Ausangate e o Circuito de Trekking Acima dos 4.000 Metros de Altitude

Ausangate e o Circuito de Trekking Acima dos 4.000 Metros de Altitude

Em algum lugar, alguma coisa incrível está esperando para ser conhecida. Carl Sagan

O Nevado Ausangate é um pico da Cordilheira Vilcanota, subcordilheira dos Andes, localizado no Distrito de Ocongate, Província de Quispichanchi, região de Cusco. Quarta maior montanha do Peru, com 6.384 metros de altitude, seu nome em quechua significa “cobre” e é considerada sagrada pelos locais, sendo um dos centros de peregrinação mais procurado pelos descendentes Incas. O trekking de 80km que circunda Ausangate é um dos principais atrativos, passando por campos rupestres de altitude e pastoreio de llamas, alpacas e ovelhas, pacatos vilarejos, belíssimas lagunas e distintas formações rochosas, gelo e “passos” de montanha com mais de 5.000 metros de altitude.

Minha história com Ausangate começou em agosto de 2014, quando recebi o convite de meu grande amigo Peter Tofte (editor do site, morador de Salvador) para me juntar ao grupo composto por Renato (de Goiás), Adriano, Fábio e Andrea (de Brasília) e Luciano (de São Paulo). A altitude foi um fator preocupante – visto que o trekking ocorre entre 4.300 e 5.200 metros sobre o nível do mar – pois até então não saberia como meu corpo reagiria; enfim, topei de momento o convite, já que as montanhas do Peru permeavam meus sonhos há tempos! Comprei alguns equipamentos para suportar o frio e aguardei ansiosamente a aventura! Altitude exige uma boa aclimatação, portanto precisaria de alguns dias livres em Cusco e, por que não conhecer Machu Picchu? Chegamos em Cusco no dia 25 de maio e Daiane, minha dona onça, me acompanhou por 7 dias pelas misteriosas ruínas e destinos históricos do que fora a civilização Inca. Visitamos sítios arqueológicos, museus, artesanias, mercados, centros tradicionalistas e claro, Machu Picchu, que já estava há tempos em nossos planos! Quanta magia! E Cusco? Que cidade! Foi uma experiência magnífica, ao lado de uma pessoa maravilhosa!

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Peter, Luciano, Fábio e Andrea aclimataram num pequeno roteiro de trekking em Lares. Renato e Adriano aclimataram pelos arredores de Cusco e Machu Picchu e nos fizeram uma visita pra lá de divertida no hotel em Aguas Calientes. Peter ficou responsável pela contratação do guia. Cirilo Gonzalo Huaman, um dos mais bem cotados no Best Hike é guia independente e providenciou arrieros, cavalos, tenda para a cozinha e transporte para o início / final do trekking, assim sairíamos todos juntos e teríamos mais privacidade e conforto durante os traslados. O valor cobrado para 6 dias / 5 noites foi de USD210 por pessoa – algumas agências em Cusco cobram três vezes mais! – Cirilo era guia / cozinheiro de agências, porém explorado em demasia, decidiu tornar-se independente. Seu e-mail:cigohotrek@hotmail.com. Optamos por levar e cozinhar nosso próprio alimento já que Peter e Renato não tiveram uma boa experiência no trekking que fizeram em Huayhuash, devido à péssima higiene dos guias no preparo dos alimentos.

Era chegada a hora! Daiane conheceu Peter e parte do pessoal e em meio à emoção e euforia, nos despedimos na manhã do dia 30 de maio. Por coincidência, seu voo para o Brasil sairia há poucas horas. A saudade bateu forte! Peter, Fábio e Andrea já estavam na van, juntamente com o guia Cirilo e Yatir, um israelense super gente boa que se juntou ao grupo em última hora. Pegamos Renato, Adriano e Luciano e partimos para Tinqui, pequeno vilarejo há 150km sentido sudeste de Cusco. No caminho paramos para comprar brinquedos para as crianças locais, uma pequena recordação para aqueles que mal conhecem as necessidades básicas da vida. Estrada sinuosa! Na metade do caminho, paramos para contemplar a cadeia de montanhas de Vilcanota. Chegamos em Tinqui e aproveitamos para almoçar um saboroso e gigantesco prato de massa misturado com pedaços de carne, cebola e tomate. Caminhamos pelas ruelas, visitamos os mercadinhos locais e acertamos os últimos detalhes para a pernada. Tinqui é excelente para aclimatação, pois está nos 4.100 metros de altitude. Dividi o quarto com Luciano e até que dormi bem para os padrões do hostel. Noite barulhenta! Na manhã seguinte, Cirilo nos apresentou à equipe que nos guiaria pelos próximos dias: seu irmão Alejandro, seu tio Pascoal e seu sobrinho Elvis.

TINQUI – UPIS

Tinqui estava em polvorosa devido ao Festival do Señor de Qoyllur Riti que antecede Corpus Christi. O mercado de abastos instalado na praça central estava agitado. Compramos algumas folhas de coca, nos registramos no posto de controle – pagamos a taxa de 10 soles para adentar ao parque – e seguimos rumo à Upis por estrada de terra, geralmente ladeira acima. Foi colocar o pé na estrada para perceber o quanto a altitude castiga o corpo! Simplesmente não há oxigênio! O coração sobe à boca, aumentam as palpitações e a fadiga começa a tomar conta, ainda mais com mochila pesada nas costas! Depois de encontrar um bom ritmo, você consegue lidar bem com a redução de oxigênio, mas dificilmente vai se acostumar com isso! Regra básica: não forçar nos primeiros dias! Adriano e Yatir estavam em boa forma e conseguiam acompanhar o guia Cirilo sem maiores problemas. Andrea distribuiu alguns regalos para as criancinhas e durante o trajeto, o imponente Ausangate já dominava a paisagem. Caminhamos por umas 3 horas, deixando para trás uns 10km de chão, passamos por casas nativas, campinas de criação de llamas e ovelhas, plantações de batatas e chegamos na casa de Cirilo para a primeira pernoite.

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UPIS – JANPAUCACOCHA

O sol nos aquecia naquela fria manhã, estendi o saco de dormir e a barraca, tomei um delicioso café e depois de organizar as tralhas, partimos do quintal de Cirilo. Quanto mais andávamos, mais nos afastávamos dos vilarejos, as casas iam ficando para trás dando espaço à paisagens bucólicas e campos rupestres de altitude para a contemplação. A cada passo, Apu (Deus) Ausangate descortinava mais sua magnitude. Com aproximadamente duas horas de caminhada, chegamos nas termas de Upis, camping oficial do circuito, local bem estruturado para receber os trekkers. Paramos para um breve lanche, algumas fotos e demos início à subida do primeiro passo do circuito: o Arapa Abra com 4.850 metros de altitude. Meu ritmo estava bom, mas lento. Não senti muita dificuldade na subida e aproximadamente três horas depois das termas, estávamos no topo do passo. Que visual! Paisagens de tirar o fôlego! Montanhas, cachoeiras, lagunas, rochas de diversas tonalidades, picos nevados e até vicunhas pastando em altitude! Peter comentou que viu um casaco de lã de vicunha sendo vendido em Cusco por R$5.000! Havia até esquecido o vento frio que castigava. Vesti o anorak e demos início à descida para a Laguna Janpaucacocha para a segunda pernoite.

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Cercada de montanhas nevadas e de um azul profundo, foi um dos campings mais bonitos do circuito. Cirilo nos levou ao mirante da laguna. Podia observar a sucessão de três lagoas e suas cachoeiras encravadas na paisagem e ao longe avistava a estrutura armada pelos arrieros. Subimos por algumas pedras e poucos minutos depois estávamos com as barracas prontas. Confesso que pensei em tomar banho na lagoa, porém o frio falou mais alto! Impossível naquelas condições! Digamos que o “banho de gato” com lencinhos umedecidos foi a escolha para todos os dias. O bom é que eu dormia sozinho na barraca! Pascoal e Alejandro pescaram trutas para o dia seguinte. Preparei uma sopa com torradas como entrada e depois de uma rica e liofilizada janta de arroz, feijão e bacon ficamos papeando na tenda cozinha enquanto chovia lá fora. Naquela noite precisei ir ao banheiro embaixo de chuva! Lembrei de ter deixado os bastões e as botas no avance da barraca e depois da arrumação, dormi bem agasalhado e descansei muito, mesmo naquele frio! Vale lembrar que nos trekkings pela Bolívia, Peru, Chile, etc., é bom guardar todo seu equipamento para evitar imprevistos. Peter já teve um bastão roubado na Quebrada de Santa Cruz, no Parque Nacional de Huascarán.

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JANPAUCACOCHA – PAMPACANCHA

Acordei cedo e o sol novamente nos brindava com seu resplendor dando alento àquela fria manhã. Depois do café reforçado, ajudei Elvis a ensacar minha duffel bag para facilitar o transporte no cavalo. O bom da contratação de arrieros e cavalos é que seu equipamento mais pesado – barraca, saco de dormir, roupas e comida – vai no lombo dos animais. Uma mochila de ataque com água, lanche e agasalho é suficiente para o circuito. Imagine como seria andar naquela altitude com mochila cargueira pesando mais de 20kg! Este seria o dia mais puxado do circuito, com aproximados 12km e dois passos para transposição, porém o mais espetacular! Não precisou andar muito para ver o que nos esperava à frente! Caminhamos por charcos de musgos ao lado de uma fantástica laguna e adentramos num prado coberto por uma gramínea verde acizentada, repleta de alpacas. À direita, protuberâncias rochosas pareciam tocar o céu enquanto que à esquerda, as geleiras insistiam em derreter nas lagunas multicolores. E no meio disso tudo? Eu e meus companheiros de trekking! Singelos casebres de camponeses davam um toque especial à paisagem. Quando percebi, havíamos atingido o topo do Apaneta Abra e seus 4.850 metros de altitude sem muita dificuldade. De cima, conseguia observar o azul celeste de Ausangatecocha, laguna à 4.650 metros de altitude e ponto oficial de acampamento com boa infraestrutura. Desci atrás de todos, esperando Elvis (confesso que também precisei usar o banheiro) e logo depois almocei na companhia de Peter à beira da laguna.

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Hora de encarar a “pior” subida do circuito, o Passo Palomani e seus 5.200 metros de altitude! Mochila nas costas e pé na trilha! Ascensão difícil, íngreme e extremamente cansativa! Se lá no início parecia não haver oxigênio, aqui ele realmente não existia! Enquanto subia, podia ver lá no alto as pircas de pedra que demarcavam o passo. Como estavam distantes! Cirilo deu algumas folhas de coca para mascarmos; não sei se foi efeito placebo, mas senti uma relativa melhora na respiração enquanto mascava a coca e quase duas horas depois encontrava-me no topo do Palomani Abra, ponto culminante do circuito! Não sabia ao certo que palavra melhor definia meu sentimento naquele momento, foi um mistifório de sensações boas, de alegria e emoção! Senti orgulho de tal façanha! Batemos muitas fotos, brincamos na neve igual criança e com a respiração ofegante, fizemos uma oferenda aos Apus agradecendo por estarmos ali em segurança e pedindo proteção para os dias vindouros. O vento desmedido em conjunto com o impetuoso frio, nos obrigou a descender rapidamente para o vale protegido. Em poucos passos nos deparamos com a magnitude da Laguna Colorada, localizada na base do Nevado Mariposa. Sua cor avermelhada a destaca do restante da paisagem! Na descida observei uma imensa criação de alpacas pastando nas pradarias enquanto avistava ao fundo o local da terceira pernoite: Pampacancha. Montamos barraca no quintal de uma casa de pastores. Saboreamos as deliciosas trutas pescadas no dia anterior e depois de outra apetitosa janta, contemplei a montanha sob o lusco-fusco do luar e cai em sono profundo. Outra noite fria!

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PAMPACANCHA – OTORONGO

Acordamos cedo. Café reforçado, tralhas embrulhadas, cavalos carregados e pé no sendero. Teríamos aproximadamente 15km pela frente e o segundo passo mais alto. Com poucos minutos de caminhada, baixamos para o fundo do vale, atravessamos um riacho de degelo e seguimos por entre as montanhas da Cordilheira Vilcanota. Procurava me concentrar na trilha para não afundar nos charcos de musgos. Andamos um bom tempo com o visual do Nevado Tres Picos à nossa frente e poucos quilômetros depois nos deparamos com outro acampamento oficial do circuito. Deve ser esplêndido acordar naquele camping com a vista dos Tres Picos! Com certeza teria valido a pena caminhar um pouco mais no dia anterior. Viscachas saltitavam freneticamente por entre as pedras na tentativa de esconder-se de nós invasores. Aos poucos, aqueles pampas davam lugar à longa subida, suave porém, até o passo e, a cada metro galgado, mais a paisagem revelava-se arrebatadora. Paramos para agrupar o pessoal e continuarmos juntos, num ritmo mais lento em função da indisposição de Fábio, provavelmente decorrente das trutas preparadas pelos guias na noite anterior.

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À frente, pircas delineavam o passo e após estafante subida, alcançamos os 5.000 metros de altitude do Campa Abra. Bonitas vistas do Cayangates, pico defronte ao passo. Depois de algumas fotos, descemos por uma trilha tranquila até a parada para o almoço no acampamento base para ascensão ao Campa. Dali, fomos diretos para o mirante da Laguna Ticllacocha. Que lugar! A lagoa de tom esverdeado aos pés da montanha e aquela paisagem eram de tomar o fôlego! No caminho comprei um cachecol de uma nativa camponesa para presentear minha mãe. Da lagoa, baixamos para o local da quarta pernoite em meio à uma chuva fraca de granizo. O cúmulo-nimbo nos rodeava e anunciava a chegada de algo maior. Logo chegamos ao acampamento Q’omercocha e fomos obrigados a entrar na tenda cozinha em virtude do forte granizo que caia. Impossibilitados de armar as barracas, a solução foi esperar até a tempestade amenizar. Assim que possível, instalei meu abrigo bem alinhado ao vento predominante e voltei à tenda cozinha para preparar a janta. Fazia um frio terrível! O granizo deu espaço à uma forte nevasca e a noite caiu rapidamente. O vento soprava forte e, sem muitas opções, bati o excesso de neve do sobreteto da barraca, me recolhi ao conforto do saco de dormir e cai em sono, confiando na montagem que havia feito. Com certeza, a noite mais fria do roteiro!

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OTORONGO – PACCHANTA

Branco! Foi o que vi quando sai da barraca ao amanhecer. Aquele gelo todo lembrava as paisagens de inverno da Serra Gaúcha. O sol integrou-se à paisagem daquela álgida manhã de quinta-feira. Andei pelo acampamento, caminhei pela borda das lagoas que flanqueavam Otorongo, tirei fotos e até usei um banheiro decente com vista para as montanhas. Não tínhamos muito para andar naquele dia, por isso relaxamos um pouco mais na saída. Depois de organizar as mochilas, ficamos deitados por um bom tempo sob o sol. Lembro que Elvis, menino de 12 anos, reclamou de dor de ouvido e Adriano o medicou. Num trekking desse porte, sempre é muito bom contar com a presença de um médico! Lagunas sarapintadas foram o ponto alto daquele dia: azuis, verdes, turquesas, enfim, eram aos montes e nas mais diversas tonalidades! Um dos trechos mais expressivos da jornada! Sagradas para os locais, que frequentemente fazem oferendas jogando flores e objetos pessoais. Próximo à Pacchanta margeamos um bonito córrego que, em conjunto com as montanhas ao fundo e a trilha, formava, na minha opinião, a paisagem ideal deste trekking!

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Aquele sossegado vilarejo dispunha de quartos para locação e como seria a última noite do circuito, a maioria optou por dividirmos os cômodos, pois já estávamos cansados de montar / desmontar as barracas. Cirilo entrou em contato com o motorista da van e pediu para que nos pegasse em Pacchanta na manhã seguinte, assim economizaríamos um trecho de aproximados 10km por estrada de chão. Naquela tarde novamente o granizo caiu, seguido de outra forte nevasca. Embaixo do quarto que alugamos, ficava nossa cozinha comunitária, que nos abrigou daquele clima sombrio. Tão logo o tempo abriu, caímos nas piscinas termais e curtimos o resto da tarde naquelas águas tórridas. Alguns até encararam uma Cusqueña! Sai correndo das águas para não esfriar e adormeci no calorzinho do saco de dormir. Que cochilo bom! A altitude dá um sono desgraçado! Outra janta boa, com direito à refrigerante comprado na vendinha de Pacchanta e outra maravilhosa noite de sono!

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Na manhã seguinte acordei cedo e organizei todo o equipamento. Ofereci aos arrieros a comida sobrada. Agradecemos Cirilo, Alejandro, Pascoal e Elvis presenteando-os com algumas lembranças pessoais. Notei a gratidão estampada no rosto do pequeno Elvis ao lhe dar um pequeno canivete. Tiramos uma foto coletiva, mas Adriano ficou de fora em virtude de sua indisposição; uma pena! A van logo chegou para nos recolher e duas horas depois já estava na porta do hotel em Cusco. Antes da volta para casa, pude aproveitar a companhia dos novos amigos nas jantas e caminhadas por Cusco. Hoje, escrevendo este relato e revendo as fotos, confesso que a saudade bateu. Seria um lapso de minha parte deixar de agradecer os grandiosos momentos que passei com os amigos Peter, Renato, Adriano, Luciano, Fábio, Andrea e Yatir. Que vontade de trilhar novamente por aquele pequeno paraíso, de contemplar aquela imensidão dos pampas andinos salpicados por llamas e alpacas, de tentar entender o misterioso chamado que emana das montanhas e ecoa pelos vales, de desfrutar mais daquele solitário cantinho do Mundo, afinal estamos aqui só de passagem; o que vale é curtir cada momento, como se fosse o último e o meu momento? Curti demais!

Bons ventos!

Data do relato: 25 de Agosto de 2015
Texto e fotos: Edver Carraro
Site: Edver Carraro
TrekkingRS:

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