente ao longo do leito do rio. Em épocas de cheia é impossível atravessa-lo a pé, por isso a recomendação de fazer a travessia em períodos de baixa afluência. Os meses mais indicados são abril a junho, setembro e dezembro.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Atravessei o rio e deparei-me com a íngreme subida da trilha. Em alguns trechos, ao invés de subir a encosta transversalmente, o caminho é reto morro acima o que dificulta muito a subida com a mochila nas costas. A fadiga é inevitável e os goles de água e as paradas mais freqüentes. O dia estava demais, o sol brilhava imponente por sobre toda aquela paisagem. As paradas eram estratégicas, sob os pés carregados de tangerina, pingados no meio da mata. Após percorrer uns 8km, encontrei um abrigo construído com lona plástica preta todo camuflado, pronto para receber seus caçadores. Esse tipo de abrigo é muito comum por aqui já que a região tem várias espécimes de aves de caça. Por um momento pensei em destruí-lo, mas se alguém estivesse por ali escondido? Estava ferrado!

Quando venci a subida da encosta, convergi numa trilha de chão batido; creio que seja utilizada pelo gado. De lá percebi o quanto já havia descido desde que iniciei a caminhada e o quanto ainda precisava subir para chegar ao topo de Monte Claro. Quando saí do chão batido, entrei numa estrada mais aberta, utilizada pelos agricultores e seus carros de boi. Até então estava sempre na mesma direção desde o início, N-S. Este é o sentido predominante da travessia, mas como o topo de Monte Claro é visível em boa parte da trilha, acaba sendo um ponto de orientação principal.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

“Tudo que é bom, dura pouco” e mal tive tempo de pegar o gostinho pela caminhada na estrada aberta, quando dei de cara com a trilha que dá acesso à base do Monte Claro. Fechada, muito fechada. A mata cobria boa parte dela e no caminho, vários cipós, árvores caídas, carrapichos, enormes teias de aranhas e suas donas com patas e abdomes imponentes, prontas para o ataque. Em aproximadamente 2km, fui obrigado a andar agachado por quase todo trajeto. Quanto mais subia, mais limpa a trilha ia ficando, eis que ao parar numa clareira, vi o calmo Rio das Antas com suas águas douradas banhadas pelo astro rei.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Confesso que foi animadora tal visão. Ali, saboreei meu lanche e um delicioso gole d’água. Fiquei sentado observando aquela exuberância com a paciência que o lugar merecia. Subi um pouco mais, saí da trilha da base e peguei um pouco de estrada de chão que dá acesso à uma comunidade que vive à beira do Rio das Antas. Após 20min de caminhada pela estrada, entrei na trilha que leva ao topo do Monte Claro.

A subida, no sentido S-NW, desta vez muito mais íngreme que as anteriores, castigou meu joelho. Faz algum tempo que estou praticando exercícios e fisioterapia para correção de uma síndrome fêmuro-patelar, mas por esquecimento, deixei a faixa compressora em casa. Dei uma parada, relaxei na paisagem deslumbrante, repus os 3l de água numa pequena cachoeirinha que descia do topo e continuei a pegada morro acima. Quanto mais subia, mais a paisagem ia descortinando-se. O sol ia abençoando cada passo e cada canto daquele pedaço de mundo. Com muito esforço cheguei onde queria, me desfiz do peso da mochila e fiquei deitado observando toda aquela beleza, digna da criação divina.

Quando o sol se pôs, armei a tenda e organizei toda a tralha. O vento soprava de todas as direções, mas alinhei a barraca com o predominante. O frio seria forte naquela noite. Preparei um delicioso chá de maçã e saboreei um gostoso chocolate. Estreei meu kit de cozinha todo de titânio, fogareiro Gnat, pesando apenas 48g, panela e spork da Rei, pesando apenas 180g. Gostei do equipamento, muito leve, prático e de excelente qualidade.

Foto: Edver Carraro
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Foto: Edver Carraro
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Foto: Edver Carraro

Mais tarde, ouvi uma buzina muito forte ecoando pelos vales. Era o trem rasgando os montes e cruzando os rios. O Tronco Principal Sul acompanha o Rio das Antas em boa parte de sua extensão. Vi um trecho da desativada Ferrovia do Vinho, que há meses atrás eu, Cacius e Felipe percorremos e a pequena comunidade de São Luiz, onde paramos para lanchar e consertar a mochila do Felipe. O sol deu lugar à lua, que surgia dos montes, cheia e majestosa. Lanterna não era necessária. Utilizei somente para cozinhar um saboroso jantar que apreciei sentado na borda do Monte Claro, voltado para a Terra da Longevidade, sob a luz do luar. Nessas horas percebemos o quão importante a vida é. Percebemos o quanto privilegiados somos por vivermos onde vivemos e a grande responsabilidade que temos em manter vivo esse pedaço de chão.

Ao longe, o pisca-pisca frenético das cidades cheias de vida, pareciam decorações de árvore natalina. Junto com a lua, o frio chegou e o vento aumentava mais. Foi difícil ancorar a tenda naquele solo. As pedras não deixam você enfiar o espeque mais do que 5cm no solo e a escassez de pedras soltas, não permite afirma-los corretamente. O jeito foi deitar e confiar na montagem que havia feito. Durante a noite, o vento soprou forte e mudou de direção. Acordei várias vezes, pois o chacoalhar era insuportável. Levantei apenas uma vez para conferir se tudo estava normal e a lua dava espaço à nuvens que pareciam ser de chuva. O vento acalmou sua fúria por uns instantes, nessa hora adormeci e só acordaria pela manhã com a buzina de outro trem.

De Monte Claro à Pompéia

Ao acordar, vi que as nuvens cobriam todo o céu, mas a chuva estava longe (ela começou na terça-feira 21.09 e foi parar só no domingo 26.09). Dormi muito bem. Preparei um delicioso café e levantei acampamento. A barraca resistiu bem, apesar de não estar bem ancorada e devidamente esticada e montada. Ainda me surpreendo com a qualidade da marca. O destino nesse dia era a comunidade da Pompéia, onde seria resgatado. Era necessário descer o Monte Claro, pegar novamente as trilhas por onde havia passado e numa bifurcação da trilha da base, acessar outra estrada para os 6km até Pompéia.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Tudo pronto na mochila, mais leve agora, dei início à volta (parte ruim de um trekking!) e ao chegar próximo à bifurcação da estrada, ouvi um barulho que parecia ser de um trator. Corri para tentar a carona e consegui. Ao me ver, o Sr. do trator parou e pediu para onde eu ia com aquele peso todo nas costas e àquela hora da manhã em pleno feriado. Por coincidência, ele estava voltando para sua fazenda que fica pertinho da Pompéia. Aceitei a carona e fui batendo um papo bem interessante com Seu Eduardo. Fizera outro amigo.

A carreta estava carregada de tangerinas, fui saboreando ao longo da carona. Eduardo parecia ser uma pessoa bem informada e bem desenvolvida, apesar da idade que aparentava ter e da aparência castigada pelo trabalho da roça. Minha desconfiança estava certa, contou-me que havia se formado há pouco tempo em Administração de Empresas por um curso que fez na Internet. Em poucos minutos estava na frente da Igreja da capela de Nsa. Sra. da Pompéia. Ao descer da carreta perguntei: “Quanto é Seu Eduardo?”. Ele me respondeu: “Só me queira bem que não custa nada”. Agradeci sua carona e ganhei mais tangerinas para lanchar, enquanto esperava o resgate. Povo da roça é assim, humilde e de coração grande.

Foto: Edver Carraro
Foto: Edver Carraro

Poder estar inserido e desfrutar de cada segundo em meio à natureza é um troço pra lá de especial. Cheguei em casa feliz por ter conquistado o objetivo e com a certeza da volta garantida, mas para desbravar a outra face de Monte Claro. Fica aí mais uma dica de um trekking fácil, pelos vales e belas paisagens da Serra Gaúcha.

Bons ventos!

Edver Carraro para Trekking RS

Edição: Marcio Basso