Review - Camiseta Solo Ion UV

Review – Camiseta Solo Ion UV

Fala galera, aqui quem fala é Edson Maia, estou a alguns dias já na estrada, percorri muitos quilômetros, cruzei o Uruguai com minha bike, andei de barco e cheguei na capital Argentina, Buenos Aires. Se você quer saber tudo que está acontecendo em minha viagem, então confira a Cobertura Online Ciclotrekking. No dia de hoje, dia 07 de Novembro/2019 estou me deslocando de ônibus para a cidade de Bariloche. Venho através desta postagem fazer o primeiro review de produto dessa viagem, apresento a vocês à Camiseta Solo Ion UV.

Review – Camiseta Solo Ion UV

A Camiseta Solo Ion UV de manga longa se tornou a queridinha da Expedição Ciclotrekking. Desde o primeiro dia ela já vem sendo utilizada!

Review - Camiseta Solo Ion UV
Crédito: Edson Maia

É uma peça de vestuário técnica muito versátil, que pode ser usada de diversas maneiras, ela é extremamente confortável, muito boa para usar em dias de sol e calor. 

Com uma proteção que conforta e que permite ficar longas horas debaixo do sol forte, seja pedalando ou caminhando pela cidade, sendo ideal para pessoas que estão viajando, pois resiste facilmente a inúmeros dias sem a necessidade de lavagem, isto é, não retém nenhum tipo de odor.

A Camiseta Solo Ion UV é realmente um produto muito versátil e inteligente, além disso ela tem um design muito bacana e minimalista, podendo ser usada tanto para passear na cidade, quanto para quem tá viajando de bicicleta assim como eu, e não pode dispor de muitas peças de roupas em função do espaço.

Review - Camiseta Solo Ion UV
Crédito: Edson Maia

Eu tenho feito uso diário dessas camisetas, no caso a Solo disponibilizou duas unidades para mim, uma na cor cereja e outra na cor preta. 

Tenho optado por usar a vermelha quando estou pedalando porque ela chama atenção em relação aos motoristas que estão na rodovia, ideal para me visualizarem, e a de cor preta, tenho usado muito dentro da cidade pelo fato de ser discreta e bonita, tenho feito passeios, ido a cafés e shoppings.

Review - Camiseta Solo Ion UV
Crédito : @aleoxi16

Posso dizer que a Camiseta Solo Ion UV tem sido uma peça “coringa”, pois posso usar para dormir, usar em dias frios como uma segunda pele, combinada com um fleece e uma terceira camada.

Vale mencionar que é muito prático fazer a lavagem dessas camisetas, costumo usar sabão neutro ou sabão de coco, pois não agride o material e mantém o vestuário com cara de novo. Aliás ela seca muito rapidamente!

Review - Camiseta Solo Ion UV
Crédito : @aleoxi16

Especificações técnicas:

  • Peso médio: 80 gramas
  • Tecnologias: proteção solar | secagem rápida | antiodor
  • Composição do tecido: 100% poliamida

O tecido tem proteção contra raios nocivos do sol (UPF 50+), bloqueia até 98% dos raios UVA e UVB e é certificado de acordo com a Norma Australiana AS/NZS 4399:1996 da Arpansa (órgão Australiano de proteção à radiação e segurança nuclear).

Não achei nenhum ponto negativo até o presente momento, para mim as camisetas da marca Solo são muito boas até agora. Vou usar ela todos dias de forma massiva para obter uma conclusão mais concreta. 

Se você está procurando um produto leve, confortável e prático para fazer suas viagens de trabalho, mochilão, ir para as trilhas ou pedalar por aí, então esse é a camiseta certa para você!

Abraço e até o próximo post! Edson Maia – Ciclotrekking

Agradecimento Especial

Não podemos deixar de agradecer as nossos patrocinadores e apoiadores: Filipe FlopPoli Marcas e PatentesTrekking RSAventureBoxSolo Outdoor e Travel e Patos do Sul, sem eles não seria possível realizar esse sonho.

Trekking Pico do Tabuleiro

A trilha do Pico do Tabuleiro está dentro do território do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro que é uma unidade de conservação brasileira de proteção integral à natureza, com território distribuído pelos municípios catarinenses de Florianópolis, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, São Bonifácio, São Martinho, Imaruí e Paulo Lopes.

Com uma área de 84 130 ha, Serra do Tabuleiro é a maior unidade de conservação de proteção integral do estado de Santa Catarina.

Origem: Wikipédia

As montanhas estão chamando e eu tenho que ir.

Essa foi mais uma daquelas pequenas aventuras que, de tempos em tempos, acontece de modo espontâneo. Sem grandes alardes ou planejamentos, bastando apenas um convite curto e grosso.

Durante uma tarde de trabalho no mês passado, entre uma tarefa e outra dos meus plantões, “pipocou” na minha telinha, uma notificação de mensagem.  Pensando eu que se tratava de mais alguma tarefa de trabalho, ao abrir a mensagem, fui surpreendido com um “Vamos subir o Tabuleiro?”. Era o convite do Fábio Almeida, que para quem não sabe, é o cara que faz acontecer o Pedal Nativo (site de cicloturismo e afins).

Sabendo do destino, a data e também quem estaria na empreitada, topei de imediato.

Estava formada então a trupe inédita: Fábio AlmeidaMário Nery e eu.

Sábado, dia 15 julho.

Coloquei o relógio para despertar bem mais cedo do que estou acostumando acordar. O plano era pegar o ônibus bem cedo e encontrar meus camaradinhas em Floripa e de lá, numa curta viagem de carro de pouco mais de uma hora, chegar ao ponto zero que fica junto do maneiríssimo Café do Tabuleiro.

Trilheiros no Tabuleiro

Ao chegarmos ao Café do Tabuleiro, por volta de 11 horas, sem demora, pegamos nossas mochilas cargueiras e entramos na trilha que começa ali mesmo.

A trilha e eu já éramos conhecidos. Em 2015, junto com mais dois amigos, fizemos em quatro dias a duríssima e até então quase desconhecida Travessia da Serra do Tabuleiro. (Quer saber como foi essa empreitada? clique aqui).

Uma longa subida em meio ao bambuzal

A trilha de um modo geral, não apresenta dificuldades técnicas, porém pode surpreender tornando-se um desafio bastante desgastante se a vegetação estiver alta e fechando o caminho. Daí é aquela coisa que só sabe quem já fez um clássico vara mato com uma mochila cargueira nas costas sendo agarrada quase que o tempo todo pelos bambuzinhos infernais.

O lado bom da trilha fechada é que podemos dizer que aproximadamente 80% do caminho está abrigado do sol. Isto é um grande alívio.

O tempo de caminhada varia bastante. Depende além das condições da trilha, do condicionamento físico e da carga que se está levando para o alto. Em média, a subida com cargueiras, leva algo entre quatro e seis horas. Sem carga, acredito que três horas são suficiente para alcançar o topo sem correria.

Iniciamos nossa subida tarde. Passava das onze horas, mas sabendo que tínhamos tempo de luz suficiente para chegar ao nosso objetivo, engatamos uma marcha lenta, pois apensar do inverno estar batendo na porta, o dia estava bastante quente, sendo assim, deveríamos administrar bem o consumo de água uma vez que só existem pontos de captação do precioso líquido no início da trilha.

Backpacker Tabuleiro

A alta temperatura, o peso das cargueiras e as datas de expedição das certidões de nascimento dos membros da trupe, foram as garantias da “sofrência”. Tal situação obrigava que em vários momentos déssemos pequenas paradas para tomar um ar, baixar a frequência cardíaca e beber alguns goles de água, antes que alguém tivesse um troço, ou um treco ou até mesmo um piripaque e com isto, fossemos obrigados a acionar o S.O.S no rastreador Spot. kkkk

Depois de percorrer pouco mais de seis quilômetros, em mais de cinco horas de trilha, o caminho estava abrindo e finalmente estavam superados os mais de mil e cem metros de subida.

Pico do Tabuleiro

Restava ainda por volta de uma hora de luz natural. Aproveitamos para descansar um pouco, comer algo e montarmos o nosso acampamento e logo em seguida, aproveitar um dos momentos altos de nossa pequena aventura de final de semana: um fantástico pôr do sol por detrás da Serra do Tabuleiro.

Camping Tabuleiro

Sob o céu que nos protege

Após apreciarmos uma espetacular viração do dia, a noite prometia ser boa. A ausência de vento e a temperatura agradável, foram a nossa garantia de um jantar saboroso e com um bate papo divertido sentados no chão, sob as estrelas e iluminados pela lua quase cheia.

Depois do momento relax total, e estando todos muito bem alimentodos com um saboroso prato de montanha preparado pelo chef Nery, era chegada a hora de recolher. O cansaço do dia de trilha e o friozinho ameno fizeram a turma dispersar, indo cada um para a sua barraca.

Cozinha de camping

Ainda ficamos de conversa fiada e rindo das câimbras que se manifestavam em alguns integrantes deste fabuloso time de aventureiros.

A noite foi longa, silenciosa e tranquila. Lembro-me de ter acordado algumas vezes com a claridade da lua iluminando a barraca. Nada que me impedisse de ter um bom descanso numa noite impecável no hotel um milhão de estrelas.

Camping Tabuleiro

Domingo, 16 de julho.

Pro dia nascer feliz

Por volta das seis horas, ainda bem escuro, escutei o barulho de um zíper de barraca abrindo e uma movimentação ao redor do nosso acampamento. Era o Mário que foi o primeiro corajoso a sair do conforto do saco de dormir para assistir ao sol nascer.

Após enrolar alguns minutos, e vendo um pequeno romper de claridade, também tomei coragem para sair da barraca. Não estava muito frio.

Serra do Tabuleiro

Calcei minhas botas, peguei minha câmera e fui ao encontro do Mário. Não demorou muito e o Fábio logo se juntou com ao grupo no ponto mais alto para assistirmos o espetacular show de cores que foi o nascer do sol naquela manhã de domingo.

Assim que o sol se ergueu no horizonte, dando-nos bom dia, voltamos ao acampamento para preparar o café e espantar de vez o sono e a preguiça.

Com a cafeína correndo no sangue, tratamos de desmontar o circo e pegar o rumo do nosso caminho de volta.

Pra baixo todo santo ajuda. Or not

A longa caminhada até o Café Tabuleiro, durou mais de quatro horas. O calor, a falta de água e a combinação do peso da mochila cargueira com a descida que parecia interminável, fez com que déssemos algumas paradas para descansar.

Ao chegar ao ponto de água, fizemos uma parada longa para hidratar, mastigar alguns biscoitos e dar uma refrescada. Faltava pouco agora.

Depois de matar a sede e descansar um pouco, demos jeito de fazer aquele esforço final.

Com pouco mais de meia hora, já estávamos novamente no Café Tabuleiro. Colocamos nossas mochilas no carro e fomos rapidamente saborear aquela tão sonhada Coca-Cola gelada e bater papo divertido com o pessoal do café.

Após nos despedirmos do pessoal do Café, seguimos direto para a casa do Fábio, onde ainda rolou um churrasquinho de confraternização. Mas isso já é outra história. kkk

Fim.

Dicas:

– A melhor época do ano é outono e inverno;

– O Café Tabuleiro possui estacionamento seguro ao custo de R$ 10,00;

– Use roupas compridas;

– Leve toda a água que irá precisar;

– A trilha, embora bem nítida, não possui nenhuma marcação. Tenha atenção;

– A trilha exige muito esforço. Esteja bem preparado fisicamente.

Mínimo Impacto

1 Planeje com antecedência sua aventura;

2 Caminhe na trilha;

3 Leve seu lixo embora;

4 Deixe tudo como encontrou;

5 Não faça fogueiras;

6 Respeite a vida selvagem;

7 Seja cordial com outros visitantes.

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Vale Europeu

Circuito de Cicloturismo do Vale Europeu/SC

Conhecendo o Vale Europeu de Cicloturismo

Vale Europeu é o primeiro circuito brasileiro, pensado e organizado para o cicloturismo, hoje uma realidade consolidada cuja fama atrai pessoas de todas as partes do país e até do exterior. Dependendo no roteiro escolhido, percorre-se seus mais de 300 km’s em aproximadamente uma semana, através de uma das regiões mais belas do estado de Santa Catarina – Brasil

Situado no Vale do rio Itajaí, o circuito inicia em Timbó e segue para Pomerode, e em sequência o roteiro clássico orienta na direção de Indaial, Ascurra, Apiúna, Rodeio, Benedito Novo, Dr. Pedrinho, Rio dos Cedros(Alto Cedros e Palmeiras).

O circuito Vale Europeu sempre priorizando o percurso por estradas secundárias, de baixa movimentação de veículos, e cuja beleza cênicas  naturais presenteiam o tempo todo com belas imagens quem se propõem a realizar esta jornada.

São pequenos rios, cachoeiras, a fauna e flora típicas da mata atlântica e dos campos de araucárias. Em cada povoado ou cidade é fácil apreciar a arquitetura típica com algumas construções centenárias muito bem conservadas, além disso, conhecer aspectos culturais e ser muito bem recebido pela hospitalidade da nossa gente tranquila do interior, e é claro, como não poderia deixar de ser,  provar da sensacional gastronomia local.

O circuito Vale Europeu inicia no centro de Timbó, exatamente junto ao restaurante Thapyoka, onde é feita também a inscrição no circuito por um pequeno valor que dá direito a receber um mapa da região, um guia do roteiro, com planilhas de orientação e altimetria, e ao final do circuito, um belo certificado de conclusão do circuito para ter como recordação.

A viagem

Por meados de maio do ano passado comecei a procurar um roteiro de viagem de bicicleta para fazer no inverno pois queria muito testar alguns equipamentos novos e também ter a experiência de pedalar com a bicicleta carregada no frio. Já tinha ouvido falar do Vale Europeu, através do meu amigo Ricardo Tavares, que havia realizado o circuito na primeira edição, isto a mais de dez anos atrás. Por conta desta conversa com meu amigo e também pela facilidade da logística, abracei a ideia de realizar a viagem.

Entrei em contato com meus parceiros de aventuras e apenas o Bruno Guimarães, que mora em Floripa, se interessou em fazer o Vale Europeu. Após uma rápida conversa por telefone, organizamos o pequeno desafio no mês de junho. Ajustamos a logística de transporte, as bicicletas, a lista de equipamentos e definimos o dia 8 de junho para pegar a estrada.

No nosso plano a ideia era, além de conhecer a região fazendo o circuito do Vale Europeu da maneira mais “roots” possível, acampando selvagem/camping’s estruturados e também fazendo todas as refeições com nossos equipamentos de cozinha.

Primeiro dia – Vale Europeu

Acordamos bem cedo, ainda escuro e às 6 horas da manhã, iniciamos a viagem de carro, saindo de minha casa em Imbituba, com destino ao ponto zero do circuito, na cidade de Timbó.

Vale Europeu

Por ser um dia de semana, perdemos muito tempo na região da grande Florianópolis/SC onde o trânsito é sempre muito complicado. Isto nos atrasou em mais de duas horas, fazendo com que chegássemos em Timbó quase ao meio-dia.

Sabendo que teríamos poucas horas de luz solar, tratamos de acelerar as coisas. Localizamos um lugar seguro para deixar o carro, corremos para o Thapyoka para formalizar nossas inscrições e feito isso, subimos nas bicicletas e seguimos a rota que estava carregada no GPS com destino a cidade de Pomerode.

Por conta da preocupação com o horário, não paramos para almoçar, tocamos direto e não demorou muito para darmos de cara com a primeira subida forte do circuito. Um bom teste para saber como estava meu preparo físico e também para ver em ação os equipamentos novos da bicicleta.

Foi neste momento em que o Bruno me alertou que o cambio traseiro da minha bicicleta estava muito próximo dos raios da roda. Ao parar para verificar, constatei que a gancheira (peça que fixa o câmbio traseiro) estava empenada para o lado de dentro, problema complicado que certamente aconteceu durante o transporte no carro. Não tendo como remediar ali, decidi seguir em frente tendo todo o cuidado de não usar as marchas mais leves, para não correr o risco de ver o câmbio traseiro se enroscar com os raios da roda e aí sim, ter uma grande dor de cabeça. Com esta situação, a solução foi rodar com 15 marchas apenas. Dureza!

Seguimos em frente sem mais surpresas e sempre por um belo caminho em meio ao Vale Europeu, e ao passo que nos aproximávamos de Pomerode, começamos a procurar algum lugar para acampar selvagem, mas sendo a região bastante povoada, não encontramos nenhum lugar legal e seguro.

Chegamos na cidade com o cair da tarde, e sem enrolar, fomos num posto de combustível para perguntar onde poderíamos encontrar uma pousada boa, bonita e barata para pernoitarmos, pois sabendo que o Circuito é para todos os bolsos, não era o nosso plano gastar muito numa diária de pousada. Recebemos a recomendação da Pousada Luiza, que ficava do outro lado da cidade e para lá tocamos sem parar, já no início da noite.

Ao chegar, fizemos nosso check in, descobrimos que não tinha café da manhã, mas até aí tudo bem, pois estávamos equipados e com alimento para as refeições. Após um banho demorado, fomos para a pequena cozinha da pousada e preparamos nosso jantar, conversamos um pouco e com o cansaço batendo, sem demorar fomos dormir.

Dados do dia:

  • Distância: 48.8 km
  • Ganho de Elevação: 570 m
  • Perda de Elevação: 565 m
  • Custos de hospedagem: R$ 50,00, sem café da manhã;

Segundo dia – Vale Europeu

Acordamos por volta das 7 horas, o dia estava bom e a temperatura agradável, preparamos o nosso café, montamos as tralhas nas bikes e seguimos para o pórtico de informações turísticas na estrada da cidade, para carimbar nossos passaportes do circuito do Vale Europeu pois no dia anterior, quando chegamos, o pórtico já estava fechado. Aproveitamos também para pegar algumas dicas e fazer uma foto para recordação e “bola pra frente”! Próxima parada: Indaial.

Efetivamente começamos nosso pedal deste dia quase às 11 horas, porém tranquilos pois nosso próximo destino estava próximo, algo em torno de 40 km’s.

Logo que sai da cidade, o caminho fica muito tranquilo. São pequenos sítios, casas, alguns pequenos povoados com igrejas, tudo no estilo alemão. Muito verde e ar puro.

Depois de mais de 23 km’s rodando nessas condições, chegamos novamente no asfalto. É a movimentadíssima SC 421, onde é preciso pedalar no acostamento cerca de 1 km para cruzar para o outro lado e aí então voltar para a tranquilidade.

Como já era praticamente meio-dia, decidimos parar no posto de combustível que fica localizado neste trecho da SC 421. Pedimos para os frentistas se poderíamos usar um cantinho numa sombra que tinha um murinho que servia perfeitamente como banco e fomos autorizados.

Vale Europeu

Agilizamos rapidamente uma super polenta com linguiça calabresa e dois litros de tang para hidratar.

Ficamos parados quase duas horas. Afinal, depois do almoço sempre cai bem uma “siesta” na sombra,

Por volta das 13:45 retomamos nossa jornada rumo a Indaial, que pelos nossos cálculos, chegaríamos em mais duas horas, rodando bem devagar para apreciar o visual e não se cansar.

Ao chegar na movimentada Indaial, fomos procurar uma bicicletaria pois o Bruno estava sem câmara de ar de reserva.

Resolvida essa questão técnica da bike do Bruno, demos uma voltinha pela cidade, seguindo adiante procurando um lugar para parar para um lanche da tarde e seguir em frente pois a nossa ideia era sair um pouco da cidade e localizar um lugarzinho tranquilo para acampar.

Rodamos, rodamos e nada. A região é muito habitada e não conseguimos encontrar um lugar bom. Neste momento, por volta das 17 horas, decidimos tocar para Rodeio, percorrendo uma distância de vinte e poucos quilômetros. Era tentar a sorte de encontrar um lugar bom para acampar por lá, um pouco antes da entrada da cidade.

Vale Europeu

O fim da tarde chegava rápido e como era quase inverno, escurece cedo e, por volta das seis e meia da tarde, bem na hora do rush, alcançamos movimentadíssima BR 470, onde teríamos que pedalar por quase 2 kms para chegar na cidade de Ascurra.

Neste trecho procuramos andar o mais rápido possível para sair daquele agito de trânsito pesado e entrar logo na cidade.

Como já estava escuro, passamos batido por Ascurra, seguindo nosso plano de tentar encontrar um local de acampamento neste trecho entre Ascurra e Rodeio. Sem sucesso.

Não demoramos para chegar em Rodeio que fica por volta de 5 kms de Ascurra e vendo nosso plano infalível falhar, fomos novamente num posto de combustível perguntar sobre pousadas na cidade. Os frentistas nos indicaram ao menos duas, sendo que na primeira que tentamos, como era dia de semana, estava fechada. Voltamos todo o caminho que tínhamos percorrido e após confirmar a localização da outra alternativa, tocamos para lá correndo pois a temperatura estava bem baixa e o cansaço começara a bater. Na segunda tentativa deu certo, estávamos salvos! Kkk

Chegamos na excelente Hospedaria Cama Café Stolf, onde pegamos um ótimo quarto e após um merecido banho quente, numa rápida conversa com a dona da pousada pedimos para usar a cozinha, e tendo o sinal verde, tratamos de fazer o nosso jantar e conversar um pouco antes de capotar na cama.

Dados do dia:

  • Distância: 75.5 km
  • Ganho de Elevação: 759 m
  • Perda de Elevação: 737 m
  • Custos de hospedagem: R$ 70,00, com ótimo café da manhã

Terceiro dia – Vale Europeu

Acordamos no horário de sempre, por volta das 7 horas, estava frio, no termômetro marcava 6 graus.

Arrumamos nossas coisas e só depois de deixar as bicicletas prontas, fomos tomar café.

Ao sairmos do nosso quarto, demos de cara com outras bicicletas, que eram de um pequeno grupo que estava fazendo o circuito porém com apoio. Na hora que o grupo apareceu, ficaram espantados, nem tanto pela carga nas nossas bicicletas, mas pelo fato de naquela friaca, tanto eu quanto o Bruno, estarmos de bermuda de ciclismo. Sim, estava frio, mas nós aqui do sul, estamos um pouco acostumados com isso e também sabíamos que com o decorrer das horas, a temperatura iria subir. Ainda assim, foi muito engraçado ver a cara da turma, principalmente as caras de espanto de um casal que era do Recife…kkk

Depois de tomar um generoso café e comer ao estilo “como se não houvesse amanhã”, resolvemos encarar a friaca que vinha junto com uma neblina densa e úmida.

Após sair da cidade, começa uma longa e quase constante subida em estrada de terra, que naquele momento e com aquela temperatura, vinha bem a calhar para aquecer o corpo.

Não demorou muito e alcançamos o famoso Caminho dos Anjos. Um conjunto de esculturas que como o nome sugere, representa anjos celestiais, e que naquele instante com a bruma densa da neblina, dava um ar de misterioso e mágico para aquele lugar singular e muito bonito.

Vale Europeu

Paramos alguns instantes na praça central do Caminho dos Anjos para tomar água, recuperar o fôlego e conversar com alguns jipeiros que estavam por ali e que ficaram curiosos ao nos verem com as bicicletas carregadas.

Por conta do frio, e a neblina seguir escondendo o sol, não demoramos muito tempo parados, pois não seria uma boa esfriar o corpo naquele momento. Tocamos em frente, morro acima. Para o alto e avante!!! Kkk

Como já dizia um antigo ditado da nação aborígene mountain biker:  “tudo que sobe, desce”, por volta das 11 horas, as coisas mudaram. Aquilo que antes era subida e neblina, se tornou uma longa descida e com um sol bastante agradável.

Passamos batidos pelo caminho que leva para a Tirolesa K2mil (a maior das Américas), pois não era nosso objetivo visitar este tipo de atrativo nesta nossa primeira incursão por aquelas bandas. Nós queríamos mesmo era rodar no estradão de terra, parar só para comer, descansar e se a sorte nos abençoasse, encontrar um lugar bacana para acampar selvagem.

Por volta das 13 horas, chegamos numa pequena localidade no município de Benedito Novo, onde aproveitamos para nos reabastecer de água apenas, decididos não parar naquele momento para almoçar.

Após um descidão bacana para testar suspensão, freios e a fixação da bagagem… kkk, chegamos na bifurcação que leva para a Pousada Campo do Zinco. Aproveitamos aquele momento para uma rápida parada e mastigar alguma coisa e seguir na outra direção, rumando para o centro de Benedito Novo.

Não demoramos muito para encontrar com o belíssimo Ribeirão Liberdade  que segue paralelo com a estradinha de terra. Esse foi um dos pontos altos para mim. A cada instante a estradinha nos presenteava com vistas muito bonitas do rio e do verde em seu redor.

Embora fosse cedo para parar, ativei meu radar para tentar localizar um lugar bacana para acampar antes da cidade, pois meus instintos diziam que era alí ou nunca..kkkk

Seguíamos bem devagar, curtindo o visual quando percebi uma pequena prainha no meio do ribeiro, com um enorme bambuzal. Imediatamente parei e fui investigar. Era como uma pequena ilha de pedras, bambus e com algumas clareiras.

Bingo! Após rodar apenas 31 kms e às 15 horas finalmente um lugar perfeito para acampar. Sem cerca, longe de casas e escondido de quem passa na estrada. Bastava apenas descer um barranco, atravessar as bicicletas empurrando com cuidado pois, embora raso, o fundo do ribeiro era muito irregular por ter muitas pedras soltas.

Escolhemos o lugar para montar as barracas e logo em seguida, fomos tratar de coletar e tratar a água para nos reabastecer e cozinhar nosso almoço/jantar.

Ao cair da noite, fizemos uma segunda refeição ao redor do fogão à lenha do Bruno e ficamos curtindo o momento com uma conversa divertida iluminada apenas pelo fogo e ao som dos grilos, sapos e outros moradores do lugar.

Vale Europeu

Esse era o grande momento que procurávamos. Ficar numa pousada com todo o conforto que se tem em casa é muito bom depois de um dia de pedal, mas abrir mão destas comodidades e em troca ganhar uma noite tranquila, com um fogo iluminar e aquecer no friozinho, céu estrelado, tendo a trilha sonora dos sons das águas e da bicharada ao redor, é uma coisa que pouca gente compreende,  mas para nós, sempre faz todo o sentido. Não e verdade?

Dados do dia:

  • Distância: 31.3 km
  • Ganho de Elevação: 934 m
  • Perda de Elevação: 600 m
  • Custos de hospedagem: R$ 0,00, Hotel um milhão de estrelas.

Quarto dia – Vale Europeu

O dia amanheceu nublado, sendo que durante a noite até caiu uma chuva fraca que não nos afetou pois montamos o acampamento em meio ao bambuzal.

Preparamos nosso café da manhã reforçado e sem muita pressa desmontamos o acampamento, deixando para montar as bagagens nas bicicletas só depois de atravessar o ribeiro e subir o barranco para voltar à estrada.

Retomamos nosso pedal pouco antes das nove horas da manhã e não demorou muito para perceber que a decisão do lugar de acampamento da noite anterior estava correta. Começaram a aparecer cercas, casas, sítios, cachorros e o belo ribeiro desapareceu.

Com uma hora de pedal, e após percorrer aproximadamente 12 kms, chegamos ao centro do município de Doutor Pedrinho e fomos logo procurar um mercado para reabastecer nossas provisões e cair com tudo no meio das gordices e porcarias açucaradas, pois sabíamos que dali para frente, na parte alta do circuito, praticamente não existe comércio nenhum.

Como era domingo, estava tendo uma prova de MTB, tipo cross country e foi engraçado, pois num dado momento aparecemos no meio do pelotão, ou melhor, o pelotão nos alcançou e foi muito divertido a galera cumprimentando e fazendo brincadeiras com a gente.

Aproveitamos também, já que havia um posto de controle da prova na cidade, para nos informar do caminho para o nosso próximo destino: Alto Cedros. Existem duas alternativas, a primeira que é via Gruta de Santo Antônio, que está ok e sinalizada e a segunda, via Cachoeira Véu de Noiva, um pouco mais longa e que por conta de uma obra na estrada não está sinalizada e momentaneamente fora do roteiro oficial. Após sabermos das condições da estrada em obras, e também por estarmos com o circuito carregado no nosso GPS, decidimos explorar o percurso da estrada em obras por ser mais roots e desafiador. Kkkk

Por volta das 11 horas, depois de carimbar nossos passaportes na Pousada e Hotel Dona Hilda, onde fomos muito bem recebidos com um delicioso café quente totalmente grátis, tomamos o nosso rumo num ritmo moderado pois sabíamos que esse seria um dia com muitas subidas.

A estrada não estava tão ruim, pois a obra já estava na fase de compactação do rípio com algumas poucas partes necessitando de mais atenção com a brita solta.

Logo que começa a subida, avistamos a placa que indica o mirante da cachoeira que dá nome a este trecho do circuito. Tentamos acessar a mesma, mas como havia uma porteira fechada, desistimos pois não tinha como chegar até a queda d’água com as bicicletas e deixar as mesmas na porteira não pareceu naquele momento uma boa ideia. Tocamos em frente.

A subida forte exigia bastante, e no meu caso, um esforço um pouco maior por conta do problema da gancheira empenada, que fazia ter de usar apenas cinco das oito marchas do cassete.

Este é o trecho menos povoado do circuito, e o que se tem pelo caminho são fazendas de gado e muitas plantações de pinus e eucaliptos. Não é um visual dos mais bacanas inicialmente, mas na medida em que se anda, a coisa melhora com as primeiras descidas que dão um pouco de adrenalina na brincadeira.

Ainda neste trecho, podemos dizer que é aqui a região mais fácil de acampar selvagem em meio aos pinos e eucaliptos ou até mesmo dormir numa casa abandonada com ar de filme de terror. Alguém curte essa última opção? Kkk

Depois de rodar mais um bom bocado no meio deste trecho, lá pelas tantas percebo que o Bruno ficou para trás… parei e como ele não apareceu, voltei um pouco e logo encontrei ele, com o pneu furado. Era a segunda vez que aconteceu, a primeira vez foi comigo no primeiro ou segundo dia da trip, não recordo bem.

Para tudo, desmonta a bicicleta, troca a câmara de ar e bola para frente!

Vale Europeu

Depois de umas duas horas de muito sobe e desce, finalmente avistamos a placa que informa que estamos chegando em Rio dos Cedros e logo em seguida, num descidão, reencontramos com o grupo de ciclistas que conhecemos em Rodeio, que estavam chegando também quase juntos, porém via Gruta de Santo Antônio.

Cumprimentamos o pessoal e como ali estava complicado acampar selvagem pois para todo lado que se olha só se vê propriedades particulares. Então fomos em frente com eles até a beira do lago, onde eles ficaram de encontrar o Sr. Raulino, proprietário da Pousada da Família Duwe.

Não demorou muito e avistamos um barquinho cruzando o lago, e no remo, o Sr. Raulino. Como o pessoal já tinha reserva, eles foram primeiro, enquanto eu e o Bruno, pensávamos em alguma opção de camping.

Quando o Sr Raulino retornou para falar conosco, perguntamos para ele se havia algum camping pago aí nas proximidades e junto com uma negativa, ele já foi oferecendo o jardim da pousada para acampar e dizendo que podíamos usar um banheiro para tomar banho. No mesmo instante concordamos e de pronto Sr. Raulino já foi organizando nossas coisas no barco e enquanto fazia a travessia, ele comentou que iria chover na noite e se a gente quisesse, podíamos montar as barracas na garagem de um dos chalés. Nossa! Perfeito. Mas não parou aí, de imediato ele nos autorizou a usar a cozinha do chalé para fazer nossa janta. Nossa! Parte dois – Me belisca que eu estou sonhando! Em outras palavras, acampamos na garagem de um chalé só para nós.

Mas vocês pensam que a as surpresas acabaram aí? Nada! Já na noite, quando estávamos à mesa, jantando, conversando e olhando o mapa, aparece na porta o Sr. Raulino com duas tigelas com uma sobremesa de encher os olhos e como o Bruno estava impedido de comer doce, fiquei com as duas tigelas para mim. Pense numa criança que foi dormir feliz.

Vale Europeu

Dados do dia:

  • Distância: 50,9 km
  • Ganho de Elevação: 973 m
  • Perda de Elevação: 715 m
  • Custos de hospedagem: R$ 25,00, camping indoor na garagem e com sobremesa.

Quinto dia – Vale Europeu

Acordamos no mesmo horário de sempre e a chuva que estava sendo aguardada para a noite, não aconteceu. Tomamos nosso café reforçado, e aceleramos em desmontar as coisas e guardar tudo nos alforges para sermos os primeiros na travessia de barco.

Com um sol tímido e temperatura agradável, após tirar algumas fotos do Sr. Raulino fazendo a travessia com a galera, começamos nosso quinto dia de pedal, num ritmo moderado pois seria mais um dia com bastante subidas, sendo que neste dia existe duas opções de caminho: Via Mergulhão ou via Pedra Preta.

Perguntei para Sr. Raulino qual caminho ele achava mais bonito e seguindo a sua dica, tomamos o rumo mais longo, via Pedra Preta.

O dia bonito e a paisagem local eram uma combinação que animava bastante apesar do cansaço acumudalo de quatro dias de muitas subidas, mas a receita para não “quebrar” nesta hora é tocar num ritmo despacito, curtindo o momento e apreciando a paisagem repleta de araucárias.

Por volta do meio-dia, ao avistarmos um banco debaixo de uma árvore junto de um lago, decidimos parar para preparar nosso almoço e descansar um pouco. Ficamos parados uma hora.

Retomando nosso plano de voo seguimos em frente e após rodar 9 kms, avistamos a placa da Cachoeira Formosa e no mesmo instante lembrei das dicas que a Franciele Tais, ciclo viajante do Projeto Válvula, tinha me dado alguns dias antes da viagem. Ele recomendou muito conhecer a cachoeira e assim o fizemos.

Entramos na estradinha da fazenda que leva direto para o camping da Cachoeira Formosa.

Vale Europeu

O local estava completamente vazio, mas ao chegar na área de estacionamento, avistamos as bicicletas do grupo de ciclistas que seguiam no mesmo trecho que nós.

Fomos conhecer os dois mirantes, apreciar a beleza do lugar e fizemos algumas fotos e antes de seguir, tomamos um refrigerante para dar uma refrescada. Sem muita demora retomamos o pedal.

Após uma última subida, a coisa finalmente melhorou e começamos a descer direto quase o tempo todo até chegarmos ao belíssimo e muito bem cuidado Camping Península Palmeiras, nosso destino final para aquele dia.

Enquanto ninguém do camping aparecia, aproveitamos para tomar mais um refrigerante na lanchonete que tem ao lado da portaria do camping e não tardou muito para o dono nos receber, abrindo a porteira e dizendo que podíamos acampar em qualquer lugar, e como o camping estava vazio, excepcionalmente nos autorizou a organizar nossas barracas numa área coberta com churrasqueiras, mesa, pia e luz elétrica. Tudo nosso! Que beleza!!!!

Com o acampamento devidamente montado e de banho tomado, fomos apreciar o cair da tarde na beira do lago da barragem do Rio Bonito.

Vale Europeu

Foi um belo final de tarde de temperatura agradável, sem vento e nenhum barulho.

Um sentimento de paz e gratidão é a maior recordação que tenho agora ao descrever aquele momento que sem exagero, foi maravilhoso.

Ao escurecer, voltamos para nosso acampamento, fizemos o jantar e após uma rápida revisão nas bicicletas, fomos dormir.

Dados do dia:

  • Distância: 45.8 km
  • Ganho de Elevação: 811 m
  • Perda de Elevação: 840 m
  • Custos de hospedagem: R$ 20,00 – Camping.

Último dia no Vale Europeu

Mesma rotina dos dias anteriores porém neste manhã, demoramos mais que o normal para sair. Creio que um pouco pelo cansaço acumulado e também por ser o último dia da nossa viagem.

O céu nublado e a previsão de chuva nos deixavam em estado de alerta, mas como até aqui todas as previsões de chuva deram erradas, não estávamos colocando fé que iriamos nos molhar justo no último dia. Ledo engano.

Enquanto seguíamos nosso caminho praticamente plano por cerca de 20 kms, a chuva começou a se manifestar na forma de chuvisqueiros rápidos que iam e vinham, porém aumentando de intensidade a cada momento que passava.

Depois de uma pancadinha mais forte, numa descida, avistamos uma ponte coberta e corremos para lá pois o céu escuro mostrava que não tardaria para chegar uma pancada de chuva forte. Foi apenas o tempo de chegar na cobertura e desabou uma chuvarada bonita.

Como eram mais de 11 horas, e já tendo rodado quase a metade da distância para o dia, decidimos aproveitar a proteção da cobertura da ponte, que está interditada para carros, para fazer um almoço e esperar o tempo melhorar.

Vale Europeu

Uma hora e meia depois o tempo melhorou e voltou o sol, e estando nós alimentados, retomamos nosso pedal pelos últimos trinta e poucos quilómetros finais.

Ainda tinha a última subida, que na minha opinão, ainda que não fosse a maior, foi sem dúvidas a mais difícil e íngreme, em um intervalo de 5 kms, aproximadamente.

Vencida a última montanha, parecia que agora as coisas seriam tranquilas, no entanto, ao olharmos do alto na direção do vale onde fica a cidade de Timbó, a coisa não estava nada animadora. Céu escuro, totalmente fechado e com nuvens despejando água.

Preparamos o psicológico e começamos a descida de mais de 20 kms na certeza de que cedo ou tarde seríamos agraciados com aquela ducha grátis. Não deu outra.

No meio da descida a chuva nos pegou com tudo, e isso fez com que, por cautela, reduzíssemos nossa velocidade no meio daquela estrada que agora era barro e lama, com alguns trecho de descidas bastante fortes… era o tempo todo com as mãos “nos alicates” para não deixar o trem sair dos trilhos.kkk

Chegamos na área urbana de Timbó debaixo de muita chuva e lama, mas graças aos últimos quilômetros com calçamento, a água removeu toda a lama das bicicletas e das roupas. Estávamos totalmente ensopados, da cabeça aos pés e só não estávamos com frio por conta de estarmos em movimento.

Quando chegamos no ponto final, no restaurante Thapyoka, por volta das 15 horas, chovia muito mesmo e achamos melhor não entrar lá dentro para pegar nossos certificados de conclusão do circuito dado o nosso estado lastimável que lembrava cachorros de rua encharcados.

Vale Europeu

Chamamos a moça da recepção que gentilmente levou nossos passaportes para dentro e em alguns minutos voltou com nossos certificados personalizados. Uma bela recordação para guardar do Circuito do Vale Europeu.

P.s.: agora que mapeei os pontos mais “roots”, qualquer dia voltarei para fazer no esquema 100% acampando. Bora?

Considerações finais

O circuito do Vale  Europeu é em sua essência, pensado para o turismo. A estrutura muito bem organizada e toda voltada para o conforto e a comodidade onde, o cicloturista ao seguir o roteiro, pode sem grandes preocupações apreciar belos passeios e ainda, ao final de cada dia, desfrutar de toda a mordomia que achar conveniente.

Por outro lado, ainda que não seja uma aventura desafiadora, não se engane, o circuito exige sim um preparo físico mínimo para ser concluído. Além disto, as estradas de terra e a altimetria combinadas com uma condição climática ruim, podem tornar aquilo que deveria ser um tranquilo passeio de bicicleta, num perrenguezinho para levar de recordação e contar para os netos.

O mais legal do Circuito é que ele tem todos os atributos que eu considero interessantes para quem quer ter a sua primeira experiência com o cicloturismo: um roteiro organizado com mapa, pontos de apoio e rotas bem sinalizadas. Fatores que facilitam muito para quem quer começar e não tem a prática ou não quer se envolver em organizar questões complexas de logística.

Aos mais experientes, também é uma ótima e divertida opção, principalmente se estiver autossuficiente, ainda que seja um pouco complicado encontrar áreas para acampar, as rotas e a altimetria de cada dia, se apresentam como pequenos desafios. E é claro, com um pouco de atenção, desprendimento e o faro para encontrar lugares, é possível sim fazer praticamente todo o roteiro acampando.

Para ter mais informações sobre o Circuito do Vale Europeu, clique aqui.

Vivência Outdoor – 3ª edição – Floripa.

No último feriadão do Dia das Crianças, 12, 13 e 14 de outubro, tive o privilégio de participar do Vivência Outdoor e vou contar aqui, tudo que aconteceu nessa terceira edição  que rolou em Florianópolis. Foi sem dúvidas um grande encontro dos amantes e entusiastas das práticas de atividades outdoor e esportes de aventura.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

Ano após ano, o Vivência Outdoor vem crescendo e se consolidando no calendário nacional de eventos relacionados aos esportes de aventura e atividades outdoor. Sempre com uma programação rica e diversificada, atrai cada vez mais gente que pensa e transpira aventura, quer seja como atividades de trabalho, lazer e/ou esportiva. O evento em si, é uma oportunidade ímpar de adquirir e ampliar conhecimento sobre diversas práticas, escutar histórias de grandes aventuras, descobrir novos roteiros e o mais importante: fazer novas amizades e multiplicar a rede de contatos com pessoas que encaram com seriedade e entusiasmo o cenário outdoor nacional.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

Nesta terceira edição, a programação cheia e diversificada foi realmente muito interessante e divertida. Foram mais de uma dezena de atividades entre palestras, relatos, oficinas e uma sessão exclusiva de cinema outdoor sensacional. Entre uma coisa e outra, aquela pausa estratégica para um café e um bate papo com os participantes, sempre num clima descontraído. Em outras palavras, foi uma overdose, no bom sentido, de informação, conhecimento e diversão para aqueles que amam o universo das atividades outdoor.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

Entre todas as atividades, que sem exceção foram muito boas, gostaria de destacar aquelas que eu mais gostei:

 – Caminho a Dois, mais de 4.000 km trilhados pela Pacific Crest Trail – Por: Bia Carvalho e Edinho Ramo.

– Caminho da Mata Atlântica, trilha de longo curso no Brasil – Por: Ivo Leonardo Schmitz

– Navegação Outdoor com GPS: Do Básico ao Avançado – Por: Renan Cavichi e Mario Nery

– Higiene Outdoor de Mínimo Impacto – Por: Ana Vivian e André Costa (Pedarilhos)

– Sete Cumes: Denali, o desafio no Alasca – Por: Hélio Fenrich

E não parou por aí, não. Toda a logística destes três dias de imersão foi muito boa. Para repor as energias e as calorias da galera, um excelente bufê com todas as refeições foi preparado com todo cuidado e muito bem organizado, com direito a uma noite de rodízio de pizzas e uma noite das massas. Chopp e cerveja artesanal também não faltaram para os paladares mais exigentes.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

E como não poderia deixar de ser, para garantir o descanso da tribo outdoor reunida, uma aldeia de barracas NTK foi organizada no campo de futebol da Fazenda Três Meninas com o apoio logístico da Nautika.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

Para fechar essa publicação, o Trekking RS teve um rápido bate papo com Luiza Campello, que é a mãe da criança, para saber mais sobre o passado, presente e o futuro do Vivência Outdoor.

Confira aqui, nosso bate papo com a Luiza:

O que é o VO?

O Vivência Outdoor é, sobretudo um encontro de pessoas que tem uma mesma paixão, a vida ao ar livre! É um evento onde essas pessoas podem se encontrar e trocar experiências, conhecimentos e fazer novas amizades. Essa é a essência do Vivência Outdoor.

Como surgiu a ideia, qual a motivação para criar o VO?

A ideia do Vivência Outdoor surgiu da necessidade de encontrar as pessoas ao vivo, para trocar informações e conhecimento. Como blogueira do FuiAcampar muitas vezes eu me sentia distante do público que lia os conhecimentos. Eu queria conhecer e falar com as pessoas ao vivo, não só no mundo virtual. E conversando com outros blogueiros da RBO (Rede de Blogs Outdoor) percebi que eles também tinham essa vontade, de estarmos todos ao vivo, juntos e compartilhando experiências olho-no-olho. Foi assim que surgiu a primeira edição do vivência, em 2016, em socorro. O evento foi mais amador, mas a mágica que aconteceu desses encontros foi tão incrível que tivemos que repetir para proporcionar isso para mais pessoas!

Qual o principal propósito do VO?

Acho que respondi essa pergunta na primeira! O propósito é permitir a troca de conhecimentos de experiências, mas, além disso, queremos fomentar o segmento outdoor no Brasil, inspirar as pessoas, dar conhecimento, criar aventureiros mais conscientes e responsáveis pelo seu planejamento e pelas suas ações.

Desde o primeiro VO, o que mudou?

A ideia central é a mesma, não mudou em nada! O que mudou foi uma evolução na execução de cada detalhe! Aprendemos sempre com os erros e procuramos melhorar em cada detalhe, alimentação, horários, crachá, sorteios…tudo foi surgindo e evoluindo baseado nas avaliações dos participantes. Levamos tudo em consideração, porque um evento com uma organização melhor facilita a harmonia e a energia positiva do evento. Outra coisa que vai mudar para a próxima edição é o propósito de ser itinerante, cada ano em um estado diferente.Queríamos fazer itinerante para proporcionar pessoas de outros estados mais distantes terem acesso mais fácil ao evento, mas percebemos que não houve mobilização que justificasse essa mudança de local, atingimos um público local muito restrito, acreditamos que no próximo ano voltaremos para o estado de São Paulo onde o evento é mais valorizado.

Infelizmente o evento não deve mais ir até as pessoas mais distantes, quem estiver mais longe, vai ter que se mobilizar para ir até o evento. Não queríamos que fosse assim, mas foi mais um aprendizado que tivemos e precisamos tomar essa decisão para facilitar a logística para a organização e para a maioria do público interessado. Até cogitamos sair da região sudeste no futuro (talvez), mas o evento precisa estar bem mais maduro daí.

E quanto ao futuro, quais são os sonhos e projeções para os próximos VO?

A ideia do evento a princípio é se manter nessa mesma linha, promovendo encontros entre pessoas, inspirações para a vida, para as aventuras e conhecimento técnico.

Queremos evoluir sempre nos mínimos detalhes para a energia do evento fluir naturalmente e conectar as pessoas. É só isso…

Se todos que saírem do Vivência Outdoor estiverem se sentindo melhores, mais felizes, mais inspirados e conscientes de suas ações, cumprimos nossa missão! 🙂

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Se você leu tudo até aqui e quer saber mais sobre o Vivência Outdoor, a programação completa desde ano, anos anteriores e se inscrever para saber quando será o próximo, não perca tempo e clique aqui!

Pico Paraná

O Pico Paraná, localizado no município de Antonina, pertencente ao conjunto de serra chamado Ibitiraquire, que na língua tupi significa “serra verde”. Imponente e desafiador, destaca-se do alto dos seus 1.877 metros de altura, como a montanha mais alta da Região Sul do Brasil. É assim, um convite irresistível à aventura para todos que curtem montanhismo.

trekking Pico Paraná
O gigante

Já fazia um bom tempo em que o PP (Pico Paraná) era mencionado nas conversar casuais da trupe, como uma trilha indispensável para o nosso álbum de recordações, sendo que ao menos duas vezes no ano passado, tentamos organizar a missão e em ambas, as previsões climáticas fazia com que fossemos obrigados a cancelar a missão quase encima da hora.

Só agora, em 2018, após uma conversa com meus  brothers de perrengues, Bruno e Filipe, decidimos novamente escolher uma data para subir o Pico Paraná.  Com o cuidado de não pegar um final de semana,  nosso plano era ter a trilha o mais vazia de gente possível, para assim termos uma experiência mais intensa com a montanha. Foi então que Filipe comentou que no dia 23 de março, uma sexta-feira, seria feriado por conta do aniversário de Floripa. De pronto batemos o martelo e definimos que nossa investida ao Pico Paraná iniciaria na sexta-feira, dia 23 e terminaria no sábado, dia 24, evitando assim, o movimento intenso que é normal na trilha durante os finais de semana.  Plano perfeito!  Bastava apenas monitorar o clima na montanha para termos o sinal verde.

Quinta-feira, dia 22, previsão de tempo firme para a sexta e alguma chuva fraca no fim de tarde de sábado, era este o nosso sinal verde. Tratei de jogar os equipamentos todos na cargueira e com uma carona providencial de uma amiga, rumei para pernoitar na casa do Filipe em Floripa, de onde, às 05 h 30 min da madruga,  a trupe pegaria estrada rumo ao Pico Paraná, distante aproximadamente 350 km para serem percorridos em pouco mais de 4 horas de viagem.

Primeiro dia:

Conforme programado, antes do sol nascer, já estávamos na estrada, levando café na térmica para evitar o sono e também aquelas paradas desnecessárias que sempre consomem tempo, pois todos estavam cientes que precisávamos estar no cume ou perto dele antes do sol ir embora.  Com muita conversa e risadas, quase nem vimos o tempo passar e com tranquilidade, antes das 10 h da manhã, já nos encontrávamos dentro da Fazenda Pico Paraná, ponto zero de nossa pequena aventura.

A previsão de tempo para completar a trilha até o acampamento A2, carregando cargueiras, fica por volta de 6 horas de pernada morro acima, e para chegar ao cume é necessário mais uma hora.

A trilha, já de inicio, começa numa subida boa para aquecer as panturrilhas, o que dava uma pista que ali não era o “Beto Carrero”… kkk No começo, o que se vê é uma trilha normal, bem aberta e sem obstáculos, mas na medida em que fomos subindo, aos poucos começam a aparecer degraus de pedras e raízes de tamanhos variados. Gradativamente os obstáculos se multiplicam e se tornam cada vez maiores. Uma diversão para quem está bem preparado e, obviamente, um perrengue para quem não está.  Já fizeram le parkour com uma cargueira nas costas?

trekking Pico Paraná
Trecho de trilha fechada.

A trilha segue sempre bem marcada e com bastante sinalização de fitas brancas, com pouquíssimos pontos que exijam maior atenção ä navegação. De qualquer maneira, é sempre recomendável ir com alguém que tenha experiência e/ou conheça bem a região.

Água não é um problema, com um bom estudo de relatos da trilha, e uma programação simples, chega-se ao topo sem a preocupação de ficar com o bico seco.

Nosso plano inicial era subir direto, alcançar o cume e acampar por lá se o tempo estivesse firme e antes do escurecer. No entanto, a turma sentiu o desgaste causado pela noite de sono curta, as horas de estrada, e somado a estas coisas, a subida forte… Após os paredões que possuem grampos e cordas, já bem próximos do acampamento A2, Filipe começou a sentir câimbras fortes nas pernas. Com isso, diminuímos um pouco o ritmo e ao chegamos no A2, Filipe, já bem cansando e sentindo  câimbras, informou que ali era o fim da linha para ele neste primeiro dia. Numa conversa rápida, definimos montar o acampamento ali mesmo, no esquema “ninguém fica para trás”. Ainda durante a conversa, eu e Bruno, inicialmente, estávamos decididos a continuar a trilha num ataque até o cume, pois eram apenas 17 horas, aproximadamente, e o sol só iria embora lá pelas 18h20min. Daria tempo de subir, assistir ao pôr do sol e descer no escuro até o acampamento. Mas se assim fosse, o Filipe ficaria de fora, então mudamos o plano e decidimos acordar na madrugada do dia seguinte e fazer o ataque ao cume ainda no escuro para pegar o sol nascendo lá no alto.

Colocamos em prática o nosso plano B. Com tranquilidade tratamos de escolher um lugar bom para montar o acampamento, e enquanto a turma armava as barracas, fui buscar água para preparamos o jantar, na única e última nascente, que fica numa pequena trilha de uns 80 metros (bem chatinha), ao lado das ruínas da casa de pedra.

trekking Pico Paraná
Acampamento A2

O clima estava perfeito, embora abaixo de nós, o que se via era um enorme mar de nuvens cobrindo tudo, deixando visíveis, apenas os demais picos próximos. Nada de vento.

Fizemos nosso jantar, jogamos conversa fora, e sem muita enrolação, nos entocamos dentro das barracas para descansar os esqueletos castigados pela subida e colocar o sono em dia.

Durante a madrugada, que não foi fria, lembro que acordei com duas pancadas leves de chuva, que me fizeram lembra que a previsão para o dia seguinte era de chuva na tarde… Fiquei um pouco preocupado com a possibilidade de o clima estar mudando antes das previsões, mas não perdi o sono não… Kkkk Voltei dormir rapidinho.

Dados do primeiro dia:

Distância percorrida: 7,6 kms

Tempo na trilha: 7 horas

Acúmulo de subida: 1011m

Acúmulo de descida: 348m

Altimetria Pico Paraná

 

Segundo dia:

Cinco e meia da madrugada, toca o despertador e de pronto, tratei de me mexer. Abri a porta da barraca para dar uma olhada no céu e vi estrelas. Era um bom sinal, depois da chuva que rolou durante a noite.

Chamei a turma e apenas o Bruno se prontificou em fazer o ataque até o pico. Vesti meu anorak, bebi um pouco de água, coloquei uma maçã na boca, a headlamp na cabeça e, junto com o Bruno, começamos a trilha. Ainda que visualmente, o pico estivesse bem próximo, leva por volta de uma hora para alcançar o cume. Com a primeira claridade no horizonte rompendo a escuridão da madrugada, tocamos morro acima.  A trilha estava bem molhada, e como o trecho inicial é repleto de mato alto, inevitavelmente acabamos tão molhados que parecia que tínhamos tomado uma chuva na tampa… kkk

trekking Pico Paraná

trekking Pico Paraná

Após uma hora de subida com vários obstáculos, e também como não poderiam faltar, algumas escalaminhadas, o sol nos dava boas-vindas no cume do Pico Paraná. Olhando em 360 graus, não havia nada acima de nós além do sol e o céu azul. Abaixo, os picos próximos se destacavam parcialmente dentro de um mar branco de nuvens baixas. Nosso acampamento, um tanto distante, era apenas um pequeno ponto cor de laranja no meio do verde, bem abaixo de onde nos encontrávamos. Um visual alucinante!

trekking Pico Paraná
No ponto mais alto do sul do Brasil: Pico Paraná.

trekking Pico Paraná

Depois de curtir aquele momento mágico e registrar a passagem da trupe no livro de cume, começamos a descida até o acampamento para tomar café e desmontar o circo.

Não demorou muito e os primeiros trilheiros, passarem por nosso acampamento, munidos apenas de mochila de ataque, rumo ao cume.

Quando chegamos ao acampamento, Filipe nos aguardava com um fabuloso café da manhã… #sqn Diante desta falta lamentável, tratamos de fazer o café da manhã reforçado para recarregar as calorias, e assim, de barriguinha cheia, começar a longa descida até a Fazenda Pico Paraná.

Assim que terminamos de desmontar o acampamento e carregar as cargueiras, lembrei do momento em que, ainda em casa, deixei meu par de bastões de caminhada, por preguiça e crendo não serem necessários… Ainda bem que arrependimento não mata. Não é verdade?

Trekking Pico Paraná
Trupe Suricatos Hiperativos

Divagações e murmurações à parte, começamos nossa descida pouco depois das 10 horas da manhã, com sol e temperatura amena. Sem pressa, para poder aproveitar o visual e também tendo o cuidado que certos trechos da descida, seguíamos bem, anda que a descida, a meu ver, é sempre mais difícil que a subida.

Depois que descemos os dois lances de paredões com vias ferratas, começaram a aparecer grupos de trilheiros com suas cargueiras rumo ao alto da montanha.  Enquanto cruzávamos com a turma em sentido contrário, comentei com Bruno e Filipe, o quanto fomos felizes em ter feito a escolha da data da forma como se deu. Afinal, tudo indicava que o A2 e possivelmente o cume, ficariam lotados de barracas naquela noite de sábado. Certamente mais de vinte pessoas, em grupos diferentes.

A descida seguia tranquila e devagar no eterno superar de subir e descer pedras, raízes e troncos, até que num dos pontos de água, num pequeno córrego que cruza a trilha, algo aconteceu…

Como cheguei na frente da turma ao ponto de água, sentei num tronco com o córrego bem aos meus pés, para assim descansar um pouco, beber água tranquilamente e curtir a vibe daquele lugar bonito. Eu nem tinha terminado de tomar a primeira caneca de água, quando Filipe, se aproximou de mim para pegar água e arrumar um lugar para sentar, escorrega na laje molhada e caindo sem controle, bate forte com um dos braços na minha cabeça. Nada demais, uma pancada apenas, não fosse pelo fato de eu estar com os óculos na cabeça. A pancada forte fez com que a armação dos óculos fizesse um corte razoável em minha “linda careca” e rolasse uma sangueira no mesmo instante.  Uma pequena correria para avaliar o tamanho do corte e fazer um curativo para proteger o ferimento e tudo voltava a normalidade do que estava acontecendo até então. São bons esses óculos da Julbo não quebram e se precisar improvisar um canivete, pode contar com eles… kkk

Trekking Pico Paraná
Acidentes acontecem.

Após andar mais uma hora e pouco, a trilha começou a abrir, mostrando que já estávamos próximo do fim. Com sol forte na tampa, já cansados da descida de cinco horas, o trecho final parecia infinito, mas logo apareceu no visual a Fazenda e nos reanimamos para descer mais rápido.

Ao chegar à fazenda, tratamos rapidamente de tirar as botas e meias, e ficar descalços naquele gramado impecável.

Alguns rápidos minutos de relax na grama, organizamos a fila do banho e encomendamos alguns pastéis, que por sinal são muito bons, para fazer uma rápida confraternização, dar algumas risadas das coisas que aconteceram e por fim, pegar a estrada de volta para casa.

Trekking Pico Paraná
“A felicidade só é real quando compartilhada” by Alex Supertramp.

Dados do segundo dia:

Tempo na trilha (ataque cume): 1 hora, 12 minutos

Acúmulo de subida: 269 m

Acúmulo de descida: 25 m

Tempo total (ataque cume e descida até Fazenda PP): 9 horas, 44 minutos

Distância total percorrida: 8,9 kms

Acúmulo de subida: 599m

Acúmulo de descida: 1253m

Altimetria Pico Paraná

Dicas e recomendações:

– Fazenda Pico Paraná:

Gostamos e recomendamos, apesar de ter apenas um banheiro, o lugar é bastante bonito, bem cuidado e seguro para deixar o carro.

A dica aqui é deixar uma muda de roupa limpa, toalha e demais equipos de banho no carro, para na volta da montanha, resolver a questão da higiene pessoal e voltar para casa bonitos e cheirosos. 😉

A fazenda possui uma pequena cantina que serve deliciosos pasteis com refri e cerveja bem gelada.

Custo da entrada na fazenda em março de 2018: R$10,00

Mais informações: acesse aqui.

– Levar bastões de caminhada! Kkkk

– Faça uma boa previsão do tempo antes de subir para o PP, pois se pegar chuva lá no alto, a descida pode se tornar bastante perigosa.

O pôr do sol visto do Pico Paraná

Praia do Cassino

A Praia do Cassino, considerada a maior do mundo em extensão, é um convite à aventura, para todos que possuem o ímpeto de colocar seus limites psicológicos e físicos à prova em um dos lugares mais inóspitos e isolados do litoral brasileiro.

Minha história com essa travessia da Praia do Cassino começou em 2015, quando após muito meditar para encontrar alguma travessia desafiadora e selvagem, me deparei com a Praia do Cassino. De lá para cá, durante pelo menos umas 3 ou 4 vezes, tentei colocar o meu plano em prática, não fazendo o tradicional trekking de 7 ou 8 dias, como é de praxe para a galera trilheira, mas em 4 dias de pedal auto-suficiente. Porém, sempre que separava uma data e me organizava para executar a travessia, os indicativos climáticos me diziam não, fosse por conta do vento ou da chuva. A coisa não andava. Não sei se é só comigo que acontece, mas às vezes, tem coisas que quanto mais quero fazer, as circunstâncias tanto mais me dizem que não! Eu realmente já estava meio injuriado com a situação de ter abortado ao menos três vezes ao longo de dois anos, e por conta disto, tinha definido que neste verão (2018-2019), eu faria a travessia com qualquer condição de clima, sozinho ou acompanhado, pois a coisa já estava virando uma lenda que assombrava meus pensamentos… kkkk

Praia do Cassino
“Eu sempre amei o deserto. A gente senta numa duna de areia. Não se vê nada. Não se sente nada. E no silêncio alguma coisa irradia.” O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

Como é de costume, organizei o roteiro, a logística necessária e após, lancei nas redes sociais um dos meus famosos “editais hiperativos” (cuidado se ler algum por aí, geralmente é convidando para entrar em alguma roubada). Não demorou muito, e logo arrumei a parceira do Marcelo e da Bruna que toparam, por conta e risco, a travessia de bike. Estava assim formada a trupe para o desafio.

O plano, como disse anteriormente, era percorrer toda a extensão da Praia do Cassino em quatro dias, iniciando a travessia nos molhes de Rio Grande, seguir no primeiro dia até o Farol Sarita, no segundo dia alcançar o Farol Albardão, no terceiro dia atravessar o Concheiro pernoitando no hotel abandonado e por fim, no quarto dia, chegar ao final da jornada nos molhes da barra do Chuí. Dividindo assim, os mais de 230 kms em quatro pernas para não ficar tão pesada a pedalada, mas como mostrarei a seguir, quase nada aconteceu como planejado.

O Primeiro Dia na Praia do Cassino:

Depois de viajar praticamente a noite toda, pois embarcamos na Rodoviária de Porto Alegre às 2:00 horas da madrugada, chegamos por volta das 7 horas da manhã na Rodoviária de Rio Grande.

Tão logo desembarcamos,  tratamos de iniciar a montagem das bikes e dos alforjes com todo equipamento, para poder então, tomar o rumo dos molhes de Rio Grande, o nosso ponto de partida. Ainda no caminho pra os molhes, fizemos uma rápida parada numa padaria para tomar um café para acordar de verdade antes de encarar o desafio.

Por volta das 9:30 horas, com o sol já querendo mostrar suas garras, e após um rápido passeio nos mais de 4 kms dos molhes de Rio Grande, colocamos as magrelas na areia e começamos nosso pedal do dia.

Praia do Cassino
Molhes de Rio Grande/RS – Brasil

Na medida em que pedalávamos para o sul, começamos a nos aproximar do Balneário Cassino, que no dia 3 de janeiro, com tempo bom, estava lotado de gente e carros na areia. Foi bastante chato e complicado sair daquele mar de gente, pois a areia estava solta, e não conseguimos dar um ritmo adequado já nos primeiros 15 kms. Mas na medida em que pedalávamos sob o olhar curioso dos banhistas, aos poucos a multidão foi ficando para trás, a quantidade de carros diminuindo e o sol subindo com força.

Embora o vento estivesse ao nosso favor, a areia da Praia do Cassino não estava muito convidativa para pedalar com as bikes carregadas, todavia não tínhamos outra escolha, era seguir em frente rumo ao sul, ainda que isso exigisse um esforço extra, que de certa forma, já era previsto.

Por volta do meio-dia, com o sol realmente muito forte, chegamos ao naufrágio do Navio Altair. Sem nenhuma sombra, e depois de uma noite quase sem dormir, o cansaço começou a dar as caras na turma e, enquanto bebíamos água, decidimos mudar o plano original, desistimos de chegar ao Farol Sarita. A ideia agora era procurar um local com alguma sombra para poder montar o nosso acampamento, almoçar, esfriar a cabeça do sol e descansar. Dos 65 kms, aproximados que deveríamos percorrer, rodamos apenas 28 kms, e no momento em que avistamos um pequeno bosque de pinheiros junto a um rancho de pesca, resolvemos ficar ali. Após pedirmos autorização para o dono do local, tratamos de montar nosso circo e relaxar, com direito a um bom banho de água doce numa pequena lagoa junto ao rancho de pesca. Foi um alivio e tanto.

A Praia do Cassino nos dava boas-vindas com muito sol, calor, vento empurrando e areia pesada.

Praia do Cassino
Navio Altair

Depois de jantar, fizemos mais uma reunião de cúpula onde ficou decidido que no segundo dia, levantaríamos antes do sol para poder render o máximo enquanto não estivesse tão quente, pois teríamos que compensar os quilômetros que faltaram do primeiro dia e chegar de qualquer maneira ao final do dia, no Farol Albardão, onde existe uma base permanente da Marinha do Brasil, na esperança de conseguir um pouso e nos reabastecer de água potável.

Praia do Cassino
Acampamento no rancho de pesca

Dados do dia:

Início do pedal: 9:30 horas

Final do pedal: 15:30 horas

Distância computada: 28 kms

Segundo Dia na Praia do Cassino:

Ainda escuro, o despertador tocou e de imediato, após uma boa noite de sono, tratamos de tomar um café da manhã bem reforçado, desmontar o acampamento e aproveitar a condição de vento N/NE que nos dava uma força.

Começamos a pedalar com um visual alucinante do sol nascendo na linha do mar. O astral da trupe estava muito bom, seguíamos pedalando na direção da imensidão que parecia não ter fim com a Praia do Cassino praticamente deserta, apenas jeepeiros  e caminhonetes 4×4 com pescadores, vez ou outra, quebravam a nossa solidão naquele deserto à beira mar.

Nosso ritmo inicialmente estava bom, e antes das nove horas da manhã, avistamos o Farol Sarita. Feita uma rápida parada para fotos e tomar um fôlego, seguimos em frente, com o sol começando a nos castigar e tendo que ter o cuidado de controlar o consumo de água que já estava começando preocupar.

Praia do Cassino
Refrescando o corpo durante uma das muitas paradas.

Seguindo em frente, sofrendo muito com a areia pesada e o calor, dando pequenas paradas a cada 50 minutos mais ou menos.  Por volta das 11:30, paramos num arroio para nos refrescar pois o calor estava muito forte. Meus lábios começaram a rachar por conta do sal e do sol, e a sede era infinita. Com pouco mais de duas horas e meia de pedal, avistamos no horizonte a estrutura do Farol Verga, desativado a algum tempo… com o sol nos torrando inclemente, a sede e a fome batendo, decidimos parar no Verga, e aproveitar a pequena sombra que ele fazia para descansar, comer algo, se reidratar com a pouca água que nos restava e por fim, esperar o sol dar uma baixada para só então retomar o pedal.

Ficamos cerca de 3 horas parados, onde deu para dar uma cochilada na modesta sombra do Verga e comer algo para reabastecer de energia para dar a tocada final. Faltavam ainda 30 kms aproximadamente para chegarmos no Albardão.

Praia do Cassino
Farol Verga

Com o cair da tarde e o sol mais ameno, seguimos em frente, na fé e na determinação de chegar no Albardão antes do pôr do sol, embora tivéssemos combinado que o importante era chegar lá, independente da hora que fosse, mesmo que para tanto, tivéssemos que pedalar na escuridão da noite.

Com pouco mais de uma hora, avistamos a estrutura imponente do Albardão no horizonte, ainda distante cerca de 10 kms. Avistar o farol nos renovou o ânimo, apesar do cansaço e da sede e, com mais uma hora pedalando, para nossa alegria, chegamos ao destino junto com o sol indo embora.

Fomos muito bem recebidos pelo sargento Moreno, que gentilmente, nos acolheu disponibilizando as instalações da cozinha, banheiro com ducha e um quarto para nossa trupe, ou seja, um verdadeiro Oasis no deserto para viajantes cansados e castigados pela dura jornada de mais de 12 horas de pedalada.

Praia do Cassino
Farol Albardão

Dados do dia:

Início do pedal: 6:45 horas

Final do pedal: 21:00 horas

Distância computada: 107 kms

Terceiro Dia na Praia do Cassino:

Era sabido por todos que este seria o dia mais difícil, pois deveríamos atravessar o famoso e temido Concheiro, que nada mais é do que um imenso trecho de praia onde a areia mistura-se com restos de conchas, formando assim, um terreno fofo e de difícil locomoção que pode variar entre 15 e 50 kms, dependendo das ações da maré e do vento que alteram o terreno.

Assim sendo, fizemos uso da mesma estratégia do dia anterior: acordar antes do sol, tomar um bom café da manhã e começar a pedalar antes do sol nascer. Além disto, ficou decidido que tentaríamos completar a travessia neste mesmo dia, sem parar no hotel abandonado para acampar pois, os indicativos climáticos apontavam que para o dia seguinte, entraria uma frente de vento Sul, e certamente isso seria um grande problema.

Por volta das 6:30 horas, com o dia amanhecendo e nos presenteando com um espetáculo de cores, e antes do sol começar a querer fazer churrasco da gente, começamos nossa jornada.

Praia do Cassino
Sol nascendo, um espetáculo diário.

Inicialmente conseguimos evoluir bem, mais uma vez com o vento favorável, mas após 20 kms a coisa começou a ficar bem complicada: O Concheiro apresentava suas armas.

Pedalar no Concheiro é algo muito complicado e desgastante. O esforço físico beirava o extremo. É uma sensação de se estar subindo uma montanha o tempo todo.

Na medida em que pedalávamos e que o tempo passava, com a temperatura aumentando e o cansaço acumulado dos dias anteriores se fazendo sentir de uma maneira absurda, não conseguíamos manter uma velocidade média normal para cicloturismo. Estávamos rodando com pouco mais de 8 kms/h, ou seja,  o dia se desenhava como uma verdadeira tortura.

A dificuldade extrema de pedalar nestas condições, fez com que aumentasse muito nosso consumo de água, e isto logo se tornou um problema que só não foi maior, por conta de estarmos na temporada de veraneio, e após rodar mais de 30 quilômetros, começamos a encontrar pescadores que na maioria das vezes nos davam água gelada para beber.

Avançávamos lentos e de certa forma, desanimados, pois o trecho do Concheiro, ao que pudemos observar, passava facilmente de 40 quilômetros, ou seja, muito mais do que os 15 ou 20 quilômetros que pretendíamos inocentemente encontrar.

Numa destas paradas para pedir água, já exaustos de tanto pedalar lentos e empurrar as bicicletas, encontramos a família da Rosana que estava ali pescando e curtindo a praia deserta. Pedimos água e começamos a conversar com a turma, explicando de onde estávamos vindo e onde deveríamos chegar… papo vem, papo vai, lá pelas tantas, fomos presenteados com a melhor coca-cola das nossas vidas, e não só isso, servida em taças! Não tive dúvida nenhuma, aquilo ali era um milagre! Imagine você, no deserto, já sem água, debaixo de um sol fortíssimo, e de repente, aparecem anjos com a coca-cola mais gelada e deliciosa que você já bebeu na sua vida… É ou não um pequeno milagre? Ficamos extremamente emocionados e agradecidos com aquele gesto da Rosana e sua família.

Praia do Cassino
A coca-cola do deserto.

Após uma despedida emocionada dos nossos anjos do deserto, seguimos em frente, ligeiramente renovados pela coca e pelo milagre.

Num misto de sobe e desce da bike, empurra e pedala, fomos seguindo lentos e cansados, sem conseguir melhorar a velocidade média. Eu fazia as contas nas minha cabeça, e vendo que faltavam apenas 40 quilômetros, distância facilmente superável em condições normais, mas ali, naquele terreno, demoraria pelo menos 6 ou 7 horas… duríssimo conduzir uma bike carregada naquelas condições. Com certeza, esse foi o momento mais difícil para todos na Praia do Cassino. Mais se empurrava  do que pedalava, mas mesmo assim, seguíamos em frente pois não existia um plano B naquela situação.

Depois de horas, de sofrimento, começamos a ver as primeiras casas e ranchos de pesca nas proximidades do Balneário Hermenegildo, e após conversar com a Bruna, decidimos que na primeira sombra que aparecesse, iríamos parar para descansar e esfriar o corpo, pois nossa moral e nossa dignidade tinham sumido…kkkk Creio que faltando uns 15 quilômetros para chegarmos no Hermenegildo, encontrei um casebre junto de uma duna que fazia uma pequena sombra. Sinalizei para a Bruna e tratamos de fugir do sol, já deveriam ser por volta das 16 horas. Ficamos prostrados ali, bebendo a pouca água e comendo balas de banana, na esperança de reunir energias para tocar em frente. Neste momento, fomos novamente ajudados, desta vez, por outro ciclista que estava fazendo o pedal na praia, mas sem carga e com sua esposa no carro de apoio. Infelizmente esqueci o nome deles, mas o fato é que ofereceram uma carona para nossos alforjes e nos deram frutas para comer! Assim, com essa força, conseguimos seguir em frente e alcançar, finalmente o Hermenegildo, onde tratamos logo de ir para um barzinho e tomar uma cerveja bem gelada para tentar restabelecer a nossa moral que caíra por terra, ou melhor, pela areia…kkk

Faltavam cerca de 12 kms até a barra do Chuí no entanto, nós já não tínhamos forças para seguir e além disto, o balneário estava lotado, dificultando pedalar na faixa de areia. Fim de linha.

Tratamos de encontrar uma casa para alugar por uma noite, para assim, poder tomar um bom banho, fazer um jantar reforçado e dormir numa cama. Sem muita demora, tudo estava resolvido e aquele sofrimento todo de mais de 12 horas de pedal, já fazia parte da história.

Seguindo para os molhes do Chuí – Dados do dia:

Início do pedal: 6:30 horas

Final do pedal: 18:45 horas

Distância computada: 72 kms

Quarto dia na Praia do Cassino:

Sem muita preocupação, aproveitamos para descansar depois do suplício que foi o pedal do dia anterior. Tomamos café em slow motion, lavamos roupas, revisamos e lubrificamos as bikes para finalizar os 12 kms restantes… Afinal quem poderia nos impedir de completar esse misero trecho, depois de tudo aquilo que passamos até então? Resposta: O vento sul, que jogou o mar direto na areia e fez a praia sumir de vez, tornando assim, impossível para qualquer veículo de rodas seguir por aquele caminho.

Praia do Cassino
Tomando o asfalto para chegar aos molhes do Chuí.

A decisão de chegar o mais perto possível do final, foi a nossa salvação pois se por algum motivo tivéssemos parado para acampar, certamente teríamos que ficar um dia parado por conta da maré e do vento. A praia estava fechada.

Num misto de decepção e alivio, decidimos seguir até a barra pelo asfalto e assim, completar a travessia, ainda que não 100% pela areia.

Praia do Cassino
Fim da linha: molhes do Chuí.

Cicloturismo selvagem Praia do Cassino – Missão cumprida

Recordando agora, tudo que passei, posso garantir que a Praia do Cassino, até aqui, foi a travessia mais difícil que eu já tive a oportunidade de fazer.

Por mais que se esteja preparado, as condições da praia são sempre uma incógnita, podendo ajudar ou dificultar muito as intenções daqueles que pretendem se arriscar por lá, mas sendo como for, é uma experiência única, extrema e necessária para aqueles que querem descobrir seus próprios limites físicos e psicológicos.

Praia do Cassino

Para finalizar quero agradecer de todo meu coração aos meus parceiros de pedal Bruna Fávaro e Marcelo Rudini, companhia que fez toda a diferença no perrengue e também à todos que nos ajudaram durante a jornada, com o pouso para descanso, uma fruta e as muitas garrafas d’água. Certamente sem essa turma toda, a coisa teria sido muito mais difícil.

“Se vai tentar, vá até o fim.” Charles Bukowski.

A Clássica Travessia da Serra Fina – MG

A Clássica Travessia da Serra Fina

Já fazia um bom tempo em que eu e meus camaradinhas de hiperatividades, perrengues e afins, conversávamos sobre fazer a famosa e desafiadora travessia da Serra Fina, porém, a conversa sempre acabava se dissipando em nada. Foi então que, numa tarde qualquer de junho de 2016, o Filipe me chamou no chat com uma perguntinha: “E a Serra Fina?”.

Naquele mesmo instante senti que era o momento e imediatamente começamos a correr atrás da data, que deveria ser fora de feriados ou finais de semana, para evitar a travessia “crowdiada”, pois o plano era acampar os três dias nos três picos mais altos da travessia. Além disto, tínhamos que conciliar horários de vôos, pois estando eu em Porto Alegre e o Filipe em Floripa, havia mais este desafio de encaixar as peças do quebra-cabeça da logística de maneira tal que não houvesse perda de tempo, pois o esquema seria um “bate e volta”.

Quanto tudo já estava acertado e encaixado, os horários dos vôos, do ônibus de Guarulhos para a rodoviária de São José dos Campos, de SP para Passa Quatro e o traslado local para o início da trilha, reservas no hostel e etc. e tal, eis que o nosso camarada Hyzzo, resolveu dar o ar da graça de ir faltando poucos dias. Novo quebra-cabeça, mas depois de muita correria, conseguimos fazer as coisas se ajustarem. Agora já não seria apenas uma dupla, mas um trio da trupe realizando a travessia.

“Atualmente todos vivemos em um mundo dominado pelas máquinas. Quase não restam em nosso deteriorado planeta espaços livres, onde possamos esquecer nossa sociedade industrial e testar, sem sermos incomodados, nossas faculdades e energias primitivas. Em todos nós se esconde uma saudade do estado primogênito, com o qual podíamos calibrar-nos com a natureza e enfrentá-la, descobrindo a nós mesmos. Aqui está basicamente a razão de não haver para mim uma meta mais fascinante que esta: Um homem e uma montanha.” Reinhold Messner

O ponto de encontro foi o aeroporto de Guarulhos, onde, o primeiro a chegar foi o Hyzzo, bem depois (6 horas), meu voo aterrissou e com menos de uma hora, finalmente a trupe estava completa com o Filipe, vindo de Floripa. Tratamos de jantar por ali mesmo e sem perder tempo, pegar o ônibus para São José dos Campos e aí sim, embarcar para Passa Quatro/MG, no último horário, às 00 h 45 min.

Depois de vencida esta primeira etapa, chegamos à rodoviária de Passa Quatro, antes das 4 horas da madrugada, cansados e com sono. Não demorou muito e logo, uns 15 minutos depois, nosso transporte para a Toca do Lobo, chegava com uma louvável pontualidade. Contratamos o Antonio José (35 991191373), que foi indicação do Hostel Harpia, transporte de primeira! Recomendo.

A Clássica Travessia
Conexão Guarulhos x São José dos Campos x Passa Quatro.

Primeiro dia – 03/08/2016 – Toca do Lobo ao Pico do Capim Amarelo

Embarcamos na Kombi e seguimos pela cidade deserta durante a madrugada e logo entramos na estradinha de chão que nos levaria ao ponto zero da travessia. Devido à escuridão, não deu para curtir o visual, mas estava tudo dentro do cronograma planejado e uma hora depois, já estávamos com as cargueiras nas costas e as lanternas de cabeça ligadas, no breu da madrugada, rumando para o início da trilha, onde paramos para comer algo e tomar um café para despertar enquanto não clareava o dia.

Passando alguns poucos minutos das 06:00 horas, raiando o dia, atravessamos o córrego de fronte para a Toca do Lobo e entramos finalmente na trilha, tendo como objetivo para o dia o alto do Capim Amarelo e seus 2.570 metros.

Praticamente “virados” de um dia para o outro, sem dormir e cansados do tranco da viagem, mas ainda assim, com uma vontade muito grande de estar ali e encarar o desafio. Comentei com a trupe naquele momento que, por começar bem cedo e também pelo fato de não termos dormido, nossa estratégia seria ir bem devagar, aproveitando o clima agradável daquela manhã de tempo bom, fazendo as paradas para pegar água e descansar, sem correria, pois tudo ali era novo para todos nós e como diz o ditado: “devagar se vai ao longe”, tocamos assim, morro acima no ritmo do cágado hiperativo.

A previsão do tempo estava ao nosso favor, apesar disto, começamos a trilha com muita neblina, um motivo a mais para ficar atento na navegação. Era um olho na trilha e outro no GPS para não ter surpresas… kkk Com pouco mais de uma hora e meia, chegamos ao último ponto de água, onde tratei de pegar 4 litros para garantir o consumo durante a subida, e também o jantar, café da manhã e uma reserva para chegar até o próximo ponto de água somente no dia seguinte.

Embora não seja nenhuma novidade para muitos que estão lendo, cabe pontuar a questão da água, ou melhor, a escassez dela na travessia. É preciso ter muita atenção para pegar a quantidade certa e ter bem mapeados os pontos de água. Além disto, a escolha de um cardápio que exija uma quantidade pequena ou nenhuma de água para o preparo também é igualmente importante. Dito isto, vamos em frente.

Seguimos num ritmo lento e fazendo paradas rápidas a cada hora, pois o primeiro dia não perdoa, é só subida o tempo todo.

Na medida em que o dia avançou, a neblina se desfez e por volta de umas 9 horas já estávamos andando com céu aberto, poucas nuvens e o sol não chegava a torturar tanto, pois a temperatura estava agradável… A medida em que se ganha altitude é bem fácil perceber a mudança da vegetação também, a mata desaparece numa transição com taquarinhas e depois é basicamente capim alto e vegetação rasteira.

A Clássica Travessia

Com 7 horas e meia de caminhada, um certo esforço e muito cansados, chegamos por volta de meio-dia e meia no topo do Capim Amarelo e como se tratava de um dia de semana, o pico estava completamente deserto. Eram apenas nós três no alto da montanha, o que para mim, foi uma alegria a mais. Meu lado antissocial agradeceu pois tinha pesquisado bastante e lido em alguns relatos que durante feriados a coisa fica complicada no que diz respeito a conseguir lugar para montar o acampamento e que também às vezes rolava algumas crises entre a galera… Melhor assim, nosso planejamento tinha dado muito certo nesta questão e a montanha era só nossa.

Fizemos um almoço simples e depois de uma boa lagarteada (tirar uma soneca no dialeto gaúcho) ao sol, montamos nossas barracas e ficamos por ali curtindo o momento e conversando até o cair do sol, que foi um espetáculo à parte.

Tratamos de jantar cedo e entrar nas barracas pois a temperatura que estava agradável durante o dia, simplesmente despencou com o sol indo embora. Bem alimentado, dormi que nem uma pedra.

Resumo do dia:

Distância percorrida: 6.5 km

Tempo de caminhada: 9 h

Acumulo de subida: 1250 m

Acumulo de descida: 305 m

A Clássica Travessia

Segundo dia – 04/08/2016 – Pico do Capim Amarelo ao Pico Pedra da Mina


Acordamos com um dia lindo de céu limpo e sem vento. Estávamos acima das nuvens, no altímetro marcando 2.495 metros.

Preparamos um café reforçado, sem pressa desmontamos o acampamento e organizamos tudo nas cargueiras. Depois de dar uma repassada no “briefing” da missão para o segundo dia, colocamos o pé na trilha às 9 horas da manhã, mais descansados e mantendo o mesmo ritmo do dia anterior, sabíamos que em se tratando de Serra Fina, nenhum dia é moleza e a altimetria deste dia mostrava uma verdadeira montanha russa, cheia de desce e sobe… kkkk

Por volta das 15 h 30 min chegamos ao Rio Claro, nosso ponto de coleta de água, na base da Pedra da Mina.

Por ali ficamos uma hora, descansando, comendo e bebendo muito suco Tang para seguir em frente mais animados e atacar o cume da Pedra da Mina. Nesse momento, fomos alcançados por um grupo, onde para minha surpresa, era o Tiago Korb e o Clube de Trekking de Santa Maria, que num grupo de quatro pessoas, estavam fazendo a travessia em dois dias.

Conversamos um pouco ali, e logo em seguida, o grupo do Tiago seguiu para o cume, enquanto a trupe, um pouco depois e num ritmo mais lento, tomou o mesmo rumo: Pedra da Mina.

A Clássica Travessia

O ataque ao cume é bastante cansativo e demorado, uma hora e meia para percorrer esse trajeto. Na parte final da subida, o tempo começou a mudar, muitas nuvens cobrindo a montanha e com a tarde caindo, começou a ficar escuro. Como estávamos distantes uns 30 metros uns dos outros, recomendei para o pessoal sacar as lanternas de cabeça e manter na luz vermelha, para não perder ninguém de vista na neblina que estava tomando conta do caminho.

Desta vez não teve pôr do sol, e, por conta das nuvens e do vento que soprava com força, fomos obrigados a fazer o jantar no avanço da barraca e encerrar assim o dia.

Resumo do dia:

Distância percorrida: 7.9 km

Tempo de caminhada: 9 h 30 min

Acumulo de subida: 984 m

Acumulo de descida: 671 m

A Clássica Travessia

Terceiro dia – 05/08/2016 – Pico da Pedra da Mina ao Pico dos Três Estados

O dia amanheceu lindo e sem aquele vento que nos recebera na noite anterior. Como de praxe, tomamos café, desmontamos o circo e com as cargueiras prontas, assinamos o livro do cume e nos despedimos da Pedra da Mina.

O início deste trecho da travessia é uma descida forte, com muita pedra solta, que exige bastante atenção e cuidado, pois em menos de 1 km se desce mais de 300 metros! Qualquer descuido pode resultar em queda. Nessa hora os bastões de caminhada ajudam muito.

Depois de menos de uma hora, já estávamos no meio do Vale do Ruah, que por sinal é bem bonito, com seu labirinto de capim alto e charcos repletos de turfeiras. Atravessamos o vale sem muita dificuldade. No último ponto de água, antes de sair do Ruah, paramos e resolvemos fazer uma bela macarronada para antecipar o almoço e também aproveitar para lavar a louça e abastecer de água, pois o próximo ponto de água é só no dia seguinte e praticamente no final da trilha.

Pouco antes do meio-dia retomamos nossa jornada, passamos pelo cume do Brecha, de onde já era possível ver nosso destino para o final do dia.

Seguimos em frente, passando pelo segundo trecho onde se caminha bem na linha da cumeeira da serra, com um visual alucinante e abençoados por um clima excelente pois não havia vento algum. Ao chegarmos ao cume do Cupim, pouco antes das 15 horas, fizemos uma parada para descansar e apreciar a vista. Naquele momento o que mais me marcou foi o silêncio absoluto no local. Chamei a atenção do Filipe que quando ao prestar atenção nesse fato, também ficou impressionado.

A Clássica Travessia

Meia-hora depois, já seguíamos descendo o Cupim, rumo à mata do Bambuzal, que é um ótimo lugar para acampar no caso de quem vai fazer a travessia em dias de muito movimento ou ainda, numa situação de pegar um clima ruim. A mata de bambus é um local bastante protegido dos ventos na base do Pico dos Três Estados.

Sem parar, seguimos agora para a reta final do dia, faltava percorrer pouco mais de 1 km e subir pouco mais de 200 metros de caminhada e algumas escalaminhadas, e dentro do tempo previsto, chegamos ao cume da montanha. Novamente o ritual de escolher o melhor lugar, montar o acampamento e curtir a última noite da travessia.

Nessa noite, enquanto preparávamos o jantar, tivemos a companhia de vários ratos que pelo visto contavam com a nossa comida… kkk Enquanto o Hyzzo fazia a janta, eu e o Filipe, fazíamos uso do bastão de caminhada para dissuadir a gang de camundongos que estavam de olho na nossa comida.

Resumo do dia:

Distância percorrida: 6.6 km

Tempo de caminhada: 8 h 20 min

Acumulo de subida: 551 m

Acumulo de descida: 691 m

A Clássica Travessia

Quarto dia – 06/08/2016 – Pico dos Três Estados ou Sítio do Pierre

Nosso último dia começou com um friozinho e tempo bom e depois do ritual matinal, começamos sem pressa a longa descida até o Pierre.

O inicio da caminhada é uma descida forte até o acampamento Bandeirante, de onde, logo em seqüência chegamos ao Cume do Bandeirante, e depois mais uma descida para então, iniciamos a subida complicada do Alto dos Ivos, que exige bastante atenção. Neste trecho temos também muitas taquarinhas pelo caminho, que contribuem muito para deixar a descida lenta.

Ao meio-dia, saímos do Alto dos Ivos, e na medida em que fomos descendo, a vegetação foi mudando. As taquarinhas, para nossa alegria, sumiram, e dando lugar a elas, primeiro muitas bromélias e depois uma mata já com árvores grandes e bastante sombra.

A Clássica Travessia

No início deste trecho, a água da trupe já estava no fim, sendo que o ao chegar ao último ponto de coleta, já próximo do Pierre, somente eu ainda tinha uns 300 ml sobrando. O resto já estava de bico seco há algum tempo. Kkk

Após beber água e descansar alguns minutos, seguimos pela estradinha abandonada que vai descendo até o sítio, e dentro do horário previsto, chegamos no nosso ponto de resgate, onde, para nossa felicidade, o Sr. José Antonio já nos aguardava para retornar para Passa Quatro e nos deixar no Hostel Harpia.

Missão cumprida!

Resumo do dia:

Distância percorrida: 10.5 km

Tempo de caminhada: 6 h 50 min

Acumulo de subida: 480 m

Acumulo de descida: 1578 m

A Clássica Travessia

Considerações finais:

A Serra Fina é linda, mas é duríssima também, e se o clima não estiver favorável, as coisas podem se complicar bastante por lá. É preciso muito preparo físico, um planejamento minucioso na questão da água, equipamento adequado e perícia na navegação, pois do contrário, as coisas podem ficar bastante difíceis.

A Clássica Travessia da Serra Fina não é para iniciantes, mas aqueles que se prepararem com foco e humildade terão plenas condições de conclui-la.

Ao final, não existe nenhum pódio, nem medalha pelo feito, mas garanto que a euforia da conquista irá inundar o íntimo de tal maneira que o prêmio será justamente essa alegria, que eu garanto, ficará gravada na memória para sempre.

A Clássica Travessia
Hostel Harpia em Passa Quatro – MG

Ciclotour Uruguay: Chuy até Punta del Este, Parte 1

Ciclotour Chuy até Punta del Este parte 1

Prelúdio

Desde que fiz a minha primeira viagem solo de bike pelo Uruguay, lá no carnaval de 2015, acabei ficando com uma ideia fixa na cabeça e um sentimento forte que era necessário voltar para mergulhar mais fundo e conhecer mais daquele lugar que arrebatou por completo meu coração aventureiro.

Comecei a planejar a viagem logo depois que voltei da travessia da Serra Fina – MG, em meados de agosto de 2016. Já tinha um roteiro mais ou menos montado na cabeça que seria ir da cidade de Chuy que fica junto da sua irmã brasileira Chuí (irmãs siamesas, diga-se de passagem) e tomando sempre o caminho mais próximo do litoral, passando por Montevidéu terminando o pedal em Colonia del Sacramento, de onde voltaria para Porto Alegre de ônibus.

No primeiro momento, pensei em fazer a viagem solo como na vez anterior, mas pensando daqui e dali, achei melhor convocar o pessoal da trupe de indiadas que participo, os Suricatos Hiperativos, onde de imediato apareceram mais três pessoas interessadas. Fiquei mais animado ainda,  sabia que seria muito mais divertido tendo a participação de alguns amigos do nosso pequeno grupo de hiperatividades. Mas com o passar do tempo e a aproximação da data limite para fechar a viagem, tivemos duas baixas no grupo, restando assim apenas eu e meu brother de perrengues, indiadas e afins, Mr. Ricardo Tavares.

Sem muito mistério ou complicação, organizamos os equipamentos de camping, as bikes, e combinamos nosso encontro no dia 2 de dezembro na rodoviária de Porto Alegre, onde pegamos o ônibus às 23 horas para o Chuí.

A viagem Porto Alegre x Chuí tem uma duração de cerca de 8 horas, onde, pegando o horário noturno, dá para ir dormindo tranquilamente, pois o ônibus praticamente não pára e o caminho é quase que uma reta sem fim, fator este que favorece o sono das crianças.

“O nômade conserva um segredo de felicidade que o cidadão perdeu, e por este segredo sacrifica a comodidade e a segurança. Múltiplos são os êxitos, os álibis e as sensações da viagem, mas um só é o profundo e verdadeiro motivo interior que a determina: perseguir o segredo daquela remota felicidade.”

Domenico De Masi

A máquina!

Primeiro dia: Chuy x Punta Del Diablo

Chegamos bem cedinho, por volta das 7:30 da manhã, horário de Brasília, com tempo chuvoso. Logo começamos a organizar as bikes que estavam desmontadas e embaladas nos mala bikes. Foi neste momento que percebi um pequeno problema na minha bike: o cubo da roda dianteira estava com uma folga no eixo que exigia um pequeno aperto, porém não tínhamos a chave 17 para fazer o ajuste e poder dar início a nossa viajem. A solução era aguardar o comércio abrir e ir numa oficina de bicicletas para resolver a questão. Como no Uruguay não tem horário de verão e era sábado, resolvemos procurar uma padaria para tomar um café , comer alguma coisa para enganar a torcida e matar o tempo. Além disto, precisávamos também, fazer cambio de moeda e comprar alguma coisa de comida para os dois primeiros dias. Pergunta aqui, ali e logo encontramos uma oficina de bicicleta e uma casa de cambio praticamente na frente uma da outra. Resolvidas todas as questões, era hora de tocar para a Aduana Uruguaia e fazer os procedimentos para dar entrada oficialmente no Uruguay.

Agora sim! A Ruta 9 pela frente.

Começamos o pedal por volta das 11 h 30 min, com céu nublado, sem vento e temperatura amena, ou seja, uma maravilha para começar a brincadeira e poder ir se acostumando com o peso na bike. O ritmo inicial era o famoso passinho do calango sonolento, 15 km/h.

Não tínhamos um destino certo para este dia, a ideia era rodar algo por volta de 40 ou 50 quilômetros no máximo e encontrar um camping. A primeira opção era o parque do Forte Santa Teresa ou, se estivéssemos dispostos, tocar um pouco mais adiante, até Punta Del Diablo.

Quando cheguei na frente da entrada principal do parque, me deparei com a entrada para a Laguna Negra, que ao contrário do Forte, eu não conhecia ainda. Fiquei ali aguardando o Ricardo que vinha um pouco atrás para decidir para qual lugar seguiríamos. Rapidamente decidimos tocar para a Laguna Negra, um desvio de 4 quilômetros para fora da Ruta 9, pegando uma estrada de terra em boas condições.

Chegando lá, por volta das 14:30, de cara encontrei um quiosque fechado bem na beira da água e não pensei duas vezes, parei a bike e tratei logo de montar a cozinha e começar a “operação fome zero”. Ficamos por ali mais uma hora e pouco, dando aquela tradicional “jiboiada” com um nababesco café passado na hora. Só então, depois do ritual do café e com os neurônios funcionando adequadamente, tomamos a decisão do que fazer. Se acampar ali mesmo, ir para o Forte ou tocar mais uns 15 quilômetros até Punta Del Diablo. Optamos por seguir até Punta Del Diablo.

A Laguna Negra é linda e além disto, perfeita para um acampamento selvagem, mas a nossa escolha já tinha sido feita. Juntamos as tralhas, as forças e voltamos a pedalar. Tínhamos 4 quilômetros de terra com uma boa subidinha até alcançar o asfalto da Ruta 9 e então ir até Punta Del Diablo.

Chegamos por volta das 18 h 30 min, fomos até a beira da praia para dar uma conferida no visual e atento também para localizar um camping para nosso pouso.  Como era baixa temporada, somente um camping estava aberto, partimos para lá com o sol indo embora e a noitinha chegando mansa. Ao chegar ao ótimo Camping La Viuda, tratamos de montar nosso circo, tomar um bom banho e jantar com um céu estrelado que nos dava as boas vindas para as nossas noites no Uruguay.

Resumo do primeiro dia:

Distância percorrida: 60 quilômetros

Custo camping: 200 pesos

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Segundo e terceiro dia: Punta Del Diablo x Valizas & Cabo Polônio

Acordamos junto com o sol e lentamente, após o café da manhã, desmontamos o acampamento e por volta das 8 horas iniciamos nosso percurso do dia pela Ruta 9. O dia estava bonito e até umas 10 horas a temperatura seguia amena, seguimos num ritmo bastante tranqüilo e conversando durante a pedalada. Na medida que o sol subiu, a temperatura começou a complicar um pouco as coisas e ao chegar em Castillos, já passando do meio-dia, resolvemos dar uma parada de uma hora na sombra, fazer um lanche e ficar atirado na relva curtindo o calorão já na Ruta 16.

Depois de mais de uma hora curtindo o ócio criativo na relva, resolvemos seguir viagem, ainda com o sol escaldante. Apesar da temperatura alta, eu em especial, estava muito empolgado pois sabia que já estava bem perto da mítica Ruta 10, que é um pequeno paraíso para quem curte cicloturismo, tanto pelo visual como pela tranqüilidade devido ao baixo movimento de veículos. Rodamos um pouco menos de uma hora e demos outra parada num gramado estratégico debaixo de algumas árvores para hidratar e esfriar a cabeça pois não estava fácil. Neste momento, enquanto jogávamos conversa fora, avistei uma bike carregada vindo no sentido contrário. Tratava-se de um argentino, gente finíssima, que estava subindo para o Brasil e que pretendia dar a volta ao mundo pedalando. Não demorou muito e quando olhei para o outro lado, outra bike, essa seguia no mesmo sentido que o nosso, e ao se aproximar, parou e desceu o paulista Martins, que estava dando um giro até o Cabo Polônio. Aquela parada rendeu uma reunião muito divertida entre quatro malucos de quatro lugares diferentes, mas com a mesma patologia em comum: a ciclo indiada. Mais uma hora parado. Comendo laranjas, que nosso Hermano nos ofereceu, e bebendo água. A paradinha foi muito divertida e útil, pois o sol não queria dar moleza para nós, e também por outro lado, já estávamos bem perto do nosso destino do dia, ou seja, não havia necessidade de torrar o lombo na estrada.

Após uma despedida longa e cheia de honrarias entre um grupo tão distinto e seleto de gente perturbada, tocamos em frente e logo entramos na Ruta 10, onde andando mais uns quarenta minutos chegamos em nosso destino. O Martins nos acompanhou até o centrinho de Valizas e de lá tocou para o Cabo Polônio. Fomos logo para o Camping Lucky Valizas, que eu já conhecia de outros tempos e virei fã pois tem uma atmosfera roots e é bem estruturado, sem contar a recepção simpática de sempre da Luciana e sua equipe. Recomendo.

Acampamento devidamente montado e de banho tomado, fui logo comprar algo gelado para beber com a janta, onde conversando, ficou decidido que ficaríamos um dia mais em Valizas, pois eu queria muito fazer a caminhada pelas dunas até o Cabo Polônio e também pelo fato do Ricardo estar precisando descansar um pouco mais. Juntamos o útil ao agradável.

“(…) Um farol ainda nada iria guiar enquanto não parar de girar não é leve o que realmente importa são os 12 segundos de escuridão.”


Jorge Drexler

O grande dia! Acordei junto com o sol e após um bom café, peguei a mochilinha de ataque, coloquei água e alguma coisa para beliscar, o chapéu na cabeça e toquei direto para a Barra de Valizas para pegar um bote e cruzar para o outro lado e começar a caminhada de cerca de 9 quilômetros até a vila do Farol do Cabo Polônio. Cheguei antes das 8 horas, a praia estava deserta e nenhum boteiro. Fiquei por ali, curtindo o visual e fazendo algumas fotos até que apareceu um barquinho e no leme o simpaticíssimo Sr. Nelson que antes mesmo de montar sua tenda se prontificou em me levar para o outro lado da barra. A travessia é bem curta, acho que uma distância de 150 metros no máximo, mas como o canal é profundo, ou atravessa de bote ou nadando.

O céu estava completamente azul e ventava fraco, na minha frente 9 quilômetros de dunas e praias desertas. Um ambiente minimalista e completamente selvagem. Algumas dunas chegam a ter quase 40 metros de altura. É um visual alucinante. A caminhada inicia com uma subida para o topo das dunas e de lá, basta seguir o caminho que achar melhor seguindo sempre para o sul. Depois de uma hora e pouco, já andando pela orla, avistei o imponente farol no horizonte e na medida em que me aproximava, podia identificar as casas da vila do Cabo Polônio, que fica dentro do Parque Nacional do Cabo Polônio. A vila é rústica, não existe rede elétrica, nem cercas separando as casas, nada de automóveis, para chegar ali, só de 4×4, cavalo ou na pernada. Um lugar apaixonante que conquistou meu coração.

Fui direto até a colônia de lobos-marinhos e no farol, mas para minha tristeza, a visitação ao farol estava fechada, apenas no período da tarde e eu não estava com planos de ficar tanto tempo ali, pois ainda tinha a volta toda pelo mesmo caminho. É apenas mais um motivo para querer voltar em breve para aquele pequeno e rústico paraíso.

Depois de circular na vila, conhecer um pouco das casas, hostels e pequenos restaurantes, apontei meu nariz para a praia e segui meu rumo, agora para o norte, voltando para Valizas com o sol já alto e forte. A volta foi bem cansativa, deu para fazer umas bolhas nos pés, mas nada de mais. Fui direto para o camping onde tratei de almoçar e ficar o resto do dia de bobeira e descansando.

Resumo do segundo e terceiro dia:

Distância percorrida de bike: 58 quilômetros

Distância percorrida caminhando: 19 quilômetros

Custo da diária camping: 250 pesos

Custo do barqueiro, ida e volta: 200 pesos

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Quarto dia: Valizas x La Paloma x Laguna de Rocha

Decididos em tentar sofrer menos com o sol, despertamos bastante cedo, ainda no escuro, sendo que o Ricardo, uma hora antes de mim. Ele queria arrancar ainda no escuro e aproveitar o máximo de tempo sem sol e sem o vento contrário que vinha nos fazendo companhia desde Punta Del Diablo. Como eu estava um pouco melhor condicionado, combinamos de nos encontrar pelo caminho.

Alcancei o Ricardo quase na entrada para La Paloma, como o sol já estava nervoso e o vento tinha sugado muito da nossa energia, resolvemos parar num dos muitos pontos de ônibus da Ruta 10 que são cobertos e tem bancos… que maravilha! É praticamente um Oasis para um ciclo viajante cansado.

Depois de hidratados e um pouco aliviado, tacamos o trecho que faltava até La Paloma. Chegando lá, “ na capa da gaita”, tratamos de procurar com urgência um lugar para comer e beber algo gelado. Encontramos uma padaria que servia alguns lanches e de cara fizemos nosso pedido acompanhado de duas cervejas de litro Patrícia… Aquilo foi quase um nirvana! Kkkk… Depois fomos comprar um chip de celular para mantermos contato com o povo no Brasil.

Mais um role pela cidade, dois litros de sorvete, para ajudar na hidratação enquanto o sol não dava uma baixada. Logo em seguida, tocamos para a Laguna de Rocha, um pedal de mais 15 quilômetros, chegando lá, pretendíamos fazer a travessia de barco antes do cair da noite, e assim, poder arrancar cedinho no dia seguinte.

Ao chegar na vila de pescadores da Laguna Negra, fomos direto perguntar onde morava o Sr. Pepe, que é um dos pescadores locais mas que também faz o serviços de travessias da barra especialmente para ciclo viajantes. Chegamos na casa do Sr. Pepe que é praticamente uma das últimas, antes da barra e logo ele apareceu. Enquanto conversávamos, ele recebeu uma ligação, um grupo de ciclistas argentinos, porém do outro lado da barra, que precisava cruzar. Tivemos muita sorte, pois bastaria mais uma meia-hora para perder a travessia ainda naquele dia, pois a tarde já estava caindo e até o barco voltar com os argentinos, já não teria mais sol. Sem perder tempo, carregamos as bikes para o barco e cruzamos a barra. Do outro lado, um grupo de 6 ciclistas esperavam para fazer o caminho oposto. Quando desembarcamos, foi uma rápida festa de uns 5 minutos entre nós e o grupo argentino. Mas como a tarde já estava indo embora, precisamos todos seguir nossos rumos.

Montamos as bikes e com o sol se pondo no horizonte, tratamos de pedalar rapidamente para sair logo da área de preservação do parque, pois é proibido acampar ali. Rodamos 5 kms aproximadamente, e já fora do parque, localizamos um trecho de praia deserto, que tinha uma estradinha de uns 700m até a beira do mar, tocamos para lá e já no escuro montamos acampamento na areia da praia, com um lindo visual, céu estrelado e ao norte no horizonte o brilho do farol de La Paloma. Jantamos e caímos dentro das barracas. Adormeci com os sons das ondas que para mim, são como música de ninar.

Resumo:

Distância percorrida: 81 kms

Custo do barco: 200 pesos por pessoa

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“Quando alinhamos o nosso coração com o tempo do mundo, a pressa desaparece e uma mágica acontece. Ao fazermos o que gostamos, seguindo a nossa vocação, as batidas do coração se harmonizam com o ritmo de todas as coisas, e por isso acontece algo inusitado: a vida passa a dar certo.” 

O Homem Livre – Danilo Perrotti

Quinto Dia: Acampamento selvagem em Rocha x Punta Del Este

Durante a noite o vento parou, e o único som era o das ondas. Fez um pouco de frio na madrugada e creio eu, essa soma de circunstancias fez desta noite, a melhor de todas até então. Acordei com o horizonte clareando, antes do sol aparecer na linha do mar. Um espetáculo na porta da minha barraca, que foi montada estrategicamente prevendo esse show logo cedo. “ com a praia bem deserta é que o sol pode nascer”, já cantava Raul Seixas… Maravilha!

Mas o tempo passa, o tempo voa e era necessário partir. Feito ritual do café e desmonte do circo, embarcamos para mais um dia de pedal. A temperatura estava agradável, começamos a pedalar pouco antes das 7 horas da manhã, aproveitando as condições favoráveis.

Neste trecho, a Ruta 10 não tem asfalto, é terra, porém em ótimas condições, momento perfeito para meus pneus 1.95 mostrarem todas as suas virtudes e justificarem o motivo de não usar um pneu slick. Depois de duas horas de pedal suave nos 25 quilômetros de poeirão, com o sol já promovendo aquele bronzeado napolitano, característico de ciclistas, chegamos na novíssima e bela Ponte Circular da Laguna Garzon. Logo que cruzamos a ponte, fomos direto para um Pequeno paradouro, tratar de comer algo, tomar muita coca cola gelada e descansar.

Depois desta parada de cerca de 45 minutos, resolvemos dos separar e nos reencontrar em Punta Del Este pois o Ricardo estava sentindo muito o efeito do calor e achou melhor pegar o ônibus que arranca dali onde estávamos. Meti o pé, ou melhor, as rodas novamente na Ruta 10, agora já com asfalto novamente e novamente o vento contra mostrava as suas armas…kkk… Neste momento lembrei-me da história do meu ídolo maior: “Qualquer um de nós ficaria chateadodesmotivado, mas não este homem! Não Joseph Climber!” Com essa mesma determinação e entusiasmo, fui indo contra o vento e derretendo no sol do meio dia. Depois de quase 3 horas, com algumas paradas para tomar água, sempre nos pequenos Oasis das paradas de ônibus, finalmente cheguei no Camping San Rafael, em Punta Del Este. Rapidamente montei minha barraca, coloquei todas as tralhas para dentro e tratei de ir buscar o Ricardo que não tinha a localização exata do camping e estava me aguardando em um ponto de ônibus.

Resumo:

Distância percorrida: 58 kms

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Este relato é dividido em 2 partes, para ver  mais acesse:

Ciclotour Punta del Este até Colonia del Sacramento parte 2

Ciclotour Uruguay: Punta del Este até Colonia del Sacramento, Parte 2

Ciclotour Punta del Este até Colonia del Sacramento parte 2

Sexto e sétimo dias: Punta Del Este x Piriápolis

Desta vez, ao contrário da minha última viagem ao Uruguay, tínhamos o tempo ao nosso favor, e como a ideia era curtir, resolvemos ficar por dois dias em Punta Del Este. Aproveitar para dar uns roles ostentação de bike no meio de todo o glamour e sofisticação da praia mais charmosa das terras do Hermano Mujica. E foi exatamente isso que eu fiz no sexto dia. Enquanto o Ricardo ficou aproveitando o camping,  peguei a magrela e fui direto dar um giro até o Puerto de Punta Del Este.

Seguindo sempre pelas Ramblas das praias Brava, El Emir e Playa de Los Ingleses. É um passeio com um visual completamente diferente do que a viagem apresentava até então.  Para quem gosta de barcos, e tem fetiches malucos por veleiros, como é o meu caso, o Puerto é um espetáculo de deixar qualquer criança alucinada. Dá vontade de bater de porta em porta, pedindo emprego embarcado em uma daquelas maravilhas e sair pelo mundo navegando ao sabor dos ventos… (Mutley acorda! Você está sonhado de novo!)

Na volta do passeio, fui tratar de fazer um almoço, já tarde. Depois já de barriguinha cheia, fiquei de papo com o Ricardo e foi nesta hora que chegou mais uma dupla de ciclistas no camping, Gutembergue e Chile, paulistas que estavam na estrada desde Rio Grande e tinham como destino final a cidade de Montevidéu. Ficamos em altos papos e risadas até anoitecer, e depois de um jantar regado a algumas cervejas Patricias de litro, fomos dormir pois no dia seguinte tínhamos que pegar a estrada novamente.

Mais uma vez o plano era sair bem cedo, sendo que o Ricardo saiu na escuridão, tocando por Maldonado para pegar a Ruta Interbalnearea, enquanto eu saí cerca de duas horas mais tarde, com a intenção de seguir pela orla de Punta Del Este, passando pela Playa Brava e Playa Mansa, sempre o mais próximo do mar, ainda que fosse o caminho mais longo pois acreditava que o visual iria retribuir esse esforço extra. E assim foi.

Depois de sair de Punta, já na Ruta Interbalnearia, observando no GPS, encontrei uma rota bem próxima ao mar e ao chegar no entroncamento com essa estrada, perguntei para um senhor que estava ali parado se a estrada era boa e tranquila e a resposta positiva me fez ir para lá direto, saindo da rodovia e seu movimento intenso. Bingo! Logo estava numa estradinha de terra, quase deserta e bem na orla do mar, cheia de subidinhas e decidas gostosas de fazer e com um visual que surpreendia em cada curva. Várias praias com um visual roots típico uruguaio. Fui seguindo sem muita pressa, escutando um som e fazendo algumas fotos. Acho que já de tão distraído com o caminho e acostumando com o sol e o vento contrário, quando percebi, já estava em Piriápolis e fui logo procurar o camping Piriápolis , onde o Ricardo já estava com o seu circo armado. Bebi um pouco de água e tratei de armar a minha tenda, largar minhas tralhas para dentro e só então almoçar e descansar. Acho que duas horas depois, apareceram os nossos camaradas paulistas e novamente fechamos uma roda divertida de papo, causos e risadas… Onde quer que junte um grupo de malucos desta natureza, é risada certa e diversão garantida.

Resumo:

Distância percorrida: 54 kms

Custo da diária camping: 250 pesos

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Oitavo Dia: Piriápolis x Parque Del Plata

Sábado dia 10, céu azul e tempo bom. Acordei bem disposto e ao mesmo tempo sem muita pressa de sair. O destino do dia não estava muito longe, cerca de 50 quilômetros apenas. Como nos dias anteriores, Ricardo e eu, escolhemos estratégias diferentes de chegar ao próximo destino. Optei pelo caminho mais longo, caçando sempre que possível a orla do mar. Mais uma vez o pedal era cheio de surpresas e a cada curva uma paisagem para contemplar.  Segui desta maneira por aproximadamente 15 quilômetros, e logo em seguida, fui obrigado a voltar para a bastante movimentada Ruta Interbalnearea, mas que ainda assim, oferece um belo acostamento que dá muita tranqüilidade e segurança para quem está pedalando. Fui seguindo devagar e sem nenhuma pressa, dando uma paradinha aqui, outra ali, para beber água, beliscar alguma coisa e pensar na vida, nessa coisa da existência humana. Geralmente enquanto pedalo, ou fico cantando um mantra (repetindo uma música mentalmente), ou filosofando sobre as coisas da minha vida, ou ainda, conversando com Deus.

Passando do meio-dia, avistei a ponte que antecede a entrada do Parque Del Plata, faltava localizar o camping que para minha surpresa, estava praticamente no pé da ponte, e ao cruzar, já consegui ver o Ricardo com sua Mini Pack discreta já montada. Saí da ruta e fui direto para o local onde o circo estava armado, bem embaixo da sombra de uma bela árvore. Montei meu acampamento, almocei e como de praxe, dei aquela “jiboiada” forte.

Como estava muito quente, não fizemos outra coisa que não fosse ficar naquela sombra na beira do belo Arroyo Solís Chico até o cair da noite. Falando em noite, essa foi a pior noite para mim, pois o camping fica bem próximo da Ruta Interbalnearia, e devido ao barulho do movimento de carros, não tive um bom sono.

Resumo:

Distância Percorrida: 49 kms

Custo da diária do camping: 250 pesos

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Nono dia: Parque Playa Del Plata x Montevidéu

Como não tinha jeito de dormir bem com o barulho dos carros na Ruta Interbalnearia, acabei levantando bem cedo, antes do sol, e depois de rever o briefing da missão do dia, junto com o Ricardo, que saiu antes de mim, seguindo pela Interbalnearia. Desmontei meu acampamento e também coloquei a bike na estrada, só que seguindo pelo caminho da orla. Era 6:30 da manhã de domingo,  olhando no GPS logo achei uma avenida na orla e para lá segui. Nada de vento contra, temperatura agradável, uma benção para quem tinha tido a pior noite de todas.

Fui pedalando tranquilamente, apreciando o visual da praia até que num dado momento acaba o balneário, e todos os caminhos apontam para a Ruta Interbalnearia que é muito movimentada mas como se tratava de um domingo cedo da manhã, estava bem tranquila. Neste trecho da Interbalnearia, passei por duas placas que proibiam o tráfego de bicicletas, mas como o GPS não mostrava outra alternativa, segui por ali mesmo, cerca de 9 quilômetros sem problemas. Acredito que num dia de semana e num horário de rush, pode acontecer de sofrer alguma abordagem policial, pois já se trata de uma via expressa. Assim que cruzei a ponte sobre o Arroyo Pando, o GPS já me dava algumas alternativas e sem pensar muito, saí da Interbalearia e caí novamente na direção da orla.

Depois de alguns minutos de pedal, localizei o início da Rambla Costanera, uma avenida de 15 quilômetros, já nas cercanias de Montevidéu. Na medida em que avançava rumo ao centro, já começava aparecer pessoas correndo, passeando com seus cachorros e muitos ciclistas. Era o sinal de que já estava dentro da metrópole. Fui curtindo o visual dominical, sempre pela orla e vendo no horizonte na minha frente, os grandes prédios do centro, onde fica a localização do hostel que combinei encontrar com o Ricardo.  Literalmente entrei em Montevidéu pelo cartão postal. Uma praia terminava e começava outra, pessoas na areia tomando mate, jogando bola e sentadas em cadeiras, curtindo um típico domingo de praia e sol. Não poderia ter escolhido dia melhor para chegar!

Seguindo em frente, parei no monumento que tem o nome de Montevidéu em letras gigantes, fiz aquela foto momento turista e tratei de localizar a rota para o Planet Hostel, que fica próximo. Chegando lá, pouco depois das 10 horas da manhã, encontrei o Ricardo que me aguardava e já tinha reservado um quarto para nós.  Depois que quase dez dias dormindo no chão, não seria ruim dormir numa cama. Levamos as tralhas e as bikes para dentro do hostel e fomos descansar um pouco para depois dar um passeio e comer algo.

Já com as baterias recarregadas, pegamos algumas informações no hostel sobre onde comer e a localização da rodoviária, onde pretendíamos passar para ver como estava a questão das passagens de volta para o Brasil.

Depois de fazer um lanche, fomos ver as passagens e ao chegar no guichê da TTL, para ver valores e saber como estava o movimento, fomos alertados pelo atendente que em função das festas de final de ano, poderíamos ter problemas se resolvêssemos comprar a passagem na hora. Diante desta informação, fizemos uma rápida reunião de cúpula onde mudamos um pouco o nossos planos. Resolvemos seguir de ônibus até Colonia Del Sacramento, pois o tempo já estava se esgotando e o caminho até lá não era dos mais atrativos, indo de ônibus, ganharíamos mais dois dias para curtir lá naquela que é a cidade mais antiga do Uruguay.

Tudo acertado, passagens para Colonia Del Sacramente e Porto Alegre compradas, demos mais uma volta pelo belo centro de Montevidéu e retornamos para o hostel para descansar e se preparar para no dia seguinte pegar o ônibus para Colonia.

Resumo:

Distância percorrida: 57 kms

Custo do quarto por pessoa: 600 pesos

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“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

 Mar Sem Fim – Amyr Klink

Três dias em Colonia

Segunda-feira, depois dez dias de estrada e mais de 400 quilômetros com muito calor e vento contrário, ainda que eu estivesse no meu íntimo com uma sensação de frustração por pegar o ônibus para Colonia, meu lado pragmático dizia que essa era a decisão correta. Ficar mais dois ou três dias apenas no asfalto com vento contra, chegar em Colonia e já ter que voltar não parecia nem de longe algo divertido e também não estava fazendo nenhum desafio.

Montamos as bikes e a carga, nos despedimos da simpática Andrea, a recepcionista colombiana e ciclista que fez com que nos sentíssemos em casa, fomos para o Terminal Três Cruces, onde embarcamos às 11 horas. Depois de pouco mais de 3 horas, chegamos a Colonia Del Sacramento! Coloquei a rota para o camping Los Nogales e seguimos direto para lá.

Depois de montar o circo, comer algo e descansar, peguei a bike sem carga e fui dar um giro até o centro histórico, fazer um reconhecimento. Fiquei de boca aberta com a beleza rústica e o astral da cidade. Foi amor à primeira vista! Mas quando estava no meio do role, veio um temporal de verão e tive que sair correndo, conseguindo chegar até o shopping, onde me abriguei da rápida tempestade. Aproveitei para pegar umas cervejas para o jantar e voltei para o camping.

No dia seguinte, saímos de manhã para dar outra volta. Rodamos pelo centro histórico e depois fomos a Rambla de Las Americas, que tem uma bela orla de praia, onde tem um lindo calçadão com  muita área verde, praia e tudo mais.

Retornamos ao centro, almoçamos e fomos de volta para o camping para dar um tempo e depois, como combinado, no fim de tarde, fazer nosso último passeio até o Puerto de Yates para curtir o pôr do sol, pois no dia seguinte deveríamos voltar para Montevidéu e tomar o ônibus de volta para as terras brasileiras.

Último dia. Um rápido café e logo na seqüência, começamos a guardar as coisas e seguir para a rodoviária, embarcando para Montevideu de onde viajaríamos durante a noite toda para Porto Alegre.

Ao chegar em Porto Alegre, acompanhei o Ricardo até o hotel onde ele aguardaria o seu voo para Curitiba. Depois de uma rápida despedida do amigo, voltei pedalando para em casa.

Foram dias incríveis que deixaram uma certeza: em breve voltaremos!

 

Resumo:

Custos de camping: 260 pesos por dia

Ônibus Colonia x Montevideu: 700 pesos (ida e volta)

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Observações, dicas e truques:

–  O gasto médio diário com alimentação, ficou na casa dos 300 pesos, sendo que em mais de 80% das vezes, fizemos nossas refeições nos acampamentos.

–  Poderíamos ter feio pelo menos dois acampamentos selvagens: em Playa Del Plata e na Laguna Negra.

– Trocar moeda não é problema, em quase todos os lugares é aceito dólar e Real, é preciso apenas estar atento ao câmbio para não sair perdendo. No nosso caso, compramos pesos no Chuy.

– O transporte das bicicletas nos ônibus no Uruguay é bastante tranqüilo, só aqui no Brasil que para evitar dor de cabeça, fizemos uso dos malabikes.

– Para chegar em Montevidéu de boa, é recomendável escolher um domingo para não passar perrengue na via expressa.

– Os motoristas uruguaios são extremamente cuidadosos e cordiais, e quanto as estradas, tanto de asfalto como de terra, estão sempre em ótimas condições. Rodamos 420 quilômetros sem estres. O Uruguay é um paraíso para ciclo turismo.

Duvidas?

Entre em contato que terei o maior prazer em esclarecer.

Realização:

Trupe Adventure Suricatos Hiperativos

“Nossa zona de conforto é selvagem”

Este relato é dividido em 2 partes, para ver  mais acesse:

Ciclotour Punta del Este até Colonia del Sacramento parte 1