1º Dia: Toca do Lobo até o Alto do Capim Amarelo

Nossa expectativa era grande. Antes de partir, além de toda informação que já tínhamos em nosso planejamento, pegamos ainda várias dicas muito importantes com o Amigo Rodolfo Guedes do Hostel Harpia (Passa Quatro, MG) e com o nosso “motora do jipe” Thomás. Acordamos cedo, revisamos todo equipamento, tomamos aquele cafezão e partimos de jipe para a toca do lobo, o ponto de partida da travessia. A subida do estradão com o 4 x 4 já disparou uma boa dose de adrenalina, grande parte da estrada até a toca do lobo pode ser feita de carro, porém, após a primeira porteira o acesso só é possível com veículo traçado ou seguindo a pé a partir daquele ponto. Ao lado a nossa primeira foto da travessia na Toca do Lobo

2+
Toca do Lobo

Já no início da aventura o visual é um espetáculo, logo na primeira subida já é possível visualizar as cidades de Cruzeiro e Cachoeira Paulista, a Sudoeste. Também é possível visualizar vários trechos da Via Dutra. No começo da pernada a trilha é bastante visível e a cada subida conseguimos visualizar o trecho percorrido e o próximo trecho a percorrer. A subida íngreme é a principal característica. Até o Topo do Capim Amarelo há no mínimo 5 pontos que oferecem boas condições de acampamento. Outra peculiaridade da subida do primeiro dia é que em grande parte do trecho é possível visualizar o Topo do Capim Amarelo. Os trechos são bastante variados, alternando entre trilhas na Crista as Montanhas, um longo trecho caminhando dentre o capim alto e no final, um trecho de trilha entre árvores e taquareiras.

3+
Subida para Capim Amarelo

A chegada próximo ao Topo do Capim amarelo é sensacional. Logo após o final da trilha da subida pelo mato já temos um panorama geral da Serra da Mantiqueira e conseguimos visualizar a imponente Pedra da Mina à Leste, nosso objetivo do próximo dia. Após o visual da Foto ao lado, ainda há mais um trecho de subida para alcançar o Topo final do Capim Amarelo, mais alguns minutos e estaremos lá. O Topo do Capim Amarelo é incrível, as tosseiras de capim alto atingem até 2 metros de altura e existem vários locais para montar acampamento. O local forma uma pequeno labirinto através do capim e outro aspecto interessante é que o Capim Alto oferece uma ótima proteção contra o vento.

4+
Primeiro visual da Pedra da Mina

Após o fim da subida a ordem é montar acampamento e, se o tempo estiver bom, esperar o espetáculo do Por do Sol a 2.570 metros de altura. Já no primeiro dia contamos com esse magnífico visual lá do alto do Capim. A gente não parava de fotografar, uma foto melhor que a outra. Não tem jeito, é assim mesmo considerando que o por do Sol dura somente alguns minutos, então, aproveitamos ao máximo. Interessante aqui é fazer fotos utilizando o recurso de sombras, fica muito legal. O final do primeiro dia de Serra Fina foi assim, em seguida, preparamos uma massa miojo para repor a energias, ficamos jogando um pouco de conversa fora e partimos pro sono.

5+
Pôr do sol no Capim Amarelo

Data do relato: 23 a 26/08/2013

Texto e Fotos: Cristiano Da Cruz

11021070_10204793054479848_9021972409366032381_n

Contato: www.indiadabuena.com.br

Veja o primeiro relato de uma das travessias mais difíceis do Brasil – Serra Fina

Há algum tempo já vinha pensando em fazer a travessia da Serra Fina, ouvia inúmeras histórias e a vontade de encarar o desafio era cada vez maior até que chegou a nossa hora. Desde 2012 estava juntando informações e estudando o percurso e em Agosto de 2013 o desafio foi superado. A travessia foi realizada nos dias 23, 24, 25 e 26/08/2013 debaixo de céu azul, noites frias e estreladas com os Amigos Paulo Adair Manjabosco de Garibaldi e Samuel Tolbach de Livramento.Todo conteúdo aqui descrito foi baseado nas informações levantadas e estudadas antes e durante o trajeto que realizamos na Serra da Mantiqueira. Quero agradecer antecipadamente ao amigo Tiago Korb de Santa Maria por ter nos fornecido cópia do Mapa e informações muito importantes sobre a Travessia.

A Serra Fina é uma parte da Serra da Mantiqueira, por sua vez uma das mais importantes cadeias de montanhas do Brasil. Situa-se em sua quase totalidade na divisa entre os estados de Minas Gerais (município de Passa Quatro), São Paulo e Rio de Janeiro. É vizinha ao Maciço de Itatiaia, onde se situam o Parque Nacional de Itatiaia e o Pico das Agulhas Negras; os dois maciços são visíveis entre si. A Serra Fina tem um dos maiores desníveis topográficos do território brasileiro e a quinta mais alta montanha do Brasil: a Pedra da Mina (2.798 metros). Na extremidade leste da Serra Fina, também se destaca o Pico dos Três Estados (2.665 metros), em cujo topo está o ponto tríplice onde se unem as divisas dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

Fonte: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Serra_Fina).

A Serra Fina é considerada por muitos montanhistas a travessia mais difícil do Brasil, inclusive, servindo de treino para quem pretende escalar montanhas maiores que ficam fora do Brasil como o Everest (Himalaia, Tibet/Nepal) e o Aconcágua (Cordilheira dos Andes, Argentina). A “Serra Fina” tem esse nome devido ao formato da Travessia que em grande parte do trajeto ocorre pelas “cristas” das montanhas que em alguns pontos chegam a apenas 1 metro de largura. A Travessia é considerada a mais difícil do Brasil, não somente pelo relevo, pelas trilhas fechadas, pelo trechos de capim alto e fechado e pelos desníveis que passam de 1.000 metros por dia, mas pela escassez de água durante a travessia que na sua forma mais tradicional dura cerca de 3 a 5 dias. Por isso, se faz necessário carregar bastante água em grande parte do trajeto o que torna a bagagem ainda mais pesada.

É de fundamental importância planejar a alimentação em relação ao uso de água para o seu preparo. Nós planejamos nossa alimentação seguindo o padrão de 3 refeições diárias da seguinte forma: café da manhã (Café e Leite em Pó ou Todinho, Pães e Aveia), para o almoço optamos por lanches rápidos (Pães, Sardinha, Atum, Azeitonas, Sucos em Caixinha), para o jantar (arroz com linguiça massa miojo, lentilha e feijão pré-cozidos). Assim, como haviam pontos de água antes do Capim Amarelo e da Pedra a Mina optamos pela massa no primeiro dia e pelo arroz com linguiça no segundo, a lentilha e o feijão deixamos para o terceiro dia por serem refeições que não necessitavam de água para sua preparação, além disso, a água obtida após a descida da Pedra da Mina tinha que durar até o final da travessia. Levamos também lanches leves como barras de cereal, frutas secas, rapaduras e torones.

A travessia exige excelente preparo físico, equipamentos apropriados e boas noções de orientação terrestre, pois existem vários pontos do trajeto onde há bifurcações e trilhas onde perde-se facilmente a noção da direção correta que deve ser seguida. O trajeto é bastante variado, alternando entre trechos com trilhas, mata, pedras, capim alto, muitas taquareiras, trechos de pura rocha, muito sol e com visuais espetaculares. A principal característica é sem dúvida o desnível do terreno que em 90% do percurso é subindo ou descendo, essa peculiaridade, aliada ao peso da mochila cargueira torna o caminho bastante desgastante e complicado.

O tempo foi nosso amigo mais uma vez, nos 4 dias de travessia não caiu uma gota de chuva sequer, os dias eram abertos e quentes com visual perfeito em todas direções e as noites eram bastante frias, em alguns trechos mais difíceis da travessia o tempo estava nublado, o que também contribuiu para evitar o desgaste devido ao calor do sol. A noite que passamos acampados na Pedra da Mina, registramos temperatura abaixo de Zero e geada do lado de fora das barracas. Mas Bah Tchê! Que Frio!

Literalmente, os “pontos altos” da travessia são a chegada no Capim Amarelo após subir quase 1.200 metros onde temos um visual 360 graus das montanhas e de onde já é possível visualizar grande parte do trajeto do dia seguinte, inclusive a Pedra da Mina que é o ponto de maior altitude do percurso e o Pico dos Três Estados. Em todos estes 3 pontos citados acima, é possível visualizar o trajeto realizado no dia anterior e o próximo que deve ser seguido.

Levei 4 baterias reservas para a câmera fotográfica, pois além do desafio de realizar a travessia, considero muito importante registrar os melhores momentos e os locais por onde passamos, sem contar o fato de gostar muito de fotografar a natureza e contemplar as belíssimas paisagens da Serra da Mantiqueira.

Fizemos o percurso tradicional que é realizado em 3 a 5 dias e é distribuído da seguinte forma:

1º Dia (Cor VERDE): Toca do Lobo até o Alto do Capim Amarelo. Saída de cerca de 1.400 até 2.570 metros, uma subida curta e íngreme de quase 1.200 metros. No primeiro dia há 2 pontos de água bastante acessíveis. O primeiro logo na saída em frente à Toca do Lobo e o segundo aproximadamente 1.770 metros na subida no lado direito da Trilha. Dá pra ouvir o barulho da água na subida e o ponto é fácilmente encontrado. Aqui aconselha-se encher todos os reservatórios.

2º Dia (Cor VERMELHA): Capim Amarelo até Pedra da Mina. Saída de 2.570 até 2.798 metros, com inúmeras descidas e subidas, sendo a última a mais forte. No segundo dia a diferença de altura entre o ponto de saída e o ponto de chegada é de apenas 228 metros, no entanto, devido ao grande número de subidas e descidas, o desnível acumulado chega quase novamente aos 1.200 metros. Importante comentar também que antes da subida da Pedra da Mina há outros dois pontos onde é possível encontrar água para reabastecer.

3º Dia (Cor AZUL): Pedra da Mina até a Pico dos Três Estados. Saída de 2.798 até 2.665, passando pelo vale do Ruah e Morro Cupim de Boi. O Vale do Ruah é um dos pontos mais impressionantes da travessia, trata-se de uma planície logo após uma descida de 300 metros partindo da Pedra da Mina onde é preciso atravessar toceiras de capim alto e cortante que em alguns trechos podem chegar a mais de 2 metros de altura. No solo, alguns trechos com erosão fazem o “índio” desaparecer totalmente no meio do capim. Vale citar também que no meio do vale do Ruah há um riacho onde é possível reabastecer à água. Importante saber que este é o último ponto de água até praticamente o final da Travessia.

4º Dia (Cor AMARELA): Pico dos Três Estados até o Sítio do Pierre na BR 354. Saída de 2.665 até 1.530, passando pelo alto dos Ivos, uma descida de quase 1.200 metros.

1

Antes de iniciar a aventura, é de extrema importância realizar um planejamento minucioso do trajeto, equipamentos, alimentação, água, acampamentos, sem contar que a previsão do tempo também é fundamental, pois com o tempo bom os visuais de todo o trajeto compensam qualquer esforço.

Em vários trechos da caminhada é comum encontrar fitas vermelhas e amarelas amarradas em pontos de fácil visibilidade, além disso, existem também tótens feitos de pedras que orientam os principais pontos da travessia, portanto, se encontrar tótens e/ou fitas presas nas árvores, sorria, você está no caminho certo. Mas não se engane que a travessia se torna simples ou fácil por conta disso, jamais pense em realizar a travessia se não tiver nenhuma experiência e bons equipamentos, assim, o mais recomendável é ir com alguém que conheça o trajeto e/ou tenha ótimas noções de orientação terrestre.

A temporada ideal para realização da travessia é nos meses mais frios que vão desde Abril até o final de Agosto, caso contrário, às fortes chuvas irão atrapalhar a travessia e prejudicar bastante o visual. Tivemos a sorte grande de passar 4 dias na Serra Fina com tempo bom e aberto, nos 3 acampamentos realizados o espetáculo do por e do nascer do sol foram experiências e imagens sem dúvida inesquecíveis.

A seguir vou descrever nossa experiência dia a dia na Travessia da Serra Fina e saliento novamente a importância de planejar, planejar e planejar tudo, cercando-se de todas as informações possíveis antes de iniciar a aventura.

Data do relato: 23 a 26/08/2013

Texto e Fotos: Cristiano Da Cruz

11021070_10204793054479848_9021972409366032381_n

Contato: www.indiadabuena.com.br

Conheça o ponto mais alto do Rio Grande do Sul

O pico, com 1.403 metros, fica na borda do Cânion Monte Negro, a 45 km do centro da cidade de São José dos Ausentes – RS, com acesso pela estrada municipal Silveira e passando por dentro de uma fazenda. É possível chegar de carro bem perto, o que facilita a caminhada.

Para os aventureiros de plantão este é um verdadeiro tesouro. Há inúmeros locais para serem explorados e para se tirar fotos. É possível realizar caminhas pela borda dos paredões e algumas pousadas-fazendas próximas realizam cavalgadas nos cânions. O acesso ao ponto mais alto exige preparo físico. É necessário estar munido de água e ótimo fôlego. A subida íngreme e a altitude exigem muito do aventureiro, mas a vista recompensa. Do alto é possível ver as fendas dos cânions.

2676068934_5974016357_o

 

528298033_11441aea69_o

Ao lado do Pico Monte Negro esta o Cânion Monte Negro e as trilhas são as mesmas que leva ao Pico. O Cânion possui 700 metros de profundidade em uma altitude média de 1.300 metros e extensão de 4 quilômetros.
Você não precisa de Guia para visitar o Pico e o Cânion, embora sempre aconselhamos a utilizar.  As trilhas são curtas e podem chegar no máximo 2 quilômetros sempre as bordas. Se você quiser explorar mais as bordas do grande Cânion do Monte Negro você terá que contratar um Guia.
O trecho de estrada é de saibro e parte de estrada de chão batido.

Sem título

Sem título2

O horário ideal para se visitar o cânion do Monte Negro é pela manhã, para evitar o fenômeno chamado “viração”, devido à diferença de pressão entre o litoral e os campos de cima da serra, uma camada espessa de nuvens emerge, cobrindo o cânion e impedindo a visibilidade.

Assista o Vídeo – Fenômeno Viração:

Como chegar:

Com acesso pela estrada Municipal Silveira. O caminho é de chão, mas chega-se de carro ao estacionamento na base pico do Monte Negro, terminando o percurso a pé, sem dificuldades, junto a borda da Escarpa da Serra Geral e muito próximo da divisa com o estado de Santa Catarina e dá o nome ao Cânion nas suas proximidades (grande falha geológica, intensamente erodida/escavada pela drenagem copiosa).

ausentesmapa1
Fonte: Renato Grimm
Edição: Luís H. Fritsch

A desafiadora Travessia Bairro Alto x Marco 22 PR, último dia.

5º DIA: Sábado 23/08/2014.

Não demorei muito para levantar, pois os passarinhos e a claridade não deixavam mais dormir. Tomamos nosso café e guardamos os equipamentos na mochila mais rapidamente do que nos dias anteriores. Tínhamos que fazer render aquele sábado para chegar a tempo para encontrar o nosso resgate.

Descemos a Garganta 235 e logo chegamos ao rio Mãe Catira.

15032204198_794b89c779_o

 

15031999579_0e987dea3d_o

15218790585_08310589bd_o

E por trilha, chegamos à falha geográfica do Diabásio. Este, por sua vez, um verdadeiro espetáculo da natureza, consistindo em um paredão de rocha que se estende por dezenas de quilômetros e coberto por lindo musgo verde. Maravilhado, o Tiago tirou várias fotos. Enquanto isso, segui um pouco à frente para vistoriar aquele incrível local.

15195757376_a4b12ab87a_o

Logo à frente vinham dois rapazes vindo do sentido da Graciosa. Quando chegaram mais perto, pude reconhecer Élcio Douglas e Jurandir Constantino, duas feras do montanhismo, que realizaram a grande travessia Alpha Crucis (a mais difícil do Brasil). Foi uma grande surpresa encontrá-los ali, na verdade, foi uma agradável surpresa para todos.

15032214707_681c707646_o

O nosso grupo ficou conversando com eles por uns bons minutos, sobre a nossa travessia, sobre aquele lugar maravilhoso no qual estávamos, Alpha Crucis, Farinha Seca e entre outros. O Élcio nos falou que também passou pelo Sérgio, que estava a uns 20 minutos a frente de nós. E nos informou que faltavam apenas umas três horas para chegar até a Graciosa. Ficamos super felizes com a notícia, pois era um pouco mais de 10:00 da manhã e estávamos com muita sobra de tempo até o nosso resgate.

Tiramos fotos com nossos amigos para registrar o momento e em seguida nos despedimos deles que estavam indo abrir a trilha para o Morro Tangará. Espero, em breve, poder prestigiar a trilha nova.

Em pouco tempo chegamos ao topo da cachoeira Mãe Catira e descemos pela sua esquerda.

15218399902_d0bfe66d3a_o

15032213577_a116199eee_o

Essa cachoeira é muito bonita, possuindo cerca de 25 metros. O Tiago se posicionou na sua frente para tirar fotos. Eu pedi uma foto minha olhando para ela. Fui escolhendo cuidadosamente as pedras que ia pisar para chegar na posição certa, pois algumas ali estavam um sabão.

15218788025_5ba90e75fa_o

 

Logo apareceu o Marcelo, que também pediu uma foto. Na pressa, acabou escorregando em uma pedra. A risada foi geral.
Na sequência chegou o Fábio, que também queria foto em frente à cachoeira. Ele conseguiu cair em alto estilo na mesma pedra em que o Marcelo escorregou.

15218787625_32bab2d24c_o

15195750266_80ff629bf3_o

Mais adiante da cachoeira, haviam poços muito bons para banho (dica do Élcio) e como tínhamos tempo de sobra até o resgate, resolvemos curtir um pouco o local e tomar um banho.

Tirei a bota e coloquei o pé na água. Ela estava muito gelada! No relógio do Tiago a temperatura da água era de 12 graus! Apesar dos quatro dias sem banho, não me encorajava mergulhar com roupa e tudo naquela água gelada. O jeito foi ir aos poucos. Almoçamos ali mesmo.

Depois de quase duas horas descansando retomamos a trilha rumo ao final de nossa travessia. Faltavam somente 9 Km até o Marco 22 da Estrada da Graciosa. E a trilha era bem marcada e bem fácil de caminhar. Além disso, passava por uma mata atlântica nativa muito linda. Haviam xaxins gigantescos, arvores de troncos grossos, cogumelos de proporções anormais. Assim enchemos nossos olhos com a belíssima mata no trecho final de nossa travessia.

15195754576_6e4d9c08a9_o

15032096800_629648e201_o

15218396982_9a14f89283_o

 

15032198998_5934215060_o

15218396032_f8a8e6a1b4_o

Chegamos ao Marco 22 da Graciosa por volta das 15:00. Se não tivéssemos feito aquela longa pausa no Mãe Catira, teríamos terminado em torno das 13:00.

15195751756_e125e45106_o

15218395142_ceeecf0c4d_o

 

A estrada da Graciosa estava bem movimentada e cada carro que cruzava por nós dava uma buzinadinha ou as pessoas gritavam para nós.

15032197118_27ee7849c6_o

15218783905_72924d99e0_o

Assim que chegamos no primeiro Recando, local combinado para o resgate enviamos uma mensagem para a Sandra avisando que havíamos concluído a travessia. Mandei uma mensagem para a minha mãe ir preparando o rango.

Enquanto esperávamos nossa amiga nos resgatar, eu e o Marcelo compramos água de coco. Assim que cada um terminou, resolvemos aproveitar a poupa do fruto, enfiando o canivete pelo buraco do coco e puxando as lascas com as mãos. Umas senhoras turistas que estavam na fila do banheiro nos assistiam apavoradas a nossa fome.

A dificuldade da travessia nos fez crescer, tanto na pratica do montanhismo, tal qual como pessoas. Uma experiência ímpar. Mesmo tendo sido uma travessia bem difícil, na minha opinião foi a melhor que já fiz!

Esta foi a nossa homenagem do Clube Trekking Santa Maria RS para a Semana da Montanha do Paraná 2014. Uma bela travessia e sem dúvida uma das mais difíceis do país.

Agradecemos especialmente as pessoas que tornaram essa travessia uma experiência em sucesso:
A Sandra Elize (Mulheres na Montanha), pela ótima logística que nos proporcionou para que tivéssemos êxito.
Elcio Douglas, pelos roteiros de trekking, paciência em tirar todas as dúvidas e pela abertura da trilha do Colina Verde até o Marco 22 junto com o Mildo Junior e Jurandir Constantino.
Getulio Rainer Vogetta (Associaçãoão Montanhistas de Cristo), sempre muitíssimo prestativo seja pela ajuda com todo roteiro e as dezenas de dicas e informações sobre a travessia.
Também Geraldo Protzek e ao Natan Fabricio Loureiro Lima (Nas Nuvens Montanhismo) pela disposição em ajudar e retirar dúvidas.

Dados do 5º dia da travessia:
Distância: 10,2 Km a pé.
Altimetria: 694 metros de aclive acumulado e 936 metros de declive acumulado.

15218796595_b7f586ba7b_o

Google Earth:

15032210188_21fdd3f3bb_o

Dados finais da Travessia Bairro Alto x Marco 22 PR:
Distância total: 48,30 Km a pé.
Aclive acumulado total: 6566 metros
Declive acumulado total: 5888 metros

15259609522_f1956bbc00_o

Texto: Luciana Gomes Moro
Fotos e dados: Tiago de Pellegrini Korb
Site: www.clubetrekking.com.br

A desafiadora Travessia Bairro Alto x Marco 22 PR, quarto dia

4º DIA: Sexta-feira 22/08/2014.

Acordamos assim que começou a clarear o dia. Tomamos o café e arrumamos as coisas na mochila rapidamente. O fato de ter bivacado ajudou muito na questão da agilidade para guardar o equipamento.

Com pressa, saímos a procura da continuação da trilha, que encontramos a uns 90º de desvio de onde estávamos indo na noite anterior.

Descemos mais em direção ao vale do Siri. O mato era bem fechado e começaram a surgir várias fendas bem profundas.

Se tivéssemos percorrido essa trilha no escuro, possivelmente alguém cairia em alguma delas, e um resgate ali é bem complicado. No fim, foi uma benção não achar a continuidade da trilha no dia anterior.

Assim prosseguíamos com cuidado. O Tiago estava mais a frente abrindo a trilha, e nós três logo atrás, se desvencilhando das taquarinhas e cuidando as gretas ao mesmo tempo. Começamos a brincar com a situação, encarando a dificuldade da travessia com bom humor, pois quem não é habituado à atividade ou aqueles que não conhecem aquela Serra, não imaginam o que passamos. Então ficávamos ironizando, imaginando os comentários inocentes daqueles que depois só veriam as fotos: que lindo o “passeio” de vocês! Ou então: que “caminhada” linda; faço caminhadas nos finais das tardes, tenho condições de fazer uma dessas? Dá para levar o meu filho de 7 anos? E a listagem de frases continuava. O Marcelo ainda criou a classificação de trilha não recomendada para madames.

15024340817_7a5edbd14a_o

 

Haviam trechos em que o mato estava tão cerrado, que não era mais possível enxergava mais o Tiago, nem mesmo descobrir por onde ele havia passado. Então chamava por ele para identificar o lado que ele estava. Quando ainda a dúvida perpetuava, perguntava:
– Direita ou esquerda?

Em uma parte ele dobrou a esquerda e fui seguindo seu rastro. De repente, deparei com uma “rede” de raízes finas que cobriam uma greta. O rasto dele passava por ali, mas será mesmo que passou por cima daquela greta? A rede talvez aguentasse meu peso, mas e os guris que além de serem mais pesados, estavam de cargueira?

Sentei e em uma pedra e fui passando cuidadosamente até que meu pé tocou uma pedra embaixo da rede de raízes.

Achando que nós estávamos demorando para passar o Tiago incentivava:
– Vamos lá pessoal! É travessia pesada!
E a resposta era uniforme:
– Capaz, nem percebemos…

Ao passo que saímos do vale vimos o Conjunto Marumbi.

15024340897_512415d72c_o

Em seguida encontramos a ligação da trilha “por baixo” do Ciririca. Fiquei super feliz, pois subir o Ciririca era um sonho antigo.

Começamos a subir o K2 paranaense e num trecho o Tiago foi verificar o GPS e falou que faltavam cerca de 200 metros para o cume. Então logo chegaria a temível rampa.

Atingimos um ponto em que havia bastante pedra exposta. O Tiago consultou novamente o GPS e olhou pra mim:
– Lu, isso aqui é a rampa!
– Essa barbada aqui?
Respondi surpresa.

O bicho papão estava desmascarado. A tal rampa que tinha lido em vários que era um terror, era na verdade uma barbada. Subi a rampa rindo e em determinadas partes em pé.

15207858841_4c54f0f5ca_o

15210916015_8175e3ff31_o

Logo chegamos ao cume do Ciririca (1705 metros), e depois seguimos para as placas, onde a vista estava o caderno do cume e a vista era mais bela.

15210915745_de5165f619_o

15210915095_767488ffdb_o

15024226640_7c44304afc_o

Muitas pessoas fazem a “caveira” do Ciririca, dizem que é muito difícil, que a rampa é muito perigosa, que é o K2 paranaense. Mas não concordo com nada disso. A trilha, além de não ser tão difícil, é muito bonita. A subida da face leste do Ferraria é mais difícil, merecendo o título de K2 paranaense.

15187880196_4c3bb1a59c_o

Veja nesta foto aérea por onde estávamos andando neste dia.

15224829716_557b70b99b_o

Começamos a descer o Ciririca no sentido dos Agudos e Colina Verde.

15024224800_b5dc0ae5f6_o

 

A descidinha era bem lisa, mas bastante divertida. Nada como os arbustos e taquarinhas para dar um apoio. Apesar de bastante lisos, os trechos com corda foram bem tranquilos de descer.

Durante a descida dá para ver o avião do antigo Banco Bamerindus que se chocou na serra em 1989.

15024121709_77c5755329_o

Chegamos no Colina Verde perto das 12:00 e o Tiago decidiu atacar os Agudos Lontra (1416 metros), e Cotia (1464 metros). Eu e os outros dois guris decidimos espera-lo, pois o ritmo dele de caminhada era mais rápido e tínhamos pressa de chegar ainda na Garganta 235 até o fim do dia. Marcamos o ponto de encontro para o almoço na água mais próxima.

Eu, o Fábio e o Marcelo seguimos na direção da água e o Tiago rumou para o Agudo Lontra.

15024331728_b072a1a1cb_o

Esperamos por ele no ponto combinado por quase uma hora. Enquanto isso, aproveitando a água corrente e limpa, recarregamos os refis de água, passamos água no rosto e ficamos tagarelando.

De repente retorna o Tiago e pergunto como foi de Trilha ao Agudo Lontra.
– Uma…
Ele responde com cara de poucos amigos. Caímos na risada.
– Não tinha trilha. Só mato, espinho e um calor terrível para pouca vista.

Almoçamos ali mesmo e logo continuamos a descer para atingir o rio Forquilha ainda no início da tarde, passando por uma transição entre os campos de altitude e a mata Atlântica.

15207853581_09b5057716_o

15210910415_c0ef75870e_o

O rio era muito bonito, com pedras gigantescas tapadas por musgos. Parecia cena de filme.

15187876446_466dc5aaf0_o

Logo que começamos a pisar nas pedras inteiriças, eu andava com cautela, pois nas trilhas em leito de arroio daqui da região Central do Rio Grande do Sul, se aprende que não se deve pisar nas pedras inteiras. O basalto, a rocha daqui da região, é liso e quando molha é praticamente impossível ficam em pé nele. Na travessia que estávamos fazendo na Serra do Ibitiraquire, a rocha predominante é o granito, que possui grande aderência.

15187875856_a7b85c0647_o

15024332877_07a3cd073d_o

Ganhando confiança no granito, saltava de pedra em pedra, sempre cuidando para não molhar a bota. Havia mais um dia de travessia e o estado dela não era dos melhores, então não estava muito confiante em deixa-la molhada.

15207849671_dab3f39c4b_o

 

15024219690_55fa27637f_o

15024327837_b2eca4fceb_o

Saindo do rio Forquilha, seguimos uma trilha subindo até a Garganta 235, que fica entre os Morros Tangará e Cotoxós. Agora um pouco mais aberto que aqueles que passamos nos últimos dois dias.

Primeiro descemos mais um pouco, chegando a uma parte em que teríamos que saltar sobre uma fenda que havia no meio do Caminho. Era uma fenda de mais ou menos um metro de largura e para chegar ao outro lado era necessário saltar para uma pedra que estava no outro lado da fenda, em um plano mais baixo em relação ao outro. O detalhe era que a pedra de aterrizagem era inclinada, então teria que acertar o seu ponto mais alto. Os guris pularam primeiro. Eu fiquei duvidando da minha capacidade, com medo de saltar menos que o necessário e acabar caindo na fenda.

Então o Tiago se posicionou na beira da pedra para me segurar caso desse alguma zebra. Saltei e da beira da pedra de onde estava e cheguei a extremidade daquela do outro lado. Estava duvidando da minha capacidade à toa. Minha impulsão vai muito bem, obrigada. O problema é que o Tiago me segurou mesmo estando tudo sob controle. E segurou justamente o braço esquerdo, aquele lesionado. No momento em que coloquei os pés no chão, senti uma dor muito forte no ombro. Por reflexo, me agachei e levei a mão ao ombro esquerdo. Ele saiu do lugar novamente, se deslocando um pouco para frente.

Fiquei curvada esperando que aliviasse a dor e lentamente empurrava o ombro para o lugar. E ele voltou! Que alívio. A dor diminuiu, mas continuou intensa, limitando um pouco os movimentos do braço esquerdo.

Assim começamos a subir para chegar até a Garganta. Eu ia mais para trás, caminhando lentamente e cuidando como me apoiava nas árvores para subir. Acredito que levamos no máximo 20 minutos até a caixa da Garganta 235.

Sentei no tronco em frente à caixa e peguei o caderno, no qual fiz um breve relato de nossa jornada. Havia a assinatura do nosso amigo Sérgio Sampaio. Provavelmente ele tenha passado ali uma hora antes do que nós.

O Tiago e o Fábio foram pra a outra ponta da Garganta para tentar algum sinal de celular, e o Marcelo sentou ao meu lado para também assinar o caderno.
– Já são 17:40 e lá para baixo o mato está bem fechado além de ser bem inclinado. Acho melhor acamparmos aqui. Anunciou o Tiago.

Para mim foi um alívio, pois a dor no meu ombro não deu trégua e descer tentando usar um braço com movimentos limitados seria bem complicados. Como não tinha levado anti-inflamatório, peguei dois comprimidos com o Marcelo, deixando o segundo para tomar antes de dormir.

Começamos a ajeitar outro bivaque. Isso até virou piada! Levamos as barracas para deitar em cima delas. Parecia coisa de quem não sabia armar uma.

Me aconcheguei sentando em cima da barraca, com as costas em uma pedra. Logo preparamos uma panelada de chá para se aquecer antes da janta.

Aquela noite foi longa. O local que acampamos não era muito confortável e por diversas vezes acordei com sons de animais. Um inclusive um chegou bem próximo à minha cabeça. Fiquei imaginando se fosse outra cuíca… Espero que sim.

Dados do 4º dia da travessia:
Distância: 10,45 Km a pé.
Altimetria: 1064 metros de aclive acumulado e 1349 metros de declive acumulado.

15024135219_4cc787c3d7_o

Google Earth:

15187892136_cdbfec5dd6_o

Texto: Luciana Gomes Moro
Fotos e dados: Tiago de Pellegrini Korb
Site: www.clubetrekking.com.br

A desafiadora Travessia Bairro Alto x Marco 22 PR, terceiro dia.

3º DIA: Quinta-feira 21/08/2014.

Acordamos assim que começou a clarear o dia. Tínhamos pressa, pois nosso objetivo era acampar na placa 2 do Ciririca, onde deveríamos encontrar o Sérgio Sampaio de SC, que estava fazendo a Travessia Fazenda do Bolinha x Graciosa.

Fizemos o café de dentro da barraca com uma bela vista do amanhecer.

15014958758_f63d8091e8_o

 

15014849260_384409c31c_o

Assim que terminamos, peguei as minhas botas para calça-las e aproveitei para dar mais uma verificada no acampamento ao lado. Caí na risada com o que vi: a iglu desmontou com o vento. Fiquei imaginando os quatro socados naquela barraca capenga.

Mochilas arrumadas, partimos para o União e depois o Ibitirati. Estávamos com pouca água, somente o suficiente para molhar a boca.

15014956637_21fc0c3f66_o

Pegamos a trilha perto da caixa do cume do PP para o União. Era uma descida um pouco íngreme e chatinha, ainda mais que de manhã fico completamente descoordenada para caminhar.

15014848540_6aaf89cbb1_o

 

15201152512_40c2892a37_o

Marcamos no GPS o cume do União e rumamos para o Ibitirati.

15198489621_19350aeb25_o

A subida era bem tranquila, mas com mato bem fechado com arbusto com galhos finos que rasgavam a pele. Na real, nós já estávamos com a pele bem cortada devido especialmente às taquarinhas. Mas ali no Ibitirati foi um plus. Marcamos também o cume do Ibitirati (1850 metros), e tiramos fotos.

15014955497_30bc5572d7_o

15201150142_39149776f3_o

 

15014954798_5495b5cca5_o

15014954367_ede2552f3e_o

Para entender o que são as escalaminhadas desta travessia!

Logo já estávamos de volta ao PP para assinar novamente o Livro do cume e registrar nossa ida aos outros picos do Maciço do Ibiteruçu, bem como a nossa meta de chegar ao Ciririca até o fim do dia.

Começamos a descer a trilha do PP para encontram o Fábio e o Marcelo.

15014951617_a22e13e09a_o

15201526485_cb44d0a40c_o

15014953438_93d55879c7_o

15201148552_5f5f59fa4c_o

Ali perto deveríamos pegar a entrada da trilha até o Pico Camelos. Os nossos amigos optaram por não nos seguir e combinamos que eles iriam seguir o resto do roteiro do dia, partindo para o Itapiroca e mais adiante nos encontraríamos novamente.

Para “variar” o trajeto do GPS que o Tiago recebeu estava errado e foi muito difícil de encontrar a entrada da trilha. Deduzindo o local, entramos mato a dentro para achar a trilha para o Camelos. Por diversas vezes fiquei enroscada no meio da vegetação, isso que estava com a mochila menor. Imagina se fosse a grande!

15014712389_8a382af6cd_o

Novamente, depois de muito sobe e desce, encontramos a trilha bem batida que ia para o Camelos (1555 metros). Novamente, chegamos ao cume, tiramos fotos e registramos no GPS.

Não deixo de registrar a nossa decepção com o Camelos: pouca vista, ainda mais que perdemos um bom tempo tentando achar a sua trilha, além de ter conseguido mais uns ferimentos com o mato fechado da “trilha errada”.

15014834440_93e3197b35_o

Para voltar à trilha do PP, pegamos a trilha batida certinha. Ela saía um pouco mais para cima de onde entramos, bem próxima à Casa de Pedra.

15198484501_d8c9031805_o

Pelo visto, a entrada dessa trilha “oficial” do Camelos serve também de banheiro pela quantidade de papel higiênico que havia por ali.
De fato, o PP estava tapado por pedaços de papel higiênico até mesmo no cume. Isso foi algo que me deixou bastante chateada: a falta de educação das pessoas com a montanha.

Quando começamos a descer no sentido do Itapiroca, eu e o Tiago combinamos de não almoçar e fazer um rápido lanche para não perder tempo e conseguir cumprir nossa meta do dia. Como os guris foram na frente, provavelmente eles iriam almoçar antes de nos encontrar.

Seguimos descendo rapidamente o PP. No último lance de via ferrata, apoiei a mão direita em um dos grampos, abri o braço esquerdo e apoiei a mão em uma outra que estava ao lado e… Lembra do ombro machucado? Pois é, senti uma forte fisgada nele. Daquele tipo de dor que reflete para o resto do braço. Soltei espontaneamente um “ai”. Em seguida a dor passou, foi só um “choque”.

Pegamos água no início da trilha para o Itapiroca. Que alívio! Com o clima seco e quase sem beber água desde a noite do dia seguinte, já estava sentindo muita falta deste liquido precioso.

A subida para o Itapiroca foi um “passeio”: bem aberta e fácil.

15014950738_f35dd26a09_o

15198484081_d501dbe766_o

15014948717_b418788f0d_o

Ficamos tagarelando e combinamos de chegar ao Ciririca ainda naquele dia nem que fosse à noite! E imaginamos onde estariam os guris. Naquelas alturas eles já deveriam estar bem longe devido a nossa demora para chegar ao Camelos.

Chegando na área de acampamento do Itapiroca encontramos o bastão de caminhada do Fábio atirado no chão. Pronto, o Fábio abandonou o bastão para diminuir o peso.

Que nada, assim que tivemos maior amplitude de visão pudemos ver o Fábio e o Marcelo sentados apoiados numa pedra, começando a abrir as mochilas. Eles ficaram nos olhando boquiabertos e exclamaram:
– Já? Mas nós recém chegamos! Achamos que vocês fossem demorar mais.

Decidimos em fazer um lanche ali mesmo para não perder mais tempo. Em seguida continuamos o nosso trajeto.

15014948728_6eb34702d1_o

15014947718_bc7c77c0b4_o

Dali do topo do Itapiroca (1780 metros) já era possível enxergar os cumes do Tucum e Camapuã, meus dois primeiros cumes na Serra do Ibitiraquire.

15014725479_3c93e3c0b0_o

Não passaríamos por eles nessa travessia, mas guardo com carinho as lembranças daquela trilha, especialmente na companhia dos amigos, Daniela Faria, José Geraldo, Diele e Dalla Trekker.

15178497676_bbe1342184_o

O cume seguinte seria o do Cerro Verde.

15201517415_a75e2a043c_o

No fundo do vale, para a subida ao cume, havia uma marcação com a fita da travessia “Alpha Crucis” realizada em 2012 por Élcio Douglas e Jurandir, considerada a travessia mais difícil do Brasil.

15201516535_8a757e97b8_o

15178493696_0fec9ac0f1_o

No lugar chamado de Ombro Verde que antecede o cume do Cerro Verde é possível de ver a tarde a “face” no Pico Paraná.

15014834440_93e3197b35_o

15014831180_8b683703ce_o

O cume do Cerro Verde (1618 metros), possui a melhor vista do maciço do Ibiteruçu e especialmente do Ciririca.

15198474991_b136db2194_o

15178490806_0af9b21133_o

O Ciririca é conhecido como o K2 paranaense e antes da travessia havia lido diversos relatos de ataques e travessias que passavam por ali. Diversas pessoas falavam das terríveis cordas e da rampa. Meu Deus!

Eu e o Fábio estávamos imaginando como seria a terrível rampa do K2 paranaense. Na nossa ideia deveria ser algo pior que a face leste do Ferraria pelos relatos. Bom, naquela altura da travessia já estávamos preparados para tudo. Mas a curiosidade sobre o K2 paranaense aguçava muito.

Depois do Cerro Verde, os próximos cumes seriam Meia Lua, Pico do Luar e Sirizinho.

15178492566_66ea5d08cb_o

Eu, na minha expectativa infantil, estava louca para chegar nesses cumes. Os nomes me agradavam e imaginava uma vista maravilhosa da serra dos seus cumes. Que nada! Virado em mato espinhento.

15014828600_0826cd8f1b_o

Quando estávamos chegamos ao Pico do Luar, o sol já estava se pondo.

15201133062_8e234a8661_o

15014935538_6baf1bea62_o

15014935347_9978a6060b_o

Quando começamos a descer o Sirizinho, pegamos nossas lanternas de cabeça. Pois estávamos dispostos a acampar nas placas do Ciririca ainda naquela noite, ainda mais que marcamos de encontrar o Sérgio naquela data.

15198469951_848766e572_o

Próximo a base do Sirizinho, o mato estava bem fechado. E como já estava escuro, seguimos em ritmo mais lento, entre ataques de mosquitos e mais taquarinhas. Cuidando onde estávamos pisando para não cair em nenhuma greta.

15178487786_d0c06e4c0f_o

A trilha alternava entre pedras de rio e mato. O Fábio e o Marcelo que estavam com mochilas maiores, penavam para se desvencilhar das taquarinhas e dos galhos das plantas. Se de dia já era complicado, de noite era pior ainda! Então a todo momento virava para trás para ver se eles estavam vindo junto. Numa dessas “olhadas”, quando fui virar novamente o rosto para frente, um galho espinhento entrou no meu olho e um espinho ficou cravado no olho direito. Consegui tirar e em seguida passou a dor.

Para evitar que alguém se perdesse, quem ia na frente esperava o de trás aparecer e iluminava em direção do colega para que ele enxergasse a localização. Esse método também adotamos nos trechos de mato mais fechado.

Mas em um determinado trecho as fitas começaram a ficar escassas e íamos e voltávamos tentando encontrar a continuação da trilha. Mesmo navegando no GPS, o Tiago não encontrava o caminho já que o trajeto que tinha não era muito preciso. Andar no mato no escuro é algo bem complicado, ainda mais quando não se conhece o local. Não é uma prática muito recomendável.

Então chegamos em um determinado ponto e o mato se fechou novamente, o Tiago falou para voltar e pediu para que nós três tentássemos visualizar alguma trilha ou avisar uma fita.

Fiquei iluminando para as árvores até que enxerguei uma fita vermelha.
– Ali tem uma marcação de fita!
Exclamei apontando para uma árvore.
– Uhu! Achamos!
Eu e o Fábio comemoramos o meu “achado” batendo as mãos.
Mas o meu “achado” era na verdade uma clareira, provavelmente de um acampamento de alguém.

Como estava bem difícil encontrar a trilha naquela escuridão e seria desgastante continuar procurando sem resultados. Decidimos acampar ali mesmo naquela clareira. Local limpinho e com água por perto: perfeito! O espaço acomodava tranquilamente uma barraca e outras duas bem apertadas. Então nós decidimos bivacar já que o tempo estava bom.

Estendemos o footprint no chão e o sobreteto da barraca por cima dele para depois só colocamos o isolante. O Marcelo foi o único que preferiu montar a barraca, conseguindo um pequeno espaço irregular. O Fábio fez seu bivaque ao nosso lado. Fomos dormir logo depois que jantamos pelas 21:00.

Deitei de barriga para cima e fiquei olhando o céu estrelado entre as árvores. E assim adormeci. Foi a melhor noite de toda a travessia!

Dados do 3º dia da travessia:
Distância: 9,65 Km a pé.
Altimetria: 1727 metros de aclive acumulado e 2178 metros de declive acumulado.

15201545525_9854835981_o

Google Earth:

15201166922_961e48a844_o

Texto: Luciana Gomes Moro
Fotos e dados: Tiago de Pellegrini Korb
Site: www.clubetrekking.com.br

Relatos: 1°dia, 2°dia.

A desafiadora Travessia Bairro Alto x Marco 22 PR, segundo dia.

Acordamos em torno das 6:30, fazia um amanhecer muito bonito. Logo o Tiago saiu para fotografar o belo evento da natureza e a linda vista.

15191934372_dbe7368c85_o

 

Tomamos o café da manhã e partimos para o cume principal para assinar o livro. Depois seguimos para o Taipabuçu.

15005731678_6987e64027_o

 

Para você entender o nosso trajeto do dia anterior e dos próximos dias.

15244740901_d25ef7b83b_o

Subindo o Taipa, encontramos um casal indo para o Ferraria:
– Mais uns desocupados fugindo para a montanha no meio da semana?
Brincou o homem.
– O trabalho permite, né!
Respondeu prontamente o Tiago. Paramos por pouco tempo para conversar e contamos sobre a nossa travessia, de onde viemos e para onde estávamos indo. Eles nos desejaram boa sorte e cada grupo seguiu para seu rumo.

Eu e o Tiago chegamos primeiro ao cume do Taipabuçu I, ficamos aguardando os guris chegarem. Enquanto isso, muitas fotos.

15189257711_e5e052137c_o

15005629890_a889e24f72_o

Assim que chegaram, fomos assinar o caderno do cume no Taipabuçu II (1733 metros), por volta das 11:00, relatando sobre a nossa travessia. Para a minha surpresa, havia uma historinha do Tom e Ana.

15005726788_16f4b9cb80_o

Depois seguimos para o Caratuva. Páramos para almoçar antes de chegar ao cume para aproveitar a agradável sombra do mato.

15005725568_b25f82fb27_o

Enquanto isso, ficava admirando a vegetação. Tinham bromélias lindíssimas que eu não cansava de olhar.

15169263226_99e0c3f55e_o

15005724138_f5b3c03624_o

Assim que almoçamos, continuamos a subida ao Caratuva, passando pela “Pedra da Faca”, que era uma pedra de formato diferente que obriga o montanhista a tirar a mochila, mesmo ela sendo pequena.

15005518769_6d38ac7758_o

Um trecho um pouco mais técnico é a canaleta no final da subida para o Caratuva.

15192297115_93bfcfeff7_o

Tínhamos uma bela vista da parte que fizemos da travessia.

15005517949_34e65a2ebb_o

Chegamos ao cume do Caratuva (1862 metros), em torno das 14:00, assinando novamente o caderno com o relato do nosso trajeto.

15169276396_0fde29ef1d_o

15005719628_985968308b_o

Dali havia uma belíssima vista para o PP, onde deveríamos chegar ainda no mesmo dia.

15005623100_e56b871d62_o

Na verdade, o ideal seria chegar ainda no Itapiroca naquele dia, mas a coisa não estava rendendo até lá. Era muito mato fechado, e os guris foram com cargueiras enormes, o que fez com que eles virassem vítimas constantes das terríveis taquarinhas.

15005619900_989c03b0f0_o

 

Saindo do Caratuva, deveríamos pegar a “Trilha da Conquista” para chegar ao Pico Paraná.

15192293115_66ec8a247c_o

 

Na verdade entramos ela, mas não conseguimos seguir na trilha já que estava quase fechada. O arquivo de GPS que o Tiago recebeu tinha erro de 80 metros da trilha original. Como pouca gente passa por lá, o mato tomou conta e foi uma “novela” para encontrar a trilha verdadeira. Subimos e descemos várias vezes, andamos de um lado para outro se embretando em mato cada vez mais fechado para tentar achá-la e nada.

Resolvemos então seguir a escassa marcação por fita e chegamos em outra trilha. Não era a Trilha da Conquista, mas nos levava onde queríamos, até a água próxima do A1 (Acampamento 1).

Chegando na água próxima ao A1, que preenchi os 3L do meu Streamer, fui seguindo rumo ao cume do PP (Pico Paraná), esperando que os demais me acompanhassem. Em seguida vieram.

15005619290_1e0acfac70_o

Nessa parte da travessia, não “desgrudava” os olhos do PP, ficava admirando o gigante em todos os seus ângulos. Estava realizando um sonho, pois sempre nas minhas idas a Curitiba, quando planejava ir ao Pico Paraná a previsão do tempo marcava chuva. Mas naquele dia não tinha sinal de chuva. O sol ardia e o tempo estava muito seco.

15192291915_e427e0d50f_o

O Tiago e eu fomos seguindo a trilha de modo empolgado, pois era a minha primeira vez no PP e a primeira dele com tempo bom. E assim fomos subindo pela trilha bem batida e admirando a vista, especialmente por onde já havíamos andado.

15189264051_3cf1e381d6_o

O Fábio e o Marcelo estavam mais para trás. Quando atingimos a primeira via ferrata, eles estavam recém descendo para a via ferrata.

15191918072_9144387abc_o

15189262111_6622afea54_o

15005726487_73b0eb7d24_o

O Marcelo estava no meio do trajeto entre o Fábio e nós dois. Quando avistamos o Marcelo, perguntamos o paradeiro do Fábio e ele nos avisou que ele decidiu acampar no A2 (Acampamento 2), devido à câimbra e iria fazer companhia ao amigo por ter pouquíssima água (lá tem uma bica d’água fraca).

15005713678_0ed634db87_o

Então nós continuamos a subir ao cume racionando água. Como o ar estava seco demais, me descuidei e bebi água demais. Cada um de nós dois tinha um pouco mais de 1L para a janta e café da manhã. Além disso, na manhã do dia seguinte, faríamos ainda os cumes União e Ibitirati.

15005614720_d55797e44b_o

15191915382_9b73afc15a_o

15005725697_8ec91458b1_o

Em meio ao caminho, encontramos mais 4 pessoas de Santa Catarina. Eles também iriam acampar no cume. Como estavam em ritmo mais lento, ultrapassamos eles e chegamos primeiro ao cume para escolher um local bem protegido para o nosso acampamento, visto que não levamos o dormitório da barraca, apenas o sobreteto e o footprint (em função da diminuição de peso e volume na mochila).

Quando chegamos ao cume, ainda pudemos aproveitar o pôr-do-sol.

15169266436_13a8971124_o

Escolhemos o canto para o nosso acampamento e fomos tirar fotos do entardecer de cima do ponto mais alto do sul do país.

15005612590_3ccdacf4b8_o

15169265176_f37ae23be5_o

A sensação de estar ali no topo e ver o sol se pondo, as luzes das cidades lá longe são belíssimas.

15005505639_c65fae0edf_o

15169264566_0f71444976_o (1)

15005611660_fa676f51e6_o

 

15005609000_6bd8300752_o

Depois da sessão de fotos, voltamos ao nosso cantinho para montar o acampamento. Logo que terminamos, chegou o grupo catarinense.
Muito prestativo, o Tiago foi ajudar o pessoal a encontrar espaço confortável para suas barracas:
– Aqui é um bom lugar, ali também tem…
– Mas é só uma barraca! Respondeu um dos catarinenses.

Eu, que estava na porta da barraca, espichei a cabeça para fora para dar uma olhada na barraca que serviria de abrigo para os quatro marmanjos. Era uma pequena iglu de tamanho máximo de 3/4 pessoas! Tive que fazer um esforço extra para não largar uma sonora gargalhada.

O Tiago voltou e fomos assinar o caderno do cume e tirar mais umas fotos. Naquela noite ventava bastante e a temperatura baixou para 4 ºC. Fiquei insistindo para voltar para a barraca devido ao frio.

Voltamos ao nosso acampamento e ficamos fechados dentro da barraca para nos proteger do vento. Ficamos batendo papo, lendo o planejamento da pernada do dia seguinte e contabilizando o que ainda havia de água. Além da janta e café da manhã, “sobrou” uma justa quantia para fazer chá para os dois. Tirei as botas, que já apresentava um rasgo na biqueira do pé esquerdo, mas nada para se preocupar, pois a estrutura interna se encontrava boa. O direito ainda estava intacto, por enquanto…

Enquanto isso, lá fora, nossos vizinhos faziam a maior festa, com muita conversação, álcool e até maconha. Quatro marmanjos bêbados em uma pequena barraca era a legitima festa do sagu, só bola!

Assim que começaram a organizar a janta, eles receberam uma “visita” e ouvimos um deles:
– Olha, um “rato da montanha” mexendo na nossa comida!
– Não, é um gambá!

Ouvindo isso, tratamos de proteger nossa comida. De repente ouvi um barulho de animal se movimentando e da barraca se movimentando.
– Tiago, cuidado! Tem um bicho ali fora. Espanta ele, senão ele vai na nossa comida.

O Tiago levantou-se para tentar afastar o bichinho e acabou derrubando a panela com o chá quente. Foi uma confusão! Era o Tiago abanando nas frestas da barraca e eu tentando levantar a panela Virou um pouco de água no footprint e o saco de dormir. Molhou um pouco na parte externa, mas foi apenas em um canto. Logo ele secou por completo por conta da baixa umidade do ar.

O animalzinho voltou a perturbar nossos vizinhos, que passaram a dar comida para ele. Comida e pão com uísque para ele inclusive. O que além de prejudicar o animal ainda acostuma a fauna local a ir em busca de mais comida nas barracas.

Colocamos tudo dentro dos sacos estanques, até o lixo, para impedir que o cheiro atraísse a desagradável visita. Deixamos para fora somente o material do preparo da janta.

Assim que começamos a fritar a calabresa, apareceu pela fresta da barraca uma carinha marrom muito bonitinha. Era o gambá, que depois fomos descobrir que, na verdade, era uma Cuíca. O Tiago voltou a afastá-la. Terminada a janta, viramos a panela para baixo e guardamos o resto do alimento.

15008407439_5eb6aeee39_o

Durante o sono, qualquer barulho acordava achando que fosse a Cuíca fuçando nas nossas coisas, mas não, era o vento. Acho que o animalzinho foi dormir, graças ao trago que nossos vizinhos deram. Imagina a ressaca que o bicho teve depois!

Aquela foi uma noite longa, os vizinhos fazendo festa, o vento forte. Sonhei até com a Cuíca foi dormir conosco no saco de dormir.

Dados do 2º dia da travessia:
Distância: 11,24 Km a pé.
Altimetria: 1343 metros de aclive acumulado e 1210 metros de declive acumulado.

15005482019_1566d42516_o

Google Earth:

15189235061_2a6abd2f73_o

Texto: Luciana Gomes Moro
Fotos e dados: Tiago de Pellegrini Korb
Site: www.clubetrekking.com.br

Relato do primeiro dia:

A desafiadora Travessia Bairro Alto x Marco 22 PR, 1° dia.

A desafiadora Travessia Bairro Alto x Marco 22: 1º Dia

Fazia um bom tempo que queria fazer uma travessia na Serra do Ibitiraquire. Sugeri ao Tiago Korb de programar um trajeto saindo da Fazenda do Bolinha, que compreenderia 10 cumes. Mas ele nem deu muita atenção. Disse que seria complicado pela logística de transporte, clima e outros fatores.

Não desisti, pois queria realizar esse sonho e de preferência no mesmo ano ainda! Então recorri ao nosso amigo Fábio Carminati, que também tinha interesse em fazer alguma travessia nessa Serra. Combinamos de os dois ficar pilhando o Tiago em montar o trajeto e fazer a travessia.

Passamos semanas juntando informações e lendo relatos, os mais interessantes mandávamos para o Tiago tanto via Facebook quanto por e-mail. Isso sem contar das vezes em que eu tocava nas palavras “travessia” e “Serra do Ibitiraquire”.

Mas a insistência valeu a pena! O relato dos perrengues despertou o interesse no Tiago. Próximo passo seria conseguir os dados de GPS da região com amigos montanhistas dele para montar o roteiro, uma vez que ninguém conhecia a Serra do Ibitiraquire muito bem. Eu tinha ido uma única vez fazer a trilha até o Pico Tucum. Já o Tiago havia ido ao Pico do Paraná anos atrás em um dia de chuva, ou seja, não conseguiu ver nada.

Com ajuda de vários amigos montanhistas (entre eles Elcio Douglas e Mildo Junior), o Tiago foi conseguindo os trajetos para GPS que passavam por diversos cumes. Na minha ideia, o Pico do Paraná e o Ciririca não poderiam ficar de fora do planejamento. O primeiro por ser o cume mais alto da região Sul do país. O segundo por levar a fama de “K2 paranaense”, o que despertava minha curiosidade.

Mas onde começar e terminar a travessia? Os ajustes foram sendo feitos com o passar dos dias. De repente vem à tona o conhecimento da existência da Travessia Bolinha x Marco 22. A ideia original da travessia era fazer 10 cumes da Serra do Ibitiraquire e se desse tempo ou se não chovesse, poderíamos fazer esse trecho da Serra da Graciosa até o Marco 22 da Estrada da Graciosa.

Surgiu então o Getulio Vogetta com outra opção de roteiro via trilha da Face Leste do Ferraria. Conseguimos o trajeto de GPS dela e desta forma se consolidou como opção de início da nossa travessia, acrescentados ainda, mais alguns cumes. E por fim, o trajeto final seria até a Estrada da Graciosa, terminando no Marco 22.

Diante do desafio, da elevada altimetria, da promessa de encontrar mato bem fechado, o Tiago propôs de adotar o sistema de travessia ultralight. Ou seja, usar as mochilas de 30L em vez das cargueiras. Para isso, levamos o mínimo necessário e itens bem técnicos que ocupam pouquíssimo espaço. Deixamos o dormitório da barraca, levando apenas o sobre teto e o foot print por exemplo. E assim foi: total desapego do conforto para levar somente o que era absolutamente necessário.

A equipe foi formada com base em outras travessias pesadas que fizemos (Fábio Carminati, Luciana Moro, Marcelo Nava e Tiago Korb). Apenas faltava conseguir uma janela de pelo menos 5 dias de tempo bom. O que naquela região já é difícil, pois chove em mais de 270 dias no ano. Em ano de El Niño é ainda mais difícil! Mas o São Pedro colaborou. A previsão do tempo estendida marcava 10 dias de sol na segunda quinzena de agosto.

Íamos nos preparando, deixando equipamento e comida em separado na medida em que a previsão do tempo se confirmava.

Viajar da região central do Rio Grande do Sul para Curitiba não é nada agradável. São pelo menos 14 horas sentada dentro de um ônibus. Mas o sacrifício vale a pena se o tempo ajudar. E assim eu e o Tiago partimos de Santa Maria RS na tarde do dia 18 de agosto rumo à capital paranaense, onde a amiga Sandra Elize nos receberia para fazer a logística até Antonina.

1º DIA: Terça-feira 19/08/2014.

Nosso ônibus chegou na rodoviária com mais de uma hora de atraso. O Marcelo e Fábio já nos esperavam na rodoviária. Assim que chegamos, encontramos eles no local marcado e partimos para a casa de minha mãe, onde deixaríamos nossas roupas de “civis” de viagem para trocar pelas roupas de trekking.

Em seguida, fomos ao encontro de Sandra, quase vizinha, para partir para Antonina. Durante o trajeto fomos conversando sobre nosso planejamento de travessia e demais assuntos sobre montanhismo.

A Sandra, em um determinado momento, me alcançou um pacote e pediu para que escolhesse uma bandana de presente. Escolhi uma de temática florida com verde, que poderia usar o lado estampado ou o de cor única para combinar com minha calça da travessia. Assim, já coloquei o presente na cabeça para usá-lo durante a travessia para dar sorte (sim, eu acredito nessas coisas).

Descemos pela Estrada da Graciosa com tempo bom. Essa foi a terceira vez que passei pela estrada e a primeira com tempo bom! A medida que descíamos, ia se revelando a belíssima mata Atlântica que cobria as imponentes montanhas. Ah, as montanhas! Várias delas eram visíveis durante o percurso, e uma boa parte delas não faziam parte da nossa travessia.

Tentamos avistar o Marco 22, o ponto final da travessia, mas não enxergamos. Então combinamos o resgate de volta no primeiro Recanto da Graciosa. Depois de 1:40 de estrada, chegamos a Antonina e, em seguida, no Bairro Alto e finalmente na Fazenda Lírio do Vale de onde começaríamos nossa longa pernada. Descemos do carro e nos despedimos de nossa amiga Sandra.

15159292026_1ee4f0f0b0_o

Iniciamos a Travessia em torno das 11:40, começando pela trilha da Conceição. O dia estava bastante ensolarado com algumas nuvens encobrindo os cumes das montanhas.

14995755577_396e7faf0f_o

Logo se revelou o primeiro cume em meio as nuvens, o Ibitirati.

14995546949_b47c2bab09_o

Nós estávamos a 190 metros de altitude e teríamos que atingir o cume que tinha 1745 metros de altitude até o final da tarde. Parecia ser uma missão quase impossível!

Passamos pela ponte Indiana Jones por volta das 12:40 e descemos até o Rio Cotia para almoçar. Fizemos um lanche rápido e retomamos a caminhada.

15159288566_1acba4f9c4_o

A trilha da Conceição é muito bonita. Durante o seu trajeto íamos admirando a beleza de sua vegetação e brincando que em seguida a “barbada” iria terminar, afinal, tínhamos que subir mais de 1700 metros até o primeiro acampamento.

15159290596_1a8c9836bd_o

14995752957_2952224487_o

 15182315025_22b167d3e4_oA trilha de subida era sinalizada com um pneu. Em um determinado ponto ficamos procurando o tal pneu à esquerda da trilha. Achamos meio escondido pelo mato.
Subimos o degrau e a parte divertida começou. Muito mato fechado durante a subida.

15159287626_f36c93e9b9_o

Em seguida começaram as cordas, opa, a primeira não era corda, era mangueira de bombeiros.

15159286966_809546c32b_o

Mais adiante o mato fechado diminuiu e a trilha começou a ficar mais íngreme e mais bonita, e começando a ter vista dos demais cumes.

14995749337_177c0f227d_o

15181934412_1207245d31_o
15159286186_8f87a6d772_o

Ao lado esquerdo se via o paredão do Ibitirati, mas o cume ainda estava coberto por nuvens. Mas depois o céu ficou mais limpo e podíamos ver também o Pico Paraná.

14995543949_4a31362f9d_o

Chegou o primeiro trecho de corda. O pessoal subiu sem maiores dificuldades. Eu me agarrei na corda e me puxei para cima.

Mas não via a hora de chegar no “degrau” da face leste do Ferraria. Quando estávamos montando o roteiro da travessia, fomos informados desse trecho de maior dificuldade. Então eu e os demais ficamos imaginando como seria.

Enfim, chegou o degrau. E realmente era merecedor da fama de ser um “bicho papão”. Um trecho da subida com inclinação média de 80 graus e em alguns pontos de 90 graus.

14995544719_ac14546d5e_o

14996658757_783de620ed_o

Entre a pedra e o abismo havia um trecho de chão um pouco maior que meu pé. A pedra do degrau era quase da minha altura (1,60 m). Haviam dois lances de corda: o da primeira subida, que descia até a metade do degrau; o segundo ficava preso nas duas pontas. O Tiago e o Marcelo foram os primeiros a subir. Nesse momento eu fiquei observando o modo de como eles subiam e pensava como eu com minhas pernas curtas ia alcançar aquela pedra. O Marcelo escorregou o pé na primeira tentativa, depois se agarrou na corda e usou bastante força para subir. Se os homens penaram para subir pela corda, imagina o que seria para mim!

Chegou a minha vez. Envolvi bem a mão direita em um dos nós da corda e a esquerda no corpo da corda.

14996645608_89c2bd8c54_o

Apoiei o pé na pedra, embalei para puxar na subida, mas deslizei o pé, voltando à base. O Tiago falava:
– Apoia os pés na pedra e firma bem com as mãos. Tenha no mínimo 3 pontos de apoio sempre.

Mas não adiantava muito, além da pedra lisa o meu ombro esquerdo também não estava ajudando, visto que o havia lesionado ele umas semanas antes em Santa Maria. Além de ele estar fraco, machucá-lo de novo e logo no início da travessia seria algo péssimo, ainda mais sabendo que teríamos diversas escalaminhadas, cordas e trechos de via ferrata pela frente. E para completar, havia um abismo logo atrás de mim. Um erro poderia ser fatal!

Fiquei um olhando a pedra procurando onde apoiar melhor o pé. Mas para todo o problema tem uma solução. Chamei o Fábio e pedi para ele firmar a perna bem na frente do degrau e pedi para o Marcelo ficar supervisionando a minha subida. Firmei bem as mãos na corda, peguei impulso na perna do meu amigo e subi. No fim do primeiro lance de corda, o Marcelo me deu a mão e assim e alcancei o segundo lance de corda, superando o famoso degrau do Ferraria.

O próximo trecho de corda foi tranquilo de passar. Mas teve corda porque o Tiago levou a dele. A corda da trilha estava cheia de limo e para completar sem a capa.

A tarde avançava e a alteração da posição do sol projetava a sombra das montanhas ao longo do vale. Ou a luz solar passava entre as frestas entre os imponentes paredões, formando um efeito incrível.

15179296351_f95ae428df_o

14995541649_fc14443fbe_o

Estávamos determinados em chegar ao local do acampamento planejado, mesmo que seguíssemos a trilha durante a noite. A subida final até o local do acampamento, no ante cume do Ferraria, foi bastante íngreme, com uma escalaminhada interminável. Era um barranco bem liso, e subimos ele quando já escuro, agarrando a vegetação.

Eu estava com a cabeça latejando da enxaqueca provocada, possivelmente, pela noite mal dormida durante a viagem. Na verdade, enxaqueca é uma certeza toda vez que viajo de ônibus até Curitiba. Dessa vez teve o plus da noite mal dormida. Isso fez com que eu fizesse o último trecho da subida com mais vontade.

Chegamos ao local do acampamento em torno das 18:40. Ali tinha um espaço justinho para três barracas. Começamos a ajeitar o camping. Deixei minha mochila com o Tiago e avisei que ia para um canto mais escuro do cume fechar um pouco os olhos, pois a dor de cabeça estava muito forte. Achei uma moita e deitei ali e fiquei observando as luzes de Paranaguá e Morretes por trás do Pico Paraná e de Curitiba mais para o sudoeste.

15182305985_e0ffdd1bc1_o

15179291741_5628c15853_o

Fechei os olhos que estavam doendo e acabei cochilando um pouco. Acordei com as vozes dos guris e encontrei o acampamento pronto. Meus olhos doíam muito e anunciei que ficaria com os olhos fechados um pouco. Não quis tomar remédio, sou meio teimosa para essas coisas. Descansando naquela noite estaria 100% no próximo dia.

O Tiago aprontou uma ótima polenta com calabresa e queijo provolone para a janta. Assim que jantei, me ajeitei para dormir pelas 20:30.

No meio da madrugada acordamos com roncos bem altos. Eu e o Tiago ficamos rindo e sem jeito de acordar o nosso amigo. De repente o Fábio pergunta da barraca:
– Vocês estão acordados? Eu não consigo dormir com esse ronco.

O jeito foi acordar o Marcelo. Depois de muita insistência, chamar pelo nome e sacudidas na barraca, ele acordou.

Fora a sinfonia de ronco, a noite foi maravilhosa!

Devido à dificuldade da trilha da face leste do Ferraria, apelidei carinhosamente a montanha de “Ferraria com tua vida”.

Dados do 1º dia da travessia:
Distância: 10,11 Km a pé.
Altimetria: 1742 metros de aclive acumulado e 186 metros de declive acumulado.

15182359772_2f2eee7f5d_o

Trilha da Face Leste do Ferraria:

15160204386_433c344ff7_o
Google Earth:

14995968639_3a085f5a14_o

 Trajeto do primeiro dia (Face Leste do Ferraria), para download:

Download da trilha

Texto: Luciana Gomes Moro
Fotos e dados: Tiago de Pellegrini Korb
Site: www.clubetrekking.com.br

Relato do segundo dia:

– A desafiadora Travessia Bairro Alto x Marco 22 PR, segundo dia.

Ferrovia Tronco Principal Sul e a Travessia Feitor Faé – Jaboticaba

Já era tarde quando recebi, pelo skype, o convite de meu amigo Geancarlos para uma pequena travessia. Ele havia comprado uma mochila nova e queria testá-la. Como havia apenas o final de semana para tal, decidimos por caminhar entre três estações ferroviárias de um pequeno trecho do Tronco Principal Sul (TPS). O TPS, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, foi entregue em partes, entre os anos de 1963 e 1965. Uniu as cidades de Mafra e Lages em Santa Catarina – daí o nome da linha Mafra-Lages – e foi construída pelo 2º Batalhão Ferroviário do Exército Brasileiro. Esse trecho transportou passageiros até 1978. Por volta de 1970, foi entregue o trecho ligando Lages / SC a Roca Salles / RS, mas este sem o transporte de passageiros. Hoje pela linha, trafegam os cargueiros da ALL, que assumiu como concessionária as linhas do Rio Grande do Sul em 1996. Unido às linhas que vinham de Itapeva, em São Paulo, via Pinhalzinho e Ponta Grossa no Paraná (entregues na primeira metade dos anos 1970), essa linha toda ficou conhecida como Tronco Principal Sul e com isso praticamente toda a antiga ferrovia Itararé-Uruguai da RVPSC (Rede de Viação Paraná – Santa Catarina) acabou por ser desativada.

Feitor Faé – Coronel Salgado

O sol raiou cedo na manhã de sábado. Enquanto terminava de arrumar a mochila, percebi que o dia seria promissor para o trekking. Sai de casa às 6h45 na carona de minha noiva, pegamos o Gean e por volta de 7h30 já estávamos na Estação Feitor Faé. Localizada no município de Vila Flores, vizinho de Veranópolis, a estação foi supostamente inaugurada em 1969. Recentemente, a ALL abriu um alojamento para maquinistas em seu pátio, com a finalidade de reduzir custos, enquanto fechou o de Roca Salles, próximo a Porto Alegre. Apesar de antigo, o prédio está muito bem conservado e situa-se próximo ao encontro da foz dos rios da Prata e do Turvo. Lugar muito bonito! Combinei com minha noiva a carona de volta para o dia seguinte e após algumas fotos, demos início à jornada.

Caminhar em linha férrea é assim: o seu passo não acompanha a distância entre os dormentes. Ora você faz o passo curto, ora você estica a perna e isso torna o progresso um tanto quanto difícil. Alternávamos entre o meio do trilho e a lateral cheia de cascalho. O sol batia forte no juízo quando surgia por entre as nuvens e a cada passo dado, Gean reclamava da regulagem da mochila. Sofreu, mas conseguiu enfim, um ajuste, digamos que perfeito. Ele ainda ficou louco de raiva quando dei minha opinião sobre a marca. E fui sincero em dizer que não gostava e que era uma porcaria! Mas como primeira mochila para iniciante, tá mais do que bom!

Nosso ritmo era lento e pelas marcações de distância ao longo da ferrovia, chegamos a uma média aproximada de três quilômetros por hora. Quando construíram a ferrovia, por padrão distanciaram as estações à aproximadamente 18km umas das outras. Com já havíamos percorrido uns 5km, concluímos que estaríamos na Estação Coronel Salgado, ponto de acampamento, por volta de 16h, afinal ainda teríamos o almoço e a parada na piscina abandonada da 4ª Secção. Conforme íamos progredindo, Gean elogiava a mochila, mas arrependeu-se por comprar um modelo de grande capacidade. O Rio da Prata nos acompanhava com suas águas lamacentas e tumultuadas. O clima abafado e a parca circulação de ar nos fizeram parar para abastecer os cantis. Água no trajeto não era problema, havia chovido bem uns dias atrás e as cascatinhas eram comuns à beira da ferrovia.

Enquanto descansávamos na entrada úmida e arejada de um túnel, demos início à gostosa comilança. Gean estreava seu novo fogareiro também. Combinamos que o fogareiro ficaria por minha conta para aquecer o jantar, mas ele não agüentou e trouxe o seu. Particularmente, não gosto de cozinhar no almoço, prefiro comer um lanche mais simples e rápido. Ele não, se entupiu de miojo! Para a inveja do Cacius e demais, logo após o lanche uma gostosa barra de chocolate foi saboreada; e põe gostosa nisso! Tralhas na mochila, pés no trilho e simbora para a piscina da 4ª Secção. Adentramos no escuro pintado de preto do túnel em U de 790m, eis que não demora muito para ouvirmos, ao longe, o som que parecia ser de um trem. Pensamos: “Justo agora?!”. Não podíamos mais voltar, pois já não avistávamos a entrada do túnel, então procuramos um guarda-vidas e lá ficamos até o trem passar. Foram incríveis 88 vagões e 02 máquinas em longos dez minutos!

Passada a experiência, saímos do túnel e pegamos uma estrada que nos levaria à vila abandonada, mais conhecida como 4ª Secção. Essa vila servia de moradia para os trabalhadores da linha e para o Batalhão do Exército que era a 1ª Cia. de Construção Ferroviária, localizada na 4ª Secção do Rio da Prata. Segundo informações ela foi abandonada no ano de 1971. Nela existiam oito casas, uma escola, um rancho com refeitório e um posto de saúde de emergência. Residiam umas 300 famílias de funcionários e mais uma companhia de soldados, com todos os militares oficiais. A vila possuía tudo que era necessário além das residências, armazém de secos e molhados, farmácia, posto de saúde, posto de combustíveis, cinema, açougue, padaria, almoxarifados para armamento e materiais, garagens, sistema de energia elétrica própria da Cia. gerada por dois robustos motores a diesel e linha de ônibus ligando a 4ª Secção do Rio da Prata até a cidade de Veranópolis diariamente. Infelizmente hoje está totalmente destruída e depredada.

Passar por entre as taperas velhas, tomadas por vegetação dá uma sensação de isolamento, de medo. Parece que você sente que algo está entre elas, o silêncio ganha vida. Entramos no que parecia o posto de saúde, porém mesmo estando abandonado há anos, observamos a marginalidade que tomava conta das paredes. Pixações que conotavam pornografia, religião e racismo nas mais diversas formas e cores. Fiquei impressionado com o raio de destruição que o ser humano pode alcançar. Deixamos a vila de lado e partimos em busca da piscina abandonada. Na época, para aliviar o calor impiedoso dos dias de verão, aproveitou-se a cascata de um rio e os moradores represaram a água que corria pedra abaixo.

 

Quando a vi, saí na corrida tirando mochila das costas e me despindo para um delicioso mergulho, afinal o calor estava insuportável. A piscina estava cheia, porém com o passar do tempo, a força do rio trouxe pedras que se acumularam no fundo em algumas partes. O meio estava limpo e ao testar sua profundidade, toquei os pés no chão, porém tive que descer muito. Após Gean também mergulhar, concluímos que havia aproximadamente uns 4 metros!

Aquele banho foi delicioso, ficamos um bom tempo curtindo o som da cachoeira, a água e recuperamos a energia gasta até então. Enchi meu cantil reserva que ia dobrado na mochila – que invenção! – pois onde acamparíamos não havia fonte alguma. Por um momento pensamos em ficar na vila próxima à piscina, mas não havia local para barracas e a distância a ser percorrida no dia seguinte, seria maior. Simplesmente, não queríamos sair de lá. A preguiça já dominava o corpo e a vontade de prosseguir era mínima. Ainda mais estando onde estávamos! Precisávamos continuar e renovados, percorremos mais alguns poucos quilômetros até avistarmos a Estação Coronel Salgado que foi aberta, possivelmente em 1969.

 

Encontramos um bom ponto para montar as barracas. Gean queria dormir sobre o pátio da estação, mais elevado em relação à ferrovia, porém como minha tenda é túnel, tivemos que dormir ao lado da rampa de acesso ao pátio. Jogamos uma boa conversa fora, preparamos um delicioso jantar, com direito a chocolate na sobremesa e improvisamos uma mesa para o jogo de cartas. Havia muitos mosquitos e todos eram atraídos pela luz das lanternas. Uma solução boa foi acendermos uma fogueira sobre a rampa de concreto do pátio. A fumaça logo os espantou. Durante o jogo de cartas, ouvimos novamente o som de um trem, dessa vez muito mais forte. Ao longe, podíamos observar o farol iluminando a copa das árvores e às 21h30 ele estava ancorando na estação. O maquinista muito gente boa, parou para trocar de pista, pois outro trem estava vindo em sentido contrário. Ficou conosco por alguns minutos, dividimos o chocolate enquanto nos mostrava o interior da locomotiva.

Quando o trem secundário alcançou a estação e sumiu por entre os vales, nos despedimos de Seu Antônio que seguiu seu caminho até Roca Salles. Era hora de deitar, ambos estávamos cansados, mas a caminhada tinha sido excelente!

Coronel Salgado – Jaboticaba

Acordamos cedo e o café foi servido por volta de 6h30. Durante a noite, outros trens passaram pelo acampamento, num total de três. Nenhum parou, mas fizeram muito barulho. Tive uma excelente noite de sono e graças à indicação do amigo Peter Tofte, as noites sobre um isolante em EVA de 1cm já ficavam para trás, afinal estreava meu inflável NeoAir da Therm-a-Rest. Me surpreendi com a qualidade do produto, muito confortável, muito prático, ocupa pouquíssimo volume quando guardado e é fácil de inflar. Após organizar a mochila, Gean percebeu que havia montado a barraca ao lado de um formigueiro gigante. Não sei como ele não percebeu antes de montar a tenda, mas a sorte foi que as habitantes não se rebelaram e não o atacaram. Imagine só a barraca cheia de formigas no meio da noite!

O dia amanheceu meio nublado, a presença do sol era rara e já cogitávamos a possibilidade de uma chuva leve. Tínhamos 18km a percorrer até a Estação Jaboticaba e era preciso manter uma média mínima de 4 km por hora, para chegarmos no ponto de resgate às 13h como combinado, pois Gean tinha um compromisso inadiável.

A manhã foi praticamente sem conversas, o ritmo era pesado e procurávamos manter a concentração para caminhar com segurança sobre as imperfeições da ferrovia. Paramos as 10h30 para um breve descanso e lanche, novamente na entrada de um túnel e ao prosseguirmos, fomos pegos de surpresa por uma vagoneta que vinha a milhão com os faróis apagados. Percebemos sua presença quando ela já estava muito próxima e a reação imediata foi a de pular para a lateral e adivinhem: distendi o músculo da panturrilha.

Passa gelol que passa, coloca uma faixa de compressão improvisada e segue o teu caminho com cuidado. Foi assim que agüentei os quilômetros restantes até a chegada em áreas particulares da Usina Hidrelétrica de Monte Claro. O trilho acompanha uma vasta extensão do reservatório formado pelo represamento das águas. Sabia que logo após a usina, havia o túnel em Y. Fiquei maravilhado em poder chegar lá, afinal faltava muito pouco até a estação, porém já eram 11h30 e ainda tínhamos de percorrer o trecho de 2km até a estação e mais 6km até o ponto de encontro, por estrada de chão. Deveria ter dito a Dai que viesse nos pegar na estação, mas esse detalhe passou batido e o sinal de celular não existia por lá.

Quando saímos do túnel em Y, a animação tomou conta. Vimos que ao lado dos trens estacionados na estação, havia um carro. Gean disse: “Corre que a gente consegue carona”. Ofegante e com dor na perna, fiquei um pouco para trás e deixei que ele se virasse com a carona, afinal me devia o chocolate. Para nossa surpresa, nosso amigo Arthur estava lá. Ele ia em direção à Bento Gonçalves e no caminho resolvera se dirigir à estação para algumas fotos das locomotivas. Sentamos no pátio da estação e lá ficamos, descansando, mandando água garganta abaixo, enquanto Arthur tirava mais fotos.

A Estação Jaboticaba foi inaugurada em 1967 e passou a ser o entroncamento entre a linha Mafra-Lages (Tronco Principal Sul) e o ramal de Bento Gonçalves, bem mais antigo e aberto em 1919, ligando Bento Gonçalves a Carlos Barbosa, na linha Porto Alegre – Caxias do Sul. Um trecho desta ferrovia abandonada, percorri em companhia dos amigos Cacius e Felipe. O trecho de Bento Gonçalves ao Rio das Antas estava pronto desde 1951, mas sem importância estratégica, seguindo para o nada, onde não havia ainda o projetado TPS. Em 1978, havia um trem turístico chamado de Trem da Uva, que fazia o percurso Jaboticaba – Bento Gonçalves, ida e volta. Quando o TPS começou a ser construído, este ramal serviu de apoio.

Combinamos a carona até a Ponte do Rio das Antas (Ponte Ernesto Dornelles), considerada a maior ponte pênsil de arcos paralelos do mundo e assim, poupamos os 6km restantes de estrada de chão. No caminho Arthur pediu que o convidássemos para um próximo trekking, ele também gostava muito do esporte e de se aventurar na natureza, porém não conseguia conciliar a atividade com os amigos. Atualizamos os números nas agendas e Arthur seguiu para seu compromisso, enquanto eu e Gean aguardávamos a chegada da carona tomando uma geladíssima Budweiser.

Fazia tempo que não trilhava com Gean, foi muito gratificante poder dividir o final de semana, um gole d’água, as risadas, a excelente companhia e até o chocolate. Voltamos para casa com o sentimento de dever cumprido, de espírito renovado e a certeza da continuação deste belo trekking. De Jaboticaba até a Estação Santa Tereza, mas aí é outro relato!

As fotos não estão muito boas, pois tirei do meu celular (ambos esqueceram as câmeras) e passei num programa para correção. Algumas não são do dia, pois tirei poucas imagens então resolvi complementar com as que tinha no meu arquivo, para mostrar mais a região.

INFORMAÇÕES TÉCNICAS

O acesso à região é fácil e em caso de emergência, várias famílias de agricultores estão dispersas pelas redondezas da ferrovia;

A travessia não é exigente em termos de terreno e preparo físico. Ela acaba se tornando cansativa em virtude de não haver variação no perfil altimétrico, do grosso cascalho e do espaçamento nos dormentes;

A melhor época para fazê-la é no inverno, que coincide com o período de chuvas, porém há maior circulação de trens. No verão a água é escassa e se for fazê-la é bom deixar para uns dias depois de eventuais chuvas e a passagem dos trens reduz consideravelmente (eles circulam mais à noite);

Aqui vale o equipamento básico do básico. Para acampar, pode-se utilizar bivaque. A região é bem propícia para tal, inclusive pertinho da piscina. Lanterna é indispensável para cruzar os túneis. Neles há riscos de lascas soltas dos trilhos e se você não se ligar, pode se machucar gravemente, com direito à infecção, tétano e por aí vai. Sem falar que se você encontrar um trem dentro do túnel, não saberá para que lado procurar um guarda-vidas.

Bons ventos!

Edver Carraro para Trekking RS

Edição: Marcio Basso

Relato fotográfico: Travessia Morro da Igreja SC x Serra da Rocinha RS

Esta travessia faz parte do projeto pessoal de Tiago de Pellegrini Korb: Travessia Trans Aparados da Serra RS/SC. Será uma travessia com cerca de 320 Km entre a rodovia Rota do Sol (trevo para Cambará do Sul RS), até Alfredo Vagner SC. Atualmente o projeto desta grande travessia brasileira esta em andamento com 3/5 já realizados.

Fotos: Tiago de Pellegrini Korb

Nas fotos abaixo apresento duas partes já realizadas no ano de 2014. Começamos no Morro da Igreja em Urubici SC e caminhamos até a Serra da Rocinha, mais precisamente no Vale das Trutas em São José dos Ausentes RS.

1° DIA: Morro da Igreja até os Campos de Santa Barbará – SC.

15423432285_bce0300811_o

15400395786_12a0cdeaec_o

15236868667_4e0836750b_o

15236847168_b1d07f2f12_o

15236763330_5ea93471f6_o

2° DIA: Campos de Santa Barbará ao Cânion das Laranjeiras – SC.

15423097322_9c34027216_o

15420264851_b435102f73_o

15423441115_cc84293aaf_o

15236762290_e16e28139a_o

15423096252_f2b248653b_o

15420263921_89b9a4e5d7_o

15236889687_a2ac528886_o

15420263311_2f1952a0c5_o

15420262581_95f48bb01a_o

3° DIA: Cânion das Laranjeiras ao Cânion do Funil – SC.

15236760470_6932f52472_o

15420262231_06a277e893_o

15423438825_58f8342fbd_o

15236843418_bdb8982b01_o

15236680569_e9cf1e95cb_o

15420261311_e07c7ceaf6_o

15236842498_ef881180e2_o

15236758820_338b46bd51_o

15400389836_4064cddd65_o

15400389596_b1d8b8d90e_o

15423091862_b5bc7fe582_o

15236678359_f9e8dfae6d_o

15420258431_0acb78c731_o

15236676979_3d03d95bb1_o

15236883727_95c204c0e7_o

15423089662_1cc0212837_o

4° DIA: Cânion do Funil até a Serra do Rio do Rastro – SC.

15423434245_ef1de57dd1_o

15423434055_e86d224dd7_o

15400386306_69e1a1f72e_o

15236882267_5f5ae52222_o

15423088802_26d1348a20_o

15423433015_1356aedac1_o

15236753450_389067b8e0_o

5° DIA: Serra do Rio do Rastro até a Serra da Veneza – SC.

15236836058_59a0093223_o

15236880777_95ba48fb13_o

15236823098_610499c32f_o

15236752200_0eb6bc938b_o

15236751820_1ae9fc62fb_o

15400383016_728b3bfaea_o

15423430485_4d96098100_o

15420252321_05e3f9dd9c_o

15236878747_a6c2701d64_o

15423429515_8d9b769dfb_o

15236670869_032c40d0d3_o

15236749610_b7338b8300_o

6° DIA: Serra da Veneza até o Cânion da Cruzinha – SC/RS.

15236669969_8b712c797e_o

15236877257_daccd321b3_o

15236669509_201e455ebd_o

15423427475_ff33c66dc8_o

15420249381_e186429f14_o

15236747740_a398542ab8_o

15400379116_d3f15a9ae8_o

15236668409_519f5df653_o

15236830218_0bd28681ca_o

15400378156_c7580db773_o

7° DIA: Cânion da Cruzinha até o Cânion Amola Faca – RS.

15400377876_454090e084_o

15423080042_a00b351b94_o

15236666839_6ae37d9684_o

15236828428_6d4651319e_o

15400376396_65a5eba466_o

15236872947_569b60f19d_o

15420245761_7a7a58f9d2_o

15236827138_946102a481_o

15236743740_8ded50b48a_o

15420244281_e62daa7112_o

15400373896_3f566e19fb_o

15423421775_cb18fff6dc_o

8° DIA: Cânion Amola Faca até o Vale das Trutas na Serra da Rocinha – RS.

15423421325_cf0873d5c3_o

15236869897_a7a54114c2_o

15400372226_82ecb78754_o

15236869387_498aba46b9_o

15423074392_c32816da0a_o

15400371226_d8f139a674_o

15236822578_5e4242c238_o

Dados da travessia:
Distância: 155,319 Km a pé (aferido por GPS).
Altimetria: aclive acumulado de 4519 metros e declive acumulado de 4924 metros.

15236804770_989627cc07_o

Visualização da travessia no Google Earth:

15236804540_8650606008_o
Tiago de Pellegrini Korb
55 3317 3400
55 8407 1646 (Oi)
www.clubetrekking.com.br
Skype: tiagokorb