A Clássica Travessia da Serra Fina – MG

A Clássica Travessia da Serra Fina

Já fazia um bom tempo em que eu e meus camaradinhas de hiperatividades, perrengues e afins, conversávamos sobre fazer a famosa e desafiadora travessia da Serra Fina, porém, a conversa sempre acabava se dissipando em nada. Foi então que, numa tarde qualquer de junho de 2016, o Filipe me chamou no chat com uma perguntinha: “E a Serra Fina?”.

Naquele mesmo instante senti que era o momento e imediatamente começamos a correr atrás da data, que deveria ser fora de feriados ou finais de semana, para evitar a travessia “crowdiada”, pois o plano era acampar os três dias nos três picos mais altos da travessia. Além disto, tínhamos que conciliar horários de vôos, pois estando eu em Porto Alegre e o Filipe em Floripa, havia mais este desafio de encaixar as peças do quebra-cabeça da logística de maneira tal que não houvesse perda de tempo, pois o esquema seria um “bate e volta”.

Quanto tudo já estava acertado e encaixado, os horários dos vôos, do ônibus de Guarulhos para a rodoviária de São José dos Campos, de SP para Passa Quatro e o traslado local para o início da trilha, reservas no hostel e etc. e tal, eis que o nosso camarada Hyzzo, resolveu dar o ar da graça de ir faltando poucos dias. Novo quebra-cabeça, mas depois de muita correria, conseguimos fazer as coisas se ajustarem. Agora já não seria apenas uma dupla, mas um trio da trupe realizando a travessia.

“Atualmente todos vivemos em um mundo dominado pelas máquinas. Quase não restam em nosso deteriorado planeta espaços livres, onde possamos esquecer nossa sociedade industrial e testar, sem sermos incomodados, nossas faculdades e energias primitivas. Em todos nós se esconde uma saudade do estado primogênito, com o qual podíamos calibrar-nos com a natureza e enfrentá-la, descobrindo a nós mesmos. Aqui está basicamente a razão de não haver para mim uma meta mais fascinante que esta: Um homem e uma montanha.” Reinhold Messner

O ponto de encontro foi o aeroporto de Guarulhos, onde, o primeiro a chegar foi o Hyzzo, bem depois (6 horas), meu voo aterrissou e com menos de uma hora, finalmente a trupe estava completa com o Filipe, vindo de Floripa. Tratamos de jantar por ali mesmo e sem perder tempo, pegar o ônibus para São José dos Campos e aí sim, embarcar para Passa Quatro/MG, no último horário, às 00 h 45 min.

Depois de vencida esta primeira etapa, chegamos à rodoviária de Passa Quatro, antes das 4 horas da madrugada, cansados e com sono. Não demorou muito e logo, uns 15 minutos depois, nosso transporte para a Toca do Lobo, chegava com uma louvável pontualidade. Contratamos o Antonio José (35 991191373), que foi indicação do Hostel Harpia, transporte de primeira! Recomendo.

A Clássica Travessia
Conexão Guarulhos x São José dos Campos x Passa Quatro.

Primeiro dia – 03/08/2016 – Toca do Lobo ao Pico do Capim Amarelo

Embarcamos na Kombi e seguimos pela cidade deserta durante a madrugada e logo entramos na estradinha de chão que nos levaria ao ponto zero da travessia. Devido à escuridão, não deu para curtir o visual, mas estava tudo dentro do cronograma planejado e uma hora depois, já estávamos com as cargueiras nas costas e as lanternas de cabeça ligadas, no breu da madrugada, rumando para o início da trilha, onde paramos para comer algo e tomar um café para despertar enquanto não clareava o dia.

Passando alguns poucos minutos das 06:00 horas, raiando o dia, atravessamos o córrego de fronte para a Toca do Lobo e entramos finalmente na trilha, tendo como objetivo para o dia o alto do Capim Amarelo e seus 2.570 metros.

Praticamente “virados” de um dia para o outro, sem dormir e cansados do tranco da viagem, mas ainda assim, com uma vontade muito grande de estar ali e encarar o desafio. Comentei com a trupe naquele momento que, por começar bem cedo e também pelo fato de não termos dormido, nossa estratégia seria ir bem devagar, aproveitando o clima agradável daquela manhã de tempo bom, fazendo as paradas para pegar água e descansar, sem correria, pois tudo ali era novo para todos nós e como diz o ditado: “devagar se vai ao longe”, tocamos assim, morro acima no ritmo do cágado hiperativo.

A previsão do tempo estava ao nosso favor, apesar disto, começamos a trilha com muita neblina, um motivo a mais para ficar atento na navegação. Era um olho na trilha e outro no GPS para não ter surpresas… kkk Com pouco mais de uma hora e meia, chegamos ao último ponto de água, onde tratei de pegar 4 litros para garantir o consumo durante a subida, e também o jantar, café da manhã e uma reserva para chegar até o próximo ponto de água somente no dia seguinte.

Embora não seja nenhuma novidade para muitos que estão lendo, cabe pontuar a questão da água, ou melhor, a escassez dela na travessia. É preciso ter muita atenção para pegar a quantidade certa e ter bem mapeados os pontos de água. Além disto, a escolha de um cardápio que exija uma quantidade pequena ou nenhuma de água para o preparo também é igualmente importante. Dito isto, vamos em frente.

Seguimos num ritmo lento e fazendo paradas rápidas a cada hora, pois o primeiro dia não perdoa, é só subida o tempo todo.

Na medida em que o dia avançou, a neblina se desfez e por volta de umas 9 horas já estávamos andando com céu aberto, poucas nuvens e o sol não chegava a torturar tanto, pois a temperatura estava agradável… A medida em que se ganha altitude é bem fácil perceber a mudança da vegetação também, a mata desaparece numa transição com taquarinhas e depois é basicamente capim alto e vegetação rasteira.

A Clássica Travessia

Com 7 horas e meia de caminhada, um certo esforço e muito cansados, chegamos por volta de meio-dia e meia no topo do Capim Amarelo e como se tratava de um dia de semana, o pico estava completamente deserto. Eram apenas nós três no alto da montanha, o que para mim, foi uma alegria a mais. Meu lado antissocial agradeceu pois tinha pesquisado bastante e lido em alguns relatos que durante feriados a coisa fica complicada no que diz respeito a conseguir lugar para montar o acampamento e que também às vezes rolava algumas crises entre a galera… Melhor assim, nosso planejamento tinha dado muito certo nesta questão e a montanha era só nossa.

Fizemos um almoço simples e depois de uma boa lagarteada (tirar uma soneca no dialeto gaúcho) ao sol, montamos nossas barracas e ficamos por ali curtindo o momento e conversando até o cair do sol, que foi um espetáculo à parte.

Tratamos de jantar cedo e entrar nas barracas pois a temperatura que estava agradável durante o dia, simplesmente despencou com o sol indo embora. Bem alimentado, dormi que nem uma pedra.

Resumo do dia:

Distância percorrida: 6.5 km

Tempo de caminhada: 9 h

Acumulo de subida: 1250 m

Acumulo de descida: 305 m

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Segundo dia – 04/08/2016 – Pico do Capim Amarelo ao Pico Pedra da Mina


Acordamos com um dia lindo de céu limpo e sem vento. Estávamos acima das nuvens, no altímetro marcando 2.495 metros.

Preparamos um café reforçado, sem pressa desmontamos o acampamento e organizamos tudo nas cargueiras. Depois de dar uma repassada no “briefing” da missão para o segundo dia, colocamos o pé na trilha às 9 horas da manhã, mais descansados e mantendo o mesmo ritmo do dia anterior, sabíamos que em se tratando de Serra Fina, nenhum dia é moleza e a altimetria deste dia mostrava uma verdadeira montanha russa, cheia de desce e sobe… kkkk

Por volta das 15 h 30 min chegamos ao Rio Claro, nosso ponto de coleta de água, na base da Pedra da Mina.

Por ali ficamos uma hora, descansando, comendo e bebendo muito suco Tang para seguir em frente mais animados e atacar o cume da Pedra da Mina. Nesse momento, fomos alcançados por um grupo, onde para minha surpresa, era o Tiago Korb e o Clube de Trekking de Santa Maria, que num grupo de quatro pessoas, estavam fazendo a travessia em dois dias.

Conversamos um pouco ali, e logo em seguida, o grupo do Tiago seguiu para o cume, enquanto a trupe, um pouco depois e num ritmo mais lento, tomou o mesmo rumo: Pedra da Mina.

A Clássica Travessia

O ataque ao cume é bastante cansativo e demorado, uma hora e meia para percorrer esse trajeto. Na parte final da subida, o tempo começou a mudar, muitas nuvens cobrindo a montanha e com a tarde caindo, começou a ficar escuro. Como estávamos distantes uns 30 metros uns dos outros, recomendei para o pessoal sacar as lanternas de cabeça e manter na luz vermelha, para não perder ninguém de vista na neblina que estava tomando conta do caminho.

Desta vez não teve pôr do sol, e, por conta das nuvens e do vento que soprava com força, fomos obrigados a fazer o jantar no avanço da barraca e encerrar assim o dia.

Resumo do dia:

Distância percorrida: 7.9 km

Tempo de caminhada: 9 h 30 min

Acumulo de subida: 984 m

Acumulo de descida: 671 m

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Terceiro dia – 05/08/2016 – Pico da Pedra da Mina ao Pico dos Três Estados

O dia amanheceu lindo e sem aquele vento que nos recebera na noite anterior. Como de praxe, tomamos café, desmontamos o circo e com as cargueiras prontas, assinamos o livro do cume e nos despedimos da Pedra da Mina.

O início deste trecho da travessia é uma descida forte, com muita pedra solta, que exige bastante atenção e cuidado, pois em menos de 1 km se desce mais de 300 metros! Qualquer descuido pode resultar em queda. Nessa hora os bastões de caminhada ajudam muito.

Depois de menos de uma hora, já estávamos no meio do Vale do Ruah, que por sinal é bem bonito, com seu labirinto de capim alto e charcos repletos de turfeiras. Atravessamos o vale sem muita dificuldade. No último ponto de água, antes de sair do Ruah, paramos e resolvemos fazer uma bela macarronada para antecipar o almoço e também aproveitar para lavar a louça e abastecer de água, pois o próximo ponto de água é só no dia seguinte e praticamente no final da trilha.

Pouco antes do meio-dia retomamos nossa jornada, passamos pelo cume do Brecha, de onde já era possível ver nosso destino para o final do dia.

Seguimos em frente, passando pelo segundo trecho onde se caminha bem na linha da cumeeira da serra, com um visual alucinante e abençoados por um clima excelente pois não havia vento algum. Ao chegarmos ao cume do Cupim, pouco antes das 15 horas, fizemos uma parada para descansar e apreciar a vista. Naquele momento o que mais me marcou foi o silêncio absoluto no local. Chamei a atenção do Filipe que quando ao prestar atenção nesse fato, também ficou impressionado.

A Clássica Travessia

Meia-hora depois, já seguíamos descendo o Cupim, rumo à mata do Bambuzal, que é um ótimo lugar para acampar no caso de quem vai fazer a travessia em dias de muito movimento ou ainda, numa situação de pegar um clima ruim. A mata de bambus é um local bastante protegido dos ventos na base do Pico dos Três Estados.

Sem parar, seguimos agora para a reta final do dia, faltava percorrer pouco mais de 1 km e subir pouco mais de 200 metros de caminhada e algumas escalaminhadas, e dentro do tempo previsto, chegamos ao cume da montanha. Novamente o ritual de escolher o melhor lugar, montar o acampamento e curtir a última noite da travessia.

Nessa noite, enquanto preparávamos o jantar, tivemos a companhia de vários ratos que pelo visto contavam com a nossa comida… kkk Enquanto o Hyzzo fazia a janta, eu e o Filipe, fazíamos uso do bastão de caminhada para dissuadir a gang de camundongos que estavam de olho na nossa comida.

Resumo do dia:

Distância percorrida: 6.6 km

Tempo de caminhada: 8 h 20 min

Acumulo de subida: 551 m

Acumulo de descida: 691 m

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Quarto dia – 06/08/2016 – Pico dos Três Estados ou Sítio do Pierre

Nosso último dia começou com um friozinho e tempo bom e depois do ritual matinal, começamos sem pressa a longa descida até o Pierre.

O inicio da caminhada é uma descida forte até o acampamento Bandeirante, de onde, logo em seqüência chegamos ao Cume do Bandeirante, e depois mais uma descida para então, iniciamos a subida complicada do Alto dos Ivos, que exige bastante atenção. Neste trecho temos também muitas taquarinhas pelo caminho, que contribuem muito para deixar a descida lenta.

Ao meio-dia, saímos do Alto dos Ivos, e na medida em que fomos descendo, a vegetação foi mudando. As taquarinhas, para nossa alegria, sumiram, e dando lugar a elas, primeiro muitas bromélias e depois uma mata já com árvores grandes e bastante sombra.

A Clássica Travessia

No início deste trecho, a água da trupe já estava no fim, sendo que o ao chegar ao último ponto de coleta, já próximo do Pierre, somente eu ainda tinha uns 300 ml sobrando. O resto já estava de bico seco há algum tempo. Kkk

Após beber água e descansar alguns minutos, seguimos pela estradinha abandonada que vai descendo até o sítio, e dentro do horário previsto, chegamos no nosso ponto de resgate, onde, para nossa felicidade, o Sr. José Antonio já nos aguardava para retornar para Passa Quatro e nos deixar no Hostel Harpia.

Missão cumprida!

Resumo do dia:

Distância percorrida: 10.5 km

Tempo de caminhada: 6 h 50 min

Acumulo de subida: 480 m

Acumulo de descida: 1578 m

A Clássica Travessia

Considerações finais:

A Serra Fina é linda, mas é duríssima também, e se o clima não estiver favorável, as coisas podem se complicar bastante por lá. É preciso muito preparo físico, um planejamento minucioso na questão da água, equipamento adequado e perícia na navegação, pois do contrário, as coisas podem ficar bastante difíceis.

A Clássica Travessia da Serra Fina não é para iniciantes, mas aqueles que se prepararem com foco e humildade terão plenas condições de conclui-la.

Ao final, não existe nenhum pódio, nem medalha pelo feito, mas garanto que a euforia da conquista irá inundar o íntimo de tal maneira que o prêmio será justamente essa alegria, que eu garanto, ficará gravada na memória para sempre.

A Clássica Travessia
Hostel Harpia em Passa Quatro – MG
TrekkingRS:

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