Vivência Outdoor – 3ª edição – Floripa.

No último feriadão do Dia das Crianças, 12, 13 e 14 de outubro, tive o privilégio de participar do Vivência Outdoor e vou contar aqui, tudo que aconteceu nessa terceira edição  que rolou em Florianópolis. Foi sem dúvidas um grande encontro dos amantes e entusiastas das práticas de atividades outdoor e esportes de aventura.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

Ano após ano, o Vivência Outdoor vem crescendo e se consolidando no calendário nacional de eventos relacionados aos esportes de aventura e atividades outdoor. Sempre com uma programação rica e diversificada, atrai cada vez mais gente que pensa e transpira aventura, quer seja como atividades de trabalho, lazer e/ou esportiva. O evento em si, é uma oportunidade ímpar de adquirir e ampliar conhecimento sobre diversas práticas, escutar histórias de grandes aventuras, descobrir novos roteiros e o mais importante: fazer novas amizades e multiplicar a rede de contatos com pessoas que encaram com seriedade e entusiasmo o cenário outdoor nacional.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

Nesta terceira edição, a programação cheia e diversificada foi realmente muito interessante e divertida. Foram mais de uma dezena de atividades entre palestras, relatos, oficinas e uma sessão exclusiva de cinema outdoor sensacional. Entre uma coisa e outra, aquela pausa estratégica para um café e um bate papo com os participantes, sempre num clima descontraído. Em outras palavras, foi uma overdose, no bom sentido, de informação, conhecimento e diversão para aqueles que amam o universo das atividades outdoor.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

Entre todas as atividades, que sem exceção foram muito boas, gostaria de destacar aquelas que eu mais gostei:

 – Caminho a Dois, mais de 4.000 km trilhados pela Pacific Crest Trail – Por: Bia Carvalho e Edinho Ramo.

– Caminho da Mata Atlântica, trilha de longo curso no Brasil – Por: Ivo Leonardo Schmitz

– Navegação Outdoor com GPS: Do Básico ao Avançado – Por: Renan Cavichi e Mario Nery

– Higiene Outdoor de Mínimo Impacto – Por: Ana Vivian e André Costa (Pedarilhos)

– Sete Cumes: Denali, o desafio no Alasca – Por: Hélio Fenrich

E não parou por aí, não. Toda a logística destes três dias de imersão foi muito boa. Para repor as energias e as calorias da galera, um excelente bufê com todas as refeições foi preparado com todo cuidado e muito bem organizado, com direito a uma noite de rodízio de pizzas e uma noite das massas. Chopp e cerveja artesanal também não faltaram para os paladares mais exigentes.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

E como não poderia deixar de ser, para garantir o descanso da tribo outdoor reunida, uma aldeia de barracas NTK foi organizada no campo de futebol da Fazenda Três Meninas com o apoio logístico da Nautika.

Vivência Outdoor
foto: @luangesteira

Para fechar essa publicação, o Trekking RS teve um rápido bate papo com Luiza Campello, que é a mãe da criança, para saber mais sobre o passado, presente e o futuro do Vivência Outdoor.

Confira aqui, nosso bate papo com a Luiza:

O que é o VO?

O Vivência Outdoor é, sobretudo um encontro de pessoas que tem uma mesma paixão, a vida ao ar livre! É um evento onde essas pessoas podem se encontrar e trocar experiências, conhecimentos e fazer novas amizades. Essa é a essência do Vivência Outdoor.

Como surgiu a ideia, qual a motivação para criar o VO?

A ideia do Vivência Outdoor surgiu da necessidade de encontrar as pessoas ao vivo, para trocar informações e conhecimento. Como blogueira do FuiAcampar muitas vezes eu me sentia distante do público que lia os conhecimentos. Eu queria conhecer e falar com as pessoas ao vivo, não só no mundo virtual. E conversando com outros blogueiros da RBO (Rede de Blogs Outdoor) percebi que eles também tinham essa vontade, de estarmos todos ao vivo, juntos e compartilhando experiências olho-no-olho. Foi assim que surgiu a primeira edição do vivência, em 2016, em socorro. O evento foi mais amador, mas a mágica que aconteceu desses encontros foi tão incrível que tivemos que repetir para proporcionar isso para mais pessoas!

Qual o principal propósito do VO?

Acho que respondi essa pergunta na primeira! O propósito é permitir a troca de conhecimentos de experiências, mas, além disso, queremos fomentar o segmento outdoor no Brasil, inspirar as pessoas, dar conhecimento, criar aventureiros mais conscientes e responsáveis pelo seu planejamento e pelas suas ações.

Desde o primeiro VO, o que mudou?

A ideia central é a mesma, não mudou em nada! O que mudou foi uma evolução na execução de cada detalhe! Aprendemos sempre com os erros e procuramos melhorar em cada detalhe, alimentação, horários, crachá, sorteios…tudo foi surgindo e evoluindo baseado nas avaliações dos participantes. Levamos tudo em consideração, porque um evento com uma organização melhor facilita a harmonia e a energia positiva do evento. Outra coisa que vai mudar para a próxima edição é o propósito de ser itinerante, cada ano em um estado diferente.Queríamos fazer itinerante para proporcionar pessoas de outros estados mais distantes terem acesso mais fácil ao evento, mas percebemos que não houve mobilização que justificasse essa mudança de local, atingimos um público local muito restrito, acreditamos que no próximo ano voltaremos para o estado de São Paulo onde o evento é mais valorizado.

Infelizmente o evento não deve mais ir até as pessoas mais distantes, quem estiver mais longe, vai ter que se mobilizar para ir até o evento. Não queríamos que fosse assim, mas foi mais um aprendizado que tivemos e precisamos tomar essa decisão para facilitar a logística para a organização e para a maioria do público interessado. Até cogitamos sair da região sudeste no futuro (talvez), mas o evento precisa estar bem mais maduro daí.

E quanto ao futuro, quais são os sonhos e projeções para os próximos VO?

A ideia do evento a princípio é se manter nessa mesma linha, promovendo encontros entre pessoas, inspirações para a vida, para as aventuras e conhecimento técnico.

Queremos evoluir sempre nos mínimos detalhes para a energia do evento fluir naturalmente e conectar as pessoas. É só isso…

Se todos que saírem do Vivência Outdoor estiverem se sentindo melhores, mais felizes, mais inspirados e conscientes de suas ações, cumprimos nossa missão! 🙂

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Se você leu tudo até aqui e quer saber mais sobre o Vivência Outdoor, a programação completa desde ano, anos anteriores e se inscrever para saber quando será o próximo, não perca tempo e clique aqui!

Pico Paraná

O Pico Paraná, localizado no município de Antonina, pertencente ao conjunto de serra chamado Ibitiraquire, que na língua tupi significa “serra verde”. Imponente e desafiador, destaca-se do alto dos seus 1.877 metros de altura, como a montanha mais alta da Região Sul do Brasil. É assim, um convite irresistível à aventura para todos que curtem montanhismo.

trekking Pico Paraná
O gigante

Já fazia um bom tempo em que o PP (Pico Paraná) era mencionado nas conversar casuais da trupe, como uma trilha indispensável para o nosso álbum de recordações, sendo que ao menos duas vezes no ano passado, tentamos organizar a missão e em ambas, as previsões climáticas fazia com que fossemos obrigados a cancelar a missão quase encima da hora.

Só agora, em 2018, após uma conversa com meus  brothers de perrengues, Bruno e Filipe, decidimos novamente escolher uma data para subir o Pico Paraná.  Com o cuidado de não pegar um final de semana,  nosso plano era ter a trilha o mais vazia de gente possível, para assim termos uma experiência mais intensa com a montanha. Foi então que Filipe comentou que no dia 23 de março, uma sexta-feira, seria feriado por conta do aniversário de Floripa. De pronto batemos o martelo e definimos que nossa investida ao Pico Paraná iniciaria na sexta-feira, dia 23 e terminaria no sábado, dia 24, evitando assim, o movimento intenso que é normal na trilha durante os finais de semana.  Plano perfeito!  Bastava apenas monitorar o clima na montanha para termos o sinal verde.

Quinta-feira, dia 22, previsão de tempo firme para a sexta e alguma chuva fraca no fim de tarde de sábado, era este o nosso sinal verde. Tratei de jogar os equipamentos todos na cargueira e com uma carona providencial de uma amiga, rumei para pernoitar na casa do Filipe em Floripa, de onde, às 05 h 30 min da madruga,  a trupe pegaria estrada rumo ao Pico Paraná, distante aproximadamente 350 km para serem percorridos em pouco mais de 4 horas de viagem.

Primeiro dia:

Conforme programado, antes do sol nascer, já estávamos na estrada, levando café na térmica para evitar o sono e também aquelas paradas desnecessárias que sempre consomem tempo, pois todos estavam cientes que precisávamos estar no cume ou perto dele antes do sol ir embora.  Com muita conversa e risadas, quase nem vimos o tempo passar e com tranquilidade, antes das 10 h da manhã, já nos encontrávamos dentro da Fazenda Pico Paraná, ponto zero de nossa pequena aventura.

A previsão de tempo para completar a trilha até o acampamento A2, carregando cargueiras, fica por volta de 6 horas de pernada morro acima, e para chegar ao cume é necessário mais uma hora.

A trilha, já de inicio, começa numa subida boa para aquecer as panturrilhas, o que dava uma pista que ali não era o “Beto Carrero”… kkk No começo, o que se vê é uma trilha normal, bem aberta e sem obstáculos, mas na medida em que fomos subindo, aos poucos começam a aparecer degraus de pedras e raízes de tamanhos variados. Gradativamente os obstáculos se multiplicam e se tornam cada vez maiores. Uma diversão para quem está bem preparado e, obviamente, um perrengue para quem não está.  Já fizeram le parkour com uma cargueira nas costas?

trekking Pico Paraná
Trecho de trilha fechada.

A trilha segue sempre bem marcada e com bastante sinalização de fitas brancas, com pouquíssimos pontos que exijam maior atenção ä navegação. De qualquer maneira, é sempre recomendável ir com alguém que tenha experiência e/ou conheça bem a região.

Água não é um problema, com um bom estudo de relatos da trilha, e uma programação simples, chega-se ao topo sem a preocupação de ficar com o bico seco.

Nosso plano inicial era subir direto, alcançar o cume e acampar por lá se o tempo estivesse firme e antes do escurecer. No entanto, a turma sentiu o desgaste causado pela noite de sono curta, as horas de estrada, e somado a estas coisas, a subida forte… Após os paredões que possuem grampos e cordas, já bem próximos do acampamento A2, Filipe começou a sentir câimbras fortes nas pernas. Com isso, diminuímos um pouco o ritmo e ao chegamos no A2, Filipe, já bem cansando e sentindo  câimbras, informou que ali era o fim da linha para ele neste primeiro dia. Numa conversa rápida, definimos montar o acampamento ali mesmo, no esquema “ninguém fica para trás”. Ainda durante a conversa, eu e Bruno, inicialmente, estávamos decididos a continuar a trilha num ataque até o cume, pois eram apenas 17 horas, aproximadamente, e o sol só iria embora lá pelas 18h20min. Daria tempo de subir, assistir ao pôr do sol e descer no escuro até o acampamento. Mas se assim fosse, o Filipe ficaria de fora, então mudamos o plano e decidimos acordar na madrugada do dia seguinte e fazer o ataque ao cume ainda no escuro para pegar o sol nascendo lá no alto.

Colocamos em prática o nosso plano B. Com tranquilidade tratamos de escolher um lugar bom para montar o acampamento, e enquanto a turma armava as barracas, fui buscar água para preparamos o jantar, na única e última nascente, que fica numa pequena trilha de uns 80 metros (bem chatinha), ao lado das ruínas da casa de pedra.

trekking Pico Paraná
Acampamento A2

O clima estava perfeito, embora abaixo de nós, o que se via era um enorme mar de nuvens cobrindo tudo, deixando visíveis, apenas os demais picos próximos. Nada de vento.

Fizemos nosso jantar, jogamos conversa fora, e sem muita enrolação, nos entocamos dentro das barracas para descansar os esqueletos castigados pela subida e colocar o sono em dia.

Durante a madrugada, que não foi fria, lembro que acordei com duas pancadas leves de chuva, que me fizeram lembra que a previsão para o dia seguinte era de chuva na tarde… Fiquei um pouco preocupado com a possibilidade de o clima estar mudando antes das previsões, mas não perdi o sono não… Kkkk Voltei dormir rapidinho.

Dados do primeiro dia:

Distância percorrida: 7,6 kms

Tempo na trilha: 7 horas

Acúmulo de subida: 1011m

Acúmulo de descida: 348m

Altimetria Pico Paraná

 

Segundo dia:

Cinco e meia da madrugada, toca o despertador e de pronto, tratei de me mexer. Abri a porta da barraca para dar uma olhada no céu e vi estrelas. Era um bom sinal, depois da chuva que rolou durante a noite.

Chamei a turma e apenas o Bruno se prontificou em fazer o ataque até o pico. Vesti meu anorak, bebi um pouco de água, coloquei uma maçã na boca, a headlamp na cabeça e, junto com o Bruno, começamos a trilha. Ainda que visualmente, o pico estivesse bem próximo, leva por volta de uma hora para alcançar o cume. Com a primeira claridade no horizonte rompendo a escuridão da madrugada, tocamos morro acima.  A trilha estava bem molhada, e como o trecho inicial é repleto de mato alto, inevitavelmente acabamos tão molhados que parecia que tínhamos tomado uma chuva na tampa… kkk

trekking Pico Paraná

trekking Pico Paraná

Após uma hora de subida com vários obstáculos, e também como não poderiam faltar, algumas escalaminhadas, o sol nos dava boas-vindas no cume do Pico Paraná. Olhando em 360 graus, não havia nada acima de nós além do sol e o céu azul. Abaixo, os picos próximos se destacavam parcialmente dentro de um mar branco de nuvens baixas. Nosso acampamento, um tanto distante, era apenas um pequeno ponto cor de laranja no meio do verde, bem abaixo de onde nos encontrávamos. Um visual alucinante!

trekking Pico Paraná
No ponto mais alto do sul do Brasil: Pico Paraná.

trekking Pico Paraná

Depois de curtir aquele momento mágico e registrar a passagem da trupe no livro de cume, começamos a descida até o acampamento para tomar café e desmontar o circo.

Não demorou muito e os primeiros trilheiros, passarem por nosso acampamento, munidos apenas de mochila de ataque, rumo ao cume.

Quando chegamos ao acampamento, Filipe nos aguardava com um fabuloso café da manhã… #sqn Diante desta falta lamentável, tratamos de fazer o café da manhã reforçado para recarregar as calorias, e assim, de barriguinha cheia, começar a longa descida até a Fazenda Pico Paraná.

Assim que terminamos de desmontar o acampamento e carregar as cargueiras, lembrei do momento em que, ainda em casa, deixei meu par de bastões de caminhada, por preguiça e crendo não serem necessários… Ainda bem que arrependimento não mata. Não é verdade?

Trekking Pico Paraná
Trupe Suricatos Hiperativos

Divagações e murmurações à parte, começamos nossa descida pouco depois das 10 horas da manhã, com sol e temperatura amena. Sem pressa, para poder aproveitar o visual e também tendo o cuidado que certos trechos da descida, seguíamos bem, anda que a descida, a meu ver, é sempre mais difícil que a subida.

Depois que descemos os dois lances de paredões com vias ferratas, começaram a aparecer grupos de trilheiros com suas cargueiras rumo ao alto da montanha.  Enquanto cruzávamos com a turma em sentido contrário, comentei com Bruno e Filipe, o quanto fomos felizes em ter feito a escolha da data da forma como se deu. Afinal, tudo indicava que o A2 e possivelmente o cume, ficariam lotados de barracas naquela noite de sábado. Certamente mais de vinte pessoas, em grupos diferentes.

A descida seguia tranquila e devagar no eterno superar de subir e descer pedras, raízes e troncos, até que num dos pontos de água, num pequeno córrego que cruza a trilha, algo aconteceu…

Como cheguei na frente da turma ao ponto de água, sentei num tronco com o córrego bem aos meus pés, para assim descansar um pouco, beber água tranquilamente e curtir a vibe daquele lugar bonito. Eu nem tinha terminado de tomar a primeira caneca de água, quando Filipe, se aproximou de mim para pegar água e arrumar um lugar para sentar, escorrega na laje molhada e caindo sem controle, bate forte com um dos braços na minha cabeça. Nada demais, uma pancada apenas, não fosse pelo fato de eu estar com os óculos na cabeça. A pancada forte fez com que a armação dos óculos fizesse um corte razoável em minha “linda careca” e rolasse uma sangueira no mesmo instante.  Uma pequena correria para avaliar o tamanho do corte e fazer um curativo para proteger o ferimento e tudo voltava a normalidade do que estava acontecendo até então. São bons esses óculos da Julbo não quebram e se precisar improvisar um canivete, pode contar com eles… kkk

Trekking Pico Paraná
Acidentes acontecem.

Após andar mais uma hora e pouco, a trilha começou a abrir, mostrando que já estávamos próximo do fim. Com sol forte na tampa, já cansados da descida de cinco horas, o trecho final parecia infinito, mas logo apareceu no visual a Fazenda e nos reanimamos para descer mais rápido.

Ao chegar à fazenda, tratamos rapidamente de tirar as botas e meias, e ficar descalços naquele gramado impecável.

Alguns rápidos minutos de relax na grama, organizamos a fila do banho e encomendamos alguns pastéis, que por sinal são muito bons, para fazer uma rápida confraternização, dar algumas risadas das coisas que aconteceram e por fim, pegar a estrada de volta para casa.

Trekking Pico Paraná
“A felicidade só é real quando compartilhada” by Alex Supertramp.

Dados do segundo dia:

Tempo na trilha (ataque cume): 1 hora, 12 minutos

Acúmulo de subida: 269 m

Acúmulo de descida: 25 m

Tempo total (ataque cume e descida até Fazenda PP): 9 horas, 44 minutos

Distância total percorrida: 8,9 kms

Acúmulo de subida: 599m

Acúmulo de descida: 1253m

Altimetria Pico Paraná

Dicas e recomendações:

– Fazenda Pico Paraná:

Gostamos e recomendamos, apesar de ter apenas um banheiro, o lugar é bastante bonito, bem cuidado e seguro para deixar o carro.

A dica aqui é deixar uma muda de roupa limpa, toalha e demais equipos de banho no carro, para na volta da montanha, resolver a questão da higiene pessoal e voltar para casa bonitos e cheirosos. 😉

A fazenda possui uma pequena cantina que serve deliciosos pasteis com refri e cerveja bem gelada.

Custo da entrada na fazenda em março de 2018: R$10,00

Mais informações: acesse aqui.

– Levar bastões de caminhada! Kkkk

– Faça uma boa previsão do tempo antes de subir para o PP, pois se pegar chuva lá no alto, a descida pode se tornar bastante perigosa.

O pôr do sol visto do Pico Paraná

Praia do Cassino

A Praia do Cassino, considerada a maior do mundo em extensão, é um convite à aventura, para todos que possuem o ímpeto de colocar seus limites psicológicos e físicos à prova em um dos lugares mais inóspitos e isolados do litoral brasileiro.

Minha história com essa travessia da Praia do Cassino começou em 2015, quando após muito meditar para encontrar alguma travessia desafiadora e selvagem, me deparei com a Praia do Cassino. De lá para cá, durante pelo menos umas 3 ou 4 vezes, tentei colocar o meu plano em prática, não fazendo o tradicional trekking de 7 ou 8 dias, como é de praxe para a galera trilheira, mas em 4 dias de pedal auto-suficiente. Porém, sempre que separava uma data e me organizava para executar a travessia, os indicativos climáticos me diziam não, fosse por conta do vento ou da chuva. A coisa não andava. Não sei se é só comigo que acontece, mas às vezes, tem coisas que quanto mais quero fazer, as circunstâncias tanto mais me dizem que não! Eu realmente já estava meio injuriado com a situação de ter abortado ao menos três vezes ao longo de dois anos, e por conta disto, tinha definido que neste verão (2018-2019), eu faria a travessia com qualquer condição de clima, sozinho ou acompanhado, pois a coisa já estava virando uma lenda que assombrava meus pensamentos… kkkk

Praia do Cassino
“Eu sempre amei o deserto. A gente senta numa duna de areia. Não se vê nada. Não se sente nada. E no silêncio alguma coisa irradia.” O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

Como é de costume, organizei o roteiro, a logística necessária e após, lancei nas redes sociais um dos meus famosos “editais hiperativos” (cuidado se ler algum por aí, geralmente é convidando para entrar em alguma roubada). Não demorou muito, e logo arrumei a parceira do Marcelo e da Bruna que toparam, por conta e risco, a travessia de bike. Estava assim formada a trupe para o desafio.

O plano, como disse anteriormente, era percorrer toda a extensão da Praia do Cassino em quatro dias, iniciando a travessia nos molhes de Rio Grande, seguir no primeiro dia até o Farol Sarita, no segundo dia alcançar o Farol Albardão, no terceiro dia atravessar o Concheiro pernoitando no hotel abandonado e por fim, no quarto dia, chegar ao final da jornada nos molhes da barra do Chuí. Dividindo assim, os mais de 230 kms em quatro pernas para não ficar tão pesada a pedalada, mas como mostrarei a seguir, quase nada aconteceu como planejado.

O Primeiro Dia na Praia do Cassino:

Depois de viajar praticamente a noite toda, pois embarcamos na Rodoviária de Porto Alegre às 2:00 horas da madrugada, chegamos por volta das 7 horas da manhã na Rodoviária de Rio Grande.

Tão logo desembarcamos,  tratamos de iniciar a montagem das bikes e dos alforjes com todo equipamento, para poder então, tomar o rumo dos molhes de Rio Grande, o nosso ponto de partida. Ainda no caminho pra os molhes, fizemos uma rápida parada numa padaria para tomar um café para acordar de verdade antes de encarar o desafio.

Por volta das 9:30 horas, com o sol já querendo mostrar suas garras, e após um rápido passeio nos mais de 4 kms dos molhes de Rio Grande, colocamos as magrelas na areia e começamos nosso pedal do dia.

Praia do Cassino
Molhes de Rio Grande/RS – Brasil

Na medida em que pedalávamos para o sul, começamos a nos aproximar do Balneário Cassino, que no dia 3 de janeiro, com tempo bom, estava lotado de gente e carros na areia. Foi bastante chato e complicado sair daquele mar de gente, pois a areia estava solta, e não conseguimos dar um ritmo adequado já nos primeiros 15 kms. Mas na medida em que pedalávamos sob o olhar curioso dos banhistas, aos poucos a multidão foi ficando para trás, a quantidade de carros diminuindo e o sol subindo com força.

Embora o vento estivesse ao nosso favor, a areia da Praia do Cassino não estava muito convidativa para pedalar com as bikes carregadas, todavia não tínhamos outra escolha, era seguir em frente rumo ao sul, ainda que isso exigisse um esforço extra, que de certa forma, já era previsto.

Por volta do meio-dia, com o sol realmente muito forte, chegamos ao naufrágio do Navio Altair. Sem nenhuma sombra, e depois de uma noite quase sem dormir, o cansaço começou a dar as caras na turma e, enquanto bebíamos água, decidimos mudar o plano original, desistimos de chegar ao Farol Sarita. A ideia agora era procurar um local com alguma sombra para poder montar o nosso acampamento, almoçar, esfriar a cabeça do sol e descansar. Dos 65 kms, aproximados que deveríamos percorrer, rodamos apenas 28 kms, e no momento em que avistamos um pequeno bosque de pinheiros junto a um rancho de pesca, resolvemos ficar ali. Após pedirmos autorização para o dono do local, tratamos de montar nosso circo e relaxar, com direito a um bom banho de água doce numa pequena lagoa junto ao rancho de pesca. Foi um alivio e tanto.

A Praia do Cassino nos dava boas-vindas com muito sol, calor, vento empurrando e areia pesada.

Praia do Cassino
Navio Altair

Depois de jantar, fizemos mais uma reunião de cúpula onde ficou decidido que no segundo dia, levantaríamos antes do sol para poder render o máximo enquanto não estivesse tão quente, pois teríamos que compensar os quilômetros que faltaram do primeiro dia e chegar de qualquer maneira ao final do dia, no Farol Albardão, onde existe uma base permanente da Marinha do Brasil, na esperança de conseguir um pouso e nos reabastecer de água potável.

Praia do Cassino
Acampamento no rancho de pesca

Dados do dia:

Início do pedal: 9:30 horas

Final do pedal: 15:30 horas

Distância computada: 28 kms

Segundo Dia na Praia do Cassino:

Ainda escuro, o despertador tocou e de imediato, após uma boa noite de sono, tratamos de tomar um café da manhã bem reforçado, desmontar o acampamento e aproveitar a condição de vento N/NE que nos dava uma força.

Começamos a pedalar com um visual alucinante do sol nascendo na linha do mar. O astral da trupe estava muito bom, seguíamos pedalando na direção da imensidão que parecia não ter fim com a Praia do Cassino praticamente deserta, apenas jeepeiros  e caminhonetes 4×4 com pescadores, vez ou outra, quebravam a nossa solidão naquele deserto à beira mar.

Nosso ritmo inicialmente estava bom, e antes das nove horas da manhã, avistamos o Farol Sarita. Feita uma rápida parada para fotos e tomar um fôlego, seguimos em frente, com o sol começando a nos castigar e tendo que ter o cuidado de controlar o consumo de água que já estava começando preocupar.

Praia do Cassino
Refrescando o corpo durante uma das muitas paradas.

Seguindo em frente, sofrendo muito com a areia pesada e o calor, dando pequenas paradas a cada 50 minutos mais ou menos.  Por volta das 11:30, paramos num arroio para nos refrescar pois o calor estava muito forte. Meus lábios começaram a rachar por conta do sal e do sol, e a sede era infinita. Com pouco mais de duas horas e meia de pedal, avistamos no horizonte a estrutura do Farol Verga, desativado a algum tempo… com o sol nos torrando inclemente, a sede e a fome batendo, decidimos parar no Verga, e aproveitar a pequena sombra que ele fazia para descansar, comer algo, se reidratar com a pouca água que nos restava e por fim, esperar o sol dar uma baixada para só então retomar o pedal.

Ficamos cerca de 3 horas parados, onde deu para dar uma cochilada na modesta sombra do Verga e comer algo para reabastecer de energia para dar a tocada final. Faltavam ainda 30 kms aproximadamente para chegarmos no Albardão.

Praia do Cassino
Farol Verga

Com o cair da tarde e o sol mais ameno, seguimos em frente, na fé e na determinação de chegar no Albardão antes do pôr do sol, embora tivéssemos combinado que o importante era chegar lá, independente da hora que fosse, mesmo que para tanto, tivéssemos que pedalar na escuridão da noite.

Com pouco mais de uma hora, avistamos a estrutura imponente do Albardão no horizonte, ainda distante cerca de 10 kms. Avistar o farol nos renovou o ânimo, apesar do cansaço e da sede e, com mais uma hora pedalando, para nossa alegria, chegamos ao destino junto com o sol indo embora.

Fomos muito bem recebidos pelo sargento Moreno, que gentilmente, nos acolheu disponibilizando as instalações da cozinha, banheiro com ducha e um quarto para nossa trupe, ou seja, um verdadeiro Oasis no deserto para viajantes cansados e castigados pela dura jornada de mais de 12 horas de pedalada.

Praia do Cassino
Farol Albardão

Dados do dia:

Início do pedal: 6:45 horas

Final do pedal: 21:00 horas

Distância computada: 107 kms

Terceiro Dia na Praia do Cassino:

Era sabido por todos que este seria o dia mais difícil, pois deveríamos atravessar o famoso e temido Concheiro, que nada mais é do que um imenso trecho de praia onde a areia mistura-se com restos de conchas, formando assim, um terreno fofo e de difícil locomoção que pode variar entre 15 e 50 kms, dependendo das ações da maré e do vento que alteram o terreno.

Assim sendo, fizemos uso da mesma estratégia do dia anterior: acordar antes do sol, tomar um bom café da manhã e começar a pedalar antes do sol nascer. Além disto, ficou decidido que tentaríamos completar a travessia neste mesmo dia, sem parar no hotel abandonado para acampar pois, os indicativos climáticos apontavam que para o dia seguinte, entraria uma frente de vento Sul, e certamente isso seria um grande problema.

Por volta das 6:30 horas, com o dia amanhecendo e nos presenteando com um espetáculo de cores, e antes do sol começar a querer fazer churrasco da gente, começamos nossa jornada.

Praia do Cassino
Sol nascendo, um espetáculo diário.

Inicialmente conseguimos evoluir bem, mais uma vez com o vento favorável, mas após 20 kms a coisa começou a ficar bem complicada: O Concheiro apresentava suas armas.

Pedalar no Concheiro é algo muito complicado e desgastante. O esforço físico beirava o extremo. É uma sensação de se estar subindo uma montanha o tempo todo.

Na medida em que pedalávamos e que o tempo passava, com a temperatura aumentando e o cansaço acumulado dos dias anteriores se fazendo sentir de uma maneira absurda, não conseguíamos manter uma velocidade média normal para cicloturismo. Estávamos rodando com pouco mais de 8 kms/h, ou seja,  o dia se desenhava como uma verdadeira tortura.

A dificuldade extrema de pedalar nestas condições, fez com que aumentasse muito nosso consumo de água, e isto logo se tornou um problema que só não foi maior, por conta de estarmos na temporada de veraneio, e após rodar mais de 30 quilômetros, começamos a encontrar pescadores que na maioria das vezes nos davam água gelada para beber.

Avançávamos lentos e de certa forma, desanimados, pois o trecho do Concheiro, ao que pudemos observar, passava facilmente de 40 quilômetros, ou seja, muito mais do que os 15 ou 20 quilômetros que pretendíamos inocentemente encontrar.

Numa destas paradas para pedir água, já exaustos de tanto pedalar lentos e empurrar as bicicletas, encontramos a família da Rosana que estava ali pescando e curtindo a praia deserta. Pedimos água e começamos a conversar com a turma, explicando de onde estávamos vindo e onde deveríamos chegar… papo vem, papo vai, lá pelas tantas, fomos presenteados com a melhor coca-cola das nossas vidas, e não só isso, servida em taças! Não tive dúvida nenhuma, aquilo ali era um milagre! Imagine você, no deserto, já sem água, debaixo de um sol fortíssimo, e de repente, aparecem anjos com a coca-cola mais gelada e deliciosa que você já bebeu na sua vida… É ou não um pequeno milagre? Ficamos extremamente emocionados e agradecidos com aquele gesto da Rosana e sua família.

Praia do Cassino
A coca-cola do deserto.

Após uma despedida emocionada dos nossos anjos do deserto, seguimos em frente, ligeiramente renovados pela coca e pelo milagre.

Num misto de sobe e desce da bike, empurra e pedala, fomos seguindo lentos e cansados, sem conseguir melhorar a velocidade média. Eu fazia as contas nas minha cabeça, e vendo que faltavam apenas 40 quilômetros, distância facilmente superável em condições normais, mas ali, naquele terreno, demoraria pelo menos 6 ou 7 horas… duríssimo conduzir uma bike carregada naquelas condições. Com certeza, esse foi o momento mais difícil para todos na Praia do Cassino. Mais se empurrava  do que pedalava, mas mesmo assim, seguíamos em frente pois não existia um plano B naquela situação.

Depois de horas, de sofrimento, começamos a ver as primeiras casas e ranchos de pesca nas proximidades do Balneário Hermenegildo, e após conversar com a Bruna, decidimos que na primeira sombra que aparecesse, iríamos parar para descansar e esfriar o corpo, pois nossa moral e nossa dignidade tinham sumido…kkkk Creio que faltando uns 15 quilômetros para chegarmos no Hermenegildo, encontrei um casebre junto de uma duna que fazia uma pequena sombra. Sinalizei para a Bruna e tratamos de fugir do sol, já deveriam ser por volta das 16 horas. Ficamos prostrados ali, bebendo a pouca água e comendo balas de banana, na esperança de reunir energias para tocar em frente. Neste momento, fomos novamente ajudados, desta vez, por outro ciclista que estava fazendo o pedal na praia, mas sem carga e com sua esposa no carro de apoio. Infelizmente esqueci o nome deles, mas o fato é que ofereceram uma carona para nossos alforjes e nos deram frutas para comer! Assim, com essa força, conseguimos seguir em frente e alcançar, finalmente o Hermenegildo, onde tratamos logo de ir para um barzinho e tomar uma cerveja bem gelada para tentar restabelecer a nossa moral que caíra por terra, ou melhor, pela areia…kkk

Faltavam cerca de 12 kms até a barra do Chuí no entanto, nós já não tínhamos forças para seguir e além disto, o balneário estava lotado, dificultando pedalar na faixa de areia. Fim de linha.

Tratamos de encontrar uma casa para alugar por uma noite, para assim, poder tomar um bom banho, fazer um jantar reforçado e dormir numa cama. Sem muita demora, tudo estava resolvido e aquele sofrimento todo de mais de 12 horas de pedal, já fazia parte da história.

Seguindo para os molhes do Chuí – Dados do dia:

Início do pedal: 6:30 horas

Final do pedal: 18:45 horas

Distância computada: 72 kms

Quarto dia na Praia do Cassino:

Sem muita preocupação, aproveitamos para descansar depois do suplício que foi o pedal do dia anterior. Tomamos café em slow motion, lavamos roupas, revisamos e lubrificamos as bikes para finalizar os 12 kms restantes… Afinal quem poderia nos impedir de completar esse misero trecho, depois de tudo aquilo que passamos até então? Resposta: O vento sul, que jogou o mar direto na areia e fez a praia sumir de vez, tornando assim, impossível para qualquer veículo de rodas seguir por aquele caminho.

Praia do Cassino
Tomando o asfalto para chegar aos molhes do Chuí.

A decisão de chegar o mais perto possível do final, foi a nossa salvação pois se por algum motivo tivéssemos parado para acampar, certamente teríamos que ficar um dia parado por conta da maré e do vento. A praia estava fechada.

Num misto de decepção e alivio, decidimos seguir até a barra pelo asfalto e assim, completar a travessia, ainda que não 100% pela areia.

Praia do Cassino
Fim da linha: molhes do Chuí.

Cicloturismo selvagem Praia do Cassino – Missão cumprida

Recordando agora, tudo que passei, posso garantir que a Praia do Cassino, até aqui, foi a travessia mais difícil que eu já tive a oportunidade de fazer.

Por mais que se esteja preparado, as condições da praia são sempre uma incógnita, podendo ajudar ou dificultar muito as intenções daqueles que pretendem se arriscar por lá, mas sendo como for, é uma experiência única, extrema e necessária para aqueles que querem descobrir seus próprios limites físicos e psicológicos.

Praia do Cassino

Para finalizar quero agradecer de todo meu coração aos meus parceiros de pedal Bruna Fávaro e Marcelo Rudini, companhia que fez toda a diferença no perrengue e também à todos que nos ajudaram durante a jornada, com o pouso para descanso, uma fruta e as muitas garrafas d’água. Certamente sem essa turma toda, a coisa teria sido muito mais difícil.

“Se vai tentar, vá até o fim.” Charles Bukowski.

A Clássica Travessia da Serra Fina – MG

A Clássica Travessia da Serra Fina

Já fazia um bom tempo em que eu e meus camaradinhas de hiperatividades, perrengues e afins, conversávamos sobre fazer a famosa e desafiadora travessia da Serra Fina, porém, a conversa sempre acabava se dissipando em nada. Foi então que, numa tarde qualquer de junho de 2016, o Filipe me chamou no chat com uma perguntinha: “E a Serra Fina?”.

Naquele mesmo instante senti que era o momento e imediatamente começamos a correr atrás da data, que deveria ser fora de feriados ou finais de semana, para evitar a travessia “crowdiada”, pois o plano era acampar os três dias nos três picos mais altos da travessia. Além disto, tínhamos que conciliar horários de vôos, pois estando eu em Porto Alegre e o Filipe em Floripa, havia mais este desafio de encaixar as peças do quebra-cabeça da logística de maneira tal que não houvesse perda de tempo, pois o esquema seria um “bate e volta”.

Quanto tudo já estava acertado e encaixado, os horários dos vôos, do ônibus de Guarulhos para a rodoviária de São José dos Campos, de SP para Passa Quatro e o traslado local para o início da trilha, reservas no hostel e etc. e tal, eis que o nosso camarada Hyzzo, resolveu dar o ar da graça de ir faltando poucos dias. Novo quebra-cabeça, mas depois de muita correria, conseguimos fazer as coisas se ajustarem. Agora já não seria apenas uma dupla, mas um trio da trupe realizando a travessia.

“Atualmente todos vivemos em um mundo dominado pelas máquinas. Quase não restam em nosso deteriorado planeta espaços livres, onde possamos esquecer nossa sociedade industrial e testar, sem sermos incomodados, nossas faculdades e energias primitivas. Em todos nós se esconde uma saudade do estado primogênito, com o qual podíamos calibrar-nos com a natureza e enfrentá-la, descobrindo a nós mesmos. Aqui está basicamente a razão de não haver para mim uma meta mais fascinante que esta: Um homem e uma montanha.” Reinhold Messner

O ponto de encontro foi o aeroporto de Guarulhos, onde, o primeiro a chegar foi o Hyzzo, bem depois (6 horas), meu voo aterrissou e com menos de uma hora, finalmente a trupe estava completa com o Filipe, vindo de Floripa. Tratamos de jantar por ali mesmo e sem perder tempo, pegar o ônibus para São José dos Campos e aí sim, embarcar para Passa Quatro/MG, no último horário, às 00 h 45 min.

Depois de vencida esta primeira etapa, chegamos à rodoviária de Passa Quatro, antes das 4 horas da madrugada, cansados e com sono. Não demorou muito e logo, uns 15 minutos depois, nosso transporte para a Toca do Lobo, chegava com uma louvável pontualidade. Contratamos o Antonio José (35 991191373), que foi indicação do Hostel Harpia, transporte de primeira! Recomendo.

A Clássica Travessia
Conexão Guarulhos x São José dos Campos x Passa Quatro.

Primeiro dia – 03/08/2016 – Toca do Lobo ao Pico do Capim Amarelo

Embarcamos na Kombi e seguimos pela cidade deserta durante a madrugada e logo entramos na estradinha de chão que nos levaria ao ponto zero da travessia. Devido à escuridão, não deu para curtir o visual, mas estava tudo dentro do cronograma planejado e uma hora depois, já estávamos com as cargueiras nas costas e as lanternas de cabeça ligadas, no breu da madrugada, rumando para o início da trilha, onde paramos para comer algo e tomar um café para despertar enquanto não clareava o dia.

Passando alguns poucos minutos das 06:00 horas, raiando o dia, atravessamos o córrego de fronte para a Toca do Lobo e entramos finalmente na trilha, tendo como objetivo para o dia o alto do Capim Amarelo e seus 2.570 metros.

Praticamente “virados” de um dia para o outro, sem dormir e cansados do tranco da viagem, mas ainda assim, com uma vontade muito grande de estar ali e encarar o desafio. Comentei com a trupe naquele momento que, por começar bem cedo e também pelo fato de não termos dormido, nossa estratégia seria ir bem devagar, aproveitando o clima agradável daquela manhã de tempo bom, fazendo as paradas para pegar água e descansar, sem correria, pois tudo ali era novo para todos nós e como diz o ditado: “devagar se vai ao longe”, tocamos assim, morro acima no ritmo do cágado hiperativo.

A previsão do tempo estava ao nosso favor, apesar disto, começamos a trilha com muita neblina, um motivo a mais para ficar atento na navegação. Era um olho na trilha e outro no GPS para não ter surpresas… kkk Com pouco mais de uma hora e meia, chegamos ao último ponto de água, onde tratei de pegar 4 litros para garantir o consumo durante a subida, e também o jantar, café da manhã e uma reserva para chegar até o próximo ponto de água somente no dia seguinte.

Embora não seja nenhuma novidade para muitos que estão lendo, cabe pontuar a questão da água, ou melhor, a escassez dela na travessia. É preciso ter muita atenção para pegar a quantidade certa e ter bem mapeados os pontos de água. Além disto, a escolha de um cardápio que exija uma quantidade pequena ou nenhuma de água para o preparo também é igualmente importante. Dito isto, vamos em frente.

Seguimos num ritmo lento e fazendo paradas rápidas a cada hora, pois o primeiro dia não perdoa, é só subida o tempo todo.

Na medida em que o dia avançou, a neblina se desfez e por volta de umas 9 horas já estávamos andando com céu aberto, poucas nuvens e o sol não chegava a torturar tanto, pois a temperatura estava agradável… A medida em que se ganha altitude é bem fácil perceber a mudança da vegetação também, a mata desaparece numa transição com taquarinhas e depois é basicamente capim alto e vegetação rasteira.

A Clássica Travessia

Com 7 horas e meia de caminhada, um certo esforço e muito cansados, chegamos por volta de meio-dia e meia no topo do Capim Amarelo e como se tratava de um dia de semana, o pico estava completamente deserto. Eram apenas nós três no alto da montanha, o que para mim, foi uma alegria a mais. Meu lado antissocial agradeceu pois tinha pesquisado bastante e lido em alguns relatos que durante feriados a coisa fica complicada no que diz respeito a conseguir lugar para montar o acampamento e que também às vezes rolava algumas crises entre a galera… Melhor assim, nosso planejamento tinha dado muito certo nesta questão e a montanha era só nossa.

Fizemos um almoço simples e depois de uma boa lagarteada (tirar uma soneca no dialeto gaúcho) ao sol, montamos nossas barracas e ficamos por ali curtindo o momento e conversando até o cair do sol, que foi um espetáculo à parte.

Tratamos de jantar cedo e entrar nas barracas pois a temperatura que estava agradável durante o dia, simplesmente despencou com o sol indo embora. Bem alimentado, dormi que nem uma pedra.

Resumo do dia:

Distância percorrida: 6.5 km

Tempo de caminhada: 9 h

Acumulo de subida: 1250 m

Acumulo de descida: 305 m

A Clássica Travessia

Segundo dia – 04/08/2016 – Pico do Capim Amarelo ao Pico Pedra da Mina


Acordamos com um dia lindo de céu limpo e sem vento. Estávamos acima das nuvens, no altímetro marcando 2.495 metros.

Preparamos um café reforçado, sem pressa desmontamos o acampamento e organizamos tudo nas cargueiras. Depois de dar uma repassada no “briefing” da missão para o segundo dia, colocamos o pé na trilha às 9 horas da manhã, mais descansados e mantendo o mesmo ritmo do dia anterior, sabíamos que em se tratando de Serra Fina, nenhum dia é moleza e a altimetria deste dia mostrava uma verdadeira montanha russa, cheia de desce e sobe… kkkk

Por volta das 15 h 30 min chegamos ao Rio Claro, nosso ponto de coleta de água, na base da Pedra da Mina.

Por ali ficamos uma hora, descansando, comendo e bebendo muito suco Tang para seguir em frente mais animados e atacar o cume da Pedra da Mina. Nesse momento, fomos alcançados por um grupo, onde para minha surpresa, era o Tiago Korb e o Clube de Trekking de Santa Maria, que num grupo de quatro pessoas, estavam fazendo a travessia em dois dias.

Conversamos um pouco ali, e logo em seguida, o grupo do Tiago seguiu para o cume, enquanto a trupe, um pouco depois e num ritmo mais lento, tomou o mesmo rumo: Pedra da Mina.

A Clássica Travessia

O ataque ao cume é bastante cansativo e demorado, uma hora e meia para percorrer esse trajeto. Na parte final da subida, o tempo começou a mudar, muitas nuvens cobrindo a montanha e com a tarde caindo, começou a ficar escuro. Como estávamos distantes uns 30 metros uns dos outros, recomendei para o pessoal sacar as lanternas de cabeça e manter na luz vermelha, para não perder ninguém de vista na neblina que estava tomando conta do caminho.

Desta vez não teve pôr do sol, e, por conta das nuvens e do vento que soprava com força, fomos obrigados a fazer o jantar no avanço da barraca e encerrar assim o dia.

Resumo do dia:

Distância percorrida: 7.9 km

Tempo de caminhada: 9 h 30 min

Acumulo de subida: 984 m

Acumulo de descida: 671 m

A Clássica Travessia

Terceiro dia – 05/08/2016 – Pico da Pedra da Mina ao Pico dos Três Estados

O dia amanheceu lindo e sem aquele vento que nos recebera na noite anterior. Como de praxe, tomamos café, desmontamos o circo e com as cargueiras prontas, assinamos o livro do cume e nos despedimos da Pedra da Mina.

O início deste trecho da travessia é uma descida forte, com muita pedra solta, que exige bastante atenção e cuidado, pois em menos de 1 km se desce mais de 300 metros! Qualquer descuido pode resultar em queda. Nessa hora os bastões de caminhada ajudam muito.

Depois de menos de uma hora, já estávamos no meio do Vale do Ruah, que por sinal é bem bonito, com seu labirinto de capim alto e charcos repletos de turfeiras. Atravessamos o vale sem muita dificuldade. No último ponto de água, antes de sair do Ruah, paramos e resolvemos fazer uma bela macarronada para antecipar o almoço e também aproveitar para lavar a louça e abastecer de água, pois o próximo ponto de água é só no dia seguinte e praticamente no final da trilha.

Pouco antes do meio-dia retomamos nossa jornada, passamos pelo cume do Brecha, de onde já era possível ver nosso destino para o final do dia.

Seguimos em frente, passando pelo segundo trecho onde se caminha bem na linha da cumeeira da serra, com um visual alucinante e abençoados por um clima excelente pois não havia vento algum. Ao chegarmos ao cume do Cupim, pouco antes das 15 horas, fizemos uma parada para descansar e apreciar a vista. Naquele momento o que mais me marcou foi o silêncio absoluto no local. Chamei a atenção do Filipe que quando ao prestar atenção nesse fato, também ficou impressionado.

A Clássica Travessia

Meia-hora depois, já seguíamos descendo o Cupim, rumo à mata do Bambuzal, que é um ótimo lugar para acampar no caso de quem vai fazer a travessia em dias de muito movimento ou ainda, numa situação de pegar um clima ruim. A mata de bambus é um local bastante protegido dos ventos na base do Pico dos Três Estados.

Sem parar, seguimos agora para a reta final do dia, faltava percorrer pouco mais de 1 km e subir pouco mais de 200 metros de caminhada e algumas escalaminhadas, e dentro do tempo previsto, chegamos ao cume da montanha. Novamente o ritual de escolher o melhor lugar, montar o acampamento e curtir a última noite da travessia.

Nessa noite, enquanto preparávamos o jantar, tivemos a companhia de vários ratos que pelo visto contavam com a nossa comida… kkk Enquanto o Hyzzo fazia a janta, eu e o Filipe, fazíamos uso do bastão de caminhada para dissuadir a gang de camundongos que estavam de olho na nossa comida.

Resumo do dia:

Distância percorrida: 6.6 km

Tempo de caminhada: 8 h 20 min

Acumulo de subida: 551 m

Acumulo de descida: 691 m

A Clássica Travessia

Quarto dia – 06/08/2016 – Pico dos Três Estados ou Sítio do Pierre

Nosso último dia começou com um friozinho e tempo bom e depois do ritual matinal, começamos sem pressa a longa descida até o Pierre.

O inicio da caminhada é uma descida forte até o acampamento Bandeirante, de onde, logo em seqüência chegamos ao Cume do Bandeirante, e depois mais uma descida para então, iniciamos a subida complicada do Alto dos Ivos, que exige bastante atenção. Neste trecho temos também muitas taquarinhas pelo caminho, que contribuem muito para deixar a descida lenta.

Ao meio-dia, saímos do Alto dos Ivos, e na medida em que fomos descendo, a vegetação foi mudando. As taquarinhas, para nossa alegria, sumiram, e dando lugar a elas, primeiro muitas bromélias e depois uma mata já com árvores grandes e bastante sombra.

A Clássica Travessia

No início deste trecho, a água da trupe já estava no fim, sendo que o ao chegar ao último ponto de coleta, já próximo do Pierre, somente eu ainda tinha uns 300 ml sobrando. O resto já estava de bico seco há algum tempo. Kkk

Após beber água e descansar alguns minutos, seguimos pela estradinha abandonada que vai descendo até o sítio, e dentro do horário previsto, chegamos no nosso ponto de resgate, onde, para nossa felicidade, o Sr. José Antonio já nos aguardava para retornar para Passa Quatro e nos deixar no Hostel Harpia.

Missão cumprida!

Resumo do dia:

Distância percorrida: 10.5 km

Tempo de caminhada: 6 h 50 min

Acumulo de subida: 480 m

Acumulo de descida: 1578 m

A Clássica Travessia

Considerações finais:

A Serra Fina é linda, mas é duríssima também, e se o clima não estiver favorável, as coisas podem se complicar bastante por lá. É preciso muito preparo físico, um planejamento minucioso na questão da água, equipamento adequado e perícia na navegação, pois do contrário, as coisas podem ficar bastante difíceis.

A Clássica Travessia da Serra Fina não é para iniciantes, mas aqueles que se prepararem com foco e humildade terão plenas condições de conclui-la.

Ao final, não existe nenhum pódio, nem medalha pelo feito, mas garanto que a euforia da conquista irá inundar o íntimo de tal maneira que o prêmio será justamente essa alegria, que eu garanto, ficará gravada na memória para sempre.

A Clássica Travessia
Hostel Harpia em Passa Quatro – MG

Ciclotour Uruguay: Chuy até Punta del Este, Parte 1

Ciclotour Chuy até Punta del Este parte 1

Prelúdio

Desde que fiz a minha primeira viagem solo de bike pelo Uruguay, lá no carnaval de 2015, acabei ficando com uma ideia fixa na cabeça e um sentimento forte que era necessário voltar para mergulhar mais fundo e conhecer mais daquele lugar que arrebatou por completo meu coração aventureiro.

Comecei a planejar a viagem logo depois que voltei da travessia da Serra Fina – MG, em meados de agosto de 2016. Já tinha um roteiro mais ou menos montado na cabeça que seria ir da cidade de Chuy que fica junto da sua irmã brasileira Chuí (irmãs siamesas, diga-se de passagem) e tomando sempre o caminho mais próximo do litoral, passando por Montevidéu terminando o pedal em Colonia del Sacramento, de onde voltaria para Porto Alegre de ônibus.

No primeiro momento, pensei em fazer a viagem solo como na vez anterior, mas pensando daqui e dali, achei melhor convocar o pessoal da trupe de indiadas que participo, os Suricatos Hiperativos, onde de imediato apareceram mais três pessoas interessadas. Fiquei mais animado ainda,  sabia que seria muito mais divertido tendo a participação de alguns amigos do nosso pequeno grupo de hiperatividades. Mas com o passar do tempo e a aproximação da data limite para fechar a viagem, tivemos duas baixas no grupo, restando assim apenas eu e meu brother de perrengues, indiadas e afins, Mr. Ricardo Tavares.

Sem muito mistério ou complicação, organizamos os equipamentos de camping, as bikes, e combinamos nosso encontro no dia 2 de dezembro na rodoviária de Porto Alegre, onde pegamos o ônibus às 23 horas para o Chuí.

A viagem Porto Alegre x Chuí tem uma duração de cerca de 8 horas, onde, pegando o horário noturno, dá para ir dormindo tranquilamente, pois o ônibus praticamente não pára e o caminho é quase que uma reta sem fim, fator este que favorece o sono das crianças.

“O nômade conserva um segredo de felicidade que o cidadão perdeu, e por este segredo sacrifica a comodidade e a segurança. Múltiplos são os êxitos, os álibis e as sensações da viagem, mas um só é o profundo e verdadeiro motivo interior que a determina: perseguir o segredo daquela remota felicidade.”

Domenico De Masi

A máquina!

Primeiro dia: Chuy x Punta Del Diablo

Chegamos bem cedinho, por volta das 7:30 da manhã, horário de Brasília, com tempo chuvoso. Logo começamos a organizar as bikes que estavam desmontadas e embaladas nos mala bikes. Foi neste momento que percebi um pequeno problema na minha bike: o cubo da roda dianteira estava com uma folga no eixo que exigia um pequeno aperto, porém não tínhamos a chave 17 para fazer o ajuste e poder dar início a nossa viajem. A solução era aguardar o comércio abrir e ir numa oficina de bicicletas para resolver a questão. Como no Uruguay não tem horário de verão e era sábado, resolvemos procurar uma padaria para tomar um café , comer alguma coisa para enganar a torcida e matar o tempo. Além disto, precisávamos também, fazer cambio de moeda e comprar alguma coisa de comida para os dois primeiros dias. Pergunta aqui, ali e logo encontramos uma oficina de bicicleta e uma casa de cambio praticamente na frente uma da outra. Resolvidas todas as questões, era hora de tocar para a Aduana Uruguaia e fazer os procedimentos para dar entrada oficialmente no Uruguay.

Agora sim! A Ruta 9 pela frente.

Começamos o pedal por volta das 11 h 30 min, com céu nublado, sem vento e temperatura amena, ou seja, uma maravilha para começar a brincadeira e poder ir se acostumando com o peso na bike. O ritmo inicial era o famoso passinho do calango sonolento, 15 km/h.

Não tínhamos um destino certo para este dia, a ideia era rodar algo por volta de 40 ou 50 quilômetros no máximo e encontrar um camping. A primeira opção era o parque do Forte Santa Teresa ou, se estivéssemos dispostos, tocar um pouco mais adiante, até Punta Del Diablo.

Quando cheguei na frente da entrada principal do parque, me deparei com a entrada para a Laguna Negra, que ao contrário do Forte, eu não conhecia ainda. Fiquei ali aguardando o Ricardo que vinha um pouco atrás para decidir para qual lugar seguiríamos. Rapidamente decidimos tocar para a Laguna Negra, um desvio de 4 quilômetros para fora da Ruta 9, pegando uma estrada de terra em boas condições.

Chegando lá, por volta das 14:30, de cara encontrei um quiosque fechado bem na beira da água e não pensei duas vezes, parei a bike e tratei logo de montar a cozinha e começar a “operação fome zero”. Ficamos por ali mais uma hora e pouco, dando aquela tradicional “jiboiada” com um nababesco café passado na hora. Só então, depois do ritual do café e com os neurônios funcionando adequadamente, tomamos a decisão do que fazer. Se acampar ali mesmo, ir para o Forte ou tocar mais uns 15 quilômetros até Punta Del Diablo. Optamos por seguir até Punta Del Diablo.

A Laguna Negra é linda e além disto, perfeita para um acampamento selvagem, mas a nossa escolha já tinha sido feita. Juntamos as tralhas, as forças e voltamos a pedalar. Tínhamos 4 quilômetros de terra com uma boa subidinha até alcançar o asfalto da Ruta 9 e então ir até Punta Del Diablo.

Chegamos por volta das 18 h 30 min, fomos até a beira da praia para dar uma conferida no visual e atento também para localizar um camping para nosso pouso.  Como era baixa temporada, somente um camping estava aberto, partimos para lá com o sol indo embora e a noitinha chegando mansa. Ao chegar ao ótimo Camping La Viuda, tratamos de montar nosso circo, tomar um bom banho e jantar com um céu estrelado que nos dava as boas vindas para as nossas noites no Uruguay.

Resumo do primeiro dia:

Distância percorrida: 60 quilômetros

Custo camping: 200 pesos

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Segundo e terceiro dia: Punta Del Diablo x Valizas & Cabo Polônio

Acordamos junto com o sol e lentamente, após o café da manhã, desmontamos o acampamento e por volta das 8 horas iniciamos nosso percurso do dia pela Ruta 9. O dia estava bonito e até umas 10 horas a temperatura seguia amena, seguimos num ritmo bastante tranqüilo e conversando durante a pedalada. Na medida que o sol subiu, a temperatura começou a complicar um pouco as coisas e ao chegar em Castillos, já passando do meio-dia, resolvemos dar uma parada de uma hora na sombra, fazer um lanche e ficar atirado na relva curtindo o calorão já na Ruta 16.

Depois de mais de uma hora curtindo o ócio criativo na relva, resolvemos seguir viagem, ainda com o sol escaldante. Apesar da temperatura alta, eu em especial, estava muito empolgado pois sabia que já estava bem perto da mítica Ruta 10, que é um pequeno paraíso para quem curte cicloturismo, tanto pelo visual como pela tranqüilidade devido ao baixo movimento de veículos. Rodamos um pouco menos de uma hora e demos outra parada num gramado estratégico debaixo de algumas árvores para hidratar e esfriar a cabeça pois não estava fácil. Neste momento, enquanto jogávamos conversa fora, avistei uma bike carregada vindo no sentido contrário. Tratava-se de um argentino, gente finíssima, que estava subindo para o Brasil e que pretendia dar a volta ao mundo pedalando. Não demorou muito e quando olhei para o outro lado, outra bike, essa seguia no mesmo sentido que o nosso, e ao se aproximar, parou e desceu o paulista Martins, que estava dando um giro até o Cabo Polônio. Aquela parada rendeu uma reunião muito divertida entre quatro malucos de quatro lugares diferentes, mas com a mesma patologia em comum: a ciclo indiada. Mais uma hora parado. Comendo laranjas, que nosso Hermano nos ofereceu, e bebendo água. A paradinha foi muito divertida e útil, pois o sol não queria dar moleza para nós, e também por outro lado, já estávamos bem perto do nosso destino do dia, ou seja, não havia necessidade de torrar o lombo na estrada.

Após uma despedida longa e cheia de honrarias entre um grupo tão distinto e seleto de gente perturbada, tocamos em frente e logo entramos na Ruta 10, onde andando mais uns quarenta minutos chegamos em nosso destino. O Martins nos acompanhou até o centrinho de Valizas e de lá tocou para o Cabo Polônio. Fomos logo para o Camping Lucky Valizas, que eu já conhecia de outros tempos e virei fã pois tem uma atmosfera roots e é bem estruturado, sem contar a recepção simpática de sempre da Luciana e sua equipe. Recomendo.

Acampamento devidamente montado e de banho tomado, fui logo comprar algo gelado para beber com a janta, onde conversando, ficou decidido que ficaríamos um dia mais em Valizas, pois eu queria muito fazer a caminhada pelas dunas até o Cabo Polônio e também pelo fato do Ricardo estar precisando descansar um pouco mais. Juntamos o útil ao agradável.

“(…) Um farol ainda nada iria guiar enquanto não parar de girar não é leve o que realmente importa são os 12 segundos de escuridão.”


Jorge Drexler

O grande dia! Acordei junto com o sol e após um bom café, peguei a mochilinha de ataque, coloquei água e alguma coisa para beliscar, o chapéu na cabeça e toquei direto para a Barra de Valizas para pegar um bote e cruzar para o outro lado e começar a caminhada de cerca de 9 quilômetros até a vila do Farol do Cabo Polônio. Cheguei antes das 8 horas, a praia estava deserta e nenhum boteiro. Fiquei por ali, curtindo o visual e fazendo algumas fotos até que apareceu um barquinho e no leme o simpaticíssimo Sr. Nelson que antes mesmo de montar sua tenda se prontificou em me levar para o outro lado da barra. A travessia é bem curta, acho que uma distância de 150 metros no máximo, mas como o canal é profundo, ou atravessa de bote ou nadando.

O céu estava completamente azul e ventava fraco, na minha frente 9 quilômetros de dunas e praias desertas. Um ambiente minimalista e completamente selvagem. Algumas dunas chegam a ter quase 40 metros de altura. É um visual alucinante. A caminhada inicia com uma subida para o topo das dunas e de lá, basta seguir o caminho que achar melhor seguindo sempre para o sul. Depois de uma hora e pouco, já andando pela orla, avistei o imponente farol no horizonte e na medida em que me aproximava, podia identificar as casas da vila do Cabo Polônio, que fica dentro do Parque Nacional do Cabo Polônio. A vila é rústica, não existe rede elétrica, nem cercas separando as casas, nada de automóveis, para chegar ali, só de 4×4, cavalo ou na pernada. Um lugar apaixonante que conquistou meu coração.

Fui direto até a colônia de lobos-marinhos e no farol, mas para minha tristeza, a visitação ao farol estava fechada, apenas no período da tarde e eu não estava com planos de ficar tanto tempo ali, pois ainda tinha a volta toda pelo mesmo caminho. É apenas mais um motivo para querer voltar em breve para aquele pequeno e rústico paraíso.

Depois de circular na vila, conhecer um pouco das casas, hostels e pequenos restaurantes, apontei meu nariz para a praia e segui meu rumo, agora para o norte, voltando para Valizas com o sol já alto e forte. A volta foi bem cansativa, deu para fazer umas bolhas nos pés, mas nada de mais. Fui direto para o camping onde tratei de almoçar e ficar o resto do dia de bobeira e descansando.

Resumo do segundo e terceiro dia:

Distância percorrida de bike: 58 quilômetros

Distância percorrida caminhando: 19 quilômetros

Custo da diária camping: 250 pesos

Custo do barqueiro, ida e volta: 200 pesos

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Quarto dia: Valizas x La Paloma x Laguna de Rocha

Decididos em tentar sofrer menos com o sol, despertamos bastante cedo, ainda no escuro, sendo que o Ricardo, uma hora antes de mim. Ele queria arrancar ainda no escuro e aproveitar o máximo de tempo sem sol e sem o vento contrário que vinha nos fazendo companhia desde Punta Del Diablo. Como eu estava um pouco melhor condicionado, combinamos de nos encontrar pelo caminho.

Alcancei o Ricardo quase na entrada para La Paloma, como o sol já estava nervoso e o vento tinha sugado muito da nossa energia, resolvemos parar num dos muitos pontos de ônibus da Ruta 10 que são cobertos e tem bancos… que maravilha! É praticamente um Oasis para um ciclo viajante cansado.

Depois de hidratados e um pouco aliviado, tacamos o trecho que faltava até La Paloma. Chegando lá, “ na capa da gaita”, tratamos de procurar com urgência um lugar para comer e beber algo gelado. Encontramos uma padaria que servia alguns lanches e de cara fizemos nosso pedido acompanhado de duas cervejas de litro Patrícia… Aquilo foi quase um nirvana! Kkkk… Depois fomos comprar um chip de celular para mantermos contato com o povo no Brasil.

Mais um role pela cidade, dois litros de sorvete, para ajudar na hidratação enquanto o sol não dava uma baixada. Logo em seguida, tocamos para a Laguna de Rocha, um pedal de mais 15 quilômetros, chegando lá, pretendíamos fazer a travessia de barco antes do cair da noite, e assim, poder arrancar cedinho no dia seguinte.

Ao chegar na vila de pescadores da Laguna Negra, fomos direto perguntar onde morava o Sr. Pepe, que é um dos pescadores locais mas que também faz o serviços de travessias da barra especialmente para ciclo viajantes. Chegamos na casa do Sr. Pepe que é praticamente uma das últimas, antes da barra e logo ele apareceu. Enquanto conversávamos, ele recebeu uma ligação, um grupo de ciclistas argentinos, porém do outro lado da barra, que precisava cruzar. Tivemos muita sorte, pois bastaria mais uma meia-hora para perder a travessia ainda naquele dia, pois a tarde já estava caindo e até o barco voltar com os argentinos, já não teria mais sol. Sem perder tempo, carregamos as bikes para o barco e cruzamos a barra. Do outro lado, um grupo de 6 ciclistas esperavam para fazer o caminho oposto. Quando desembarcamos, foi uma rápida festa de uns 5 minutos entre nós e o grupo argentino. Mas como a tarde já estava indo embora, precisamos todos seguir nossos rumos.

Montamos as bikes e com o sol se pondo no horizonte, tratamos de pedalar rapidamente para sair logo da área de preservação do parque, pois é proibido acampar ali. Rodamos 5 kms aproximadamente, e já fora do parque, localizamos um trecho de praia deserto, que tinha uma estradinha de uns 700m até a beira do mar, tocamos para lá e já no escuro montamos acampamento na areia da praia, com um lindo visual, céu estrelado e ao norte no horizonte o brilho do farol de La Paloma. Jantamos e caímos dentro das barracas. Adormeci com os sons das ondas que para mim, são como música de ninar.

Resumo:

Distância percorrida: 81 kms

Custo do barco: 200 pesos por pessoa

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“Quando alinhamos o nosso coração com o tempo do mundo, a pressa desaparece e uma mágica acontece. Ao fazermos o que gostamos, seguindo a nossa vocação, as batidas do coração se harmonizam com o ritmo de todas as coisas, e por isso acontece algo inusitado: a vida passa a dar certo.” 

O Homem Livre – Danilo Perrotti

Quinto Dia: Acampamento selvagem em Rocha x Punta Del Este

Durante a noite o vento parou, e o único som era o das ondas. Fez um pouco de frio na madrugada e creio eu, essa soma de circunstancias fez desta noite, a melhor de todas até então. Acordei com o horizonte clareando, antes do sol aparecer na linha do mar. Um espetáculo na porta da minha barraca, que foi montada estrategicamente prevendo esse show logo cedo. “ com a praia bem deserta é que o sol pode nascer”, já cantava Raul Seixas… Maravilha!

Mas o tempo passa, o tempo voa e era necessário partir. Feito ritual do café e desmonte do circo, embarcamos para mais um dia de pedal. A temperatura estava agradável, começamos a pedalar pouco antes das 7 horas da manhã, aproveitando as condições favoráveis.

Neste trecho, a Ruta 10 não tem asfalto, é terra, porém em ótimas condições, momento perfeito para meus pneus 1.95 mostrarem todas as suas virtudes e justificarem o motivo de não usar um pneu slick. Depois de duas horas de pedal suave nos 25 quilômetros de poeirão, com o sol já promovendo aquele bronzeado napolitano, característico de ciclistas, chegamos na novíssima e bela Ponte Circular da Laguna Garzon. Logo que cruzamos a ponte, fomos direto para um Pequeno paradouro, tratar de comer algo, tomar muita coca cola gelada e descansar.

Depois desta parada de cerca de 45 minutos, resolvemos dos separar e nos reencontrar em Punta Del Este pois o Ricardo estava sentindo muito o efeito do calor e achou melhor pegar o ônibus que arranca dali onde estávamos. Meti o pé, ou melhor, as rodas novamente na Ruta 10, agora já com asfalto novamente e novamente o vento contra mostrava as suas armas…kkk… Neste momento lembrei-me da história do meu ídolo maior: “Qualquer um de nós ficaria chateadodesmotivado, mas não este homem! Não Joseph Climber!” Com essa mesma determinação e entusiasmo, fui indo contra o vento e derretendo no sol do meio dia. Depois de quase 3 horas, com algumas paradas para tomar água, sempre nos pequenos Oasis das paradas de ônibus, finalmente cheguei no Camping San Rafael, em Punta Del Este. Rapidamente montei minha barraca, coloquei todas as tralhas para dentro e tratei de ir buscar o Ricardo que não tinha a localização exata do camping e estava me aguardando em um ponto de ônibus.

Resumo:

Distância percorrida: 58 kms

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Este relato é dividido em 2 partes, para ver  mais acesse:

Ciclotour Punta del Este até Colonia del Sacramento parte 2

Ciclotour Uruguay: Punta del Este até Colonia del Sacramento, Parte 2

Ciclotour Punta del Este até Colonia del Sacramento parte 2

Sexto e sétimo dias: Punta Del Este x Piriápolis

Desta vez, ao contrário da minha última viagem ao Uruguay, tínhamos o tempo ao nosso favor, e como a ideia era curtir, resolvemos ficar por dois dias em Punta Del Este. Aproveitar para dar uns roles ostentação de bike no meio de todo o glamour e sofisticação da praia mais charmosa das terras do Hermano Mujica. E foi exatamente isso que eu fiz no sexto dia. Enquanto o Ricardo ficou aproveitando o camping,  peguei a magrela e fui direto dar um giro até o Puerto de Punta Del Este.

Seguindo sempre pelas Ramblas das praias Brava, El Emir e Playa de Los Ingleses. É um passeio com um visual completamente diferente do que a viagem apresentava até então.  Para quem gosta de barcos, e tem fetiches malucos por veleiros, como é o meu caso, o Puerto é um espetáculo de deixar qualquer criança alucinada. Dá vontade de bater de porta em porta, pedindo emprego embarcado em uma daquelas maravilhas e sair pelo mundo navegando ao sabor dos ventos… (Mutley acorda! Você está sonhado de novo!)

Na volta do passeio, fui tratar de fazer um almoço, já tarde. Depois já de barriguinha cheia, fiquei de papo com o Ricardo e foi nesta hora que chegou mais uma dupla de ciclistas no camping, Gutembergue e Chile, paulistas que estavam na estrada desde Rio Grande e tinham como destino final a cidade de Montevidéu. Ficamos em altos papos e risadas até anoitecer, e depois de um jantar regado a algumas cervejas Patricias de litro, fomos dormir pois no dia seguinte tínhamos que pegar a estrada novamente.

Mais uma vez o plano era sair bem cedo, sendo que o Ricardo saiu na escuridão, tocando por Maldonado para pegar a Ruta Interbalnearea, enquanto eu saí cerca de duas horas mais tarde, com a intenção de seguir pela orla de Punta Del Este, passando pela Playa Brava e Playa Mansa, sempre o mais próximo do mar, ainda que fosse o caminho mais longo pois acreditava que o visual iria retribuir esse esforço extra. E assim foi.

Depois de sair de Punta, já na Ruta Interbalnearia, observando no GPS, encontrei uma rota bem próxima ao mar e ao chegar no entroncamento com essa estrada, perguntei para um senhor que estava ali parado se a estrada era boa e tranquila e a resposta positiva me fez ir para lá direto, saindo da rodovia e seu movimento intenso. Bingo! Logo estava numa estradinha de terra, quase deserta e bem na orla do mar, cheia de subidinhas e decidas gostosas de fazer e com um visual que surpreendia em cada curva. Várias praias com um visual roots típico uruguaio. Fui seguindo sem muita pressa, escutando um som e fazendo algumas fotos. Acho que já de tão distraído com o caminho e acostumando com o sol e o vento contrário, quando percebi, já estava em Piriápolis e fui logo procurar o camping Piriápolis , onde o Ricardo já estava com o seu circo armado. Bebi um pouco de água e tratei de armar a minha tenda, largar minhas tralhas para dentro e só então almoçar e descansar. Acho que duas horas depois, apareceram os nossos camaradas paulistas e novamente fechamos uma roda divertida de papo, causos e risadas… Onde quer que junte um grupo de malucos desta natureza, é risada certa e diversão garantida.

Resumo:

Distância percorrida: 54 kms

Custo da diária camping: 250 pesos

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Oitavo Dia: Piriápolis x Parque Del Plata

Sábado dia 10, céu azul e tempo bom. Acordei bem disposto e ao mesmo tempo sem muita pressa de sair. O destino do dia não estava muito longe, cerca de 50 quilômetros apenas. Como nos dias anteriores, Ricardo e eu, escolhemos estratégias diferentes de chegar ao próximo destino. Optei pelo caminho mais longo, caçando sempre que possível a orla do mar. Mais uma vez o pedal era cheio de surpresas e a cada curva uma paisagem para contemplar.  Segui desta maneira por aproximadamente 15 quilômetros, e logo em seguida, fui obrigado a voltar para a bastante movimentada Ruta Interbalnearea, mas que ainda assim, oferece um belo acostamento que dá muita tranqüilidade e segurança para quem está pedalando. Fui seguindo devagar e sem nenhuma pressa, dando uma paradinha aqui, outra ali, para beber água, beliscar alguma coisa e pensar na vida, nessa coisa da existência humana. Geralmente enquanto pedalo, ou fico cantando um mantra (repetindo uma música mentalmente), ou filosofando sobre as coisas da minha vida, ou ainda, conversando com Deus.

Passando do meio-dia, avistei a ponte que antecede a entrada do Parque Del Plata, faltava localizar o camping que para minha surpresa, estava praticamente no pé da ponte, e ao cruzar, já consegui ver o Ricardo com sua Mini Pack discreta já montada. Saí da ruta e fui direto para o local onde o circo estava armado, bem embaixo da sombra de uma bela árvore. Montei meu acampamento, almocei e como de praxe, dei aquela “jiboiada” forte.

Como estava muito quente, não fizemos outra coisa que não fosse ficar naquela sombra na beira do belo Arroyo Solís Chico até o cair da noite. Falando em noite, essa foi a pior noite para mim, pois o camping fica bem próximo da Ruta Interbalnearia, e devido ao barulho do movimento de carros, não tive um bom sono.

Resumo:

Distância Percorrida: 49 kms

Custo da diária do camping: 250 pesos

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Nono dia: Parque Playa Del Plata x Montevidéu

Como não tinha jeito de dormir bem com o barulho dos carros na Ruta Interbalnearia, acabei levantando bem cedo, antes do sol, e depois de rever o briefing da missão do dia, junto com o Ricardo, que saiu antes de mim, seguindo pela Interbalnearia. Desmontei meu acampamento e também coloquei a bike na estrada, só que seguindo pelo caminho da orla. Era 6:30 da manhã de domingo,  olhando no GPS logo achei uma avenida na orla e para lá segui. Nada de vento contra, temperatura agradável, uma benção para quem tinha tido a pior noite de todas.

Fui pedalando tranquilamente, apreciando o visual da praia até que num dado momento acaba o balneário, e todos os caminhos apontam para a Ruta Interbalnearia que é muito movimentada mas como se tratava de um domingo cedo da manhã, estava bem tranquila. Neste trecho da Interbalnearia, passei por duas placas que proibiam o tráfego de bicicletas, mas como o GPS não mostrava outra alternativa, segui por ali mesmo, cerca de 9 quilômetros sem problemas. Acredito que num dia de semana e num horário de rush, pode acontecer de sofrer alguma abordagem policial, pois já se trata de uma via expressa. Assim que cruzei a ponte sobre o Arroyo Pando, o GPS já me dava algumas alternativas e sem pensar muito, saí da Interbalearia e caí novamente na direção da orla.

Depois de alguns minutos de pedal, localizei o início da Rambla Costanera, uma avenida de 15 quilômetros, já nas cercanias de Montevidéu. Na medida em que avançava rumo ao centro, já começava aparecer pessoas correndo, passeando com seus cachorros e muitos ciclistas. Era o sinal de que já estava dentro da metrópole. Fui curtindo o visual dominical, sempre pela orla e vendo no horizonte na minha frente, os grandes prédios do centro, onde fica a localização do hostel que combinei encontrar com o Ricardo.  Literalmente entrei em Montevidéu pelo cartão postal. Uma praia terminava e começava outra, pessoas na areia tomando mate, jogando bola e sentadas em cadeiras, curtindo um típico domingo de praia e sol. Não poderia ter escolhido dia melhor para chegar!

Seguindo em frente, parei no monumento que tem o nome de Montevidéu em letras gigantes, fiz aquela foto momento turista e tratei de localizar a rota para o Planet Hostel, que fica próximo. Chegando lá, pouco depois das 10 horas da manhã, encontrei o Ricardo que me aguardava e já tinha reservado um quarto para nós.  Depois que quase dez dias dormindo no chão, não seria ruim dormir numa cama. Levamos as tralhas e as bikes para dentro do hostel e fomos descansar um pouco para depois dar um passeio e comer algo.

Já com as baterias recarregadas, pegamos algumas informações no hostel sobre onde comer e a localização da rodoviária, onde pretendíamos passar para ver como estava a questão das passagens de volta para o Brasil.

Depois de fazer um lanche, fomos ver as passagens e ao chegar no guichê da TTL, para ver valores e saber como estava o movimento, fomos alertados pelo atendente que em função das festas de final de ano, poderíamos ter problemas se resolvêssemos comprar a passagem na hora. Diante desta informação, fizemos uma rápida reunião de cúpula onde mudamos um pouco o nossos planos. Resolvemos seguir de ônibus até Colonia Del Sacramento, pois o tempo já estava se esgotando e o caminho até lá não era dos mais atrativos, indo de ônibus, ganharíamos mais dois dias para curtir lá naquela que é a cidade mais antiga do Uruguay.

Tudo acertado, passagens para Colonia Del Sacramente e Porto Alegre compradas, demos mais uma volta pelo belo centro de Montevidéu e retornamos para o hostel para descansar e se preparar para no dia seguinte pegar o ônibus para Colonia.

Resumo:

Distância percorrida: 57 kms

Custo do quarto por pessoa: 600 pesos

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“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

 Mar Sem Fim – Amyr Klink

Três dias em Colonia

Segunda-feira, depois dez dias de estrada e mais de 400 quilômetros com muito calor e vento contrário, ainda que eu estivesse no meu íntimo com uma sensação de frustração por pegar o ônibus para Colonia, meu lado pragmático dizia que essa era a decisão correta. Ficar mais dois ou três dias apenas no asfalto com vento contra, chegar em Colonia e já ter que voltar não parecia nem de longe algo divertido e também não estava fazendo nenhum desafio.

Montamos as bikes e a carga, nos despedimos da simpática Andrea, a recepcionista colombiana e ciclista que fez com que nos sentíssemos em casa, fomos para o Terminal Três Cruces, onde embarcamos às 11 horas. Depois de pouco mais de 3 horas, chegamos a Colonia Del Sacramento! Coloquei a rota para o camping Los Nogales e seguimos direto para lá.

Depois de montar o circo, comer algo e descansar, peguei a bike sem carga e fui dar um giro até o centro histórico, fazer um reconhecimento. Fiquei de boca aberta com a beleza rústica e o astral da cidade. Foi amor à primeira vista! Mas quando estava no meio do role, veio um temporal de verão e tive que sair correndo, conseguindo chegar até o shopping, onde me abriguei da rápida tempestade. Aproveitei para pegar umas cervejas para o jantar e voltei para o camping.

No dia seguinte, saímos de manhã para dar outra volta. Rodamos pelo centro histórico e depois fomos a Rambla de Las Americas, que tem uma bela orla de praia, onde tem um lindo calçadão com  muita área verde, praia e tudo mais.

Retornamos ao centro, almoçamos e fomos de volta para o camping para dar um tempo e depois, como combinado, no fim de tarde, fazer nosso último passeio até o Puerto de Yates para curtir o pôr do sol, pois no dia seguinte deveríamos voltar para Montevidéu e tomar o ônibus de volta para as terras brasileiras.

Último dia. Um rápido café e logo na seqüência, começamos a guardar as coisas e seguir para a rodoviária, embarcando para Montevideu de onde viajaríamos durante a noite toda para Porto Alegre.

Ao chegar em Porto Alegre, acompanhei o Ricardo até o hotel onde ele aguardaria o seu voo para Curitiba. Depois de uma rápida despedida do amigo, voltei pedalando para em casa.

Foram dias incríveis que deixaram uma certeza: em breve voltaremos!

 

Resumo:

Custos de camping: 260 pesos por dia

Ônibus Colonia x Montevideu: 700 pesos (ida e volta)

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Observações, dicas e truques:

–  O gasto médio diário com alimentação, ficou na casa dos 300 pesos, sendo que em mais de 80% das vezes, fizemos nossas refeições nos acampamentos.

–  Poderíamos ter feio pelo menos dois acampamentos selvagens: em Playa Del Plata e na Laguna Negra.

– Trocar moeda não é problema, em quase todos os lugares é aceito dólar e Real, é preciso apenas estar atento ao câmbio para não sair perdendo. No nosso caso, compramos pesos no Chuy.

– O transporte das bicicletas nos ônibus no Uruguay é bastante tranqüilo, só aqui no Brasil que para evitar dor de cabeça, fizemos uso dos malabikes.

– Para chegar em Montevidéu de boa, é recomendável escolher um domingo para não passar perrengue na via expressa.

– Os motoristas uruguaios são extremamente cuidadosos e cordiais, e quanto as estradas, tanto de asfalto como de terra, estão sempre em ótimas condições. Rodamos 420 quilômetros sem estres. O Uruguay é um paraíso para ciclo turismo.

Duvidas?

Entre em contato que terei o maior prazer em esclarecer.

Realização:

Trupe Adventure Suricatos Hiperativos

“Nossa zona de conforto é selvagem”

Este relato é dividido em 2 partes, para ver  mais acesse:

Ciclotour Punta del Este até Colonia del Sacramento parte 1

Travessia Lapinha X Tabuleiro, Serra do Espinhaço – MG

Já faz alguns meses, que em um certo dia comum como outro qualquer, ao entrar no meu Facebook me deparei com a publicação de uma música em uma das páginas relacionadas a esportes de aventura e travessia que eu sigo. Como sou um cara que curte muito música, fiquei curioso para saber o que dizia aquele post “meio” fora de contexto. A música era “Canto pras Travessias” do até então, para mim desconhecido Bernardo do Espinhaço. Comecei a assistir o vídeo, aquela torrente de sons e imagens mexeram comigo de uma forma que não tive muita escolha, fui obrigado a pesquisar essa tal de Lapinha x Tabuleiro que em um dado momento era citada na belíssima letra, e quanto mais descobria maior era o inexorável desejo de arrumar tempo e de alguma forma fazer essa travessia. E foi o que eu fiz, pois como diz o ditado: “Quem quer, dá um jeito”.

Depois de muita pesquisa, peguei algumas informações importantes, com o agora meu amigo Bernardo, comecei a montar meu roteiro, escolher o melhor equipamento, ver o clima da região e etc… Confesso que fiquei tão obstinado por fazer essa travessia de maneira solitária que nem avisei o pessoal do pequeno grupo de trekking que faço parte até que estivesse com tudo pronto, ou seja, passagens compradas e o “plano de voo” estabelecido.

Algo em meu íntimo, como que um instinto primitivo, dizia para fazer a travessia solo, numa “vibe” intimista e porque não dizer transcendental e ao realizar a travessia, percebi que essa “voz interior” estava certa. Então, depois desta rápida introdução, senta que lá vem história.

Prelúdio para a Travessia:

“Controle é uma ilusão”

Nesse instante em que começo a organizar em minha mente de maneira lógica o relato, a primeira coisa que vem a cabeça é aquela frase que sentencia perfeitamente o sentimento ao recordar: “controle é uma ilusão”.
Por mais que você pesquise, planeje e organize algo, às vezes você será surpreendido por fatos, coisas ou pessoas que irão simplesmente jogar por terra tudo o que você estabeleceu no seu plano. Isso pode ser trágico ou cômico, se é que você me entende.

Digo isto, pois logo de início, tive alguns problemas que provocaram um atraso de um dia no início da travessia, começando ainda em Porto Alegre, com o aeroporto fechado na hora da partida do meu voo, depois a perda da conexão, o cancelamento de outro voo, atraso e mais atraso para chegar a capital Belo Horizonte/MG – Brasil, de onde sairia o ônibus para Santana do Riacho, que tendo apenas dois horários de partida, acabei perdendo-o. Todo esse efeito dominó fez com que eu fosse obrigado a pernoitar em BH (Belo Horizonte) na casa de uma amiga e partir somente no dia seguinte cedo da manhã.

No dia seguinte, acordei muito cedo, para falar a verdade dormi muito bem, de alguma forma que não sei explicar, estava muito tranqüilo apesar do tropeço inicial, peguei um táxi e fui para a rodoviária de BH, de onde às 7 horas e 30 minutos partiria o ônibus que me deixaria muito próximo do meu “primeiro ponto”.

Depois de mais de 3 horas de estrada, subindo a serra e parando várias vezes, cheguei finalmente em Santana do Riacho, ponto final do ônibus mas ainda distante cerca de 10 quilômetros da Lapinha.

Ao chegar em Santana do Riacho, dia de domingo, quase na hora do almoço, cidade quase deserta, fui confirmar com o cobrador do ônibus onde eu pegava o outro ônibus para a Lapinha pois eu tinha a informação de que haviam alguns horários em alguns dias da semana e no caso do domingo também. Mais uma surpresa! Segundo o cobrador, já tinha alguns anos que não havia mais a linha Santana do Riacho x Lapinha da Serra, o rapaz ainda tentou um contato com um moto táxi que me levasse até a Lapinha, mas no domingo ao meio dia era difícil achar algum transporte.

Pensei bastante e decidi fazer com minhas próprias pernas o mesmo trecho, passei em um mercado, comprei 2 litros de água, liguei o GPS e pedi gentilmente que ele me indicasse o caminho, sendo que durante o início da caminhada, sempre que eu encontrava com alguém, perguntava de táxi ou carona mas sempre sem sucesso, até que num dado momento, já saindo da cidade, parei para falar com rapaz que se prontificou, mediante um acerto financeiro me levar até lá. Negociamos um desconto e fomos até Lapinha, onde finalmente cheguei por volta das 14 horas, sendo que fui direto ao camping que tinha em vista.

Agora sim! Acampamento montado, fiz um rápido almoço descansei um pouco e sem muita demora aproveitei o belo final de tarde para dar uma volta até o lago e poder sentir a paz e tranquilidade do lugar.

Travessia Lapinha X Tabuleiro - Serra do Espinhaço
Lago nos arredores da Lapinha

Depois do belo passeio, voltei ao camping, tratei de tomar um banho e logo que escureceu, fui fazer a minha janta, neste instante. Escrevendo aqui, volto a lembrar da frase “controle é uma ilusão”, pois enquanto eu estava na cozinha do camping jantando e conversando com dois aventureiros que conheci, mal sabia eu que, no mesmo momento, parte daquilo que seria meu café da manhã, estava sendo roubado de dentro do avanço da minha barraca por uma quadrilha de quatro patas. Dei mole para alguns meliantes que roubaram meu pote de leite em pó. É mole?

Travessia Lapinha X Tabuleiro - Serra do Espinhaço
Um dos meliantes que saquearam minha comida! kkk

Bom, diante da perda irremediável, tratei de pensar no plano B para o café da manhã, e a solução seria fazer o mingau de aveia, que deveria ter leite, agora numa versão improvisada e extra light com água. Tudo bem, eu pensei, vai que fica bom!

Fui dormir relativamente cedo para descansar bem, pois queria acordar às 6 horas para tomar café, desmontar o acampamento e organizar tudo na mochila com tranquilidade e colocar o pé na trilha às 8 horas.

Primeiro dia:

Conforme determinei para mim mesmo, levantei com o dia ainda um pouco escuro, às 6 horas da manhã, não estava tão frio quanto no meio da madrugada onde senti um pouco a temperatura baixa. Sem dar chance para a preguiça, de imediato saí do saco de dormir e fui fazer meu café com mingau de aveia com água e logo em seguida desmontei a barraca e guardei todas as tralhas na mochila cargueira. Não sei exatamente se foi o foco na missão ou a falta de parceria, mas ao contrário de outras, consegui sair até antes do previsto que era às 7 horas e 40 minutos.

O dia estava meio estranho, um vento forte de leste para oeste, sendo que o leste aparentava estar bastante fechado, enquanto ao olhar para oeste, o tempo estava limpo, fiquei atento a este detalhe importante, pois inicialmente pretendia fazer a travessia via Pico da Lapinha e Pico do Breu, este último o ponto mais alto de toda a região. Na medida em que fui seguindo o caminho apontado pelo GPS, parecia que o vento não só ficava mais forte como trazia uma nebulosidade baixa e úmida, que em alguns momentos parecia um chuvisqueiro bastante fino e escondia o topo da serra. Por conta disto, resolvi ir bem devagar para tentar entender o clima, se o tempo ficaria bom ou não, mas na medida em que começava a subida, a coisa não deu nenhum sinal de melhora e por estar sabendo que a subida até o Breu possui alguns trechos que exigem atenção devido a muitas pedras soltas, bem como o grau de inclinação, tomei a decisão de não seguir por aquele caminho, foi um tanto frustrante, mas a possibilidade de ter que encarar aquela subida com chuva e sozinho parecia um risco que não valia a pena ser corrido. Nesse momento dei meia volta, desci até perto do lago, e mudei o tracklog do GPS para a trilha tradicional, mais fácil e sem dúvida mais segura.

Em pouco mais de uma hora já estava percorrendo o caminho, sempre montanha acima, apreciando a paisagem que no oeste era um dia lindo e a leste o oposto com céu fechado e muita neblina, além é claro do vento que não dava folga nenhuma.

Meu plano era ir até a Prainha e montar um acampamento selvagem por lá para passar a noite, pois quando pesquisava sobre a travessia, vi em alguns relatos que algumas pessoas acamparam por lá, pois o lugar é lindo e existe água em abundância. Depois de muita subida e pegar uma descida num campo aberto onde, cheguei a pegar um chuvisqueiro, por volta das 11 horas e 30 minutos, cheguei ao que deveria ser meu destino final para aquele dia, mas ao cruzar uma cerca com uma porteira, me deparei com uma placa que proibia acampamento no local e assim sendo, como manda a boa prática, resolvi abortar a ideia. Fiquei ali algum tempo descansando e curtindo o visual, até este instante não havia visto ninguém na trilha, até que escutei vozes ao longe e depois de alguns minutos encontrei com uma dupla do outro lado do rio que me perguntaram onde dava para atravessar. Como eu também não sabia, fui procurar o ponto mais raso, e parecia que em todos os lugares, seria necessário tirar as botas para cruzar com água na altura das canelas ou um pouco mais, porém ao adentrar no mato que existe na trilha, apareceu uma espécie de barragem natural onde dava para passar tranquilamente sem ter que tirar as botas. Logo que atravessei, parei um pouco para conversar com os rapazes que estavam voltando, pois tentaram fazer a travessia em dois dias, mas por conta do peso das mochilas, e também por terem deixado o carro na Lapinha não teriam tempo suficiente para tanto. Foi o que eu entendi. Nos despedimos e seguimos nossos caminhos opostos.

Com mais uma hora e meia de caminhada, depois de pegar um chuvisqueiro, abriu o sol e cheguei na casa da dona Ana Benta, onde seria minha primeira pernoite. Era quase uma hora da tarde, e logo fui recepcionado por um cachorrinho, a casa estava meio aberta, bati palmas, gritei mas ninguém apareceu, fiquei um tempo ali, quando de repente chegou de moto o Lucas, que é sobrinho da falecida Dna. Ana Benta. É ele quem agora cuida da casa, da pequena horta e de alguns animais, mas tem dias que ele fica na cidade, deixando a casa fechada com um aviso que autoriza as pessoas a usarem uma área coberta e um banheiro atrás da casa durante as paradas para acampar ali.

Travessia Lapinha X Tabuleiro - Serra do Espinhaço
Casa de Dona Ana Benta

Sem muita demora, tratei de fazer um lanche rápido e começar o ritual de montagem do meu acampamento num gramadinho muito bom na frente da casa, por conta disto, resolvi também dar uma relaxada, escutando uma musiquinha é o cair da tarde quando decidi ir tomar banho e trocar de roupa. Na casa, existe uma caldeira que aquece a água do chuveiro e quem faz travessia sabe que banho quente no meio da trilha é um luxo que não se dispensa, foi bom demais, pois como era apenas eu, não havia a preocupação de não exceder em 5 minutos o tempo, coisa que deve ser observada quando tem mais gente acampada, pois a caldeira é pequena e se alguém fica muito tempo no banho, o próximo pode ter que encarar a água fria.

Anoiteceu rápido e surpreendentemente o vento havia parado e o céu estava limpíssimo e muito estrelado proporcionando um espetáculo a mais.

Depois de curtir o céu estrelado, fui fazer minha janta e conversar um pouco com o Lucas. Depois de muito papo, ele se recolheu e eu fui dar jeito de lavar meus utensílios de cozinha. Foi neste instante que algo aconteceu. Lembra do inicio do relato? Aquela parada de que não temos o controle da situação? E você lembra que citei cachorros?

Enquanto eu lavava minhas coisas, aquele “ser humaninho” lazarento de quatro patas, simplesmente subiu na mesa da área e sem cerimônia, levou uma sacola com dois, sim, eu disse dois pacotes de lingüiça que eram digamos assim, 90% de toda a proteína que eu tinha. Pronto! Agora, além da aveia com água, minhas refeições seriam basicamente arroz liofilizado com purê de batata também liofilizado, não fosse por uma única lata de atum que nesse instante comecei a guardar como a jóia da coroa, só rindo mesmo. Vacilei duas vezes para os saqueadores de quatro patas da Lapinha x Tabuleiro!

Depois desta, fui dormir.

Resumo do primeiro dia:

Distância percorrida: 12,3 quilômetros
Acumulo de subida: 620 metros
Acumulo de descida: 400 metros

Segundo dia:

Sabendo que este dia teria uma caminhada curta até o próximo ponto de apoio, coloquei o despertador para às 7 horas e sem muita pressa, fui tomar meu café da manhã com mingau extra light. Depois de desmontar todo o acampamento sem pressa, coloquei o pé na trilha novamente, pouco antes das 9 horas da manhã e mais uma vez o dia amanhecera com céu fechado e muita neblina que em vários instantes virava um chuvisqueiro, mas nada de mais, apenas coloquei minha jaqueta anorak e segui em frente.

A trilha segue muito tranquila, praticamente sem grandes desníveis, apenas em um trecho ou outro que eu me deparava com alguma subida ou descida, o que exigia um pouco mais de atenção era apenas a navegação por conta da neblina que deixava o horizonte oculto na bruma.

Como estimei, em menos de 3 horas já estava chegando na casa da Dona Maria, onde fui muito bem recebido pela própria dona Maria que me deixou muito a vontade, para escolher qualquer lugar para montar minha barraca.

Travessia Lapinha X Tabuleiro - Serra do Espinhaço
Casa de Dona Maria

Com o acampamento montado, tratei de fazer um almoço rápido pois como havia chegado cedo, tive a ideia de fazer a trilha da cachoeira do Tabuleiro na tarde, indo apenas com a mochila de ataque, mas mais uma vez fui surpreendido, aquela neblina com chuvisqueiro simplesmente se transformou numa chuva fraca que foi gradualmente aumentando, foi só o tempo de almoçar, limpar o equipamento de cozinha e cair dentro da barraca, e de pronto a chuva mostrou para que veio e assim foi até início da madrugada. Simplesmente não saí mais da barraca, fiz o jantar e fiquei escutando música até pegar no sono. Não reclamei da chuva embora ela tivesse forçado a mudança de plano, pois ainda que um pouco forte em alguns momentos, não tinha muito vento, e o barulho dela era como música para dormir. Relaxei e aproveitei o momento e uma ótima noite de sono.

Resumo do segundo dia:

Distância percorrida: 9 quilômetros
Acumulo de subida: 340 metros
Acumulo de descida: 350 metros

Terceiro Dia:

Acordei 6 horas da manhã, coloquei a cara para fora da barraca para ver o tempo e mais uma vez o dia estava bastante fechado e um pouco mais frio, o lado bom era que a chuva tinha parado e não havia praticamente nada de vento. A exemplo do jantar da noite anterior que foi abaixo de chuva, fiz meu café da manhã no avanço da barraca pois tudo estava molhado lá do lado de fora e tão logo terminei de comer, saí da toca para esticar o esqueleto, lavar a bagunça da cozinha e mais importante de tudo, tentar fazer uma previsão do tempo pois tinha que ir de qualquer maneira na cachoeira.

O céu embora fechado não mostrava cara de chuva e então decidi fazer o ataque até a cachoeira, mas antes, tratei de organizar e guardar todo o equipamento na cargueira com exceção da barraca que estava molhada ainda… Deixei-a montada com a cargueira dentro na esperança de na volta estar seca e poder guardar sem o inconveniente do sobre teto molhado.

A trilha até a cachoeira é uma descida bastante aberta com predomínio de campos rupestres e rochas. No decorrer da caminhada, o tempo foi melhorando, não chegando ao ponto de abrir sol entre as nuvens, mas ao menos a chuva e a neblina tinham ido embora, graças a Deus, pois meu medo era justamente não ter visibilidade por conta da neblina e perder o ponto alto do espetáculo da travessia que é a cachoeira do Tabuleiro e sua queda de 273 metros de altura.

Travessia Lapinha X Tabuleiro - Serra do Espinhaço
Céu fechado no caminho para a cachoeira

Na medida em que se vai caminhando, o penhasco do parque começa a aparecer e logo se escuta o som da água, mas ainda não é a nossa estrela principal, é apenas o rio Santo Antônio e suas pequenas quedas que correm na direção de um mini cânion que termina na queda de 273 metros.

Travessia Lapinha X Tabuleiro - Serra do Espinhaço
Dentro do cânion que termina na queda da cachoeira.

O cânion em si já é um espetáculo que vale toda a caminhada, e ao passo que avanço, seguindo o curso da água, após uma curva, dá para ver um horizonte mais distante que sugere estar perto daquilo que vim buscar. Após caminhar mais ou menos uns 500 metros dentro do cânion, cruzando de uma margem para a outra, buscando o melhor caminho, finalmente chegamos ao topo da gigantesca cachoeira do Tabuleiro. Um visual de beleza ímpar que faz o coração disparar por conta da adrenalina que dá ao se aproximar da borda e olhar para baixo. É fantástico mesmo. Mas não se engane, não estamos num parquinho de diversão, é preciso muita atenção e cuidado nesse trecho de aproximação da cachoeira devido ao terreno acidentado e por vezes escorregadio. Qualquer descuido pode ter consequências perigosas e um resgate ali, pode demorar muito ou, no meu caso sozinho, nem chegar. Todo o cuidado não é exagero.

Travessia Lapinha X Tabuleiro - Serra do Espinhaço
A queda de 273 metros!

Depois do êxtase do encontro com tamanha beleza, é hora de voltar, e tudo que desce, tem que subir. Sendo assim, tratei de tomar bastante água, fazer um lanche para recarregar minha bateria e começar o retorno por praticamente o mesmo caminho.

Depois foi cerca de 4 horas e meia e mais de 12 quilômetros, voltei ao acampamento, e como previsto, o vento se encarregou de secar minha barraca. Então pensei rápido e defini que não almoçaria ali, e tocaria direto para a Sede do parque, o que daria mais uma hora e meia ou duas horas de caminhada agora só morro abaixo o tempo todo.
Na medida em que se vai descendo a trilha, é possível ver de longe a cachoeira do lado direito e em frente o povoado do Tabuleiro, suas casas e a bela igrejinha no alto. E quando menos se espera a Sede do parque já está diante dos olhos, indicando que o final da travessia se aproxima e sem muita demora estamos lá.

Chegando à Sede, fui direto conversar com um dos monitores que me recebeu com muita atenção e cordialidade. E após juntar algumas informações importantes, sobre comida e principalmente sobre transporte para Conceição do Mato Dentro, distantes 19 quilômetros, ao invés de pernoitar ali no camping do parque, decidi ir para o povoado e procurar o hostel que fica bem na saída para a cidade, o que facilitaria uma carona ou pegar o ônibus.

Resumo do terceiro dia:

Distância percorrida: 18,5 quilômetros
Acumulo de subida: 690 metros
Acumulo de descida: 1160 metros

Terminada a travessia, tive que caminhar pouco mais de 3 km até o hostel, passando pelo centro do povoado do Tabuleiro, onde já tratei de localizar um mercado e poder repor minhas provisões que foram saqueadas pelos meliantes de quatro patas da travessia.

Considerações finais:

Apesar de ter pegado um tempo não muito bom, pude apreciar muito da beleza da travessia e sentir intensamente a energia boa daquele lugar criado por Deus.

Foram muitos momentos de contemplação e introspecção que se deram de forma simultâneas, gerando uma torrente de sensações e pensamentos que diante de tanta beleza invadiam o meu íntimo a partir do momento em que me desconectei de tudo e foquei meu coração e minha mente apenas naqueles momentos. Foi para mim, uma experiência que transcendeu o âmbito de uma aventura outdoor simplesmente, e era exatamente isto que eu estava buscando ali.

Ao fazer a travessia em dias de semana, praticamente não cruzei com quase ninguém, apenas um par de pessoas por dia, sendo que no último dia, só fui falar com alguém só na sede do parque.

Tecnicamente falando, não é uma travessia que exige um esforço físico demasiado, podemos considerar fácil neste aspecto, mas por outro lado, a navegação exige muita atenção ainda mais se o tempo estiver fechado com neblina.

Diria que é uma travessia de grau de dificuldade moderado.

Com certeza irei voltar um dia novamente!

Dicas e informações úteis:

Melhor época:

Outono e inverno, pela baixa quantidade de chuvas.

Como chegar:

De Belo Horizonte para Lapinha da Serra.

Ônibus para Santana do Riacho:

Diariamente: às 7:30 e às 15:30;
Valor da passagem em julho/2016: R$ 40,30 reais;
Empresa: Saritur.

Táxi de Santana do Riacho para Lapinha: R$ 70,00 reais;

Aqui cabe salientar que não existe táxi oficial, o negócio é perguntar na praça quem pode levar, ou se não quiser gastar, ir para a estradinha e tentar a sorte com uma carona.

Do Tabuleiro para Belo Horizonte

Ônibus para Conceição do Mato Dentro:

Segundas, quartas e sextas: horário 8:00 horas;
Valor da passagem em julho/2016: R$ 6,00 reais;

Ônibus de Conceição do Mato Dentro para Belo Horizonte:

Vários horários, mas o que melhor se encaixa com o ônibus que vem do Tabuleiro é o do horário das 09h30min.
Valor da passagem em julho/2016: R$ 54,55 reais;
Empresa: Serro.

Hospedagem:

Existem muitas opções de hospedagem, tanto na Lapinha como no Tabuleiro, desde campings até pousadas mais sofisticadas;

Na Lapinha, fiquei no Camping das Bromélias, local bem estruturado com boas duchas e uma cozinha coletiva igualmente boa;

Valor de R$ 20,00 reais;

No Tabuleiro, fui direto para o Tabuleiro Eco Hostel, onde fiquei com um quarto coletivo só para mim pelo fato de ser dia de semana;

Além de quartos coletivos bastante confortáveis, possui suítes e uma bela área de camping;

Tirando a cozinha coletiva que achei “fraquinha”, o resto está dentro do que se espera, com um atendimento muito atencioso e um belo café da manhã;

Valor de R$ 60,00 reais (quarto coletivo com café da manhã).

Galeria de fotos da travessia:

Travessia Lapinha X Tabuleiro - Serra do Espinhaço Travessia Lapinha X Tabuleiro - Serra do Espinhaço

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Trekking Torres del Paine nos circuitos W+O

Trekking no Parque Nacional Torres del Paine – Circuito Completo (W+O)

Primeiro dia:

Portaria Laguna Amarga até Camping Seron.

O dia começou cedo com uma trip de ônibus de pouco mais de 4 horas, partindo de Puerto Natales até a portaria do parque na Laguna Amarga. Fizemos nosso registro, pagamos as taxas, assistimos uma rápida palestra, que nos informou de tudo o que poderíamos e não poderíamos fazer no parque. Cabe um alerta aqui: a fiscalização é extremamente rigorosa com quem vacilar. São restrições quanto a locais de acampamento e mais importante que isto, quanto ao uso do fogo.

Cumprindo o rito necessário, estávamos liberados, eu e o Filipe, para começar nossa jornada de 8 dias pelo circuito completo.

Andamos uns 500 metros, se não estou errado e chegamos em uma ponte que eu apelidei de “a ponte mágica” pois é nela que aparentemente a coisa começa verdadeiramente.

Primeiro dia começamos com todo o gás e com as mochilas igualmente com todo o gás, ou melhor, com todo o peso..kkk… O tempo ajudou bastante, tinha um sol e a temperatura estava agradável.

Neste dia a trilha é bem tranquila com poucas subidas e um visual alucinante do Rio Paine sempre nos acompanhando ao lado.

Com pouco mais de 6 horas de trekking, algumas paradas para lanche e para curtir o visual, chegamos ao Camping Seron que estava bem vazio. Montamos acampamento e tratamos de jantar e  por volta das 22 h e 30 min com luz ainda, caímos para dentro da barraca.

Os dias na Patagônia durante o verão são muito longos e isto é um fator favorável para o trekkking. Pode-se estender o dia e ficar despreocupado com problemas relativos tais como o trekking noturno. Neste dia andamos  17 quilômetros.

Segundo dia:

Camping Seron até Refúgio Dickson

Começamos a caminhada por volta das 9 h e 30 min, após uma noite de ventos fortes que atrapalharam um pouco o sono. Por volta das 12 h e 30 min chegamos em um refúgio de Guarda Parques, onde fomos autorizados a cozinhar (é proibido fazer qualquer tipo de fogo na trilha e isto inclui fogareiros). Depois de ter cozinhado os alimentos, ficamos ali descansando e trocando algumas ideias com o guarda parque, gente finíssima e por volta das 14 horas, colocamos os pés na trilha novamente e mantivemos até às 17 h e 30 min, quando chegamos no Dickson.

Neste dia andamos 19 quilômetros.

Terceiro dia:

Refúgio Dickson até Camping Los Perros

Depois de uma noite mais tranquila por conta de estarmos melhores abrigados do vento,  sem pressa, começamos o trekking por volta das 10 h e 30 min, pois sabíamos que a distância era menor, tendo apenas uma subida constante que no final do dia, um aclive de 150 até 550 metros acima do nível do mar. Bem tranquilo, chegamos a Los Peros um pouco depois das 16 horas. Neste dia não paramos para almoço, apenas fomos beliscando algumas guloseimas e dando pequenas pausas de descanso.

Neste dia andamos 13 quilômetros.

Quarto dia:

O quarto dia! Esse sim, considerado o mais difícil e de fato foi assim.

Estávamos cientes que este seria o dia mais cascudo e por conta disto começamos mais cedo,  pouco depois das 8:30 já estávamos a caminho do topo do Paso John Gardner que fica a uma altitude de 1200 metros. Foram quase 5 quilômetros só de subida, primeiro num bosque e logo em seguida a paisagem foi mudando. Começou a aparecer neve entre as árvores e depois somem as árvores e o que se tem é apenas uma montanha com muita pedra solta, neve e vento forte. Demoramos cerca de quatro horas para alcanças o topo e avistar pela primeira vez o fantástico Glaciar Grey.

Quando você pensa que o pior já passou, vem a interminável descida, sempre acompanhada de ventos impetuosos que nem sempre sopram na mesma direção, fato este, que exige sempre muita atenção para não ser arremessado para algum lugar perigoso.

Por volta das 14 horas, chegamos finalmente no Camping Paso, que não era nosso destino final. Paramos ali apenas para almoçar e um descanso de pouco mais de uma hora. Neste ponto, por conta da falta de bastões de caminhada, meu joelho direito já estava detonado e só foi piorando até o final da trilha que neste dia só terminou às 19 h e 30 min. É como se diz aqui no Rio Grande do Sul: cheguei na “capa da gaita”, mas cheguei. Kkkk Ver o Refúgio Grey foi uma felicidade só, depois de tudo que passamos.

Tirando o perrengue, este é um dos dias de visuais mais alucinantes por conta do Paso John Gardner e do Glaciar Grey, sempre nos acompanhando do lado direito. No Refúgio Grey, começamos  o caminho W do circuito, já conseguimos ver bem mais pessoas nas trilhas e nos pontos de parada.

Distância percorrida:  16 quilômetros, com um acumulo de subida de 1.450 metros e um acumulo de descida de 1.920 metros.

Quinto dia:

Refúgio Grey até Acampamento Italiano

Já refeitos, graças ao bom Deus, desmontamos o acampamento, tomamos um café reforçado e colocamos os pés na trilha novamente. Passava das 8 h e 30 min quando começamos a caminhada e andamos tranquilamente até o Refúgio Paine Grande, onde paramos para almoçar e descansar um pouco.

Seguindo em frente, devagar e bem tranquilos, pois a trilha tem poucas variações de aclive e declive, embora ela seja longa. Chegamos ao nosso destino quase 20 h e 30 min ainda com o céu claro.

Distância percorrida:  19 quilômetros.

Sexto dia:

Acampamento Italiano até Refúgio Los Cuernos

O sexto dia começa com um ataque até o mirante Britânico, passando pelo Vale Del francês.  Cerca de 3 horas de caminhada para subir, é um bate e volta. Por isso, deixamos todo nossos equipamentos no Camping Italiano e subimos apenas com uma pequena mochila com lanche e água. Nesta brincadeira subimos e descemos  800 metros em pouco mais de 11 quilômetros no total. Tanto a trilha do vale como do mirante são muito lindas e valem as 6 horas deste bate e volta.

Chegando de volta ao Camping Italiano, tratamos de almoçar e colocar os pés na trilha para completar o dia, chegarmos ao nosso destino final: o Refúgio Los Cuernos, distante 5.5 quilômetros do Italiano.

Este dia, ou melhor, esta noite,  quando chegamos no Los Cuernos, devido a lotação com acampamento, nós tivemos muita dificuldade de encontrar um local legal para acampar. Depois de muita procura, encontramos um lugar aparentemente ruim, numa baixada dentro de um pequeno bosque e bem ao lado de uma montanha de galhos de árvores que foram podados. Coisa do destino ou a mão de Deus, como gosto de dizer, foi a nossa sorte, pois nessa noite rolou um vento monstruoso e quase que o tempo todo. Quando foi pela manhã, ao irmos fazer o nosso café no refúgio,  ficamos sabendo que a galera que estava acampada no lugar “bom” tinha passado pelo maior perrengue. Era barraca voando, vareta quebrando e muitos tiveram que correr para o refúgio no meio da noite e ficar por ali amontoados no chão. Ainda bem que não choveu e nem rolou neve.

Distância percorrida:  16.5 quilômetros.

Sétimo dia:

Refúgio Los Cuernos até Acampamento Torres

Neste dia, lembro de ter acordado com uma dor no coração por saber que a nossa aventura estava se encaminhando para o seu final. Enrolamos um monte para sair e começamos nossa jornada às 11 horas da manhã.

A trilha é longa e como de costume, tudo é muito lindo e selvagem, uma subida constante que começa suave e vai ficando mais complicada, a medida que vamos nos aproximando do Acampamento Chileno, onde paramos para almoçar e depois seguimos em frente até o objetivo final: Acampamento Torres, onde chegamos por volta das 20 h e 30 min.

Esse camping é, para mim, o mais “roots” numa atmosfera meio hippie. Pouca estrutura e os guarda parques tinham outra “vibe”, se é que dá para entender, não que fosse um acampamento de doidão, nada disto. Era o astral da galera mesmo. Foi o lugar que mais curti neste sentido.

A distância percorrida neste dia foi 17.3 quilômetros e um acumulo de subida de 1.350 metros aproximadamente.

Oitavo dia:

Acampamento Torres até Hotel Las Torres

O último dia começou com tempo fechado e uma chuvinha fina, fato que me desmotivou de subir até o mirante das Torres.  Fiquei pelo acampamento, algo me dizia que não valeria a pena ir até lá. O meu brother de indiada Filipe, resolveu arriscar e deu com os burros na água. De fato, estava fechado e não deu para ver nada das torres.

Desmontamos o acampamento, tomamos um café reforçado e demos início a nossa derradeira ladeira abaixo, e em pouco mais de 3 horas completamos o trilha até nosso destino final que era a luxuosa Hosteria las Torres, local de onde pegaríamos um ônibus de volta para Puerto Natales.

Distância percorrida: 8 quilômetros.

Considerações finais:

O circuito completo (W+O) é realmente algo fantástico em todos os sentidos. Foram cerca de 110 quilômetros com vistas únicas. Sem sombra de dúvidas o circuito Torres del Paine é a Meca do trekking na América do Sul, tinha gente de todos os lugares do mundo, e isto também é uma experiência interessante.

O clima é uma incógnita sempre. Num mesmo dia pode rolar de tudo mesmo. A única constante mesmo é o vento, sempre forte a muito forte…kkkk

Vou ter que voltar lá um dia qualquer, pois não consegui ver as Torres em virtude do tempo ruim. Alguém topa? Hahaha

Dicas:

Indispensável levar bastões de caminhada. Passei perrengue por falta deles.

Dentro do parque tudo que você for comprar é muito caro, portanto, é recomendado um bom planejamento do que diz respeito às refeições.  Levamos alimentos liofilizados, frutas desidratadas, castanhas do Pará, aveia em flocos, leite em pó, café e suco Tang. Essa foi a base de nossa alimentação. Tudo pensado para diminuir o máximo o peso da mochila cargueira.

Fizemos em oito dias, mas vou dizer que é bom ter mais um ou dois dias para poder aproveitar melhor a viagem, fazendo mais paradas, ou ainda, no caso da trilha estar fechada por mau tempo, não correr o risco de perder voo e assim por diante.

Veja todas as fotos desse trekking em Torres del Paine nos circuitos W+O:

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