Viajando de gol 1.0 pela América do Sul

Viajando de gol 1.0 pela América do Sul, escrito por nosso amigo Lucas Macalister, é a prova real que você não precisa muito para fazer aquela viagem dos seus sonhos, basta apenas ter vontade e realmente sair da sua zona de conforto.

Em dezembro de 2015 Lucas e mais dois amigos: Anderson Kovalski  e  Evandro Vogel realizaram um sonho, fazer uma Road Trip (viagem de carro) pela América do Sul, veja abaixo o seu relato de viagem.

Saímos de Novo Hamburgo/RS – Brasil a bordo de um Gol 1.0 com o objetivo de conhecer a maior quantidade de lugares em 30 dias, gastando o mínimo possível, os dias que parávamos para dormir eram na maioria das vezes em campings, postos de combustíveis e até mesmo em um lugar qualquer no meio do nada, foram poucas vezes que nos hospedamos de fato, cozinhávamos a nossa própria comida durante a viagem.

gol 1.0 pela América do Sul
Roteiro da Viagem

A viagem se tornou uma experiência bem roots, viajávamos como se fossemos caminhoneiros, falando em caminhoneiros, inúmeros deles nos ajudaram, ficamos sem gasolina em meio a Patagônia, os novos amigos caminhoneiros nos doaram querosene para colocar no carro 😂 no qual conseguimos rodar cerca de 30 quilômetros até o próximo posto.

Ushuaia na Argentina foi uma experiência incrível, aqueles picos nevados, o sol lá se põe às 22 horas e nasce por volta das 4:30 da manhã, estes são momentos únicos.

gol 1.0 pela América do Sul
Ushuaia/Argentina
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Ushuaia/Argentina

El Chaltén na Argentina, capital nacional do Trekking ficamos em um hostel na qual estava com lotação máxima e conseguimos lugar para acampar no pátio, a noite fomos socializar com o pessoal ao lado de uma lareira tomando um chimarrão, juntamente ali com o pessoal havia um cachorro Buldogue, este ficava o tempo todo querendo carinho, na parte de dentro estava quentinho, no lado de fora era muito frio. Ali também tinha um pessoal preparando os equipamentos para escalar no dia seguinte e um outro grupo cantando e tocando violão ao redor de uma fogueira.

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El Chaltén/Argentina
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El Chaltén/Argentina
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El Chaltén/Argentina

Saímos de El Chaltén com destino a Torres del Paine no Chile, lugar mais lindo de toda a viagem, lugar de trilhas com as melhores paisagens que já vi, lugar que acredito ser o mais indispensável para conhecer na Patagônia.

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Torres del Paine/Chile
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Torres del Paine/Chile
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Torres del Paine/Chile

Passamos por diversos lugares no caminho, estradas com paisagens magnificas, Bariloche linda demais. No dia 30 de dezembro vimos que daria pra passar o ano novo em Santiago no Chile, lembro que chegamos na Aduana Argentina/Chile pelas 18 horas e estava fechado, só pela manhã abriria, então acampamos ao pé do Vulcão Lanín, ao lado de um lago repleto de peixes e vários coelhos em volta das barracas. No dia seguinte levantamos atrasados, depois de nos ajeitar seguimos viagem rumo a Santiago.

Chegamos por volta das 23 horas no centro da cidade, não conhecíamos nada, diversas ruas bloqueadas por causa do ano novo até que um guarda viu que estávamos perdidos, abriu o bloqueio e deixou a gente estacionar perto da praça que teria os shows de fogos, o ano novo foi incrível, conhecemos muita gente e fizemos várias festas juntos pela cidade. Nos dias seguintes conhecemos a capital, Vinã del Mar e Valparaiso.

Era hora de partir para o Deserto do Atacama, chegamos em San Pedro de Atacama parecíamos que estávamos em Marte, lugar com uma geologia estranha, o deserto mais alto do mundo, clima seco, dias com calor de 40°C graus e noites com frio de 5°C graus, por falar em noite, lá é onde você verá o céu mais estrelado possível e é o lugar onde tem o a maior rede de telescópios do mundo, o ALMA. Encontramos um camping muito esquisito, parecia que estávamos num alojamento do exército no Iraque 😂, conhecemos pessoas de várias partes do mundo. O próximo destino era Cuzco no Peru.

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Deserto do Atacama/Chile
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Deserto do Atacama/Chile

Viajar de carro pelo peru é demais, campos e montanhas e vilarejos, uma imensidão de verdes e azuis, estar em Cuzco te deixa com um sentimento espiritual muito bom, sei lá, não sei explicar, a capital do império inca te insere num contexto cultural incrível. Numa certa noite resolvemos ir numa balada aos redores da Plaza de Armas no Centro Histórico de Cuzco, chegando lá encontrei um amigo da minha primeira viagem ao Peru, Welington Silva que estava com um grupo de brasileiros, no dia estava frio e deixamos nossos casacos em uma mesa junto com dois demais do grupo, quando decidimos ir embora nossos casacos aviam sumidos e com a chave do carro dentro😂 . Foi onde começou o desespero, não encontrávamos um chaveiro para nos ajudar, depois de dois dias com a ajuda do Harry Corrimayta, um amigo e proprietário do hostel que estávamos hospedados, conseguimos um chaveiro para fazer uma chave codificada.

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Cuzco/Peru
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Cuzco/Peru

Saindo de Cuzco com boas e mas lembranças a próxima parada foi o Lago Titicaca em Puno/Peru, lago navegável mais alto do mundo, onde o povo Uros vive até hoje em ilhas artificiais feitas de capim. Depois de conhecer bem o local o próximo destino era a Bolívia, na manhã de começar a viagem novamente pegamos nossas bagagens e colocamos no carro que estava estacionado em frente ao hostel, uma rua movimentada cheia de comerciantes na rua e andamos a pé até uma padaria para comprarmos nosso café da manhã, demoramos 10 minutos e no retorno começou o desespero parte 2, arrombaram nosso carro e roubaram nossas compras, notebook, um ipad e duas câmeras que eram uma @gopro e uma @nikon profissional com todas as fotos da trip que já eram milhares de fotos e vídeos dos mais de 20 dias percorridos.

Com todo o ocorrido ficamos desanimados, perdemos um dia na delegacia. Lá conhecemos inúmeras pessoas  que também haviam sido roubados, dentre eles estavam um casal de brasileiros, uma família de colombianos e um cara chamado Libardo Martinez estava fazendo uma viagem parecida, ele tinha passado pelo Salar de Uyuni na qual seria o nosso próximos destinos e nos falou que as condições das estradas até la eram péssimas e a partir daquele momento decidimos encerrar a viagem. Percorremos alguns locais da Bolívia sendo: a capital La Paz, Cochabamba e Santa Cruz de La Sierra, até chegarmos finalmente no Brasil em Corumbá no Mato Grosso do Sul e comer aquele Xis tudo para comemorar que havíamos conseguido sair da Bolívia depois de ter que pagar diversas propinas para que os policiais corruptos nos deixassem prosseguir para casa.

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Corumbá/Brasil

Fiz esse resumo da viagem para ficar guardado o que vivenciamos, foram 30 dias de viagem, mais de 18 mil quilômetros de muitos perrengues, mas não me arrependo de nenhum dia, conhecemos algumas das paisagens mais lindas que já havia visto.

Devido ao roubo de quase todas nossas fotos, restam restaram apenas recordações. Agradeço a os meus amigos de viagem que me aguentaram viajar junto com “poucas” brigas e também as pessoas que nos ajudaram pelo caminho. Desejo que este post inspire algumas pessoas a viajar, que mostre que não precisa o melhor carro, ser rico, ser formado, estar casado… para poder viajar.

“Existe um mito de que tempo é dinheiro. Na realidade, tempo é mais precioso que dinheiro. É um recurso não renovável. Uma vez que você o gasta, e se você o usou mal, ele se foi para sempre.” Neil Fiore.

*as fotos postadas são as poucas que conseguimos salvar em nossos celulares.

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

Aloha Galeraaa, tenho o prazer de compartilhar um pouco com vocês do que foi o meu mochilão de 16 dias pela surpreendente Bolívia e o místico Peru com meus míseros R$ 2.300,00 reais, isso já incluindo passagem de ônibus é claro!

A escolha não foi somente pelo baixo custo da viagem, mas também por poder conhecer uma das 7 maravilhas do mundo Machupichu, acredito ser a Meca para qualquer mochileiro.

Como atualmente me encontro na fronteira com o Paraguai, tive a oportunidade de pensar em alternativas mais baratas para chegar ao país de Evo Morales. Fui até Assunção, capital paraguaia e de lá peguei um ônibus direto para Santa Cruz de La Sierra a um valor de 350 guaranis (aproximadamente R$ 250,00 reais) incluído as refeições pela empresa Transbolipar SRL.

Obs: Existe outra empresa que faz essa mesma linha (STEL turismo), com custos e estruturas praticamente iguais, aproximadamente 30 horas de viagem sem ar-condicionado e cruzando o chaco paraguaio e também cruzando os dedos para o ônibus não quebrar no meio do deserto. Assim  é essa região do Paraguai.

26.01

Parti de assunção com 4 horas de atraso, nesse meio tempo aproveitei para fazer amizade com duas equatorianas e um casal de franceses que fariam um roteiro parecido.

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27.01

Passei o dia no ônibus imaginando e contendo minha alegria em estar desbravando aquelas terras prometidas.

28.01

Cheguei em Santa Cruz as 04:00 horas e fui direto para um hotel na frente do terminal bimodal da cidade para tirar apenas um cochilo, pois queria estar em pé as 08:00 horas para embarcar no primeiro ônibus para La paz. O balde de água fria veio logo quando cheguei e percebi que só teria a tarde para aproveitar, então para ganhar tempo comprei passagem para Cochabamba, metade do caminho. A passagem saiu 80 BOL (aproximadamente R$ 50,00 reais) com duração de 11 horas, cheguei lá no inicio da noite, devorei um tradicional Pollo com papas e logo as 21:15 estava subindo ao ônibus novamente, este me levaria finalmente a tão esperada La Paz.

29.01

Cheguei na capital La paz  às 05:00 horas da matina e fui direto ao Hostel Loki onde havia feito a reserva, recomendo muito, além de ótima estrutura e localização o albergue promove festas todas as noites com os mais variados temas, sem contar as bebidas!A diária custou entorno de 55 BOL (aproximadamente R$ 35,00 reais), o único fator negativo é não contar com uma cozinha para se fazer a própria comida o que deixa as refeições mais caras.

Depois de deixar a mochila no hostel fui bater perna pela cidade, a primeira parada foi o Mirador Killi Killi nas proximidades do centro, a entrada é gratuita e da para ter uma boa vista da cidade de La paz e das montanhas que a rodeiam. Passando pela bela Plaza Murilo e o Museu Nacional Etnográfico pode-se entender um pouco da cultura local e suas mudanças com o passar dos anos, o custo da entrada é 20 BOL. (R$ 12,50 reais).

A próxima parada foi a Calle Sangarnaga onde se encontra os melhores câmbios e passeios, com o melhor custo-benefício da cidade. Meu final de tarde foi no tradicional Mercado de las Brujas, lá é evidenciado o quanto nossa cultura sul americana é rica com uma variedade de cores e cheiros exóticos.

Como o dinheiro estava curto por um mau planejamento, tive que deixar a visita ao Salar de Uyuni para outro momento e acabei comprando os passeios mais baratos que encontrei.

30.01

Depois de ter feito amizade com outro brasileiro no hostel e ter bebido tudo e mais um pouco na festa na noite anterior, cedo estava em pé para conhecer o grandioso Monte Chacaltaya e o Valle de la luna, o custo total do passeio foi de 120 BOL. (aproximadamente R$ 75,00 reais) com guia e as 2 entradas incluídas.

Os 5.400 metros de altitude do Chacaltaya são superados em menos de 1 hora, o desafio foi mesmo respirar e caminhar ao mesmo tempo, acredito que além do mal da altitude o suco de cevada que tomei na noite anterior colaborou e muito para o cansaço e a dor de cabeça que sentia. Era um sonho chegar até o pico daquela montanha e apesar de não ver neve na quantidade que desejava, a beleza daquele lugar é inigualável.

Depois de passar um frio de renguear cusco no meio das montanhas fomos ao sul da cidade onde fazia mais de 25ºC no Valle de La luna, algo bem menos emocionante e bonito, mas como estava incluído valeu a pena.

 Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

31.01

Meu 3º dia em La paz foi reservado para conhecer o antigo povoado pré inca de Tiwanaku, entrada, guia e almoço custava 190 BOL. (R$ 120,00 reais), um ótimo lugar pra quem gosta de história e se interessa pela cultura local. No almoço após o passeio experimentei carne de llama e truta, pois já não aguentava mais comer frango.

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

01.02

Deixei La Paz para trás e fui em busca do azul enigmático do lago Titicaca, a viagem até Copacabana é de 4 horas e a passagem custa 30 BOL (R$ 19,00 reais). Chegando lá fiquei em um hostal em frente ao famoso lago com diária pelos mesmos 30 BOL. Larguei a Mochila e fui explorar o belo lugar. Como estava com um casal argentino que conheci no Chacaltaya, resolvemos subir o Monte do Calvário, parte mais alta da pequena cidade. A vista lá de cima é incrível recomendo subir e ver toda a beleza do lago navegável de maior altitude do mundo com 3.812 metros de altitude em média. Na volta não perdemos tempo e compramos a passagem para a Isla del Sol para fazer a trilha de 7 km do Norte ao Sul da Ilha por 35 BOL. (R$ 22,00 reais).

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

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02.02

Saímos de Copacabana com a embarcação às 08:30 e chegamos na parte norte da ilha aproximadamente 2 horas depois, meus amigos ficaram acampando pelo lado norte e eu segui a trilha até o sul da ilha. Me deparei com as paisagens mais lindas que já vi. Lugar incrível e com uma vibe fantástica, com certeza superou minhas expectativas. As 15 h e 30 minutos a embarcação já se encontrava no pequeno porto do sul da ilha para a volta a Copacabana que tem uma duração menor, as 17 horas estava em terra firme para fazer um lanche rápido e subir no próximo ônibus com  destino a capital Inca, Cusco! A empresa Titicaca cobrou 110 BOL. (R$ 65) por aproximadamente 11 horas de viagem.

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

03.02

As 5h e 30 minutos estava em solo Inca e corri para o meu hostel, mais uma vez o Loki de Cusco. Tomei café fui mais uma vez bater pernas, agora no centro histórico de Cusco. A cidade é organizada e limpa situação bem diferente da vizinha Bolívia, na avenida El sol encontrei os melhores câmbios e venda de passeios com as agencias mais baratas da redondeza. Também é o lugar certo para encontrar artesanato local e claro pechinchar muito! Comprei na prefeitura da cidade um passaporte para o Valle sagrado dos incas (Pisac, Ollataytambo e Chinchero), cidades aos arredores de cusco onde haviam antigas civilizações desse místico país e pagando por volta de 70 Soles (R$ 100,00 reais).

A noite foi reservada para conhecer as baladas de cusco que por sinal não se cobra a entrada e por isso fiz um tour, comecei no Mama África, passando pelo El Templo e terminando na Chango. Literalmente tem para todos os gostos.

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

04.02

Passei o dia conhecendo as belas cidades incas, o passeio com guia e almoço custo 45 Soles (R$ 65,00 reais), as entradas mais o guia não são baratos mais vale muito a pena. Foi incrível conhecer tudo isso, mas claro vá antes de conhecer Machupichu, para não desanimar!

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

05.02

O 3º dia na capital inca foi para relaxar depois da correria dos últimos dia, acordei mais tarde que o normal e saí para conhecer o Convento de Santo Domingo por 10 Soles (R$ 15,00 reais), caminhar pelo mercado público de San Pedro e o Museu Pré-colombiano com entrada de 20 soles (R$30,00 reais). Nesse último achei a entrada cara pelo que oferecia, com certeza não é prioridade como passeio aos arredores de Cusco, Plaza das Armas é realmente belíssima além do centro histórico da cidade.

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

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06.02

É hora de se despedir dêsse linda cidade e seguir rumo a água quente, última cidade antes de Machupichu, claro da forma mais barata possivel ea maneira escolhida foi ir de van até a hidroelétrica e de lã seguir a pé por 9 quilômetros sobre a linha férrea ! Comprei a Passagem na Av. El Sol no centro de Cusco por 70 soles (R $ 100) incluindo a volta 2 dias depois.

A trilha foi muito cansativa pra mim pois estava carregando quase 15 quilogramas, mas a paisagem é recompensadora, levei aproximadamente 3 horas para chegar finalmente ao destino, Hostel Supertramp foi a cama mais cara que dormi na viagem 36 Soles (R$ 52,00 reais), mas no meio daquela selva não existe nada barato mesmo. Depois que cheguei da trilha só pensava em cair na cama para no outro dia realizar meu sonho de conhecer a cidade sagrada!

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

07.02

Acordei cedo para aproveitar intensamente cada segundo do dia, o ingresso para Machupichu já havia comprado 20 dias antes da viagem, mas o do ônibus para chegar até o Parque Nacional comprei um dia antes por 12 Dólares, aproximadamente 30 min. de subida até a entrada da cidade sagrada. Passei as catracas e fui correndo subir o grandioso Wuaynapicchu, recomendo que compre o ingresso para a subida no grupo 2 às 09:30, pois antes desse horário a visão fica totalmente comprometida lá de cima.

Sem palavras para descrever o misticismo daquele lugar, renovei as baterias e respirei fundo para agradecer a realização de mais um sonho.

Voltei para a cidade a pé pelas escadas para preservar meus últimos trocados, chegando no hostel ainda em êxtase tentei dormir cedo para encarar a trilha de volta a hidroelétrica logo pela manhã.
Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

Mochilão de 16 dias pela Bolívia e Peru

08.02

Saindo do hostel quase as 11 horas e depois um bom café da manhã, cheguei bem desgastado da hidroelétrica as 14:30 para voltar a Cusco, chegando de volta a capital Inca as 20 horas e corri para a rodoviária da cidade. Para a minha decepção só haveria passagem para o outro dia e claro já garanti a minha para não ter surpresas.

09.02

A passagem mais barata que encontrei até La Paz foi a 80 Soles ( R$ 115,00 reais) com aproximadamente 18 horas de viagem pela empresa San Luís, teve uma troca de ônibus na cidade de Puno e depois seguimos de volta a capital Boliviana.

10.02

Cheguei em solo boliviano as 16 horas e depois segui a Cochabamba pela empresa El dorado por 60 BOL. ( R$ 36,00 reais).

11.02

Madrugando em Cochabamba às 5:00 horas e como o personagem “The Flash” embarcando as 05h e 30 minutos para Santa Cruz de La Sierra por 80 BOL. (R$ 47,00 reais) pela empresa Santa Cruz. Cheguei ao destino final da viagem as 16 horas com quase nada no bolso mais cheio de histórias pra contar e com o coração mais leve. Dormi no hotel mais barato que encontrei na frente da rodoviária por 40 BOL. (R$ 24,00 reais), depois de passar 2 dias pulando de ônibus em ônibus só precisava mesmo é de uma cama boa.

12.02

Pela mesma empresa que comecei a viagem (Transbolipar S.R.L) ás 19 horas, parti de volta a capital paraguaia, com um sentimento indescritível de dever cumprido e sonho realizado.

Huayna Potosí, a jovem montanha de 6 mil metros

Huayna Potosí, a jovem montanha de 6 mil metros

A cidade de La Paz fica no fundo de um vale em forma de abóboda, a 3.660 metros de altitude no oeste da Bolívia. Lá, onde nas encostas dos morros, nuas, sobre a terra com brilho de aço, serena e esgotada debaixo do suave pranto do sol, os moradores imprimem uma congregação desordenada de construções despidas de reboco.

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O centro da cidade é apertado, barulhento e movimentado. Tudo se passa nas ruas, que são tomadas pelo caos. Transitam automóveis, pessoas, animais e carrinhos abarrotados de frutas; todos se deslocam, misturados, pelas pistas de rolamento. Ao lado, por detrás das sarjetas e ao longo das avenidas, a vida comercial de La Paz. As mulheres espremem laranjas, cozinham pratos exóticos, negociam chás, ingredientes para rituais, roupas e moedas. Além disso, ao passar o dia na rua, podem-se observar discussões, gargalhadas, turistas e moradores de rua.

Entre as ruelas, esses moradores – qual dentre os dois milhões de habitantes dessa cidade não importa, quase sempre é uma mulher, vestida para o frio seco, miúda e escura em seus trapos, com um pequeno chapéu raso, coroado por uma cúpula ondulada, nivelado exatamente no topo da cabeça. Uma mulher agudamente velha, com um olhar apertado, como se estivesse olhando para uma fonte de luz, pode ser vista com a mão estendida, pedindo esmola para os transeuntes.

As montanhas também podem ser vistas de muito longe. E há muitas para ver – longe das sombras volantes do vale de pedra, incrustado a sudoeste do país, fica o Monte Illimani, com 6.462 metros de altitude. A sacralidade das nuvens que cobre seu cume frágil e enraizado de neve é tão perfeita que, visto contra o céu, parece uma fragílima membrana de vidro, faminta da mais fria noite, quando as primeiras estrelas começam a brotar no espaço. Sua delicadeza é tão radical que nem mesmo a desordem da cidade é capaz de perturbar seu silêncio.

A uns 30 quilômetros a noroeste de La Paz, a paisagem, com seu sol de raios candentes, brilhando de maneira tal que dois terços dos olhos ficam apertados e dolorosos se fixados por muito tempo contra o céu, dá lugar ao altiplano boliviano. Os habitantes locais trazem as farpas da pronúncia milenar da língua aimará, a nasalidade dos homens camponeses, e as mulheres, muitas delas, usam saias plissadas, chapéu-coco e awayo – uma espécie de manta que complementa o traje da tradicional chola.

A terra é árida, e os panoramas são incrivelmente extensos. Lhamas, rebanhos de carneiros e casas de adobe que se elevam graças a paredes cobertas de fuligem e telhados de palha são visíveis muito tempo antes que os viajantes as alcance. Pelas pradarias do altiplano, no meio das amplas lacunas do mapa boliviano, onde não há nada senão silêncio, quando a neve descongela, ou depois que chove, os carros erguem um longo babado de poeira laranja e espessa que é levada pela corrente de ar e se infiltra nas narinas, cabelos e pele com uma facilidade desprezível.

Subimos o barro frouxo até o nordeste da cidade, em uma espécie de caminhão com carroceria de ônibus, da cor laranja e com-muitos-anos-de-vida. Meus companheiros de viagem são Felipe, Willians e Tiago, além de um grupo de aventureiros que estão, assim como nós, nesta expedição para fazer um curso de escalada em gelo com os guias Maximo Kausch e Pedro Hauck. E, se tivermos força, se formos aceitos pelas montanhas, subir o Huayna Potosí, que ocupa a octogésima posição entre os picos mais altos da Cordilheira dos Andes, com 6.088 metros de altitude.

O calor e o prazer de viajar me amaciaram e me deixaram sonolento, então me estendi no ato de observar a paisagem, prestando pouca atenção a qualquer coisa, a não ser a estrada que corre por baixo de mim. Gradualmente, ao longo desses 30 quilômetros de terra, bem próximo da estreita margem do perigo, o sol se inclina a 50 graus à minha esquerda, queimando minha face e meu ombro.

É preciso ser um especialista em geografia para entender esse lugar. A toda hora o viajante se afunda em um longo e exíguo silêncio, tentando decifrar através das janelas borradas do ônibus, onde uma mosca se debate contra o vidro reluzente, os flashes da paisagem fria e enigmática das montanhas enquanto o rugido metálico do motor do ônibus levanta as mansas cabeças de lhamas a meio quilômetro de distância.

De vez em quando, paramos na beira da estrada sempre que alguém deseja descer para urinar. Isso por causa dos quatros litros de água que tomamos diariamente para nos aclimatar à altitude. Menos de dois quilômetros atrás, em um campo plano, a terra se afundava calmamente em um lago, o Milluni, totalmente nu ao sol. Mais além, onde nossos crânios estreitos começam a ser arruinados pela altitude, aproximamo-nos suave e estranhamente até as margens de um cemitério sombrio e submerso na solidão do altiplano. Paramos lentamente o veículo, desci até onde Felipe, Willians e Tiago estavam, observando-o cuidadosamente.

Pendem nas sepulturas folhas metálicas de crucifixos, tortos, enrugados de ferrugem e absurdamente comestíveis ao tempo. Essas sepulturas têm todos os tamanhos possíveis, desde adultos a recém-nascidos. Algumas das maiores, por outro lado, atingem a dimensão heroica de 1,5 metro de comprimento, aglomeradas em um espaço tão apertado que parecem uma colmeia, com menos de um metro umas das outras.

Em 1962 explodiu na comunidade do Alto Milluni uma revolução dos mineradores filiados à Central Obrera Boliviana (COB), que declararam greve de fome para denunciar as condições de cárcere dos trabalhadores das minas e pedir melhorias socioeconômicas no país. A Bolívia passava pela ditadura militar, um governo de direita, comandado pelo general René Barrientos Ortuño.

Em meados de 1964, teve início um conflito dramático entre trabalhadores e o governo. Soldados e aviões da Força Aérea Boliviana receberam ordens para bombardear os acampamentos nas regiões de Trapiche e Viudani, locais onde os mineradores fizeram barricadas e montaram suas trincheiras para enfrentar as tropas do exército. O resultado foi uma carnificina que praticamente dizimou o pequeno povoado. Os que não sobreviveram ao massacre de Milluni – os primeiros como vítimas do governo e os segundos pelas enfermidades e mal de todos os mineiros: a silicose, doença provocada pela inalação da sílica – estão enterrados nesse cemitério.

Huayna Potosí
Foto: Jonatar Evaristo

O LUGAR – Jogados longe o bastante para perdermos a noção de espaço e tempo, aproximamo-nos de uma casa posta solitária a 4.700 metros de altitude no interior do país, a primeira que avistamos em muitos quilômetros. Numa extremidade da casa fica o segundo andar, em cuja parede externa se ergue uma faixa amarela em que se lê “Refúgio Huayna Potosí”. À nossa volta, até onde a vista pode alcançar, tudo se resume em rocha, gelo e montanhas permeadas de neve. Uma delas, de tamanho considerável, com 5.300 metros de altitude, é o Charquinini – e, mais além, como um santuário islâmico de Meca, ouvia o Huyana Potosí me chamando. Elevando-se como um monumento sobre a Cordilheira Real, ele pode ser visto a milhas de distância como um chamado para algo misterioso e sagrado.

Saímos do ônibus. Maximo anunciou: “É aqui, galera, o refúgio!”, enquanto sobre seu ombro direito jogou um longo saco de equipamentos de escalada. Maximo nasceu na Argentina, mas parece brasileiro. Não só pelo domínio da língua, que aprendeu enquanto morou com os pais no Brasil, mas também pelo humor sarcástico. O guia, aos 33 anos, é um homem dotado de uma energia excessiva, usa uma jaqueta vermelho-cereja, de meia idade, desbotada e com logomarcas de equipamentos de montanhismo bordadas no peito; sua pele é de um ouro amargo, rosto confiante, retangular, de aparência saudável.

Seu amigo e sócio, Pedro, tem uma boa dose de barba escura e rasa, queixo quadrado, usa um lenço que se acomoda em torno da cabeça e sobre a testa baixa e brilhante, tem cabelo liso, mãos grandes e braços que vão até o meio das coxas. Há três anos, eles formaram a empresa Gente de Montanha, que nasceu como um modo de espelhar a forma metódica dos guias de encarar o alpinismo e mais ainda como um reflexo mais preciso do estilo de Maximo. Por 24 horas, agora, nos dias seguintes, estaríamos na companhia deles até o fim do curso.

Assim que abro a porta do casarão, sai ao meu encontro o odor amargo do fogo morto da lareira, um aroma seco de mausoléu. No lado direto da parede dos fundos da sala há uma janela; há outra no lado esquerdo, do mesmo tamanho. Essas janelas têm vidros finos, marcados e borrados, de cuja parte superior pende um comprido pedaço de cortina velha e cinzenta, estendidas perpendicularmente, de modo a deixar que uma luz fresca e calma estabeleça algum tipo de brilho no ventre da casa. A lareira, alinhada sobre o túnel embutido da chaminé de pedra, encara de frente a cozinha escura e duas longas mesas de madeira que preenchem metade do ambiente.

Atravessei a porta do aposento e fui para o quarto deixar a mochila. O cômodo é pequeno e escuro, mas grande o bastante para que nele se empilhem três beliches de madeira. A pouca luz que existe entra por uma janela de um metro por um metro e meio, enfiada no lado direito, entre uma parede e outra. Essa disposição faz com que o sol jamais toque o lado esquerdo do pequeno espaço. Num outro quarto, igualmente solitário e frio, ficaram Willians, Tiago e Felipe.

Saí e fui muito silenciosamente pelo corredor aberto, passando pelo paulista Tiago, e segui para fora, subindo um pequeno morro, entre a casa e a estrada, para examinar os glaciares das montanhas à procura de algo vivo, de alguma coisa que se movesse. A primeira impressão é de que a região é destituída de vida, mas, ainda que restrita e frágil, todo o fulgor se afoga na quietude dos montes pálidos da Cordilheira Real. À medida que a noite avança, vejo sumir aos poucos a paisagem rochosa e pálida do Huayna Potosí. Portanto, chega a hora de procurar proteção do calor débil do casarão e algo para comer.

A JANTA – Comemos em pratos sortidos a comida da noite, simples, tradicional, que se estende a uma demanda do dia: sopa de frango. Ela é servida em pratos de cerâmica, fundos, na cor creme e com um fio de desenhos impressos em toda sua cintura. A mesa está sempre cheia de garrafas de água, xícaras e copos translúcidos, alguns são de vidros de geleia vazios.

A sala e a lareira são como que um cômodo, consideravelmente usados à noite, antes do jantar ou por alguns momentos logo depois dele. Os guias Maximo e Pedro se sentam em frente à lareira durante horas vazias da manhã ou durante as instruções teóricas do curso, pois só junto ao fogo há chance de conseguir qualquer brisa de calor.

Os bancos são em número suficiente para que abriguem todos os hóspedes da casa, mas normalmente sobram espaços em dois sofás no fundo da sala, que é estreita demais para proporcionar qualquer conforto para os que ficam grudados em volta da mesa durante as refeições. De qualquer maneira, essas delicadezas estruturais impõem ao ambiente uma fragrância própria, áspera e velha, mas suportável.

Enquanto Willians modela a comida entre os molares e a bochecha, toca em um pequeno rádio um repertório que vai de Eddie Vedder a várias canções de Silverchair. No balcão próximo à cozinha tinha alguns saquinhos de chá de coca. Consumimos quase todos até o fim da noite. Sobraram ainda dois.

O CURSO – Finalmente, sentíamos terra e rocha nos pés – na certa estávamos na trilha para iniciar as aulas práticas de escalada em gelo. Fomos subindo, um atrás do outro: os paulistas Willians, Tiago e Felipe, os guias Pedro e Maximo, mais o grupo de montanhistas e eu. Cada um tateava o chão com os pés, tentando descobrir as variadas formas de se equilibrar no terreno escorregadio para só depois seguir confortavelmente nas áreas menos expostas ao declínio físico. Em todo o caminho o vento crescia, erguendo espirais de poeira como uma fumaça mágica sobre uma trilha arruinada de que haveria de aprender todos os segredos.

É um esforço enorme, uma tarefa de Sísifo, pois a terra desmorona sob seus pés e faz com que a toda hora escorregue e volte ao ponto de partida. Pisar, erguer a perna, compactar o que está embaixo. Repetir, repetir, repetir. Em alguns momentos ela é plena em pó fino e lascas de rocha, de modo que os joelhos são o tempo todo bombardeados com pequenas agudezas rápidas. Até que afundamos em uma encosta e chegamos ao glaciar.

E seria assim que, durante os dias seguintes, as tardes seguintes, nós nos veríamos voltando e voltando de uma consoladora rotina. Claro, essas coisas são divertidas: tão divertidas, Deus me livre, que parecem simples exercícios. São, no entanto, atividades perigosas. A falta de atenção a elas pode pôr sua vida em risco, por exemplo, não saber cair corretamente em uma rampa de gelo de 40 graus. Entender sua aplicação em alta montanha deveria ser tão básico e relevante quanto a respiração.

Certamente não é fácil. Em duas horas seus joelhos e cotovelos estão praticamente cobertos por hematomas do tamanho de uma cebola. No fim de uma semana você estará escolhendo que lado do corpo usar. O truque é cair, girar o corpo, pôr a piqueta na posição transversal ao peito e travar a queda. Ainda outro truque é, entre as vigorosas formas de frear uma queda em terrenos congelados, cair com a cabeça para baixo, girar o corpo 180 graus e travar a piqueta no gelo. Em ambas as manobras nunca se esqueçam de manter os pés voltados para cima, ou você teria que se esforçar muito para não rasgar a carne no gelo durante a descida.

Depois de idas e voltas até a geleira, arrumamos as mochilas para definitivamente partir para o acampamento base, passar uma noite penosa, espremidos em uma barraca para 10 pessoas e, no dia seguinte, superar as seções mais difíceis da expedição e chegar ao topo do Huayna Potosí. A previsão ouvida por telefone via satélite que Maximo obtivera era de que o dia do ataque ao cume seria como tantos outros anteriores: céu azul sem uma nuvem sequer. Partiríamos de madrugada.

REFÚGIO PIEDRAS BLANCAS – Toda estrutura é construída de folhas verticais de lata, dividida em duas câmaras – a cozinha e o quarto; tem pouco menos de quatro metros de comprimento e não mais do que dois de altura. Seu material galvanizado é fosco, da cor laranja. Dentro da estrutura, o piso, a não ser pelo carpete, é de madeira. Em um canto fica a cozinha, confinada e aquecida basicamente por um único fogão a gás. Do lado de fora há outras duas armações, em forma de iglu, em que não cheguei a entrar. Os três refúgios se elevam suavemente sobre a neve, a 5.200 metros de altitude.

Huayna Potosí
Foto: Ângela Santos

Ninguém desses três alojamentos demorará muito para dormir. Hei de me mover com excessivo silêncio e lentidão dentro do saco de dormir para não acordar seus hóspedes. Antes, alimento-me e tomo chá quente, sem desejo, e ele traz um violento e repentino calor extenuante na boca do estômago. É difícil e repulsiva uma refeição antes de dormir, mas é necessário, pois com essa comida deve-se escalar a montanha gelada e íngreme da madrugada. É tarde de uma noite de inverno e o último fôlego contido da luz do dia vai embora, que de tão final parece reminiscência da chama de uma vela acesa. Boa noite!

ENFIM, O GRANDE DIA – Semi-acordei, antes de o Maximo perguntar: “Acordado?”. Na verdade, eu mal havia dormido. Durante a noite, lidei com uma sensação peculiar e diabólica de mal-estar, uma especulação áspera e desesperançosa, um beco sem saída. Olhei para Maximo contra a luz e disse: “Estou com um pouco de dor no estômago e acho que não irei com vocês”. Mas ele sequer confiou nos meus argumentos, contestando-os: “É psicológico. Levante!”.

Mas não era só eu que estava sob influência do desconforto da altitude. Billy, um dos clientes do Gente de Montanha, parecia um menino febril e assustado, acordara várias vezes durante a noite, tomado por uma terrível dor de cabeça. Maximo se aproximou dele e perguntou: “Ei, Billy”, disse, “Está doente?”. A resposta é que ver Billy se levantar foi como injeção de algum narcótico invadindo minhas veias, produzindo um efeito devastador: de alívio e tensão. Ele calçou as botas duplas, ajeitou a cadeirinha no quadril, vestiu a jaqueta de plumas de ganso, tomou chá quente e saiu.

E agora aqui estou eu, como disse, dentro do saco de dormir. Tão doente de sono que mal consigo suportar as lanternas de cabeça encharcando meus olhos de luz. Mas quando o teto e as pessoas dentro do acampamento se tornam visíveis, e elas começam a falar ininterruptamente, não há mais como evitar o desejo agudo de seguir com eles.

“Estão todos aclimatados”, disse Pedro. “Será?”, refleti, desolado, sobre o efeito que produzia aquele incentivo. E completou, enfático – nunca vi um homem mais determinado: “Não há desculpa para não ir!”. Cada palavra dele soava acentuada, clara, anunciada com tamanha determinação que havia entre uma letra e outra um tom rígido, mas vigoroso, que dava para sentir da garganta de quem o emitia. Nessa situação perturbadora, eu concluí que não tinha outro jeito: estaria entre os montanhistas que subiriam durante a madrugada para o Huayna Potosí.

Demorei bastante para me vestir, calçar as botas duplas, pôr os grampons, o capacete e as luvas. Saí do acampamento quase me arrastando de sono, bem atrás de Billy e do guia boliviano, iluminando o caminho com a lanterna frontal. Paramos muitas vezes para descansar, mas Billy mantinha um compasso progressivo e constante sobre a neve. Eu caminhava agora um pouco mais veloz, mas o estava alcançando um pouco lento para minha paciência, enquanto ele olhava para mim breve e impessoalmente, como um cavalo no campo.

Huayna Potosí
Foto: Bruno Norarini

Durante as duas horas seguintes, fomos num ritmo determinado, cruzando fendas ocultas sobre nossos pés e escalando paredes de gelo de 70 graus de inclinação. Além disso, minhas mãos começavam a congelar, em uma ação que afetava as pontas dos dedos que seguravam a piqueta de neve. Percebi que não importava o quanto fosse forte, a mente tentaria tragar cada grau de força que me restava.

Em certos trechos, o caminho sobre a neve estava sólido a ponto de ficar escorregadio; o resto do tempo ela aceitava nossos pés profundamente como se fosse a própria terra e nós os erguíamos a cada passo com três centímetros de gelo dependurados nas botas duplas. Continuei em silêncio, atrás do Billy e do guia, meditando sobre a neve, cuja necessidade falava para seguir em frente.

O sol ainda não se levantara, mas o céu sobre as montanhas estava todo decorado com uma luz laranja, como a de um velho lampião a querosene. Parecia que eu e Billy não estávamos de maneira alguma à vontade um com o outro, mas agora eu sentia que podia confiar nele. Enquanto caminhávamos, ele lançava lentamente um olhar cândido para trás. Era apenas um olhar cuidadoso, e não hostil.

Essa região era nova para mim, ainda totalmente solitária e sem sentido. O nascimento da aniquiladora da luz do dia, virgem e rigorosa, trancada entre montanhas, pode ter sido responsável por essa impressão. A luz do sol no começo da manhã, transparente e quase cegamente clara, acabava de ultrapassar o topo das colinas.

Olhei reto para cima, para o céu, e com um lento olhar pela paisagem submersa percebi que estava apenas alguns metros do cume. Depois de alguns minutos, durante os quais ouvia meus pulmões sorver sofregamente o ar frio da manhã e um fatigado arrastar dos pés, vi-me no topo do Huayna Potosí.

Huayna Potosí

 

Havia tanta coisa acontecendo, de maneira tão rica, que não percebi a precariedade do meu equilíbrio emocional naquele momento. Então, uma lágrima fria irrompeu e vagamente aferroou em padrões geométricos o meu rosto. Tudo isso, todas essas coisas estavam cercadas de tantos significados que era incapaz de manter os olhos e a escrita em direção às montanhas sem agradecer a Deus. Obrigado!

Texto: Jonatar Evaristo
Imagens: Jonatar Evaristo, Felipe Giongo, Maximo Kausch, Bruno Norarini e Ângela Santos. 

Camping selvagem

Camping selvagem 

Já imaginou, alguma vez na vida, acampar em lugares paradisíacos e sem nenhuma estrutura? Estes locais são conhecidos como camping’s selvagens.

O que chama mais a atenção nestes lugares é a tranquilidade aliada com a pura sensação de liberdade. Liberdade de poder dormir e acordar, abrir a porta da barraca e sentir a brisa fria da manhã, olhar no horizonte e perceber a beleza do mundo que nos cerca sem a intromissão de carros, sons de buzina e ou barulho de pessoas conversando.

Camping’s selvagens existem e não são tão difíceis assim de encontrar, estão por toda parte. Para usufruir de locais assim é preciso analisar alguns aspectos e não infringir as leis. Há lugares que podem ser propriedade privada ou área de preservação. Contudo, nada impede que você aventureiro, converse com os proprietários e ou diretores/responsáveis pelo local, para poder ter permissão para acesso a tais locais.

Certifique-se da sua capacidade de encarar tamanho desafio, pois camping’s selvagens devem ser usados por pessoas com um certo grau de experiência. Caso você deseje acampar em lugares assim e não possui conhecimento sobre esse tipo de acampamento, leve com você uma pessoa que tenha bastante vivências em situações dessa natureza,  e o mais importante,  jamais acampe ou faça atividades ao ar-livre sozinho.

Em acampamentos deste tipo, o aventureiro deve estar munido de todos os equipamentos necessários, pois como disse anteriormente, não existe infra-estrutura nestes locais. Abaixo, listei, em ordem de prioridade, alguns itens essenciais para ter na mochila para situações assim.

O que levar:

  • Água
  • Filtro purificador/Pastilhas de cloro
  • Alimentos
  • Anzóis e linha para pesca
  • Kit básico de Primeiros Socorros
  • Bussola
  • Faca/Canivete
  • Pederneira/Isqueiro/Fósforos
  • Fogareiro
  • Panelas/Pratos/Talheres
  • Capa de chuva/Cobertor de emergência
  • Lanterna com pilhas reservas
  • Corda com aproximadamente 20 metros
  • Barraca/Rede/Isolante térmico/Saco de dormir
  • Roupas leves/Roupas para frio

Estes itens são os que entendemos ser importantes para algumas situações de emergência, uma vez que em lugares assim é extremamente fácil se desorientar, pois geralmente são locais afastados da civilização e não existem hospitais por perto.

Acreditamos sempre, que levar itens variados e saber utiliza-los, é o que fará a diferença em situações adversas.

Veja alguns locais que podem ser usados para praticar “camping selvagem”

  • Praia do Rosa Sul/SC – Brasil

A Praia do Rosa está entre os destinos mais belos do planeta, um verdadeiro paraíso natural. Descoberta nos anos 70, ela oferece a mesma tranquilidade de outras épocas, mas agora com uma sólida estrutura turística, com pousadas, bares e restaurantes; além das diversas opções de aventura, como trilhas, cavalgadas, salto de paraquedas e esportes aquáticos.

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  • Morro do Tigre/RS – Brasil

O Morro do Tigre, ou Pata da Onça, é um lugar pouco conhecido na serra gaúcha. Está localizado à 5 quilômetros do centro da pequena cidade de Alto Feliz – RS.
O local é um morro com aproximadamente 700 metros a cima do nível do mar, de onde é possível avistar ao longe cidades como Porto Alegre (Capital do RS), Bom Principio, São Sebastião do Caí e  também é possível avistar o Morro da Canastra(localizado na cidade de São Vendelino).
O topo da montanha é coberto por pedras e algumas árvores. É uma boa escolha para quem quer  admirar o pôr do sol ou acampar.

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  • Morro da Canastra/RS – Brasil

Localizado na RS – 122, entre as cidades de São Vendelino e Farroupilha, local pouco explorado, do alto é possível avistar a plataforma de vôo livre, conhecida também como Morro do Diabo e outras cidades ao longe, tais como: São Vendelino, Bom Princípio e a capital Porto alegre.

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  • Cambará do Sul/RS – Brasil

A 980 metros de altitude, Cambará do Sul destaca-se por seu valioso tesouro nacional formado pelos cânions. A cidade foi cenário de produções artísticas como as novelas da Rede Globo Esplendor e Chocolate com Pimenta, a minissérie A Casa das Sete Mulheres e o filme Anahy de las Misiones.

Cambará do Sul localiza-se na região nordeste do Rio Grande do Sul. Faz divisa com as cidades gaúchas São José dos Ausentes, Jaquirana,São Francisco de Paula e a cidade catarinense de Praia Grande. A origem do nome da cidade é tupi-guarani, e significa “folha de casca rugosa”, consiste no nome de uma árvore típica da região. É possível encontrar uma árvore destas na praça central da cidade, é popularmente conhecida pelos seus poderes medicinais.

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  • Lagoinha do Leste/SC – Brasil

Os turistas a consideram a mais bonita da Ilha de Florianópolis. Os moradores do Sul da Ilha garantem que ela é a mais misteriosa de Florianópolis. Os ecologistas a defendem como se fosse a última praia do mundo. Seja qual for a opinião sobre a Lagoinha do Leste, ela é única. A praia ainda preserva as características de quando os primeiros imigrantes aportaram nestas terras. A Lagoinha, como é carinhosamente chamada pelos ilhéus, impressiona seus visitantes com sua beleza, seu ar selvagem e seus mistérios.

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Pelas descrições feitas acima e pelas lindas fotos convoque seus amigos e vá trilhar novos caminhos, explorar novos destinos, sentir a energia,  a tranquilidade e a paz que só um acampamento selvagem pode oferecer!

Texto: Luís H. Fritsch